Por Rafael Bonatto

Reconciliação, fundo do poço e auge inimaginável! Nesta segunda parte entenderemos como uma banda pode passar por tudo isso, em uma velocidade incrivel e ainda sim se preocupar em agradar todos os públicos, com músicas de qualidade! Este foram os anos 70 para os Bee Gees!


2 Years On [1970]

No inicio de 1970, cada membro da banda estava focado em trabalhos solos, e conseguindo certo desenvolvimento. Ao mesmo tempo, o empresário Robert Stgwood estava expandindo os negócios e alguns necessitavam da aprovação dos Gibb’s, o que forçou um reencontro, junto com seus advogados, para discutir cláusulas contratuais. Ocorre que isso ocasionou em uma aproximação e reconciliação dos irmãos que começaram a planejar um disco novo. Tudo com o maior cuidado, para que não houvessem mais desavenças. Robin Gibb mencionou uma vez que, apesar do sucesso que ele vinha tendo em sua carreira solo, era chato estar sozinho, sem ninguém para compartilhar as vitórias. E assim foi. Primeiro ele se reuniu com Maurice Gibb e logo depois Barry Gibb veio para completar o time. O álbum foi intitulado 2 Years On, na qual muitas letras retratam o período em que estavam separados, criando um tom mais profundo e pessoal. O interessante é que o disco nada mais é que um pacote de canções escritas individualmente, com apenas três canções assinadas por todos os irmãos. Maurice tem uma participação maior aqui, tocando vários instrumentos e com a adição do Baterista Geoff Bridgford, o novo som dos Bee Gees estava formado. O disco abre com a sensacioanl “2 Years On”, que possui uma introdução apenas vocal em harmonia e Robin canta de forma mais orgânica nos versos. O estilo é bem parecido com as canções do álbum anterior, Cucumber Castle, mas apesar da letra reflexiva, possui um ritmo mais pop. Os Bee Gees ainda tentavam se adaptar a nova década, mas suas músicas tinham muitos vestígios dos anos 60, então a estrutura de “Portrait Of Louise” era básica: violão, orquestra e um refrão fácil. O que se pode notar é a diferença que Geoff Bridgford fazia, marcando a bateria de uma forma mais incisiva e ritmos mais padronizados, trazendo uma coesão ao disco. “Man For All Seasons” possui um conjunto de acordes lindos e é a típica balada de piano, algo que estava em evidência na época, principalmente por causa do Elton John. Aqui Barry canta os versos e Robin faz o refrão, recurso muito usado pelos Bee Gees até seu último álbum. Já “Sincere Relation” é dominada por Robin, em uma homenagem ao seu sogro que havia falecido recentemente. A música melhora da metade para o final, com a reunião de vários instrumentos.  Em “Back Home”, eles retornam ao bom e velho rock and roll e possui um riff de guitarra incrível criado por Maurice. Com certeza contém elementos de “Get Back” dos Beatles. Pena que é muito curta, com apenas 1 minuto e 51 segundos de duração. “The 1st Mistake I Made” é mais um soft rock de Barry, bonita mas parece um eterno refrão. É positivo ver que cada irmão estava se esforçando para apresentar o seu melhor em cada canção. Em “Alone Again”, eles trazem um frescor ao disco por ter um arranjo simples, bem mais pop e o que marca é o crescimento da canção no refrão, incluindo a bela harmonia das vozes que só os Bee Gees sabiam fazer. “Tell Me Why” é uma mistura de country, com gospel e blues e Barry arriscava variar o estilo vocal, entre graves e agudos. “Lay It On Me” é canção de Maurice no vocal principal, fato que iria ocorrer na maioria dos álbuns seguintes. É um country-rock na qual ele tenta demonstrar sua aptidão em diversos instrumentos. “Every Second, Every Minute” é um rock clássico de três acordes e Barry tentava mostrar sua veia mais roqueira nos vocais, abusando do eco, como John Lennon fazia. Vale a pena conferir! O grande sucesso do álbum está em “Lonely Days”, uma balada diferente com elementos mais psicodélicos e cantada inteiramente em harmonia de três vozes. Arranjos no piano e na orquestra e sons da percussão fazem deste o hit mais diferente dos Bee Gees. Esta foi a primeira canção que os irmãos escreveram juntos depois da reconciliação e a letra fala dos momentos sozinhos e da importância das esposas em suas vidas. A divulgação ocorreu pricipamente pelo presidente da gravadora na época, que adorou a música e assim que foi finalizada, enviou pessoalmente 30 cópias em fitas, para às rádios populares. O som havia melhorado, as letras estavam mais pessoais e profundas, mas era necessário mais tempo para que os Bee Gees estivessem confortáveis em gravar juntos novamente.


Trafalgar [1971]

Pouco tempo depois do fim das gravações de 2 Years On, os Bee Gees estavam de volta ao estúdio para gravar mais canções, impulsionados pelo sucesso de “Lonely Days”. Neste período, eles ainda tentavam encontrar meios para trabalharem juntos de forma harmoniosa e mais uma vez a maioria dos instrumentos eram tocados por Maurice, mas agora além de contarem com Geoff Bridgford na bateria, Alan Kendall entrava para banda de apoio como guitarrista principal, posição que carregou até o último disco dos Bee Gees. Apesar de terem singles de sucesso, a banda ainda não tinha tinha conseguido ser reconhecida por seus álbuns. Então em Trafalgar eles tentam mudar isso, trazendo canções mais coesas, em termos de arranjos e letras não tão pessoais e utilizando um console de gravação de 16-track. A primeira faixa do disco é a incrível “How Can You Mend A Broken Heart”, escrita no mesmo dia que “Lonely Days”. Um soft rock acústico que retrata momentos de um personagem, que está magoado com situações da vida. A estrutura vocal é rica, na qual Robin canta o primeiro verso, Barry os demais e os três Gibb’s no refrão. Foi o primeiro single a atingir o primeiro lugar nas paradas americanas. Originalmente foi escrita para Andy Williams e concorreu a um Grammy de melhor Performance Vocal. O estilo que os Bee Gees estavam seguindo era uma mistura dos trabalhos solos dos Beatles com o pop romantico da época, carregados de som ao piano. A canção “Israel” está dentro deste conceito, e Barry brilha mais uma vez. O interessante aqui é a sequencia pouco usual dos acordes. “The Greatest Man In The World” é a musica relax do álbum, onde o destaque é o fundo orquestral. Maurice possui duas músicas no vocal principal neste disco. A primeira é “It’s Just The Way”, um pop romantico britânico, construído com diversos arranjos diferentes no decorrer da canção, com excelente solo de guitarra misturado aos metais. A segunda é “Trafalgar”, incrivelmente eleita para dar o nome ao disco, já que foi escrita apenas por ele. Apesar da capa do álbum ser uma pintura que retrata a Batalha de Trafalgar, a canção fala apenas sobre um homem alimentando pombos em Trafalgar Square e refletindo sobre sua vida. O destaque aqui vai para os arranjos da guitarra elétrica e do baixo. O psicodelismo ainda se fazia presente nas canções “Somebody Stop The Music” e “Lion In The Winter”, esta com Robin usando sua voz como nunca antes, mas desta vez mais pop que rock. “Dearest” é canção mais melancólica do disco, na qual Robin praticamente ‘chora’ com sua voz e os arranjos abusam do jazz orquestral. Parece mais trilha de final de filme, mas se ouvir com atenção, ela possui acordes lindos. “Don’t Wanna Live Inside Myself” é mais uma balada romântica, muito bem construída, que cresce a cada refrão. Percursora do estilo que os Bee Gees trabalhariam mais tarde, funcionava muito bem ao vivo, tanto que foi o segundo single deste álbum. “Walking Back To Waterloo” vem para fechar o álbum. Uma canção um tanto diferente e ao mesmo tempo cativante. Talvez não na primeira ouvida, mas com o tempo a gente consegue perceber a qualidade e a genialidade em seu arranjo. O álbum está presente na lista dos “1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer” e de fato vale a pena. Entretanto o cenário musical estava mudando e outros estilos começavam a despontar e fazer sucesso. E os Bee Gees demoraram um pouco para perceberem isso.


To Whom It May Concern [1972]

Para os Bee Gees. este é o álbum mais sem inspiração, por não saberem o que o público queria ouvir, principalmente pelo título A Quem Possa Se Interessa“. Entretanto, musicalmente falando é muito parecido com o anterior, com temas melancólicos. Com certeza aqui é possível encontrar belas canções, muito bem produzidas. Este é o último disco com o ‘som antigo’ dos Bee Gees, também foi o último gravado no IBC Studios, em Londres, e seu último trabalho com o maestro Bill Shepherd. O álbum começa com “Run To Me”, um grande sucesso daquele ano. Uma balada que tem a marca da banda: vocais dividos entre Barry e Robin, Maurice no piano e um refrão forte. Na verdade ela é uma junção de duas músicas, escritas separadamente, mas que com algumas mudanças, soou incrível a ideia de juntá-las. “We Lost The Road” é uma canção que foi escrita para o álbum anterior, mas foi coratad na última hora. Representa um pouco do que a banda estava passando para se encontrarem musicalmente. Arranjos simples, mas com um refrão perfeito que gruda na mente, principalmente no final com Barry dobrando sua voz. Já “Never Been Alone” é um soft rock acústico, que Robin domina muito bem. Aliás é uma das poucas canções daquela época pós retorno, que sua voz soa tão bem. Aqui ele utiliza o modo de contar histórias, cantando. “Paper Mache, Cabbages and Kings” é uma canção que se fosse gravada pelos Beatles, faria muito sucesso, pois é um tanto esquisita, e os garotos de Liverpool sabiam fazer isso e transformar em grande hit. Ela parece três canções em uma só: musical da broadway, psicodélica e pop. Voltando ao mundo real temos “I Can Bring Love”, uma canção acústica marcada pelo som do violão de Barry e sua afinação havaiana (D). Estilo muito popular com James Taylor, America e Peter Frampton. “Please Don’t Turn Out the Lights” é sem dúvida uma das melhores canções dos Bee Gees, tanto na parte vocal, quanto nos acordes e arranjos. Uma música orgânica, pura. Em 2017 os filhos dos Bee Gees se reuniram e gravaram um álbum com canções dos pais e escolheram ela como nome do disco e como single de divulgação. “Sea of Smiling Faces” por um tempo foi cigitada para dar nome ao álbum. Ela foi a última balada convencional gravada por eles, no estilo dos singles recentes, desta vez com uma imersão mais nostálgica. Parem tudo e vão conferir “Bad Bad Dreams”. Puro Rock and Roll, que as vezes lembram os acordes de “Day Tripper” dos Beatles. É a música mais up do disco, com riffs de guitarra e metais ao fundo. Na época disseram que foi influência do Eric Clapton. Destaque para os solos do guitarrista da banda Alan Kendall. Maurice sempre trazia músicas tradicionais para o disco e “You Know It’s for You” é meio Beach Boys, meio George Harrison, meio country. Ritmo constante, é um diferencial para o ábum. Em “Alive”, eles retornam ao soft rock baseado no som do piano. Possui uma estrutura incrível, mas eles já tinham muitas baladas no disco, o que pode ter ofuscado a canção. De qualquer forma, foi um hit moderado nos Estados Unidos. “Road to Alaska” é um rock swamp, misturado com country, mas incrivelmente cantada por Robin, o que era dificil na época e por um tempo foi um dos pontos altos nos shows. Vale a pena conhecer! A partir daqui, os Bee Gees que todos conheciam mudariam de estilo, de estúdio e de produtor, afinal segurar o sucesso estava ficando cada vez mais difícil e o dinheiro também. Mas com certeza eles sabiam trabalhar sob pressão.


Life In A Tin Can [1973]

Este foi um ano difícil para a carreira dos Bee Gees. O primeiro álbum lançado pelo novo selo RSO Records (que teriam nomes como Eric Clapton, Suzi Quatro e Jack Bruce no catálogo), foi uma decepção nas vendas. Tudo porque Life In A Tin Can não demonstrava inovação no som da banda, ao contrário ele era direcionado ao folk e ao country/rock. Desta vez o disco foi gravado em Los Angeles, com músicos locais bem populares da época e com menor participação de Maurice, que já enfrentava problemas de alcoolismo. Os irmãos não haviam perdido sua inspiração e qualidade musical, mas estavam aquém do que o público ouvia na época. Talvez se tivessem baseado seu som na banda Eagles, e escolhido outro single para promover o disco, o resultado poderia ter sido diferente. Mesmo assim é possível encontram belas canções. O álbum inicia com “Saw a New Morning”, um folk com belo solo de violino e baseado no som acústico no violão. Com um interlude no meio da canção. De qualquer forma, não é o melhor momento do disco. Escolha errada para um primeiro single. Entretanto atingiu o primeiro lugar nas paradas de Hong Kong. Apenas lá! Apesar do álbum não ser o melhor, ele possui maturidade nas letras e uma coesão no som. “I Don’t Wanna Be The One” é uma canção forte, com lindas melodias ao piano e há um crescimento da metade da música em diante. Vale a pena ouvir! “South Dakota Morning” é mais próximo que chegaram ao som do John Denver com direito a referências a um estado americano e harmônica ao fundo por Tommy Morgan. O conceito desta música ainda seria usada em outros álbuns no futuro. Em “Living in Chicago”, os Bee Gees fazem a famosa divisão vocal entre Barry e Robin e os três juntos no refrão. Aqui parece mais uma sessão para o MTV Unplugged, onde o ritmo se dá apenas no violão e cordas ao fundo completam o arranjo. No final entra um belo solo de flauta do experiente instrumentista de jazz, Jerome Richardson. “While I Play” é praticamente uma canção solo de Barry, com solos de violino, mostrando o lado country do disco. Com refrão fácil, é alegre e diferente, pois possui mudanças sutis no ritmo e vale a pena conferir. “My Life Has Been a Song” é uma balada clássica dos Bee Gees, com belas melodias ao piano e uma letra incrível. Robin nos presenteia com sua bela voz mais uma vez. Curiosamente foi tema de novela no Brasil, junto com “Method to My Madness”, o único soft rock do álbum que deveria ter sido o single de trabalho. Ao estilo do som de Elton John, possui belo ritmo e efeitos ao piano. Robin faz um ótimo trabalho novamente e apesar de ser mais melancólica, é o grande destaque do disco. “Come Home Johnny Bridie” é a representação de que é possível encontrar qualquer estilo musical no catálogo dos Bee Gees. Puramente country, é um dos pontos altos do álbum. Som puro, orgânico e é curioso ver a banda seguindo por estes caminhos. Se tivesse feito sucesso, talvez Saturday Night Fever nunca existisse. Quem sabe? Este álbum foi uma tentativa de mudar e agradar o público, mas não deu certo. Tanto que rapidamente gravaram um outro disco no mesmo ano que foi rejeitado pela gravadora. Eram momentos complicados para banda, mas seu empresário ainda tinha fé de que algo grande poderia acontecer em breve. E estava certo.

Maurice, Robin e Barry Gibb. Bee Gees nos anos 70


Mr. Natural [1974]

Depois da quase falência, Robert Stigwood, empresário da banda, sugeriu que eles trabalhassem com o produtor Arif Mardin, que já havia produzido discos para Aretha Franklin e outros artistas da soul music, pois não estava confiante pela direção que os irmãos Gibb estavam tomando musicalmente. Rapidamente Arif trouxe um som mais elétrico para os arranjos, com vasta influência no hard rock, no soul e no blues americano. Na banda entraram como músicos de apoio, Dennis Bryon na bateria, trazendo um ritmo mais moderno e Geoff Westley nos teclados e as gravações ocorreram em Nova York e Londres. Maurice não teve tanta participação em relação as composições, onde a maioria das músicas foram escritas por Barry e Robin apenas. Logo de cara é possível identificar a diferença no som em relação ao álbum anterior. “Charade” abre o disco com um belo som de piano elétrico Fender Rhoades e mistura a voz mais suave por parte de Barry com um estilo R&B e jazz. O solo de clarinete feito por Phil Bodner é incrível. Uma canção suave mas ao mesmo tempo positiva. Nesta época os Bee Gees usaram o recurso de ‘crossfade’ entre as três primeiras faixas, na qual uma música é ligada a outra, instrumentalmente. “Throw a Penny” mostra um refrão poderoso cantado por Robin e mistura o som pop ao soul e há passagens ritmicas diferentes ao longo da canção. Era os Bee Gees mostrando a cara nova (mesmo que não aparecessem na capa do álbum). Assim que “Throw a Penny” acaba ela dá a introdução para “Down the Road”, uma canção mais agitada com reflexos rock and roll, mas de forma sutil. Vale a pena ouvir e apesar de não ter virado single de trabalho, era um dos pontos altos dos shows. Voltando ao som mais acústico, porém melhor produzido e com ótima percussão, temos “Voices” que traz Robin nos versos e Barry no refrão. Possui claras influências latinas em seu arranjo. Os Bee Gees revisitam um outtake de 1969 com “Give a Hand, Take a Hand”. Não aproveitada no álbum”Cucumber Castle”, aqui ela ganha um ritmo mais lento, orientado por um som gospel, com direito a um refrão forte e uma linha musical ao fundo em um órgão Hammond. “Lost in Your Love” também segue este mesmo estilo, mas com um registro incrível da voz de Barry. Não é um arranjo tão usual para a banda mas combina muito bem! Os Bee Gees sempre gostaram de cachorros e os homenagearam na canção “Dogs” (rsrs). A letra fala de um homem que sempre via um cachorro em uma praça e tinha dó de vê-lo sozinho. Apesar disso, ela possui um arranjo obscuro, bem próximo ao som R&B que Elton John fazia e aqui está o primeiro registro de Barry cantando em falsete, mesmo que em backing vocal. A faixa que dá nome ao disco “Mr. Natural”, é uma mistura perfeirta entre rock, pop e black music interpretada por Robin e Barry que cantam em um registro mais alto das vozes. Esse era o som que os Bee Gees estavam procurando e com a ajuda de Arif Mardin, conseguiram. O pop/rock estava presente em “I Can’t Let You Go” com um incrível riff na guitarra mais contido, porém muito bem executado por Alan Kendall e mais evidente em “Heavy Breathing” que mistura também influências no hard rock e na disco music. Interessante e ao mesmo tempo contagiante. Barry se solta vocalmente e aqui os solos de guitarra completam a canção brilhantemente. O álbum fecha com a opera/rock musical “Had a Lot of Love Last Night”, um dos melhores registros da harmonia vocal dos Bee Gees. No Brasil o álbum ainda teve duas faixas bônus que foram gravadas para o disco anterior descartado: “Elisa” e “It Doesn’t Matter Much to Me”, que viraram grandes sucessos, devido a boa divulgação das rádios. O nome da banda estava queimado naquela época e este disco não teve a popularidade merecida, tendo pouco sucesso em alguns países. Na realidade foi o que menos vendeu, mas foi um belo ensaio do que estava por vir no próximo ano. Pois é, eles não desistem nunca!


Main Course [1975]

Por sugestão de Eric Clapton, os Bee Gees mudaram para Miami, nos Estados Unidos, afim de trazer mais influência americana e dos sons que estavam fazendo sucesso para suas composições. Agora eles estavam ouvindo Stevie Wonder, Barry White, KC and The Sunshine Band, The Stylistics e etc, com a idéia de transformar suas músicas em sucesso. Finalmente deu certo! O álbum foi produzido por Arif Mardin novamente e trazia como complemento para a banda de apoio, o tecladista Blue Weaver. O disco é uma mistura de funk, R&B, pop, soul e country e foi um divisor de águas na carreira da banda, que começou a decolar. A primeira faixa é a poderosa “Nights on Broadway” que traz um som urbano junto ao funk americano. Possui uma linha incrível no baixo e na bateria e uma pausa lenta no meio da canção. Aqui é o primeiro registro oficial de Barry cantando em falsete na qual o produtor havia pedido para ‘gritar’ harmoniosamente no final da música. Grande descoberta para os Bee Gees, que acabou virando sua marca registrada. Logo em seguida vem o hit #01 “Jive Talkin”, com seu ritmo inspirado no som que o carro fazia ao atravessar uma ponte para chegar ao estúdio, conforme Barry mencionou em uma entrevista. Com batidas mais aceleradas, mesclando funk a disco music e um belo som de synth bass, teclados e guitarras, era uma grande surpresa no catálogo da banda até então, pois nunca tinham gravado algo parecido. Ninguém consegue ficar parado quando ela começa a tocar. Seguindo a mesma linha temos “Wind of Change”, porém é mais obscura e possui um estilo voltado para discotecas, com refrão forte e solos de sax. Era a mudança que os Bee Gees estavam aguardando, de fato. Como curiosidade, Maurice gravou sua parte no baixo em um take apenas. “Songbird” é a típica balada romântica que a banda sabia fazer muito bem, baseada no piano e foi co-escrita junto com o tecladista Blue Weaver. Linda, simples e com um final incrível. Outra mais romântica está “Fanny (Be Tender with My Love)”, porém com orientação mais R&B na qual Barry canta em falsete. Alías os três irmãos cantam neste estilo nas harmonias vocais do refrão. Vale a pena também pela orquestra que os acompanha ao fundo. Robin tem seu espaço garantido na bela “Country Lanes”, uma canção mais calma, com arranjos simples ao piano, baixo e bateria e que cresce no refrão com um ótimo acompanhamento das cordas, conduzidas por Gene Orloff e também em “Come on Over”, um canção country, ritmo que os Bee Gees sempre gostaram, mas desta vez melhor produzido, mais moderno. Futuramente seria um sucesso na voz de Olivia Newton-John. “Edge of the Universe” é um pop/rock com ótimos riffs na guitarra e um som primitivo dos sintetizadores. A letra retrata a experiência de uma longa jornada até o centro do universo, onde os Bee Gees queriam estar. O álbum encerra com a belíssima “Baby As You Turn Away”, na qual Barry canta em falsete, e possui um incrível refrão, misturando o som country de um violão 12 cordas com o pop romântico da época. Para banda esse é o melhor álbum que eles já criaram e as portas estavam abertas para o sucesso mais uma vez. E que sucesso!


Children Of The World [1976]

Com o recente sucesso do álbum anterior, os Bee Gees apostaram mais no estilo Disco/Dance Music e no Funk, com passagens pelo R&B. Foi gravado em Miami e Quebec. Por questões contratuais, Arif Mardin não pode produzir o álbum, cargo que ficou com a própria banda e também com o engenheiro de som Karl Richardson e o arranjador Albhy Galuten. Esta equipe foi responsável pelos anos de maiores sucessos dos Bee Gees. Em relação aos músicos participantes, entrariam Joe Lala na percussão e George “Chocolate” Perry no baixo. A ideia geral era criar músicas que pudessem ser apresentadas ao vivo naturalmente, mas no final ainda usavam muitos overdubs, principalmente nas vozes e sintetizadores que pela primeira vez, substituiam a sessão de cordas. A primeira faixa “You Should Be Dancing” é uma amostra clara do que eles estavam propostos a apresentar para seu público. É uma das principais canções da era disco e se tornou um grande sucesso no mundo todo, principalmente pela famosa dança de John Travolta no ano seguinte com o filme Os Embalos De Sábado A Noite. Possui um ótimo ritmo da bateria, do baixo, dos metais e da percussão que contou com a participação de Stephen Stills da banda Crosby, Stills, Nash & Young. O som urbano da black music e do funk aparece em “You Stepped Into My Life”. Com uma produção impecável, é um dos pontos altos do álbum, principalmente porque mistura este som com letras mais românticas por assim dizer. A grande balada R&B do álbum é a canção “Love So Right”, que possui a estrutura das músicas antigas dos Bee Gees, mas com produção atual. Outro grande sucesso, que atingiu o #01 nas paradas. Aqui os três irmãos cantam em falsete no refrão. “Can’t Keep a Good Man Down” é uma faixa Disco rara por ser cantada por Barry em voz natural, algo difícil naqueles anos e também por Robin, que cada vez mais perdia espaço nos vocais principais. Possui um ótimo interlúdio instrumental, perfeito para as pistas de dança. É seguida por “Boogie Child”, a canção mais sensual do álbum. Aqui a banda apresenta diferentes linhas vocais, aliado a uma ótima produção. Já em “Love Me”, os Bee Gees diminuem o ritmo e apostam em outra canção romântica, desta vez com destaque ao Robin e possui acordes pouco usuais para uma balada, sendo quase um musical. Mesmo assim é incrível! Em “Subway” eles retornam ao pop dançante, cantado em falsete em forma mais suave. Possui um solo sensacional de saxofone, feito por Gary Brown. “The Way It Was” é outra canção escrita em parceria com o tecladista Blue Weaver e é uma clara junção de jazz e R&B, sendo praticamente piano e voz. A faixa “Children of the World” dá o nome ao álbum e seu estrutura é bem diferente. Seu estilo mescla ritmos latinos e brasileiros (!), provavelmente por influência de Miami. Lembra canções de Jorge Ben Jor. Sua introdução é feita apenas com as vozes dos Bee Gees em harmonia, sem instrumentos e vai crescendo até um solo único do sintetizador. Aqui talvez seria melhor um solo de piano, mas era a novidade da época. Muito querida pelos fãs, foi apresentada ao vivo uma única vez, em 1999, e somente um trecho da introdução. Os Bee Gees finalmente atingiram o status de pop stars, mas nada seria tão grande quanto que estava por vir.

Bee Gees no início dos anos 70

É necessário mencionar que em 1977, os Bee Gees inciaram a produção de mais um álbum, na França, mas que rapidamente foi transformado em canções para a trilha sonora do filme Os Embalos de Sábado A Noite (Saturday Night Fever). Isso ocorreu pois o empresário da banda, Robert Stigwood estava partindo para os negócios no cinema. Ninguém planejava isso, mas o sucesso foi enorme e por bons anos foi a trilha sonora mais vendida de todos os tempos. Agora os Bee Gees, ao invés de serem sombras do sucesso britânico gerado pelos Beatles e Rolling Stones, criavam sua própria cultura musical, influenciando outros artistas como Michael Jackson, ABBA, Carpenters e até Paul McCratney e Rod Stewart, por exemplo. “Stayin’ Alive”, “How Deep Is Your Love?”, “Night Fever”, “More than a Woman” e “If I Can’t Have You” dispensam apresentações. Todas foram grandes sucessos da Disco Music e junto com canções do irmão mais novo deles, Andy Gibb, os Bee Gees entrariam para o livro dos Recordes como os compositores com mais hits de ao mesmo tempo, nas paradas americanas. Eles tinham alcançado o topo e delá não queriam sair tão cedo!


Spirits Having Flown [1979]

Os Bee Gees passaram o ano de 1978, longe dos holofotes, compondo, produzindo e gravando o próximo álbum que seguiria o sucesso de Saturday Night Fever. Também neste ano participaram de um filme/musical baseado nas canções dos Beatles com o nome de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, produzido por George Martin, ao lado de Peter Frampton, Earth, Wind & Fire, Alice Cooper e Aerosmith. Em 1979 chega às lojas Spirits Having Flown, um álbum com menos sonoridade da Disco Music e mais voltado ao pop/rock, soul e R&B. Foi o álbum que mais vendeu da banda e é um clássico daquela década. Com produção refinada, eles voltaram a gravar em Miami e adicionaram Harold Cowart para o baixo e George Terry, como músicos participantes. “Tragedy” é a primeira faixa do álbum e traz uma sonoridade diferente com incrível introdução que mistura guitarras e sintetizadores. Outro grande sucesso dos Bee Gees, e traz tons mais altos, nos vocais. Barry quem faz a ‘explosão’ na pausa da música. Tida como uma das melhores canções dos Bee Gees, “Too Much Heaven” demonstra uma suavidade musical com o poder lírico e melódico. Aqui há uma sessão orquestral em conjunto a nada menos do que 27 tipos de vozes, gravadas pelos Gibb’s, para criar a harmonia perfeita. Outro enorme sucesso para a banda. Mais uma canção baseada na black music, “Love You Inside Out” é o último #01 dos Bee Gees nos Estados Unidos. Possui um ritmo mais lento, mas ainda sim dançante. Mais uma vez o destaque vai para harmonia vocal. Foi sampleada nos anos 2000 por Snoop Dogg e Jay-Z. “Reaching Out” volta a apostar em uma bela balada romântica, orientado por sons mais acústicos. Sua produção rica, fez deste um enorme sucesso no Chile. Com certeza este era um álbum bem mais equilibrado que os demais. A canção “Spirits (Having Flown)” dá nome ao álbum e uma clara referência a um tema que interessava muito a banda, fenômenos extra-sensoriais. Aqui a música traz um ritmo R&B com influências caribenhas, cantada por Barry em voz natural durante os versos e acompanhada por Robin e Maurice no refrão, em falsete. Possui um belo solo de flauta por Herbie Mann, grande amigo de Tom Jobim. O som Disco estava de volta em “Search, Find” que tem uma ótima percussão e um arranjo incrível no baixo. Em “Stop (Think Again)”, os Bee Gees mostram seu lado mais jazz, mais blues. Uma canção complexa e bela quer traz um alto registro vocal de Barry e um arranjo instrumental perfeito. É uma daquelas musicas que você literalmente para e a aprecia ao lado de um bom vinho, se quiser! Seu instrumental foi sampleado em 2008 por 50 Cent. Incrível como os Bee Gees influenciaram até rappers. Em “Living Together” temos o único registro de Robin cantando em falsete como vocalista principal. Ele tinha perdido espaço para Barry como destaque vocal, mas como estavam fazendo sucesso, relevava. Nesta canção conseguiu até ter um desempenho melhor que Barry neste estilo, pois misturava também seu vibrato poderoso. Uma introdução marcante, que foi tema de telejornal no Brasil, é uma música dançante baseada na soul music. “I’m Satisfied” é uma rara combinação de Reggae com Disco Music. Música interessante, pois é leve e ao mesmo tempo marcante pelos vocais dos Bee Gees. Possui um final sensacional que vale a pena ouvir! O álbum fecha com a estranha “Until”, na qual parece feita apenas para completá-lo . Aqui temos somente Barry na voz e Blue Weaver nos sintetizadores. Naquele ano os Bee Gees saíram em uma extensa turnê pela América do Norte, com direito a avião personalizado e uma enorme estrutura. Infelizmente também saturaram as rádios e fez com que o público americano enjoasse daquele som e os mais radicais pediam a queda da Disco Music. Isso os afetou profundamente, tanto que algumas rádios se recusavam a tocar suas canções. Isso era um problema, pois não eram uma banda da Disco Music, mas apenas utilizaram deste som para fazerem sucesso. Nada seria como antes, tanto nas vendas, quanto nos sucessos. Mas eles tinham deixado sua marca no mundo da música para sempre e com certeza tinham muito a mostrar para o público e provar que ainda eram relevantes. Isso e muito mais, na terceira e última parte da Discografia comentada dos Bee Gees. Até lá!

8 comentários

  1. André Luiz

    Excelente matéria assim como a primeira parte também. Enfim, os Bee Gees tendo o tratamento e o respeito que sempre mereceram.

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    • Rafael Bonatto

      Muito obrigado André! Muitos anos de carreira que merecem ser lembrados!

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  2. António Marcos

    Parabéns pelos comentários sobre a discografia do Bee Gees, sobretudo pela contextualização em que foram gravadas. Reconhecimento bem vindo a uma das maiores bandas do pop Rock mundial e que souberam captar como ninguém o espirito da época, sobretudo na década de 1970. Ansioso pelo restante da análise. Valeu muito.

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    • Rafael Bonatto

      Muito obrigado António! Cada década tem surpresas incríveis dlna discografia deles. Logo você vai poder conferir mais!

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  3. Francisco

    Não querendo desmerecer o que foi apresentado em outras discografias comentadas, essa do Bee Gees está sensacional. O Rafael Bonatto realmente caprichou! Ouvi muito Bee Gees na minha juventude, e continuo achando o trio um grupo de músicos e compositores muito acima da média. “How deep is your love?”, “Too much heaven”, “Fanny (be tender with my love)”, “Run to me”, por exemplo, são o pop em sua perfeição. Uma curiosidade: na música “While I play”, do disco “Life in a tin can”, o violino e o baixo foram tocados por Ric Grech.

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    • Rafael Bonatto

      Muito obrigado Francisco pela gentileza em ler e comentar esta DC.
      E de fato o Ric Grech fez um ótimo trabalho na música “While I Play”. Pena que foi embora cedo! Mas deixou um ótimo legado!
      Abraço!

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  4. Diogo Bizotto

    Rafael, lendo essa publicação fica muito evidente o quanto você se dedicou para trazer essa DC para nós. Tomara que, depois dessa DC dos Bee Gees, você possa colaborar mais. Quanto à época abordada, ainda estou devendo escutar melhor alguns discos, mas gosto do que ouço e sempre há no mínimo algumas canções muito memoráveis em cada um deles, que conseguem sustentar o conjunto mesmo que haja alguns fillers. Uma discussão interessante a se fazer é avaliar quão calculadas e quão naturais foram as mudanças de sonoridade levadas a cabo pelo grupo. Não dá pra negar que houve sim uma dose de oportunismo, mas eu ainda prefiro ouvir um bom disco seguindo alguma tendência do que um disco ruim supostamente 100% original. Gostem ou não, “Main Course” deve ter sido uma ótima surpresa na época, certamente é seu melhor álbum desde “Odessa”.

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    • Rafael Bonatto

      Diogo, agradeço demais pela atenção! Depois de um tempo ouvindo grandes artistas, escrever sobre eles acaba sendo um prazer e serve para que outras pessoas os conheçam também, unindo história com o prazer de ouvir a boa música.
      Em relação as mudanças de sonoridade, com certeza é como você falou. Houve um oportunismo para atrair o público (e as vendas), mas também houve uma demonstração de habilidade e produzir estes novos sons. Pois no final, eles só faziam o que gostavam e isso trazia uma naturalidade nas composições. Até eles tinham um feedback próprio, quando viam que um disco não tinha saído legal.
      Com certeza, se tiver oportunidade, seria um prazer colaborar com o site de alguma forma. Abraço!

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