Por Felipe Lemos

Os anos 80 marcaram uma grande mudança na sonoridade dos grandes grupos da década anterior, principalmente os vindos da vertente progressiva. Bandas como Yes, Genesis, Camel, Wishbone Ash, entre outros, incorporaram novos elementos ao seu som, com algumas se aproximando de um som mais enxuto e até mais próximo do Pop. A nova década incorporou novidades na indústria fonográfica, principalmente devido à evolução tecnológica nas produções e a criação de novos sons e timbres, dada a popularização dos sintetizadores. Surgia o gênero New Wave, capitaneado por grupos como Depeche Mode, Tears for Fears, The Police e Talking Heads.

O Rush também invadiu a nova década já absorvendo toda essa gama de novidades ao seu som, demonstrado já em Permanent Waves (1980) e Moving Pictures (1981), mas sempre mantendo grande complexidade e virtuosismo nos arranjos, além de letras extraordinariamente bem elaboradas, características sempre presentes em seu som e em toda sua discografia. O rompimento com o lendário produtor Terry Brown após Signals (1982), simboliza bem a procura da banda por novos horizontes em sua sonoridade. Brown foi um dos responsáveis por moldar o som da banda na década de 70, exemplificado em clássicos como 2112 (1976) e Hemispheres (1978).

Alex Lifeson (guitarra), Neil Peart (bateria), Geddy Lee (baixo, teclado, vocais)

Para Power Windows, a banda contou com Peter Collins na produção, produtor conhecido por sua modernidade e por trabalhar com bandas Pop na década de 80, e que posteriormente trabalharia com o Queensrÿche.

Segundo o próprio Geddy Lee, Power Windows é o disco que traz o casamento perfeito entre teclados e guitarras para o Rush. O ápice de seu som nos anos 80. Sintetizadores e teclados com timbres modernos, criativos e com peso, que enriqueciam de forma absurda as harmonias de suas composições, aliadas as guitarras de Alex Lifeson, com solos incrivelmente diferenciados, abusando do uso da ponte flutuante em suas guitarras, timbrada de maneira cristalina neste disco. Muitos não conseguem enxergar o impressionante trabalho de Lifeson em Power Windows, dado ao protagonismo dividido com os teclados de Lee, mas solos como os de “Emotion Detector” e “Marathon” demonstram como conclusões deste tipo são equivocadas. Neil Peart dispensa comentários, como sempre. A incorporação de elementos eletrônicos, cada vez mais evidentes em seu kit, aumentou ainda mais a já gigantesca criatividade de suas linhas. Muitas vezes, sua bateria passa a impressão de ser um instrumento melódico, dado a tamanha técnica, precisão e bom gosto com seus novos elementos eletrônicos.

Geddy Lee (baixo, teclados, vocais) com seus sintetizadores.

Liricamente, o álbum aborda um tema comum em todas as suas faixas. A interpretação de algumas das várias formas existentes de poder, seja nas relações humanas ou na sociedade em geral. Assim, pode ser considerado um álbum conceitual.  Peart explora de maneira fantástica temas complexos como territorialismo, o poder econômico e de influências, além de outros até mais intimistas, como emoções e motivação cotidiana.

O disco abre de maneira bombástica com “Big Money” (o poder do dinheiro), com sintetizadores pesados, guitarras abertas acompanhadas por peças eletrônicas na bateria de Neil Peart, com uma sonoridade impecável, mostrando toda a qualidade da produção deste disco. Nos versos, presenciamos uma linha de baixo quase “jazzística” de Lee. O solo de Lifeson também merece grande destaque aqui, onde é evidenciado seu feeling de forma marcante. A faixa apresenta versos e letra bem dinâmicos, evidenciando a todo o momento as virtudes e os defeitos do “Dinheiro Grande”.

“Grand Designs” (o poder da criatividade) abre com sintetizadores brilhantes, característica evidenciada em toda a faixa. Harmônicos nas guitarras de Lifeson e viradas impressionantes de Peart, além de seu absurdo entrosamento com Lee, também são marcantes na canção. Vale destacar os vocais de Lee, que atingiram seu ápice de evolução em Power Windows. O controle em notas médias e graves e o brilho dos agudos são demonstrados de forma impecável. Lee com certeza é bastante injustiçado por muitos sobre suas habilidades vocais, dado ao seu timbre peculiar, principalmente na década de 70, onde os agudos predominavam.

“Manhattan Project” (o poderio militar) se tornou um clássico desta fase da banda. Iniciando de forma sutil, a faixa logo evolui para um andamento mais simples para os padrões da banda, mas que em nenhum momento deixa de cativar o ouvinte. Partes orquestradas e um refrão marcante também são destaque aqui.

“Marathon” (o poder da persistência e motivação individual) é com certeza um dos clássicos absolutos de toda a carreira do grupo. A canção foi ressuscitada ao vivo pela banda na Time Machine Tour (2010 – 2011) em todo seu esplendor. Estrutura complexa e diferenciada, virtuosismo, sintetizadores pesados, refrão emocionante; tudo está presente aqui em sua melhor forma. Peart elucida como nossa motivação nos momentos mais difíceis e obscuros da vida tem um poder enorme, e pode nos alavancar aos objetivos mais desafiadores possíveis.

“Territories” (separação, individualismo), a quinta faixa do álbum é talvez a mais experimental de toda a década na carreira da banda. Peart apresenta linhas de bateria com levadas atípicas, abusando das peças eletrônicas. Talvez a faixa com mais peso do disco, visto as bases pesadas de Lifeson nos versos. Peart lança um olhar de como o excesso de divisões e até mesmo o nacionalismo podem ser prejudiciais à humanidade. “Don’t feed the people but we feed the machines/ Can’t really fell what international means.” (“Não alimentamos as pessoas, mas alimentamos as máquinas/ Não podemos sentir realmente o que significa internacional”). Peart consegue ilustrar o fato de que aspectos como a economia, o mercado e a produção desenfreada em prol do desenvolvimento de seu “território”, estão sempre acima dos princípios básicos de humanidade.

“Middletown Dreams” (o poder de acreditar em seus sonhos) continua o álbum com uma carga emocional enorme. Os timbres de sintetizadores usados aqui são dos mais lindos já registrados na história da música. Um refrão emocionante, com Lee mostrando versatilidade e feeling nos versos de forma maravilhosa. Peart demonstra aqui, através de três diferentes personagens, como nossos sonhos são a força motriz essencial para que consigamos escapar do conformismo e o ostracismo da vida cotidiana.

A penúltima faixa do disco “Emotion Detector” (o poder das emoções) abre com sintetizadores peculiares para logo entrar em uma melodia marcante, com os dedilhados sutilmente encaixados de Lifeson ao fundo. Como característica de todo o disco, aqui também temos um refrão marcante, de fácil assimilação e com grande apelo emocional. Reitero aqui o feeling absurdo dos vocais de Lee, demonstrado nessa faixa de forma ímpar. O solo de Lifeson é magnífico, seguido de perto por Lee, onde temos praticamente os dois instrumentos solando ao mesmo tempo, algo até comum nos arranjos da banda. Peart demonstra a extrema importância das emoções nos caminhos que a vida trilha, onde estas são responsáveis por no fim revelar a verdadeira face dos indivíduos nas relações pessoais.

Encerrando o álbum temos a experimental e marcante “Mystic Rhythms” (o poder do obscuro e desconhecido). Esta talvez seja a faixa mais peculiar de toda a carreira da banda, e conta com um videoclipe ainda mais intrigante. Lee e seus sintetizadores assumem a música, ritmados por uma linha de bateira quase “tribal” criada por Peart. Uma grande variedade de timbres ecoa por toda a canção, mostrando mais uma vez a grandiosidade da produção de Power Windows. Liricamente a faixa nos diz o quanto é pequeno e insignificante o conhecimento humano sobre o universo, elucidando a forma de como o desconhecido sempre nos fascina e nos faz eternos questionadores.

Power Windows é, sem sombra de dúvidas, um dos grandes álbuns já produzidos. Mesmo aqueles que não apreciam o experimentalismo e a incorporação de novos sons nas composições dos canadenses, poderiam se surpreender com este disco, que apresenta ideias incríveis. Aos apreciadores de sintetizadores, arranjos criativos e timbres únicos, Power Windows é um álbum essencial. Uma das peculiaridades que torna o Rush uma banda tão genial, é a capacidade de englobar novas influências em sua música, sem perder a identidade de seu som. A constante busca por inovação, sem medo de experimentar novas ideias, é uma das marcas do trio que fez com que sua discografia seja repleta de diferentes “fases”. Tudo isso contribuiu para tornar a carreira do Rush uma das mais interessantes e fascinantes de todos os tempos.

Tracklist

  1. The Big Money
  2. Grand Designs
  3. Manhattan Project
  4. Marathon
  5. Territories
  6. Middletown Dreams
  7. Emotion Detector
  8. Mystic Rhythms

Alex Lifeson (guitarra), Neil Peart (bateria), Geddy Lee (baixo, teclado, vocais)

12 comentários

  1. Mairon

    Da fase “pop” do Ruhs, acho esse o melhor disco da banda, seguido de Signals e Grace Under Pressure. “Territories” durante muito tempo foi uma das minhas preferidas do grupo. Com o passar dos anos, perdi um pouco o gosto por esse álbum, mas reconheço sua valorização pelo estreante Felipe.

    Particularmente, o que Geddy Lee faz com o baixo em “Big Money” é para Steve Harris corar de vergonha com seu estilo cavalgante.

    Valeu a estreia meu caro, bela escolha.

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    • Felipe Lemos

      Valeu Mairon. Sim, com certeza o trabalho do Geddy neste disco faz muita gente passar vergonha.

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    • Felipe Lemos

      Pois é Paulo, conheço muitos que vão até além e que curtem o trabalho da banda apenas até o Hemispheres. Mas o genial do Rush é isso. Pelo menos uma parte de sua carreira é admirada por todos. Eu no caso, amo todas, mas respeito sua opinião. Obrigado.

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  2. André Kaminski

    Adoro esse disco e esta fase tecladeira da banda. Adoro “Grand Designs” e “Marathon”. Esta última ao vivo ficou orgásmica na Time Machine Tour.

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    • Felipe Lemos

      Somos dois André! Sim Marathon ficou mais que orgásmica eu diria! Eu estava lá naquele inesquecível 08/10/2010 no estádio do Morumbi e chorei igual a um recém-nascido. Valeu!

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  3. Marcello

    Primeiro LP de estúdio do Rush que comprei, e o segundo no geral – tinha comprado o Exit… Stage Left, e Power Windows era então o novo disco da banda. Gostei de cara, continuei gostando após completar a coleção deles, e até hoje é um dos meus favoritos da banda. Manhattan Project é uma obra-prima do Rush!

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    • Felipe Lemos

      Que legal Marcello! Você pegou esta obra-prima na época de seu lançamento! Sim Manhattan Project é um clássico absoluto. Obrigado por comentar. Abraço.

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  4. Micael Machado

    Desta chamada “fase eletrônica” do Rush, meu preferido sempre foi o Signals, com este álbum vindo logo após. As musicas são longas (não tanto quanto nos anos 70, mas mais que o costume da época), com espaço para a melodia se desenvolver e temas instrumentais muito atraentes. Ouvir e assistir “Marathon” ao vivo na turnê citada foi emocionante, e “Mystic Rhythms” sempre esteve dentre minhas favoritas na carreira da banda (ou, pelo menos, nesta terceira fase). Um disco muito superior tanto ao seu antecessor quanto ao seu sucessor.

    Boa lembrança, Felipe, e bela estreia! Seja bem vindo à equipe do site!

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    • Felipe Lemos

      Sim Micael! Mystic Rhythms é maravilhosa. No Power Windows, eles se permitiram experimentar mais. Mas quanto ao sucessor, sou suspeito pra falar pois curto muito Hold Your Fire também, que pra mim encerra bem esta fase do grupo. Obrigado pelo comentário, e logo logo tem DC do Rush! Abraço.

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  5. Oberdan Schumann

    A primeira vez que ouvi esse álbum me parecia apenas mais uma coisinha pop dos anos 80. Esse é o bom do Rush, a cada audição parece que a música nos cativa mais. Creio que esse seja o álbum mais consistente dessa fase da banda. Sonoridade maravilhosa. E o baixo do Geddy Lee mais incrível do que nunca.

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