Por André Kaminski

Já tivemos a discografia comentada da banda publicada há um tempo atrás, mas resolvi fazer este texto para comentar um pouco mais sobre um disco particular da longa carreira dos escorpiões germânicos. Trata-se justamente do primeiro disco lançado pelos caras lá em 1972, que é este Lonesome Crow.

Este é um disco que merece o título de “underrated”. Falam tanto da fase Uli Jon, falam da fase oitentista, do disco da orquestra, mas quase nada do primeiro disco que lançou Michael Schenker, um moleque espinhento de 16 anos ao mundo. Junto ao seu irmão Rudolf e a Klaus Meine, mais os desconhecidos Lothar Heimberg e Wolfgang Dziony no baixo e bateria respectivamente e que, segundo o baterista, ficaram em 25 e 30 anos sem tocarem os seus instrumentos logo após o Scorpions terem “encerrado” em 1973. Várias bandas dessa época ainda meio que estavam “encontrando o seu som e identidade” e por isso, é comum que bandas como UFO, Pink Floyd e o próprio Scorpions terem lançado primeiros discos muito diferentes de sua “fase de sucesso”. Assim, o que ouvirá aqui é um hard rock misturado a jazz e até um pouco de psicodélico e progressivo com muitas passagens instrumentais e alguns poucos vocais de Meine.

Temos início com “I’m Goin’ Mad” com um baixo que me lembra muito aquele jeitão “krautrock” de várias bandas alemãs do mesmo período. E Michael aqui solando como um veterano da guitarra. Não a toa todo mundo via aquele moleque loiro e cabeludo como um dos grandes prodígios do instrumento. Mais solos recheados com muito baixo e bateria seguem em “It All Depends” e “Leave Me”, esta última com uma introdução meio espacial até começar um lindo dedilhado das cordas do baixo e da guitarra e um jeitão classudo da bateria de Wolfgang.

Lothar Heimberg (baixo), Rudolf Schenker (guitarra), Michael Schenker (guitarra), Klaus Meine (vocais) e Wolfgang Dziony (bateria).

Uma intro psicodélica faz parte de “In Search of the Peace of Mind” levada principalmente pelo baixo e poucos dedilhados de guitarra rítmica. Aqui Klaus Meine solta mais a sua voz. Aquele estilão meio Pink Floyd e seus “sopros e ventos” aparece nessa mesma canção, o que aparenta que talvez os alemães tenham curtido a sonoridade inglesa do mesmo período ou que tenham bebido da fonte do prog alemão e valer-se de uma sonoridade experimental. Independente da inspiração, ficou muito bom.

“Inheritance” talvez seja a única faixa inferior do álbum e também a mais simples. Com certeza eles fariam canções melhores do que esta em poucos anos. Agora “Action” já é bem mais meu estilo com o jeitão jazzista, dando a impressão de os caras estarem naqueles barzinhos norte-americanos tirando um som com a plateia. Adoro esse tipo de música e aqui há também um riff marcante e um solo excelente dos Schenkers. O disco finaliza com a longa “Lonesome Crow” com o gralhar dos corvos e algum dedilhado mais psicodélico de guitarra e baixo com tantas variações que fica difícil descrever tudo aqui. Mas o que posso garantir é o fato de ser viajante. Muito viajante por sinal.

Dentro da discografia do Scorpions, Lonesome Crow é realmente um corvo solitário. A banda jamais faria algo similar a este álbum. Muito talvez pela saída do Schenker mais novo, recrutado pelo UFO que já tinha um início de carreira mais sólido, e pelas saídas dos integrantes aos quais Rudolf preferiu se unir a Uli Jon Roth em sua banda, ao que depois voltou a se chamar Scorpions quando Klaus entrou para a mesma. Aí com a considerada formação clássica e um apreço maior pelo heavy metal e o hard rock tradicional, o Scorpions está aí até hoje. Schenker ainda teve um pequeno retorno ao Scorpions para gravar algumas guitarras em Lovedrive, duas passagens pelo UFO e seus muitos projetos e trabalhos solo durante a carreira, sem contar as polêmicas e farpas trocadas com o próprio irmão. Ambos se odeiam até hoje.

Já Wolfgang e Lothar, conforme citei no início do texto, deixaram de vez o mundo da música. Lothar ainda tocou até o final dos anos 70 em uma banda chamada Argus, mas é só. Wolfgang trabalhou a vida toda como mecânico de automóveis e vendedor de máquinas agrícolas. Mas ele acabou voltando a tocar bateria nas noites alemãs em uma banda local. Não sei o que Lothar fez durante sua vida, mas ele continua em contato com Wolfgang e Rudolph.

O que tenho a dizer para finalizar esta resenha é: ouça este álbum e descubra um Scorpions que nunca soube o quão diferente poderia ser.

Tracklist

  1. I’m Goin’ Mad
  2. It All Depends
  3. Leave Me
  4. in Search of the Peace of Mind
  5. Inheritance
  6. Action
  7. Lonesome Crow

 

Klaus Meine (vocais), Rudolf Schenker (guitarras), Wolfgang Dziony (bateria), Lothar Heimberg (baixo) e Michael Schenker (guitarras)

5 comentários

  1. Marcello

    Fui atrás desse disco depois de ouvir In Search of The Peace of Mind no Tokyo Tapes, que foi o primeiro disco do Scorpions que comprei, ainda em vinil. Só conhecia Michael Schenker pelo nome, e fiquei impressionado na época – embora fiquei muito mais quando ouvi UFO. Acho que Lonesome Crow ficou meio cru, com uma produção muito básica, mas é um disco muito legal, e valeu a iniciativa de recuperá-lo. Aliás, vou ouvir de novo porque faz tempo!

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    • André Kaminski

      Talvez as pessoas não o considerem tanto pela falta de riffs de guitarra, mas aqui é a melhor opção de conhecer o Schenker solando.

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  2. Igor Maxwel

    Eu como um “quase fã” do Scorpions (apenas um mero ouvinte casual), gosto da fase que vai de Lovedrive á Crazy World (claro, excluindo sempre de minha parte o Love at First Sting), curto também os álbuns ao vivo (incluindo o Acoustica e o orquestrado Moment of Glory), respeito os fãs da era Uli Jon Roth, mas este Lonesome Crow, o debut deles, ainda não mostra aquela banda que se tornaria conhecida mundialmente. Este disco devia se encaixar na linha “Discos que Parece que Só eu Gosto” por que eu também não o curto tanto assim, como o caso do Love at First Sting e aquele clássico “probleminha”…

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  3. Ronaldo

    Eu costumava ser vidrado por esse tipo de disco, com essa veia mais experimental e exploratória e com um elemento que é o que mais aprecio desde sempre, que é a sonoridade. No caso, a sonoridade dos early 70’s é fascinante pra mim, especialmente pela forma como bateria e baixo soam, tão presentes e importantes no som. Contudo, com o passar dos anos, fui vendo que boa parte desses discos carece de consistência em outro aspecto primordial, que são as composições. E tudo fica mas como “som”, curtição, do que “música”. Neste caso, acho que é o grande pecado desse disco, que as composições não são realmente fortes e marcantes e foi a lacuna que o Scorpions foi tratando de preencher nos próximos discos. Ainda sim, Lonesome Crow me proporciona um bom entretenimento, só não acho um disco tão bom quanto os demais e nem tão bom quanto dantes.

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