Por Davi Pascale

O tempo passa muito rápido. E lá se vão 20 anos que o Van Halen colocou nas lojas o polêmico Van Halen III. Provavelmente, seu trabalho mais fraco, mas que vale ser comentado pela situação inusitada.

Ainda me recordo até hoje de quando anunciaram que Gary Cherone, vocalista do Extreme, havia sido escolhido como a nova voz do Van Halen. E confesso que minhas expectativas não eram as mais altas. Sim, gosto muito do Extreme. Os três primeiros álbuns (Extreme, Extreme II: Pornograffitti, III Sides To Every Story) são fantásticos. E sim, pego bastante influência de Van Halen no som deles. Principalmente, nos trabalhos de guitarra do Nuno Bittencourt. Também concordo que Gary Cherone seja um ótimo showman. O problema ali era alcance. Sammy Hagar, a voz anterior, cantava alto, era um belo cantor, mesmo ao vivo. Gary não tinha a mesma extensão e sua atuação ao vivo não era espetacular. Como seguraria a bronca?

O ideal, nesse caso, seria colocar o rapaz cantando na sua região e explorar as canções da fase do David Lee Roth que eram mais baixas. Eles acertaram nos shows ao resgatar várias canções da fase de Diamond Dave, mas erraram no estúdio. Em Van Halen III temos Gary cantando para cima todo o tempo, quase esgoelando. Em algumas músicas fica bacana, em outras é desnecessário.

Muitos perguntam de onde veio a ideia de convida-lo ao grupo. A realidade é que, nessa época, tanto o Extreme quanto o Van Halen tinham o mesmo empresário, Ray Danniels. Quando Ray notou que o Extreme estava esfacelando e que o Van Halen estava em busca de um cantor sugeriu à Gary que fizesse uma audição. O cantor topou por ser fã. Imaginava que não seria aprovado, mas achou bacana ter a chance de fazer um som com uma banda que cresceu ouvindo. Em entrevista à Rolling Stone, Gary Cherone comenta que “eu disse: ‘Sim, claro. Vou até lá passar o fim-de-semana, canto ‘Jump’ e volto com uma boa história para contar”. O que ninguém imaginava é que ele acabaria ficando.

Gary Cherone, Michael Anthony, Eddie Van Halen e Alex Van Halen

O mais curioso é que na época de sua entrada, havia toda uma expectativa pela volta de Dave Lee Roth. O Van Halen havia lançado uma coletânea com duas faixas inéditas com Dave e iriam se apresentar no MTV Music Awards daquele ano. “Me lembro que cheguei ao estúdio e tinha uns caras entrevistando o Van Halen por conta do VMA, toda aquela coisa. E eles me disseram: Hey, Gary, ninguém sabe que você está na banda”.

O primeiro – e único – registro de Gary Cherone com o Van Halen chegou às lojas em 17 de Março de 1998. E não foi muito bem recebido. Foi o disco que menos vendeu e que recebeu duras críticas tanto pela imprensa, quanto dos fãs. A verdade é que o disco é confuso. Eles queriam se reinventar, o que acho louvável, mas soavam meio perdidos. Para dizer a verdade, são poucos os momentos que considero um destaque no CD. Uma delas é certamente “Without You”, a faixa escolhida para ser trabalhada, que trazia bem a mistura de Extreme e Van Halen. Ao mesmo tempo que tínhamos a bateria característica de Alex Van Halen, tínhamos as vocalizações típicas do Extreme, especialmente no refrão. Se fizessem o disco inteiro nessa linha, seria bem interessante, o que, infelizmente, não é o caso.

“One I Want” e “From Afar” demonstram o que eu disse sobre Gary cantar o tempo todo quase gritando. Há quem diga que ele estivesse tentando seguir os passos de Hagar. Se essa foi sua intenção, não foi exatamente bem-sucedida. “Once” também soa bem deslocada com a inclusão de elementos eletrônicos, inclusive.

Algo que notei reouvindo o CD é que a presença de Michael Anthony não é tão perceptível durante a audição. Não há momentos de destaque do rapaz. Há quem diga que o músico não haveria participado das gravações. Nessa mesma entrevista, Cherone afirma que Eddie realmente chegou a gravar a linha de baixo em algumas canções, mas que Michael estaria presente na maior parte do material. Não sou expert nas sessões de gravação desse disco, então daremos crédito ao rapaz.

Na fase do Sammy Hagar, o Van Halen nos brindou com belas baladas como “Not Enough” ou “When It´s Love”, já aqui as baladas são meio apagadas. A melhorzinha acredito que seja “Year To The Day” que fica interessante depois que ela dá uma crescida. Mesmo assim, acho a primeira parte dela bem sem graça. As canções que julgo mais fortes são realmente mais pesadas. Além da já citada faixa de trabalho, também destacaria “Fire In The Hole”, que chegou a ser incluída na turnê, inclusive, e a porrada “Ballot Or The Bullet”, onde temos Alex Van Halen se destacando com sua tradicional levada de dois bumbos.

Por mais que seja um grande fã do Van Halen e do Gary Cherone, diria que a parceria não funcionou tão bem. No geral,  trata-se de um trabalho equivocado com algumas boas canções, mas ainda assim, nenhuma que seja essencial ou um clássico da banda. Mas e aí? Qual é a visão de vocês desse disco 20 anos depois?

Tracklist:

  1. Neworld
  2. Without You
  3. One I Want
  4. From Afar
  5. Dirty Water Dog
  6. Once
  7. Fire In The Hole
  8. Josephina
  9. Year To The Day
  10. Primary
  11. Ballot Or The Bullet
  12. How Many Say I

5 comentários

  1. Mairon

    Eu não acho esse disco horrível, mas tão pouco, é um disco fabuloso.

    Para mim, um álbum mediano, com boas canções, e que ao longo do tempo, vem ficando mais palatável. Não o escuto frequentemente, mas considero que houve muita expectativa na época do seu lançamento, e a imprensa aproveitou para malhar geral que o retorno do David Lee não tinha dado certo.

    O Cherone acabou entrando na banda errada e na hora errada. Fosse hoje, talvez a coisa tivesse sido beeeeeem diferente.

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    • Davi Pascale

      É, mais ou menos, o mesmo que penso. Acho um disco fraco para os padrões do Van Halen, mas tem bons momentos, sem duvidas. Mas, por mais que eu goste do Gary Cherone, acho que ele continua sendo uma escolha equivocada. Mesmo se fosse para resgatar os tempos do Dave Lee Roth, que foi o que eles tentaram nos shows, teria escolhas melhores. Hoje, que a galera não aceita mudanças nem a pau, apostaria no Ralph Saenz (L.A. Guns, Steel Panther). O cara imita o Dave Lee Roth direitinho. Já viu a banda cover dele de Van Halen?

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  2. Diogo Bizotto

    Até botei o disco aqui para tocar e dar uma refrescada na memória. Eu não acho o disco verdadeiramente RUIM, mas também passa bem longe de ser simplesmente bom, diria que nem pra regular serve. Algumas coisas salvam, mas uma minoria. O primeiro ponto é que a produção é bem fraca, especialmente para quem estava acostumado a ouvir uma banda tão bem produzida. “Balance”, apenas para ficar no exemplo mais próximo, não é um discaço, mas soa maravilhosamente bem (o som de bateria é coisa de louco). O segundo é que, apesar de Eddie estar tocando bem, não parece ter se esforçado o suficiente em traduzir sua habilidade em canções cativantes, como o Van Halen tantas e tantas vezes fez com muito sucesso. Tem muita enrolação, músicas que se estendem demais, e sim, muita coisa em um registro que parece ter ficado desconfortável para Gary, que é um bom vocalista, mas apenas isso, bom, nada excepcional. Gary chegou a declarar que gostaria de ter feito turnês com a banda antes de entrar em estúdio, pois, segundo ele, isso contribuiria não apenas para apresentá-lo ao público, mas para criar um maior entrosamento. Não sei se isso realmente faria diferença, mas acho que o que ele diz faz bastante sentido.

    Quanto a Michael Anthony, a informação que conheço é a de que ele gravou apenas três músicas, sendo o resto gravado por Eddie. Sinceramente, não duvido que Eddie tenha feito isso mais vezes ao longo da carreira do grupo, mas aí já partimos um pouco para o lado do achismo. Já li declarações dando conta de que, pelo menos em determinada fase da carreira da banda, Eddie dizia o que Michael deveria tocar e ele apenas executava o trabalho, sem verdadeiramente contribuir muito com isso.

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    • Davi Pascale

      Essa fala do Gary talvez fizesse sentido no sentido de entrosamento ou até mesmo de testar repertório. Eles poderiam testar as musicas no show para sentir a reação da galera antes de sair gravando. Com isso, algumas musicas poderiam cair e entregarem um álbum mais forte. Agora, o lance de apresentação não vejo motivo. A galera do rock já sabia quem ela era. O Extreme teve bastante destaque midiático nos anos 90. Os roqueiros daquela época sabiam da existência dele. Muitos tinham preconceito com a banda, por causa da explosão de “More Than Words” (balada favorita entre 9 de 10 meninas na época), mas não acho que a eventual turnê mudasse isso. Nesse sentido, acho que seria igual.

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  3. André Kaminski

    Eu sigo como o Ronaldo e o Mairon. É um disco que não ficou tão ruim como alardeavam com o tempo, mas também não passa de um disco que seria meia boca em uma banda mediana ou pequena, e nanico perto do que o Van Halen já fez.

    “Josephina” é uma balada OK, “Ballot or the Bullet” tem ali um riff de guitarra que seria bacana fosse ele melhor trabalhado, mas o restante pouco atrai exceto um momento aqui ou ali. Já malhei mais o disco, hoje até não entortaria tanto a boca se fosse para ouvi-lo por inteiro.

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