Em pé: Ole Öhman. Agachados: Johan Norman, Jon Nödtveidt e Peter Palmdahl

Por Diogo Bizotto

Estaria a arte desprendida de seus autores? É possível exaltar suas qualidades mesmo sabendo que os responsáveis por sua criação não são exatamente seres humanos exemplares? Em tempos recentes, esse tipo de questionamento tem estado em evidência, especialmente após o surgimento de diversas acusações de condutas sexuais criminosas e inapropriadas contra famosos integrantes do showbiz, em especial do cinema e da televisão. Pessoas como o produtor Harvey Weinstein, o ator Kevin Spacey e os comediantes Bill Cosby e Louis C.K., apenas para citar alguns, ocupam o centro de uma discussão que não é (ou pelo menos não deveria ser) novidade. Não é preciso puxar muito pela memória para que lembremos dos casos protagonizados pelos diretores Roman Polanski e Woody Allen, contra os quais pesam graves acusações de cunho sexual há décadas.

No mundo da música não é diferente. Voltando nosso olhar para a Escandinávia, temos o exemplo de Varg Vikernes (Burzum), que não apenas cumpriu pena pela queima de ao menos três igrejas na Noruega, mas principalmente pelo assassinato do fundador do Mayhem, Øystein “Euronymous” Aarseth, do qual era colega de grupo. É seguro dizer que, apesar desses atos e de suas visões sociais e políticas racialistas, Varg ocupa um importante espaço no desenvolvimento do black metal, em particular de sua vertente mais atmosférica, muito disso graças aos álbuns Hvis lyset tar oss (1994) e Filosofem (1996). O mesmo vale para o sueco Jon Nödtveidt, o gênio criativo por trás do Dissection, banda que motiva este artigo. Membro do grupo ocultista Ordem Misantrópica Luciferiana, Jon e um amigo chamado Vlad foram responsáveis pela morte a tiros de um argelino de 36 anos em um parque de Gotemburgo, segunda maior cidade da Suécia. O crime teria sido, inclusive, ao menos em parte motivado pelo fato de o homem ser homossexual. Assim como ocorre com Varg, é difícil negar que Jon é uma das personalidades mais talentosas e importantes para o metal extremo escandinavo. Na minha opinião, inclusive, para o metal extremo de todo mundo, uma vez que, em sua curta carreira, dois de seus três álbuns são peças essenciais para qualquer um que se diga apreciador da estirpe mais radical do heavy metal. Para melhor apreciá-las, talvez caiba desprender-se da imagem de Jon e de seus atos, que incluem ainda seu suicídio, em 2006, dois anos após ter sido solto da prisão, período em que retomou as atividades do Dissection, lançou um álbum e promoveu uma turnê mundial, que inclusive passou pelo Brasil. A morte, com características ritualísticas, selou a turbulenta trajetória de um músico de atitudes condenáveis, mas que deixou uma marca indelével na música extrema.


The Somberlain [1993]

Jon Andreas Nödtveidt tinha apenas 14 anos quando deixou a banda de thrash metal Rabbit’s Carrot para formar seu próprio grupo, com o desejo de investir em caminhos mais extremos tanto musical quanto liricamente. Após uma demo bem mais puxada para o death metal em sua vertente old school (The Grief Prophecy, 1991) e outras nas quais o flerte com o black metal já era mais evidente (Into Infinite Obscurity, 1991 e The Somberlain, 1992) – todas muito promissoras, diga-se – a estreia oficial veio com The Somberlain, gravado quando Jon tinha apenas 17 anos (os outros integrantes tinham entre 18 e 19 anos). Essa situação, que poderia revelar alguma imaturidade, não impediu que Jon, acompanhado de John Zwetsloot (guitarra), Peter Palmdahl (baixo) e Ole Öhman (bateria), lançasse um álbum essencial tanto para o death quanto para o black metal, vide o magnífico amálgama desses estilos forjado pelo quarteto. Aliada à rispidez e à atmosfera gélida do black metal – construída com o auxílio do engenheiro de som Dan Swanö – além dos vocais lancinantes de Jon, estruturas típicas do death metal dão a tônica em boa parte do tracklist. As canções apresentam ainda uma forte dose de melodia, associando o Dissection tanto ao death metal melódico, que dava seus primeiros passos graças a artistas como os ingleses do Carcass e os suecos de At the Gates, Dark Tranquillity e In Flames; quanto à vertente mais melódica do black metal, que ainda não estava consolidada. Não à toa, muitos referem-se à sonoridade praticada pelo Dissection como blackened death metal, tão perfeita é a fusão de estilos levada a cabo pelo grupo. Agora convenhamos, isso é um detalhe muito pequeno quando somos confrontados com um tracklist de tão abundante qualidade quanto aquele que forma The Somberlain. Ao mesmo tempo em que a dupla de guitarristas mostra ter absorvido as melhores influências possíveis da New Wave of British Heavy Metal, também fica claro que a aura fria, épica e noturna dos então últimos álbuns do Bathory tem muito a ver com o resultado, fazendo desta uma obra que não se limita a um nicho e soa mais acessível para aqueles pouco acostumados com o metal extremo. A faixa que abre o disco, “Black Horizons”, é um perfeito exemplo de como essas influências tomaram forma, cuspindo um turbilhão de riffs black e death metal em meio a viradas e blast beats que fazem de tudo, menos cansar o ouvinte sedento por extremismo. A faixa-título recebe uma dose maior de melodia e passagens mais lentas, que destacam o trabalho de guitarra solo de Jon, cortante como navalha, e mostram como é possível soar memorável mesmo em se tratando de uma vertente mais excessiva do heavy metal, com direito a refrão cativante e passagens instrumentais totalmente cantaroláveis. Algumas estruturas mais tradicionais também abundam no tracklist, como pode-se perceber em “A Land Forlorn”, que alterna passagens mais cadenciadas com outras tipicamente black metal. A mesma coisa vale para “In the Cold Winds of Nowhere”, cuja avalanche criativa de riffs soa quase como um alívio em meio aos arroubos mais ásperos de uma faixa como “Heaven’s Damnation”. Cabe frisar que, apesar de muitos ligarem o Dissection à cena de Gotemburgo, relacionada com a ascensão do death metal melódico, não creio que a banda se encaixe nesse panorama; menos ainda na cena de Estocolmo, mais tradicional, que tinha o Sunlight Studio como casa, o pedal Boss HM-2 como ferramenta e grupos como Entombed, Dismember e Grave como representantes. Ao mesmo tempo, é perceptível que o death metal que vinha sendo feito na Flórida (EUA) teve alguma influência no Dissection, especialmente através de Altars of Madness (Morbid Angel, 1989). Ao menos é isso que percebo em músicas como “Black Horizons”, “In the Cold Winds of Nowhere” e “Mistress of the Bleeding Sorrow”, donas de passagens que lembram músicas como “Suffocation” e “Visions from the Dark Side” – ambas de Altars of Madness – mas com uma carga extra de melodia. Não posso esquecer de mencionar “Frozen”, uma das melhores composições do grupo. The Somberlain é, com facilidade, uma das melhores estreias de todo o heavy metal.


Storm of the Light’s Bane [1995]

The Somberlain é uma obra maiúscula, mas sua importância seria eclipsada pelo avassalador poder emanado das oito faixas de Storm of the Light’s Bane. Junto a Peter, Ole e a um novo guitarrista (Johan Norman), Jon levou sua arte a um patamar raríssimas vezes atingido em se tratando não apenas de metal extremo, mas de som pesado em geral. Sem esquecer do lado mais melódico de The Somberlain, o quarteto concebeu uma obra ainda mais desconcertante, na qual a agressividade devastadora do black metal ganhou contornos mais agudos e foi envolvida por uma atmosfera glacial, bem representada em sua arte de capa e mais uma vez obtida com o auxílio de Dan Swanö, que já vinha construindo uma bela carreira como líder do Edge of Sanity. Com exceção da intro “At the Fathomless Depths” e da outro “No Dreams Breed in Breathless Sleep”, o ouvinte é engolfado em um turbilhão de emoções provocadas por uma massa sonora impiedosa, da qual destaco “Night’s Blood”, “Unhallowed” e “Soulreaper” como as maiores provas da ligação do Dissection com a sonoridade black metal, abusando de passagens que aliam velocidade e rispidez a um peso até então pouco comum em se tratando de um gênero que na época prezava bastante pela estética lo-fi. O melhor de tudo é que, apesar de toda a coesão sonora do álbum e do desenrolar homogêneo de suas faixas, cada uma delas é dotada de características que as destacam das demais, jamais apelando para a agressividade desenfreada como objetivo, mas fazendo dela uma ferramenta na construção de um forte tracklist. É possível afirmar, inclusive, que o Dissection apontava alguns caminhos que seriam logo depois seguidos por outras formações. Ouça “Thorns of Crimson Death”, com seu clima épico e riffs mais puxados para o thrash metal, e faça uma associação com a guinada sonora promovida pelo Immortal a partir de At the Heart of Winter (1999), álbum que considero não apenas como o mais importante do grupo, mas um dos registros essenciais do black metal e reflexo da maturidade do próprio estilo. Para não dizer que não há momento algum para respirar entre a intro e a outro, “Where Dead Angels Lie” é uma preciosidade de cadência melódica no miolo do tracklist, preparando para a devastação sonora promovida por “Retribution – Storm of the Light’s Bane”, que funde death, black e thrash metal em proporções semelhantes. Storm of the Light’s Bane não apenas é a obra máxima do Dissection, como também um dos dez melhores discos de metal extremo com os quais já tive contato, quiçá um dos cinco, em pé de igualdade com os mais importantes registros lançados por formações de carreira mais extensa, como Death, Morbid Angel, Carcass e Celtic Frost.


A curva ascendente experimentada pelo Dissection não pôde seguir seu curso em razão dos motivos já apresentados na introdução. Com uma formação renovada, Jon havia inclusive agendado datas em estúdio para registrar um novo disco, que nunca enxergaria a luz do dia. Sua prisão em 1997 e a posterior condenação colocaram em pausa uma carreira até então irrepreensível, ao menos no aspecto musical. Isso não significou o abandono dos objetivos de Jon, que, após alguns esforços, conseguiu primeiramente ter acesso a um violão e posteriormente à sua guitarra durante o tempo em que esteve encarcerado, seguindo trabalhando em músicas que formariam um novo álbum do Dissection.


ReinkaΩs [2006]

Após um período de sete anos preso, Jon retomou as atividades do Dissection como figura central e único integrante original. Nunca foi segredo seu papel como líder e principal compositor do grupo, responsável por apontar seu direcionamento. Ao lado do guitarrista Set Teitan, do baixista Brice Leclercq (ainda na condição de músico de estúdio) e do baterista Tomas Asklund, Jon protagonizou o renascimento do Dissection na forma de um monstro consideravelmente diferente daquele que havia adormecido em 1997. Se em seus dois primeiros álbuns a banda praticara um misto de black e death metal com muita melodia, em ReinkaΩs o lado black foi deixado de lado, privilegiando uma sonoridade puxada para um death metal melódico mais econômico nos arranjos, mas longe de ser uma simples evolução da sonoridade de Gotemburgo, que havia chacoalhado o meio heavy metal na segunda metade da década de 1990. Isso também não significa que a estética lírica foi modificada, muito pelo contrário. Ao invés de realizar ele mesmo essa tarefa, como de praxe, Jon delegou a função de escrever as letras a Frater Nemidial, uma espécie de mestre da Ordem Misantrópica Luciferiana. Tanto as letras quanto a música, segundo Jon, constituiriam invocações a poderes ocultos e foram compostas levando em consideração teorias musicais e científicas a fim de usar as canções como ferramentas desses poderes. Crendo ou não na efetividade dessas afirmações, o fato é que se trata de mais uma obra de qualidade acima de qualquer suspeita, por mais que não supere os estupendos The Somberlain e Storm of the Light’s Bane. Há em ReinkaΩs um maior senso de groove, algo quase impensável nos primeiros discos, privilegiando riffs musculosos em detrimento daqueles mais ríspidos, típicos do black metal, que abundaram no passado. Os vocais de Jon também estão mais “na cara”, além do trabalho de bateria estar mais preciso. Permaneceu intacta, contudo, a capacidade de criar composições cativantes, como atesta a única música que gerou um videoclipe, “Starless Aeon”, recheada de guitarras melódicas e linhas vocais envolventes. O mesmo pode ser dito de praticamente todo o tracklist, pois não há momento desperdiçado. “Beyond the Horizon” e “Xeper-I-Set” confirmam esse fato; “God of Forbidden Light”, por sua vez, apresenta guitarras dignas do Iron Maiden. Em determinadas músicas, o lado ainda mais tradicional do heavy metal aflora e também gera excelentes resultados, vide a faixa-título e “Dark Mother Divine“, que chega a soar como se Dave Mustaine ocupasse o lugar de Tony Iommi no Black Sabbath. Não posso deixar de mencionar “Maha Kali”, a canção mais evidentemente ligada ao ocultismo, dona de um belíssimo solo de guitarra e de vocais femininos que ajudam a complementar sua aura mística. Muitos ficaram descontentes com o direcionamento adotado neste disco, enquanto outros compreenderam que, independentemente do estilo musical privilegiado, a proposta do Dissection estava intacta e mais honesta do que nunca.


Dissection renascido: Set Teitan, Tomas Asklund e Jon Nödtveidt

Como mencionado no início deste artigo, Jon cometeu suicídio de maneira ritualística em agosto de 2006, apenas quatro meses após o lançamento de ReinkaΩs. O próprio já havia mencionado que encerraria as atividades do grupo depois do fim da turnê correspondente e do lançamento do material ao vivo que resultou desse giro pelo mundo (o imperdível vídeo Rebirth of Disssection, colocado no mercado em julho do mesmo ano), dando pistas de que a sua grande tarefa – funcionar como um instrumento de divulgação das ideias ligadas à Ordem Misantrópica Luciferiana – estava cumprida. O corpo de Jon foi encontrado em 13 de agosto com um tiro na cabeça, em meio a um círculo de velas acesas e ao lado de um grimório – um livro de caráter ocultista – ligado à Ordem. Para o bem e para o mal, Jon viveu conforme suas convicções e era a representação viva de sua música. Em que pese seus atos reprováveis, a obra por ele deixada é não menos que estarrecedora, no melhor dos sentidos, e viverá por muitos e muitos anos após sua morte.

6 comentários

    • Diogo Bizotto

      Conheço alguma coisa do Katatonia e adoro o álbum “Brave Murder Day”, mas não tenho capacidade suficiente para escrever a respeito do grupo.

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      • Jucemar

        ESCREVER SOBRE O BRAVE MUDER DAY, E A PRIMEIRA, E QUIÇÁ ÚNICA REALMENTE BOA, FASE DELES JÁ ESTÁ DE MUITO BOM TAMANHO!

  1. El comentarista

    Tenho ouvido bastante o Storm, e impressionante como nessa época as bandas do “extremo melódico” usavam a melodia de forma narrativa… Vi uma pessoa x na internet chamando o disco supracitado como “Iron Maiden com vocais ríspidos” (na ironia) e, nesse aspecto de construção de clima nas composições, até que faz sentido, não? Nas letras também rola aquela aura de contação de estórias e tal

    Atualmente, o pouco que arrisco dos gêneros (em especial do melodeath) me soa muito formulaico, quase forçado mesmo. Até por isso ainda não me animei pra pegar o Reinkaos aí, mas vamos ver…

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    • Diogo Bizotto

      Desde que o Children of Bodom virou referência de death melódico, meu interesse pelo que foi sendo lançado posteriormente foi mirrando, ainda mais considerando a curva descendente do In Flames após uma sequência de discos muito bons. Era a referênca maior, o grupo que me fez conhecer o estilo e explorá-lo. Asseguro, porém, que “Reinkaos” tem personalidade própria, apesar da sonoridade (produção mesmo) não ser nada tão particular assim. Quem espera uma sequência de “Storm…” deve se decepcionar, pois é praticamente outra banda (e não falo apenas de line-up), mas gosto bastante dele; inclusive subiu no meu conceito após as repetidas audições para escrever esta DC. Aliás, o trio completo subiu no meu conceito e “Storm…” tornou-se um dos raros casos de cinco estrelas no meu perfil no RYM (antes eram quatro e meia).

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      • El comentarista

        Pensei no Arch Enemy como a “referência nefasta”, mas o Bodom é correto. Tô vendo que em breve deixarei meu 5 pro Bane também…

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