Por Mairon Machado

Várias biografias são construídas para desmoralizar o artista que está sendo contado sua história. Nomes polêmicos são os principais alvos de escritores por vezes desconhecidos, e que através de informações dispersas, acabam trazendo ao leitor curiosidades nem sempre tão verdadeiras, e gerando desconfortos desnecessários, mas por outro lado, causando o sensacionalismo que acaba fazendo com que o escritor receba louvores e as luzes dos holofotes de uma mídia sedenta por intrigas.
Com o escritor Selim Rauer a coisa foge totalmente disso. Em seu ótimo Freddie Mercury, lançado aqui no Brasil pela Editora Planeta do Brasil em 2010, o francês destrincha detalhes que muitos fãs desconhecem, do ponto de vista de quem viveu um bom tempo com o eterno vocalista do Queen. Esse é o quarto livro do escritor, na época com apenas 30 anos, e que mostra uma ótima desenvoltura através das palavras, fazendo com que a leitura seja muito agradável e rápida.

Queen no Morumbi (à esquerda), em Viena (direita, acima) e Mercury no seu 39° aniversário (direita, abaixo)

Em 320 páginas, divididas em 12 capítulos, Freddie Mercury constrói a vida do cantor desde sua conturbada infância em Zanzibar (atual Tanzânia), passando pela sua adolescência em um colégio interno na Índia, a chegada no Reino Unido – quando Frederick Bulsara adota a personalidade de Freddie Mercury, as influências que ele empregou no grupo Smile, que posteriormente o levaram a ser vocalista do grupo que veio a tornar-se o Queen, o auge da carreira da banda, as brigas que motivaram o lançamento de uma carreira solo, o histórico encontro com Montserrat Cabbalé, registrado no único Barcelona (1987), e os últimos dias de sua vida, quando veio a falecer em 21 de novembro de 1991.
Os doze capítulos formam três conjuntos distintos, que se unem cronologicamente, com o primeiro conjunto concentrando-se do nascimento a chegada de Mercury no Reino Unido, o auge da carreira do Queen e os arrependimentos do músico nos anos 80.

Queen em Amsterdã (esquerda, acima), Mercury e Bowie no Live Aid (esquerda, abaixo), e na turnê de A Kind of Magic (direita)

O grande mérito de Rauer é não envolver-se nas polêmicas, e sim, trazer cronologicamente a história de Mercury. Através de depoimentos de amigos, familiares e músicos próximos ao cantor, o livro vai passando pelos seus olhos como a música de Mercury, revelando curiosidades do início da carreira de Mercury, como o fato do cantor ter passado fome enquanto estudava na escola de artes na Inglaterra, a sua forte personalidade como líder do grupo Ibex, destacando o “nascimento” do famoso semi-pedestal usado como guitarra, uma das marcas de Mercury, o difícil início do Queen, tendo a essencial participação de nomes como David Bowie e Paul McCartney na doação de horas de gravação – o grupo gravava de madrugada, das 3 às 7 da manhã, e diversas vezes, outros artistas “atrasavam-se” no horário das 8 para permitir que o grupo registrasse mais alguma canção – e a criação da obra prima A Night at the Opera (1975).
Nesse ponto do livro, Rauer passa a concentrar-se na vida amorosa de Mercury. Seu relacionamento com Mary Austin é detalhado de forma emocionante, e chega a ser curioso que ainda hoje não tenha sido lançado um filme sobre o casal, bem como a descoberta da homossexualidade. Sem entrar em detalhes polêmicos, Rauer apresenta pinceladas muito aprofundadas da vida privada do artista, que depois de Austin, teve vários relacionamentos – seja com homens, seja com mulheres – os quais nunca vingaram, mas que ajudaram a moldar o caráter fechado e introvertido de Mercury, um artista praticamente oposto à entrevistas.

Queen na The Works Tour (acima); Mercury em Wembley, 1986 (abaixo)

Os anos 80 trazem os dias de Mercury na Alemanha, os exageros pessoais em compras e frases, o alto uso de drogas, principalmente cocaína e álcool, sua infelicidade com o Queen, que o levaram ao registro de Mr. Bad Guy (1985), surgem como os problemas na decadência da fama do grupo, causando alguns fracassos como o criticado álbum Hot Space e muitas brigas internas. Até seu relacionamento conturbado com a atriz alemã Barbara Valentin é resgatado nessa parte do livro, que traz o grupo ao alto do patamar com a estupefante apresentação no Live Aid de 1985. Outro ponto que chama a atenção é quando Mercury encontra Jim Huton, o homem que finalmente colocou Mercury nos eixos, e que ficou com ele até o fim de seus dias.

Mercury em Wembley (acima) e em Tóquio (abaixo)

Complementa o livro a discografia completa do Queen, faixa-por-faixa e trazendo a classificação de cada álbum nos charts de diferentes países, e a de Mercury solo, somente com os charts. Também tem destaque para os singles lançados por Mercury e uma parca sequência de imagens, todas elas presentes nesse post.  O essencial, que é o texto, já vale a aquisição.

2 comentários

  1. André Kaminski

    Sei que normalmente não se pode comentar detalhes muito profundos de um livro pelos spoilers e tal, mas o livro cita algo sobre o disco Queen II ou sobre a faixa “Ogre Battle”? Creio ser a música mais pesada do Queen, e eles simplesmente pararam de tocá-la nos anos 80 creio eu.

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