Editado por Fernando Bueno
Tema escolhido por Diogo Bizoto
Com Alisson Caetano, Davi Pascale, Diego Camargo, Fernando Bueno, Mairon Machado e Ulisses Macedo

O que faz um disco merecer o rótulo de “grande produção”? Qualidade de som muito acima da média, performances perfeitas, atenção aos detalhes, riqueza de dinâmicas, impacto no mercado musical…? Tudo isso e muito mais? Para mim, o maior mérito de uma boa produção é fazer com que as músicas elevem-se a um nível superior, sejam enriquecidas e tenham suas melhores qualidades ressaltadas. A proposta desta edição é indicar álbuns que mereçam ser ouvidos não apenas pela força de suas composições, mas pelo trabalho árduo que músicos, produtores, engenheiros de som e demais técnicos tiveram para que essas canções se tornassem realidade. Não deixem de opinar a respeito de nossas recomendações e indicar as suas!


Steely Dan – Aja (1977)
Recomendado por Diogo Bizotto
Produzido Gary Katz

Não são poucos, felizmente, os álbuns que me vêm à mente quando penso em grandes produções. Nenhum deles, entretanto, com a mesma força de Aja. Suas sete faixas não são necessariamente as melhores que Walter Becker e Donald Fagen já criaram – Pretzel Logic (1974) e The Royal Scam (1976) são tão bons quanto – mas representam o auge de seu perfeccionismo. Ao lado do produtor Gary Katz e de vários engenheiros de som – ênfase para o mestre Roger Nichols – Becker e Fagen atuaram como verdadeiros regentes de uma orquestra de aproximadamente 35 músicos, atuando para que cada detalhe, cada pequeno arranjo fosse perfeitamente encaixado com a visão que tinham de como deveria soar cada canção. Vários dos melhores músicos que Los Angeles poderia oferecer – e muitos mais! – deram as caras em suas gravações. Vários já haviam contribuído em discos anteriores, como Larry Carlton (guitarra), Chuck Rainey (baixo), Michael McDonald e Timothy B. Schmitt (vocais de apoio), além do renomadíssimo e fantástico Bernard Purdie (bateria). Outros deram as caras pela primeira vez. É o caso de Jay Graydon, que venceu uma disputa ferrenha pelo solo perfeito para “Peg”, do fabuloso Wayne Shorter, que em menos de meia hora registrou seu saxofone em “Aja”, e de Steve Gadd, que só faltou fazer a bateria falar, também na faixa título. Todos os elogios a um registro como este podem fazer com que pensem se tratar de um álbum asséptico, frio, excessivamente calculado. Errado. Aja é envolvente, dinâmico, rico em nuances, dono de uma atmosfera que nunca mais foi capturada, nem pelo próprio Steely Dan, e olha que eles tentaram muito com Gaucho (1980). Chamá-lo de jazz rock é um nada. Aja é muito mais do que isso. É rock, é jazz, mas também é funk, soul, blues e deliciosamente pop. Se você conhece a série “Classic Albums”, sabe que se trata justamente de um programa que desvenda detalhes sobre a gravação de grandes discos. Bem, basta dizer que, para mim, não há episódio mais excitante que aquele que aborda Aja, e não são poucas as excelentes edições. Se há um álbum que representa bem o que um artista pode fazer dentro de um estúdio de gravação, esse álbum é Aja.

Alisson: Não tem disco melhor pra ouvir com o seu pai do que esse aqui. E não é nada pejorativo. Se tem algo que esbanja classe, sofisticação e elegância, são os timbres que emanam do disco. Não é preciso ser fã de jazz e AOR, apenas basta gostar de ouvir um bom som para saber que Aja é próximo dos melhores esforços de produção da história.

Mairon: Aja é um trabalho que envolve diversos músicos convidados junto a dupla Donald Fagen e Walter Becker.  Até Wayne Shorter dá as caras durante a faixa título. Foi o primeiro álbum do grupo que eu ouvi, e talvez por isso não tenha levado um choque tão grande de cara. Acho que por ser recheado de baladas melosas ou dançantes, não é um disco que me impressiona. Considero-o fraquinho, mas com uma produção muito boa, é verdade (colocar tantos músicos diversificados em um som de qualidade é raro), mas não é uma audição que eu teria frequentemente, e não consigo entender o sucesso que ele teve. Enfim, para a época que foi lançado, há diversos álbuns similares a esse que também fizeram sucesso. Acho que é a audição que os detratores do flower-power devem se deliciar, comemorando o fim do amor livre e das drogas liberadas em defesa da união estável entre um único casal careta e sem graça quanto Aja.

Davi: Não é à toa que esses caras são referência entre os caras mais exigentes do universo, os audiófilos. Não estou falando daquele cara que coleciona discos e presta atenção em cada detalhe da canção. Estou falando daquele cara que não somente faz isso, como investe uma bela grana em equipamento de som para que tenha a reprodução mais fiel possível, os famosos high-ends. Uma das músicas mais utilizadas por essa moçada, para testar a qualidade do equipamento, é justamente “Deacon Blues” desse álbum do Steely Dan. Os caras faziam um som pop que bebia bastante na fonte do jazz. Sendo assim, os timbres utilizados pelos músicos são bem limpos. A mixagem deixa todos os instrumentos em evidência. Até mesmo o contrabaixo que muitas vezes fica mais escondido, ganha destaque na audição. Faz sentido utilizar um disco desses para testar um equipamento de som. Se não estiver ouvindo alguém é porque há algo de errado. A equalização deles é realmente perfeita. Em relação ao tracklist, minhas preferidas são “Black Cow”, “Aja” e “Home At Last”.

Diego: Mais um dos tantos discos que eu descobri em minhas idas aos sebos de São Paulo e que eu comprei por 1 R$. Aja foi paixão à primeira audição. Cada detalhe desse disco é perfeito. Não interessa quantas vezes eu ouça “Black Cow”, “Aja”, “Peg” ou “Josie”, cada vez é algo mágico e encantador! Um disco que traz tantos detalhes, tantas ideias, tantas nuances, tanta classe, reunidos em pouco mais de perfeitos 39 minutos. A companhia perfeita para esse disco é o DVD da séria Classic Albums onde a dupla mostra diversos detalhes de cada faixa e vários segredos são revelados sobre as gravações do disco. Dupla perfeita, disco e documentário.

Fernando: Ter grandes produções em discos do Steely Dan não chega a ser uma grande novidade. Tudo o que os caras fizeram tinha muito esmero de todos. Assim, acredito que qualquer um até o Gaucho poderia estar aqui, mas é verdade que em Aja eles foram além. Na época do disco a banda já tinha sido reduzida para sua dupla de líderes e eles lançavam mão de inúmeros músicos de estúdio para as gravações. E esse entra e sai dentro do estúdio exige um pulso firme e um direcionamento muito bem definido pelo produtor. Já escrevi sobre o Steely Dan aqui para o site e no texto eu digo que as melodias da banda são tão perfeitinhas que é quase uma covardia com o ouvinte que é facilmente capturado.

Ulisses: É quase impossível encontra um fórum, tópico, discussão ou o que for, envolvendo produção, mixagem ou audiofilia em geral, em que Aja não seja mencionado. E por muito tempo essa foi a fama do álbum pra mim: o disco para se testar sistema de som, o disco que é um orgasmo musical, e etcetera e tal. Mais do que isso, porém, Aja é um disco feito por perfeccionistas, algo que se reflete tanto no tratamento sonoro quanto nas próprias composições. A clareza do registro se une à sofisticação musical do espaçoso jazz-rock, com linhas melódicas perfeitamente colocadas. Um álbum feito meticulosamente por gente que entende do assunto, durante seis meses, em um dos melhores estúdios da época – não havia como dar errado, e ainda assim ele entrou para a história superando as expectativas. Cá entre nós, aprecio o álbum (ou melhor, toda a discografia do Steely Dan) mais pelo que é do que pelo que me faz sentir; para mim ainda é uma experiência mais cerebral do que visceral.


AC/DC – Back in Black (1980)
Recomendado por Davi Pascale
Produzido por Jonh “Mutt” Lange

Muitos podem estranhar minha escolha. Um disco que não traz milhões de efeitos. Uma banda que não utiliza instrumentos estranhos e que é conhecida por sempre ter mantido suas origens. Há quem diga que eles faziam o mesmo disco sempre (maldade), mas aí está o X da questão. Às vezes, o mais simples é o mais complicado. É difícil você criar um enorme impacto no ouvinte com um universo que ele já está acostumado. Back in Black conseguiu isso e até hoje é uma referência. Na minha opinião, um dos melhores sons de bateria da história do rock (ao lado do Van Halen e do Creatures of The Night do Kiss. Até pensei em citar o disco dos mascarados, mas achei que iriam me acusar de protecionismo, então deixei de lado para evitar chororôs). Não estou falando de técnica do baterista. Estou falando do som da bateria. Timbre, captação, definição de bumbo, de caixa. O som é praticamente perfeito. Timbre da guitarra também é perfeito. Não é bunda mole, nem com excesso de graves, o que poderia causar um som embolado. Some isso à um tracklist memorável e o resultado não poderia ser outro. Não somente o mais vendido na carreira do AC/DC, como um dos mais vendidos na história do rock. Merecido.

Diogo: Musicalmente, Back in Black é um bom disco. Não é tudo aquilo que fazem parecer – como a grande maioria do catálogo do AC/DC, soa repetitivo às vezes – mas é um atestado da funcionalidade de sua música, simples e bem estruturada. Alia composições cativantes – dessas que fazem o cara começar a bater o pé sem nem se dar conta – a uma produção magnífica, que ajudou a cimentar de vez o nome do sul-africano Robert John “Mutt” Lange como um dos maiores profissionais do ramo, tanto em qualidade quanto em sucesso. A condução incessante de bumbo e caixa de Phil Rudd soa como o arrimo perfeito que uma banda de rock necessita. O som extraído das Gretsch de Malcolm Young e das Gibson SG de Angus Young é vigoroso, sem saturação excessiva ou qualquer outra característica inadequada ao hard rock potente e blueseiro do quinteto. Mesmo Brian Johnson, um vocalista pelo qual não morro de amores, apresenta grande performance, e isso tem muito a ver com a cobrança incessante de “Mutt” Lange, um perfeccionista na mais plena definição do termo. Todos os hits são bons, mas tenho especial predileção por “Shoot to Thrill”.

Alisson: Entre Highway to Hell e Back in Black, nota-se uma transição clara entre os anos 70 e os anos 80. O anterior mantinha aquele timbre mais seco e ríspido, uma produção mais rústica. Já este é de uma estética mais grandiosa. Timbres mais esmerados e polidos pensados para grandes estádios, mesmo que mantendo a agressividade das guitarras e o ataque direto da bateria. É fácil notar essa transição sonora se pensarmos que em 2008 os seus singles principais foram relembrados para a trilha sonora do filme “Homem de Ferro” sem necessitar de grandes atualizações. Minha produção favorita deles ainda é de seus discos com Bon Scott nos vocais, mas Back in Black ainda é mais bem encaixado como conjunto da obra.

Mairon: O disco que colocou o AC/DC definitivamente no hall das maiores bandas de todos os tempos, e que tirou o grupo de uma profunda crise pós-falecimendo do vocalista Bon Scott. Não me deterei nas músicas nesse Recomenda, mas na qualidade geral da produção do álbum em questão, e Back in Black tem uma produção gigantesca. As distorções dos irmãos Young, a coisa precisa de Phil Rudd e Cliff Williams e o vocal esganiçado de Brian Johnson, estão todos impecavelmente audíveis. Os sucessos que Back in Black gerou (a faixa título, “Hell’s Bells”, “Shoot to Thrill” e “You Shook Me All Night Long”, entre outras) criou uma banda praticamente nova, mais pesada e hard, concentrando-se em riffs e refrãos grudentíssimos, do que o blues rock de letras sacanas que sobressaía-se nos discos anteriores. E isso reflete no fato de Back in Black ser um dos três discos mais vendidos de todos os tempos, ultrapassando a marca de 50 milhões de cópias. Uma aula de produção, criação e de como ganhar dinheiro com um investimento certeiro.

Diego: É verdade que Back In Black é um clássico! É verdade também que o disco é provavelmente o pico da carreira da banda, tanto em criatividade quanto em popularidade! Mas é verdade também que, sonoramente falando, o disco em nada se diferencia dos anteriores (ou posteriores), além do vocal de Brian Johnson, claro. Não há muito o que eu possa dizer sobre esse disco, é uma bordoada na orelha do começo ao fim com um dos momentos mais interessantes da carreira do AC/DC. E isso não é pouca coisa!

Fernando: Back in Black tem tantos clássicos que fico me perguntando se seria o enorme sucesso que foi se tivesse sido produzido pelo primogênito dos irmãos Young como foram os primeiros álbuns. O quanto Mutt Lange modificou as músicas das versões iniciais para o que ficou para posteridade. Claro que ele já tinha produzido Highway to Hell. Mas tem também a morte de Bon Scott. Quanto esse fato influenciou os fãs a comprar o disco? Eu adoro o disco, considero o melhor do grupo junto do já citado Highway to Hell, mas sempre me surpreendo quando lembro que esse foi um dos discos mais vendidos da história. Aliás aqui nessa edição da série temos um outro que foi um dos mais vendidos também. Certa vez ouvi que o Motorhead ajustava o equipamento nas passagens de som com esse disco. Não sei se é só um mito, mas faz sentido.

Ulisses: Ótima indicação, cheguei a pensar nele também. Um baita exemplar de álbum que conseguiu captar aquele som genuinamente ideal e poderoso do rock. A sonoridade se aproxima de ser ao vivo – sem compressão, com pouquíssimos overdubs, ao passo em que os efeitos como reverb e eco estão presentes de maneira discreta (os Young não gostam disso escancaradamente). O disco soa muito bem independente da fonte que se use para tocá-lo, combinando a espacialidade potente da gravação com a pegada forte, rítmica e precisa da banda. É produção de referência para o hard rock.


Madonna – True Blue (1986)
Recomendado por Mairon Machado
Produzido por Madonna e Patrick Leonard

Ao receber o tema desse recomenda, o primeiro nome me soou tão óbvio que descartei-o imediatamente. O segundo considerei longo demais (mas visto por outras duas indicações, poderia ter entrado fácil aqui), daí veio o terceiro, aquele que fez o Pop ainda mais Pop, e que criou uma Rainha: True Blue. Antes dele, Madonna era apenas uma garotinha pobre que tinha conseguido uma atenção da mídia com alguns sucessos. Mas é em True Blue que as rádios, a imprensa e o mundo se rende para a loira. Sua voz agora está pronta para seduzir ouvidos, os arranjos estão prontos para balançar o corpo, os refrãos estão perfeitos para grudar na mente, tudo graças ao talento incomparável de Madonna ao lado do inigualável Patrick Leonard, o maior nome da música Pop nos anos 80. Claro, a participação do também monstruoso Stephen Bray é importante, mas Madonna e Leonard são os principais produtores do disco, principalmente a própria. O lado A de True Blue é simplesmente de tirar o chapéu e venerá-lo durante eras. Cada faixa é certeira, envolvente, e ainda com novidades (orquestra em “Papa don’t Preach”, percussão latina em “Open Your Heart”, guitarra pesada em “White Heat” e “Live To Tell”, simplesmente a faixa que Dave Marshall (conhecido crítico de música dos EUA) colocou como uma das Melhores de Todos os Tempos, e ainda afirmou: “Se não houvesse tanto preconceito contra a sexualidade de Madonna, ‘Live to Tell’ deveria ter sido uma das 10 músicas pop dos anos 80. O lado B é igualmente fantástico, mas não vou deter-me mais em falar das músicas. Letras de amor, problemas sociais e feminismo, algo revolucionário para a complexa geração de jovens mulheres dos anos 80, deram início a uma importante mudança no paradigma social mundial do papel da mulher junto à sociedade. Ouvidos mais atentos irão perceber que há nas músicas do álbum diversas referências à música clássica, uma forma de tornar Madonna mais “adulta”. Aqui, Madonna fez a façanha de se tornar número um em tabelas de vendas musicais de vinte e oito países ao redor do mundo. Ninguém tinha feito isso até então, só ela. Essencial, fundamental, sucesso fácil e de diversas audições garantidas para quem não for METALCEFÁLICO.

Diogo: Quando penso em uma produção realmente bem sucedida, penso em discos cuja sonoridade superou o teste do tempo e continua com surpreendente frescor, mesmo muitos anos após o lançamento. Não importa o gênero musical, o que vale, acima de tudo, é qualidade acima de qualquer suspeita, bom gosto e adequação à proposta. Álbuns como Rumours (Fleetwood Mac, 1977), Powerslave (Iron Maiden, 1984), Sign ‘o’ the Times (Prince, 1987) e The Chronic (Dr. Dre, 1992), apenas para pegar exemplos distintos, traduzem bem essa asserção. Por que estou dizendo isso? Pois True Blue, apesar de ser um disco produzido decentemente e condizente com sua época, é bastante arraigado ao seu tempo, e isso fica evidente em muitos detalhes. Veja bem, isso não é necessariamente ruim. Gosto muito de como soam vários álbuns bastante datados, vide Leftoverture (Kansas, 1976), Rage for Order (Queensrÿche, 1986), Somewhere in Time (Iron Maiden, 1986) e muitos, muitos outros. Difícil mesmo é não datar. True Blue é, apesar disso que citei, um disco gostoso de se ouvir. A mistura de instrumentos acústicos e elétricos, sintetizadores e cordas funciona relativamente bem, ficando mais evidente – e muito bem aplicada – em “Papa Don’t Preach” (a introdução é ótima). Minha favorita, porém, é a balada “Live to Tell”, datada até o osso. “La Isla Bonita” é pura diversão. Penso que Like a Prayer (1989) seria uma escolha mais adequada a esta edição.

Alisson: Este é um disco que merece ser colocado em perspectiva temporal. Para os padrões de música pop que estamos acostumados atualmente, parecem timbres um tanto datados. Entretanto, são timbres que soavam acima da média para as produções do período. É vibrante, colorido e consegue destacar os vários elementos e instrumentos usados em cada faixa, sem sufocar o talento vocal da Madonna em momento algum. É um bom disco para ser transportado para os anos 80, de fato, tanto pela força de seus singles principais quanto pela sonoridade imediatamente associada ao período.

Davi: Existe quem não goste do som dos anos 80. Como cresci nessa época, gosto muito da sonoridade dessa época. E Madonna foi uma artista que cresci ouvindo. Os primeiros artistas pop que me liguei foram Michael Jackson, Madonna e Prince. Nessa época, entre os artistas pop, havia uma grande preocupação em se criar hits, singles, para que continuassem em evidência. Ela conseguiu vários aqui: “Live To Tell”, “Papa Don´t Preach”, “La Isla Bonita” e “Open Your Heart” foram enorme sucesso e hoje são considerados clássicos da rainha do pop. A bateria misturava som de bateria acústica com programação, o que ajudava a não deixar um som pasteurizado. O teclado tinha bastante destaque. As linhas vocais não eram repletas de efeitos. Embora nunca tenha tido um grande alcance vocal, Madonna soube trabalhar bem com sua limitação. As linhas vocais são bem agradáveis. Algumas músicas como “Jimmy Jimmy” fazem bastante uso de sintetizadores. No clássico “Papa Don´t Preach” gosto muito do baixo funkeado que marca a canção. Porém, quem quiser ter uma noção do que era a música pop da época, basta ouvir a faixa-título ou a linda “Live to Tell” com atenção. Todas as características da mixagem da época estão ali.

Diego: Eu ouvi o primeiro disco da Madonna (que é fraco) e ouvi o Ray Of Light (um bom disco), fora isso eu nunca tive interesse na cantora, e ainda não tenho. Quando esse disco pintou na lista eu pensei comigo mesmo: “Será que esse é um dos que todo mundo comenta que foi uma virada na carreira dela”? Ao ouvir o disco eu constatei que… não. É mais do mesmo e a produção, apesar de bem feita, não passa de uma produção igual de tantos outros discos dos anos 80, com som datado e com timbres que estavam presentes em todos os outros discos que venderam muito na mesma época. Segundo o tema do Recomenda, os discos escolhidos seriam grandes produções, aquelas que atingiram um pico de qualidade não alcançada antes, especialmente por aquele determinado artista. Não vejo nada disso em True Blue. Volto a repetir, o disco tem bons timbres (pros anos 80), uma boa produção, mas nada demais e nada que outras bandas/artistas do mesmo período não tivessem alcançado. Não apenas isso, as canções são… chatas. Até os hits ‘Papa Don’ Preach’ e ‘La Isla Bonita’ não são grande coisa, e quando um artista que vive de singles tem singles meia-boca você sabe que a coisa tava feia…

Fernando: Estou longe, quilômetros de distância, de ser o fã que o Mairon é da Madonna. Já disse várias vezes que não desgosto, mas é algo que dificilmente vou ouvir a não ser que esteja tocando em algum lugar público que eu estiver. E é preferível que esteja tocando isso do que o pop atual. Impressiona saber que ela é um das produtoras do álbum, aliás, algo normal em sua carreira, mostrando que artistas completas como ela já não se encontram mais hoje em dia. Basta saber que em um disco da Beyoncé ou Katy Perry pode haver, as vezes, mais de uma dezenas de produtores. Foi legal ter ouvido o álbum, “Live to Tell” é ótima, principalmente aquelas músicas que não tocam tanto.

Ulisses: O sucessor de Like a Virgin (1984) é uma avalanche pop bem construída que dialoga com diversas facetas da música, encaixando alguns poucos elementos de música clássica (“Papa Don’t Preach”) ou latina (“La Isla Bonita”) em meio às batidas dançantes dos sintetizadores. Liricamente, Madonna vai da inocência da faixa-título à polêmica de “Papa Don’t Preach”, tendo participado da composição de todas as faixas. Típico álbum em que todos os seus aspectos convergiam para o sucesso no mainstream, e ninguém precisa morrer de amores pelo disco para perceber isso.


Pink Floyd – The Dark Side of the Moon (1973)
Recomendado por Ulisses Macedo
Produzido por Pink Floyd

Sob o risco de me tornar o maior Capitão Óbvio da série, sugeri um álbum bem manjado para o tema da vez. Simplesmente porque foi o álbum a me ensinar o que é uma grande produção, me forçando precocemente a pesquisar mais sobre os detalhes de todos os aspectos de sua criação. Já que o Diogo pediu por “picos de qualidade sonora poucas vezes atingidos, seja em termos de dinâmica, timbres, mixagem, definição, impacto”, o TDSotM marca todas as caixinhas. É um primor que une de forma orgânica melodias e harmonias com uma atmosfera única, atingindo o objetivo proposto por sua temática – os espectros da existência e experiência humana – através de inúmeras inovações e criatividades no estúdio, fazendo com que composições que inicialmente não são extremamente complexas ganhem efeitos, texturas e timbres pioneiros, através do uso de samples em loop, gravações multicanal, equipamentos topo de linha (como o sintetizador EMS VCS3 utilizado em “On the Run”) e, claro, a criatividade na hora de produzir os sons “na mão”, como os inúmeros alarmes de “Time” e as moedas de “Money”. Sim, pois o mérito de Dark Side é ser tanto uma cria de tecnologia do estúdio quanto da genialidade dos músicos e do engenheiro de som Alan Parsons, algo que perpassa desde a ideia de Roger Waters de entrevistar pessoas com perguntas pertinentes ao tema do álbum – e colocar ali suas respostas – até o inacreditável improviso em take único de Clare Torry em “The Great Gig in the Sky”.

Diogo: Fico feliz que vários colegas não tenham se furtado a indicar discos tidos como óbvios. Uma edição dedicada a grandes produções não poderia de jeito algum deixar de contar com clássicos indiscutíveis, daqueles que ajudaram a moldar a forma como ouvimos música. The Dark Side of the Moon, obviamente, é um deles. Ao lado de Alan Parsons, engenheiro de som, a banda soube usar o estúdio de uma forma poucas vezes experimentada com tanto êxito e ousadia, trabalhando com efeitos sonoros diversos, sintetizadores e loops de forma a construir uma obra que vai muito além dos instrumentos habitualmente tocados por seus integrantes, formando camadas de texturas que transportam suas canções a outros níveis. É admirável que um álbum gravado há 45 anos soe mais fresco que muito material lançado décadas depois. Não posso deixar de citar também o fato do grupo ter aliado ambição e acessibilidade de forma a fazer com que o disco se tornasse um sucesso massivo. “Money” e “Time” fecharam maravilhosamente com o público, mas é em “Us and Them” que The Dark Side of the Moon tem seu auge, com as vozes de David Gilmour e Richard Wright mesclando-se de maneira majestosa.

Alisson: Além de todos os méritos ao grupo por ter conseguido um resultado perfeito na produção, é preciso elogiar a equipe de engenheiros de som e o pessoal da mixagem desse disco. Anos à frente de qualquer coisa antes testada em termos de captação de sons e qualidade de reprodução, o disco ainda parece arrebatador de se ouvir até para os dias de hoje, sem ter precisado de grandes remasterizações, já que na época ele já havia sido pensado para equipamentos de som robustos e sistemas de som quadrifônicos, mesmo que uma mísera parcela de ouvintes tivesse o sistema para poder desfrutar 100% da experiência do disco. Falar sobre qualquer aspecto artístico do deste é redundância, pois já foi feito de forma bem mais eficiente por outras pessoas.

Mairon: Um álbum com produção impecável e que foi o primeiro nome a me vir na mente quando foi proposto esse recomenda. Era muito óbvio, e daí escolhi outro. O que Waters, Gilmour, Wright e Mason fizeram aqui é uma aula de produção, ao lado do ainda não-renomado Alan Parsons. Experimentando tudo o que estava sendo disposto em termos de tecnologia, e ainda implementando saxofones, vocalizações femininas, melodias suaves e muita inspiração, o Pink Floyd (Waters principalmente) criou um disco conceitual, e que popularizou a banda e o rock progressivo em todo o mundo, e que veio posteriormente a ser o pivô da criação de estilos como o AOR e o soft rock. Ok, o progressivo já estava em alta antes de 1973, mas depois que Dark Side chegou às lojas, e ficou na lista dos mais vendidos por 741 semanas seguidas, não havia pessoa no planeta que não conhecesse o nome Pink Floyd. “Time”, “Money”, “Us and Them”, “Breathe”, “The Great Gig in the Sky” e todas as demais faixas contam com uma sábia e exclusiva produção musical, que passam fácil pelos ouvidos, e melhor, agradando imediatamente. Cada pequeno detalhe inserido em cada uma das canções é único, especial, e incrivelmente fascinante. Não é a toa que é um dos três discos mais vendidos de todos os tempos. É impossível não se render a audição desse disco, mesmo quem não curte um rock ‘n’ roll. Indicação fácil fácil para essa lista, e que tem que estar presente em todas as casas do mundo, assim como em faculdades de arte e história.

Davi: A pessoa que indicou esse disco acertou em cheio. Do mesmo jeito que o som de bateria do AC/DC é um exemplo no campo do rock pesado, o som de guitarra de David Gilmour é uma referencia na história do rock. Mas essa não é a única marca desse disco. O uso de looping, delay e reverb que hoje são tão comuns, nessa época era inovador. Outro ponto a favor é que mesmo tendo a oportunidade de trabalhar com essas técnicas e acrescentá-la ao seu som, os músicos tiveram o cuidado de não exagerar nesses recursos a ponto de deixar com que os efeitos falassem mais alto do que a musicalidade. Foi colocado tudo com enorme cuidado. Está tudo no ponto certo. Assim como a mixagem. Nos momentos que temos a banda toda tocando, os volumes foram colocados de um modo que todos os instrumentos fossem perceptíveis e nenhum se destacasse mais que os demais. Agora, é claro, nos solos eles sobem um pouquinho o volume do camarada. E nesses momentos podemos notar aquilo que comentei lá em cima. O timbre da guitarra de David Gilmour era um grande destaque no conjunto.

Diego: Me chamem de velho. Eu não ligo. Mas  é perfeito! É impossível, pra mim, descrever em palavras a experiência de ouvir o disco do começo ao fim pela primeira vez. Um disco mágico, daqueles que mudam a história da música e que tem o poder de mudar vidas (por mais piegas que isso possa parecer). Perdi a conta das vezes que ouvi o disco só com a luz de um abajur e cada vez ele me levou para uma viajem. E não são muitos os discos capazes disso

Fernando: Talvez o melhor álbum de todos os tempos. No mínimo Top3. Todo mundo fica com receio de recomendar um clássico para essa série de publicações, mas esse não poderia ficar de fora, principalmente com um tema desse. Foi o primeiro que pensei e só não fui eu o responsável pela indicação por que deixei todo mundo mandar as suas antes de escolher a minha. Privilégios de editor da matéria! Esse foi o primeiro disco que eu percebi o quanto é importante a produção em um disco. No início temos uma visão meio romântica de que a banda entra em estúdio, toca a música e grava o disco. Claro que não é bem assim. Foi quando vi pela primeira vez o Live At Pompeii em que tem imagens da banda trabalhando em estúdio para o Dark Side of the Moon. Imaginei o tempo que foi investido nas experimentações que Waters estava testando. E na época os equipamentos eram todos analógicos o que requer uma maior precisão em tudo o que se está fazendo. E o melhor de tudo; o resultado de todo esse trabalho é simplesmente maravilhoso. O trabalho feito nos possibilita até a dizer que eles usaram todos os recursos do estúdio quase como outro instrumento.


Ramones – End of the Century (1980)
Recomendado por Fernando Bueno
Produzido por Phil Spector

Quando ouço esse disco eu lembro do famoso lema do punk “do it yourself”, ou “faça você mesmo”, justamente pelo fato de uma banda punk já não conseguir fazer sozinho o que ouvimos nos sulcos desse LP. Já em “Do You Remember Rock ´N´Roll Radio” temos os metais adicionado para fazer quase que toda a melodia da música. Se você apenas ouvir o álbum pode achar um exagero ele ter sido indicado nesse tema. Afinal uns metais aqui, uma orquestração ali e uma pitada de overdubs talvez não seja o exemplo de grande produção, mesmo que isso seja algo fora dos padrões considerando os parâmetros do punk rock. Para quem tem quase nada, um pouco proporcionalmente fica enorme. Até por isso resolvi escolher esse disco, um pouco pela provocação aos meus colegas consultores. Além do mais, Phil Spector tirou o que pode dos rapazes da banda, algo que eles nunca tinham sido exigidos e quem mais sofreu no processo foi Johnny que teve que repetir à exaustão suas partes até conseguir os takes perfeitos que o produtor esperava. Phil Spector aparece no documentário da gravação desse disco apontando uma arma para Dee Dee Ramone. Mesmo as faixas mais diretas soam redondinhas. Mas alguns fãs chegaram a pedir uma versão “pura” do álbum. Exagero?

Diogo: Fiquei um tanto surpreso quando vi End of the Century entre as indicações. Sim, pois o quinto álbum dos Ramones é uma evidente tentativa de elaborar uma grande produção, mas uma tentativa que falhou. Os métodos de Phil Spector podem ter dado certo com vários outros artistas, mas acabaram soando inadequados à crueza dos Ramones, que não precisava de um caminhão de overdubs para fazer um grande álbum. Basta ouvir o disco imediatamente anterior a este, Road to Ruin (1978), produzido por Tommy Ramone e Ed Stasium, para perceber como ele soa mais “certo” para uma banda como essa. Gosto do disco e não posso negar que ele tem até um certo charme com seus ecos, violões e solinhos em overdub (obviamente não tocados por Johnny), mas sua força maior reside nas composições. “I’m Affected” e “Chinese Rocks” são especialmente sensacionais. Se a intenção era galgar o mainstream, parece que não deu muito certo, apesar do relativo sucesso. Embora sua produção também tenha ficado devendo, acredito que Graham Gouldman – outro profissional menos acostumado com sonoridades mais agressivas – que assinou Pleasant Dreams (1981), compreendeu a banda um pouco melhor.

Alisson: Na teoria, ter um produtor responsável por grandes sucessos radiofônicos do rock dos anos 60 além de ter no currículo discos lendários, como Let it Be dos Beatles e Plastic Ono Band, estréia solo de John Lennon, na produção de um disco dos Ramones era a escolha perfeita. Na prática, as sessões de gravações se tornaram um inferno. Johnny nunca escondeu que sempre odiou a figura de Phil e sua personalidade tempestiva. Seja como for, Phil pesou a mão para valer no resultado final, deixando sua marca como produtor de maneira intensa nos 50 minutos de End of the Century. Conhecido por ser um dos mentores do wall of sound, Spector deu uma nova dimensão ao som do quarteto. Arranjos mais bem elaborados, guitarras carregadas de efeitos e eco e até uso de elementos jamais pensados em um disco dos Ramones, como naipes de metais e backing vocals para além do 1,2,3,4 proferido por Dee Dee. Mesmo contendo clássicos como “Rock n’ Roll High School” e “Chinese Rock”, faltou muita coesão. Muitos elementos e camadas sonoras acabam prejudicando músicas que já eram boas por si só. Aquela crueza natural dos primeiros registros foi completamente limada. Essa decisão comercial matou quase que por completo a autenticidade natural do quarteto, deixando o registro com cara de inflado e repleto de arroubos desnecessários. Caso queira ver o real potencial de suas principais faixas, recomendo que procure-as em suas respectivas versões ao vivo, como as presentes nos discos Loco Live! e We’re Outta Here!.

Mairon: O punk rock foi caracterizado por sons sujos e mal produzidos. Mas isso, só com bandas brasileiras. Os álbuns das bandas ícônicas no estilo, como Sex Pistols, The Clash, Television e claro, Ramones, sempre foram de grande produção. End of the Century é um belo exemplo disso. Nunca o punk foi tão pop. Afinal, os caras colocaram metais e teclados em “Do You Remember (Rock ‘n’ Roll Radio)”, pianinho elétrico em “Danny Says” e “I Can’t Make It on Time”, e orquestras na cover das Ronettes, “Baby I Love You”. Ok, tem algumas faixas mais “podres”, mas nada que soe agressivo ou visceral. Magistral trabalho de Phil Spector, e uma obra seminal no punk mundial.

Davi: Nesse álbum, os Ramones contaram com as mãos de Phil Spector na produção do álbum. Não há dúvidas que Spector era um gênio. Adoro o trabalho que ele fez em grupos como The Ronettes, The Crystals e Ike & Tina Turner. Entretanto, algumas vezes, acho que ele erra. Não gosto do som que tirou em Let It Be (Beatles) e nesse disco do Ramones, olhando pelo ângulo da produção, há erros e acertos. Mais uma vez, o disco é um clássico, Ramones foram geniais dentro do seu universo e o tracklist possui verdadeiras pérolas. Algo muito bacana nos Ramones é a crueza, a agressividade e Spector é conhecido por seu perfeccionismo. Isso, automaticamente, traz alguns conflitos. Ele tentou fazer uma aproximação do som dos rapazes com o pop. Em alguns casos, funcionou. “Do You Remember Rock n Roll Radio” é perfeita. O teclado de “I Can´t Make It On Time” ficou espetacular. O mesmo não posso dizer dos teclados inseridos em “Baby, I Love You”. Teria funcionado muito bem com os Carpenters ou com a Carly Simon. Nunca com os Ramones. Também teria deixado o volume da bateria pouca coisa mais alta. As palmas inseridas em “The Return Of Jack and Judy”, por outro lado, foi uma sacada sensacional. O disco realmente é muito bom, mas a produção acho que tem acertos e erros. Tem alguns momentos que acho que ele exagerava nos elementos adicionais.

Diego: O Ramones era uma banda crua punk. Ponto. Mas ao ver todos os outros contemporâneos punks terem sucesso e eles não, algo ficava no ar e o gosto de fracasso apertou os corações dos moçoilos. Em Road To Ruin (meu favorito da banda), de 1978, a banda já dava uma guinada em seu som tendo várias faixas mais suaves e mais melódicas. Em 1980 a banda escancarou e ficou claro que eles estavam buscando o mercado de massa. Chamaram Phil Spector pra produzir o disco e End Of The Century era lançado em 15 de fevereiro de 1980. A banda escancarou toda a vontade de ser pop nesse disco e a presença da famosa marca registrada de Phil (a wall of sound) se faz presente de maneira até incomoda por diversas vezes. As faixas do disco são, como sempre, ótimas faixas com a característica dos Ramones, mas a produção que tentava deixar a banda mais acessível desfigurou demais o som da banda, fazendo com que End Of The Century seja um grande alien na discografia mais antiga do grupo. Longe de ser um disco ruim. Mas não é o primeiro disco que eu coloco pra tocar quando eu quero ouvir Ramones.

Ulisses: Nunca me passou pela cabeça considerar End of the Century como uma grande produção. Inusitada, certamente, por tornar o som dos Ramones mais polido, cheio de camadas e instrumentos adicionais nas canções. O punk veloz do quarteto permanece competente, como se ouve em faixas como “Do You Remember Rock ‘n’ Roll Radio?”, “Chinese Rock” e “Let’s Go”. As açucaradas, chatas e forçadas “Danny Says” e “Baby, I Love You” descem o nível do álbum para baixo, e o restante não cheira e nem fede. No mínimo é o álbum que gera as discussões mais acaloradas dentro da fanbase do grupo, tendo tanto detratores quanto apreciadores.


Swans – The Seer (2012)
Recomendado por Alisson Caetano
Produzido por Michael Gira

Em algumas entrevistas, Michael Gira chegou a afirmar que as composições de The Seer levaram algo próximo de 30 anos para ficarem prontas, a mesma longevidade de seu projeto principal. Cada ideia e inspiração de seus discos passados parecem convergir em passagens e ataques sonoros que não devem ser encaradas exatamente sob a ótica de músicas com estruturação tradicional. A realidade é que discos assim são complicados de se analisar através de uma ótica muito técnica. Cada faixa, da abertura com “Lunacy” ao encerramento apoteótico com “Apostate”, são experiências imersivas através das intensas progressões à base de muita improvisação e crescendos instrumentais, onde a imprevisibilidade é certa, apenas sabemos que a conclusão é sempre para um apogeu de sentimentos niilistas. Para compor todas as peças desta obra, Gira usou um número absurdo de instrumentos ecléticos. Gaitas de fole, teclados, sintetizadores, dulcimer, instrumentos percussivos, além dos tradicionais baixo e guitarras. Estruturar toda essa confluência de instrumentos diversos em camadas e fazer com que isso tudo ganhe coesão e um sentido é o desafio maior do projeto, que foi alcançado com uma produção ví­vida e que sempre surpreende o ouvinte com soluções de produção criativas e pelas camadas e blocos musicais que vão desenrolando a cada segundo que transcorre – não por menos o único responsável pela produção do disco foi o próprio Michael Gira. O disco é longo e sua audição é realmente penosa, como é a intenção de seu criador. Muitos reclamam que as faixas “não chegam a lugar algum”. Tudo o que tenho a dizer é que a música aqui registrada é o mais próximo que podemos chegar de algo ritualístico, a interpretação, portanto, será baseada nos sentimentos que a música lhe provocou, da mesma forma que uma arte abstrata ou um filme do David Lynch.

Diogo: Haha, eu sabia que um álbum assim apareceria. Vejam bem, eu não acho que um disco precisa necessariamente ser integrado por canções. Vários artistas, inclusive alguns bem famosos, são prolíficos em criar paisagens musicais belíssimas, sobre as quais não precisam pairar estruturas habituais, melodias confortáveis e muito menos letras que façam algum sentido que não seja puramente fonético. Apenas para citar um grande exemplo, lembro que Low (1977) e Heroes (1977) estão entre os melhores lançamentos de David Bowie. The Seer não é um álbum ruim, mas se perde em repetições excessivas, que minam faixas que poderiam ser de melhor serventia caso formassem um disco simples, não duplo. Faixas como “93 Ave. Blues”, “A Piece of the Sky”, “Apostate” e a própria faixa-título, com seus 34 minutos, funcionariam como trilhas sonoras decentes, mas mesmo assim excessivas. Sobre a produção, bem, sinceramente, não chamou minha atenção em especial. Ouvi-o duas vezes para elaborar este comentário e não pretendo escutá-lo novamente; talvez apenas a longuíssimo prazo.

Mairon: Tudo o que eu ouvi do Swans sempre foi grandioso. O seu álbum To Be Kind (2014) gerou até uma polêmica com um certo blogueiro aí, e eu curti bastante. Eu não conhecia o The Seer até ouví-lo para esse recomenda. Achei-o bem diferente dos outros que já tinha ouvido (o citado To Be Kind e o loucaço The Glowing Man), mais musical e melódico. Gostei muito do disco, e a produção, como sempre, é digna de nota. Diversos instrumentos “inusitados” surgem na audição. Em especial, a louca faixa-título, com mais de meia hora de duração, foi a primeira grande orgia musical que tive em 2018. Que música sensacional e viajante! As duas outras “suítes” (“A Piece of the Sky” e “The Apostate”) também são magníficas. É um disco complexo, um pouco longo e exagerado, necessita de muita atenção, mas ao mesmo tempo, um disco mágico e hipnotizante. Para poucos loucos como eu, que me encantei com essa obra aqui.

Davi: Já vi muita gente rasgando elogios à essa banda, mas nunca consegui me emocionar. Nunca ouvi nada que me fizesse pensar ‘uau, preciso desse disco para ontem’. Sem dúvidas, é muito bem feito e devemos aplaudi-los por serem ousados. Eles trabalham com bastante mudança de andamento, dissonâncias, linhas vocais incomuns. Esse lado acho realmente bacana Esse disco, em especial, tem bastante efeitos. É um disco que sei que seus admiradores têm ele lá em cima, portanto não me surpreende sua citação. Mas para quem nunca ouviu nada deles, acho um trabalho difícil. Em termos de produção, os efeitos estão bem colocados, a voz está bem agradável, mas o som da bateria me incomodou um pouquinho. Pelo menos, ouvindo pelo PC (não tenho esse disco na minha coleção). Teria colocado mais grave no bumbo e deixado a caixa mais seca. Mas, isso, óbvio, é questão de gosto pessoal. Ainda mais, no meu caso, que sou baterista. A mixagem é mais moderna e para quem curte esse tipo de som, diria que está bem produzido. Curiosamente, o lobo da capa é bem old school. Me lembrou aqueles lobisomens que apareciam nos filmes dos anos 80, tipo “Garoto do Futuro”. Curioso…

Diego: Na minha opinião música pode ir aonde quiser e pode ter a forma que os músicos escolherem. Não há regras. No entanto, existem regras pra mim. Existem também, muitos e muitos ouvintes que seguem certas publicações/sites e que gostam de ser ‘diferentes’, assim, no final das contas, eles acabam entrando em um mundo alternativo, junto de diversos outros ouvintes. No final de tudo existe uma legião de ouvintes alternativos que ouvem e endeusam a mesma coisa… Bom, o porque desse texto ‘nada a ver com nada’ no começo do texto? Porque pra mim o Swans sempre esteve nessa categoria: música pra gente que é alternativa, mas não é. Que quer fazer música estranha e diferente só pelo simples fato de querer ser diferente. Ponto. É isso que The Seer me mostrou. Tentei ouvir o disco sem pré-concepções, talvez estivesse ali um bom disco pra ser descoberto (finalmente) por mim. Não. Engano. Canções que são longas simplesmente ‘porque sim’, não porque existe um propósito. Músicas que saem do nada e chegam a lugar nenhum (“The Seer”, a música sendo o exemplo perfeito dessa minha colocação). E no final do disco fica aquela sensação: esse disco existe pra que mesmo? A discografia da banda é toda ‘hypada’ e os alternativos adoram adorar a banda. Ah, dizem que eles são influência de muitas outras bandas modernas e igualmente ‘cool’ mais novas que, também, só fazem barulho ou simplesmente colocam colagens de sons aleatórios em seus discos. Fico imaginando se The Seer tivesse sido fosse gravado sem a pretensão, sem toda a ‘vibe cool’, sem a intenção de ser ‘legal’. Imagino que teria sido um bom disco, porque há diversos bons momentos que são simplesmente destruídos pela pretensão. Em termos de produção e apogeu da banda em questão, não faço ideia. Nunca ouvi Swans antes e não pretendo ouvir de novo, então…

Fernando: Não gostei do Swans das outras vezes que ouvi. Eu até poderia reclamar do tempo total do disco, mas acabei ouvindo esse depois de outro disco aí e agora perdi até o argumento. Porém aqui o caso é diferente. Experimentações musicais durante duas horas é demais. Por ser um tipo de música difícil de assimilar é complicado ficar focado por todo esse tempo. Tem uma sequencia que inicia pouco antes dos 3 minutos da música “Mother of the World” que fica repetindo um riff simples em loop e aquilo vai se estendendo e parece que não tem fim e isso exemplifica bem o que estou querendo dizer. Será que tem a necessidade de um trecho tão longo assim que serve apenas como uma transição entre uma parte e outra da música? Isso diz muito sobre o disco e o grupo. Se alguém fizer um resumo das partes realmente boas do disco, por que elas existem, tenho certeza que ficaria ótimo. Mas se tiver que analisar como um todo eu continuo não gostando do Swans.

Ulisses: Sem dúvidas o mais desafiador dos álbuns indicados aqui. The Seer é um álbum grandioso (são duas horas de duração) cujo grande truque é (tentar) colocar o ouvinte numa espécie de estado de transe através de sua densa atmosfera hipnótica, com escassa presença de versos cantados, mas com uso constante de noise, drone e elementos tribais, além de uma certa vibe do rock progressivo. O disco é longo e repetitivo, não sendo uma audição para todos e nem para qualquer lugar e qualquer momento. Há muitas passagens inquietantes ou intimidadoras aqui, abrindo territórios até então pouco explorados, e nisso reside o mérito do disco, que julgo até possuir uma estética interessante, mas que certamente agrada a poucos.


XII Alfonso – Charles Darwin (2012)
Recomendado por Diego Camargo
Produzido por XII Alfonso

O XII Alfonso é uma banda Francesa formada no final da década de 80, mas eles gravaram seu primeiro disco apenas em 1996. E, para dizer a verdade, era tudo que eu sabia sobre eles até ouvir Charles Darwin em 2012. Bom, eu sabia que eles eram franceses e que eles tinham um disco chamado The Lost Frontier que eu tinha ouvido e não tinha gostado muito. Como eu não havia gostado do disco de estreia deles, eu não acompanhei mais nada da banda desde então. Mas a verdade é que eles nunca pararam. Desde 1996 eles lançaram 6 álbuns antes desse disco e lançaram mais um em 2016 chamado Djenné. Foi quando eu fui contatado pela banda em 2012 e eles me enviaram esse CD pra resenha. Dizer que Charles Darwin é um projeto completamente original seria uma mentira. Muitos álbuns conceituais sobre personagens famosos da história mundial foram gravados durante os anos, especialmente no Rock Progressivo. O próprio XII Alfonso já fez isso com seu disco (dividido em duas partes) sobre Claude Monet em 2002 e 2005. Mas nesse disco a banda alcança um nível completamente novo! Charles Darwin não é apenas um álbum conceitual, é uma grande trabalho artístico em formato de musical. Baseado no livro “A Origem Das Espécies”, escrito por Darwin e lançado em 1859, o álbum é dividido em uma jornada de 3 discos através da vida naturalista, cada movimento que ele fez para cumprir seus objetivos e fazer suas descobertas foi coberto nesse trabalho ambicioso e envolvente. Cada álbum cobre um período da vida de Darwin e cada um deles tem uma hora de música, 3 horas de música no total. Essa é o único ponto negativo do disco, mas deixa eu explicar primeiro. Eu adoro esses projetos conceituais e adoro obras complexas, mas 3 horas de música é demais para ouvir de uma só vez, então se faz necessário a digestão do disco em partes. Uma coisa que torna todo o projeto ainda mais especial é o pacote dele. O CD vem em formato digibook com capa dura e material de alta qualidade. Fora isso um livreto com mais de 70 páginas impresso em um papel de excelente qualidade com todas as letras, informações sobre as gravações, fotos, notas sobre a vida de Darwin e um detalhado texto sobre o processo de gravação. 52 músicas, mais de 3 horas de música e mais de 20 convidados especiais. Claro que não foi um processo fácil para a banda, entre compor e gravar o disco foram 3 anos de trabalho. É difícil entrar em detalhes, musicalmente falando, é muito, muito difícil. Já ouvi esse disco do início ao fim pelo menos umas 20 vezes e é quase impossível citar as melhores músicas ou fazer um texto detalhado sobre o disco. Por quê? É simples. Todo o trabalho é uma jornada, uma viagem de alma e espírito, onde você pode facilmente colocar seus fones, abrir a sua cerveja favorita e simplesmente entrar no mundo criado pelo XII Alfonso. Se você não quiser ou não tiver tempo pra esse tipo de audição, será muito difícil entender o álbum ou até mesmo gostar dele. Algumas músicas certamente vem à mente depois de algumas audições, como ‘Sillent Battle’, ‘So Many Years’, ‘The Coral Of Life’ e ‘Mysterious Illness’, mas você realmente precisa ouvir o disco por você mesmo. A diversidade é incrível. Infelizmente, uma das mentes por trás desta obra-prima, o baterista Thierry Moreno faleceu em 2011 depois que o grupo terminou as gravações, mas antes de ver o álbum ser lançado.

Diogo: Tomei um susto quando me dei conta de que Charles Darwin é um álbum triplo. Ainda mais em se tratando de um disco rico em nuances e de instrumentação caprichada, o ideal seria poder realizar várias audições a fim de melhor compreendê-lo e avaliá-lo, mas não é fácil conseguir dedicar nada menos que três horas para ouvi-lo de cabo a rabo. Por ora, achei o álbum um tanto enfadonho, cheio de detalhes que o embelezam, mas não dizem muita coisa musicalmente. Não dá pra negar que há muito esmero envolvido, a produção é boa e a mixagem faz com que cada pequena intervenção receba seu espaço no espectro musical, mas faltam composições cativantes. De certa forma, Charles Darwin representa um polo oposto àquele de outro disco presente nesta edição, The Seer (Swans). Há um preciosismo excessivo em relação ao conteúdo – as letras estilo “contação de história” condicionam melodias vocais pouco interessantes – enquanto a forma acaba sofrendo com a falta de foco.

Alisson: São 3 horas de conteúdo livremente inspirados pelo livro “A Origem das Espécies”, do naturalista Charles Darwin. A parte do “livremente” é o que deixa a apreciação do disco beirando o martí­rio. A narrativa dos acontecimentos é detalhada linearmente em faixas que passeiam por uma gama enorme de estilos que vão se intercalando aleatoriamente e com transições extremamente inesperadas e até mesmo forçadas. O rock progressivo acaba servindo apenas de desculpa para costurar nessa colcha de retalhos grotesca todo tipo possí­vel de estripulias musicais: folk árabe, música celta, sinfônica, onde nada conversa com nada e tudo acaba sendo qualquer coisa, menos surpreendente, apenas o mais clichê de cada elemento executado. Nem mesmo a produção consegue disfarçar o cheiro de auto-indulgência do registro, já que tudo soa sem profundidade e com aparência de produção de rock progressivo datado em pelo menos 30 anos. Para ser mais direto, dá para afirmar que foram 178 minutos e 43 segundos de puro exercí­cio de ego.

Mairon: Então, um disco triplo para ser ouvido no recomenda é a primeira vez. Ouvi cada CD em um dia, não tive como me dedicar um turno inteiro para a audição de três álbuns. Gostei do que ouvi, e como são 52 canções, destacar algumas fica complicado. No geral, vários foram os momentos que me chamaram bastante a atenção, em especial no CD 1 (O Cd 2 não gostei tanto, e o CD 3 é jazzístico, experimental, necessita mais audições, mas é melhor que o CD 2). Como minha intenção aqui não é analisar qualidade musical, mas sim a produção, achei essa aqui bastante complexa. Há diversos instrumentos inusitados para o rock (além dos citados aparecem marimbas, flautas, cordas, metais …), e colocá-los de forma relevante na maioria das faixas faz com que sejamos detidos pelas caixas de som. Vejo Charles Darwin como um álbum ambicioso, ainda mais por colocar em música “A Origem das Espécies”, de Darwin (algo que o Banco fez em 1972 sem tanta pompa) e o disco no total não é ruim. Apesar de longo, é sim uma belíssima demonstração de grande produção musical. Parabéns a quem indicou, e ao XII Afonso por ter criado algo tão grandioso.

Davi: Não consegui encontrar esse disco na íntegra na net, mas o que ouvi já deu para ter uma noção. Principalmente, em relação à produção. A pegada dos caras é um som calmo, meio prog… Entre os trabalhos de instrumentistas, quem mais me chamou a atenção foi o guitarrista. Criou algumas passagens super bonitas. Linha vocal achei, meio morta. Em relação à produção, não gostei. Achei o som dos instrumentos muito magro. Bateria magra, teclado magro. Um teclado mais encorpadão faria a diferença. O som do sax também não gostei. A sonoridade do cara me remeteu ao Kenny G. O que, para mim, não é algo exatamente bom. Há alguns momentos bonitos, foi interessante conhecer, mas não é um trabalho que compraria e nem um trabalho que usaria de referência na hora de mixar a demo de alguma banda que esteja tocando.

Fernando: Daí você indica um disco de 34 minutos para a galera ouvir e me vem um outro consultor com um de mais de três horas. Era melhor assistir a versão original de Ben Hur. Sei que a viagem de Charles Darwin durou muito tempo, mas os caras não precisavam fazer uma trilha sonora para a viagem toda. Fiquei na dúvida se é mais rápido ouvir o álbum ou ler “A Origem das Espécies” inteiro. Deixando as inevitáveis piadas de lado, é inegável que tudo o que se ouve aqui é de extremo bom gosto e qualidade superior. Não posso deixar de dizer que não é algo que seja possível ouvir de uma tacada só. A não ser que você esteja com outros afazeres que demandem bastante tempo e ouça isso de fundo. Porém, nesse caso vai perder muito. Ouvi em três parcelas e acho que é o ideal. Porém, não consegui ouvir mais de uma vez. Talvez eu consiga fazer isso algum dia. O progressivo aqui serve como um suporte para outros estilos como o jazz, música folk e até erudita – só eu identifiquei um ritmo meio nordestino em “H.M.S. Beagle” e música oriental em “Collection Height”?. Procurando pelo disco descobri que ele vem em uma embalagem bastante caprichada o que aumenta a chance de eu procurá-lo um dia. Ouvir o disco acompanhado das letras deve ser ainda melhor.

Ulisses: Quando vi o título, me lembrei daquele álbum que o Fernando indicou em seu “Aqueles que Faltaram”, já que ambos tratam da obra de Darwin, só que de forma diferente. O álbum destes franceses é gigantesco, consistindo de nada menos do que três CDs. Parece que alguém andou confundindo “grandes produções” com “grandes durações”, mas vá lá, o XII Alfonso ao menos tem o mérito de possuir bons instrumentistas, que se aliam à uma miríade de convidados tocando os mais diversos instrumentos e, assim, trazendo um som bastante rico e diverso no decorrer da longa audição. Como cada CD cobre um período da vida e obra de Darwin, separar as audições em três momentos distintos ao invés de absorver tudo de uma vez só é uma opção viável e que não compromete a apreciação do registro. Ainda assim, nota-se que a falta de direcionamento e foco prejudica a audição, em que boa parte fica relegada a música de fundo que vai de lugar nenhum a nenhum lugar, ainda que composta por belas passagens instrumentais que combinam o rock progressivo com pitadas de jazz. Digamos que é uma “grande” produção mais em termos quantitativos do que qualitativos. Das faixas que ficam na cabeça, destaco principalmente “HMS Beagle”, com feeling bizarramente feliz e até nordestino; bom seria se o álbum inteiro fosse nesse estilo.

52 comentários

  1. Diego Camargo

    “Nem mesmo a produção consegue disfarçar o cheiro de auto-indulgência do registro… Para ser mais direto, dá para afirmar que foram 178 minutos e 43 segundos de puro exercí­cio de ego.”

    Isso aí vindo do cara que indicou Swans é de cair o c* da bunda…

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  2. Diogo Bizotto

    Acho que é a audição que os detratores do flower-power devem se deliciar, comemorando o fim do amor livre e das drogas liberadas em defesa da união estável entre um único casal careta e sem graça quanto Aja.

    Aí que o senhor se engana. Poucas coisas representam tão bem o combustível e lubrificante social do meio musical nos anos 1970 – a cocaína – do que discos como “Aja” e todo seu background sul-californiano. O soft/yacht rock do fim dos anos 1970 pode enganar na fachada, mas por trás era cocaína pura.

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  3. Diogo Bizotto

    A companhia perfeita para esse disco é o DVD da séria Classic Albums onde a dupla mostra diversos detalhes de cada faixa e vários segredos são revelados sobre as gravações do disco.

    Esse e o do Def Leppard são OBRIGAÇÃO pra qualquer músico que queira se enfiar em um estúdio para gravar música.

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    • Igor Maxwel

      Qual do Def Leppard você está se referindo: Pyromania (o melhorzinho de todos) o o Hysteria (aquele que tem aquela música massacrada pelos babacas do Yahoo) ?

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      • Igor Maxwel

        Correção: Pyromania “ou” o Hysteria.

      • Davi Pascale

        Episódio do Classic Albums, em cima de disco do Def Leppard, só me recordo do que foi feito em relação ao magnífico, emblemático, estupendo e memorável Hysteria.

      • Diogo Bizotto

        Como o Davi bem disse, só há episódio abordando “Hysteria”. Goste-se dele ou não, sua produção foi emblemática.

  4. Diogo Bizotto

    Na minha opinião, um dos melhores sons de bateria da história do rock (ao lado do Van Halen e do Creatures of The Night do Kiss.

    Bem lembrado. O som de bateria do Alex Van Halen é algo muito particular, muito DELE. Mesmo quando ele deixou de trabalhar com Ted Templeman, o som de bateria manteve suas características únicas. Isso é muito legal e raro de se ouvir em um baterista, cujo som pode variar muito dependendo da produção (ou pior, soar padronizado). Já o som do Eric Carr no “Creatures of the Night” é GIGANTE, maravilhoso. O cara ouve aquela intro da faixa-título e esquece tudo o que a banda havia feito antes em termos de bateria.

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    • Davi Pascale

      Exato. O Alex tem um som muito dele, algo que me agrada bastante. Já o Creatures Of The Night foi o primeiro disco que escutei que o som de bateria falou realmente alto. Que eu pensei ‘caralho, olha isso!’

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  5. Diogo Bizotto

    É fácil notar essa transição sonora se pensarmos que em 2008 os seus singles principais foram relembrados para a trilha sonora do filme “Homem de Ferro” sem necessitar de grandes atualizações.

    É o famoso teste do tempo que eu citei mais à frente…

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  6. Diogo Bizotto

    Ouvidos mais atentos irão perceber que há nas músicas do álbum diversas referências à música clássica, uma forma de tornar Madonna mais “adulta”.

    Eu concordo com isso, mas acho que, nesse sentido, o auge mesmo foi “Dear Jessie”, do álbum seguinte.

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  7. Diogo Bizotto

    Embora nunca tenha tido um grande alcance vocal, Madonna soube trabalhar bem com sua limitação.

    Acho que esse disco foi um passo muito importante nesse sentido, pois ela passou a cantar em um registro mais confortável em relação aos dois primeiros álbuns, nos quais ela cantava mais agudo. Não sei quão consciente foi isso, mas foi algo inteligente de se fazer.

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    • Davi Pascale

      Sim, em relação aos dois primeiros, no quesito vocal, foi uma evolução mesmo, mas onde ela mais me chamou a atenção no lado cantora foi na fase Bedtime Stories.

      Responder
      • Diogo Bizotto

        Quem quer ouvir a Madonna como cantora mesmo tem a obrigação de conferir a coletânea “Something to Remember”. Aquilo é o fino da carreira dela…

      • Davi Pascale

        Disco muito bacana, Diogo, mas estava pensando somente em álbuns de carreira mesmo hehe. Se bem que é do mesmo período. Ele saiu logo depois do Bedtime Stories. Coletânea é muito boa. Mesmo as faixas inéditas são muito boas. Na época, gostava muito de “This Used to Be My Playground”

  8. Diogo Bizotto

    Até por isso resolvi escolher esse disco, um pouco pela provocação aos meus colegas consultores.

    Avaliando por esse sentido, até que a escolha foi boa. Como pode-se perceber, a discussão foi boa.

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  9. Diogo Bizotto

    Todo o trabalho é uma jornada, uma viagem de alma e espírito, onde você pode facilmente colocar seus fones, abrir a sua cerveja favorita e simplesmente entrar no mundo criado pelo XII Alfonso.

    O problema é que, se o cara continuar tomando cerveja ao longo de toda a audição, corre o risco de entrar em coma alcoólico (rizos).

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  10. Diogo Bizotto

    Gostaria de agradecer a participação de todos nessa edição cuja temática foi de minha escolha. Independentemente das indicações, acho que todos contribuíram muito bem com as suas, além dos comentários. Creio que ninguém tenha se furtado a escrever o que pensa, e isso é muito importante. Valeu!

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  11. Ulisses Macedo

    Legal que não tivemos apenas indicações sofisticadas, mas também produções “pé no chão” como a do Back in Black. Inclusive cheguei a cogitar indicar a estréia do Rage Against the Machine, que considero estar na mesma categoria em termos de produção.

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  12. André Kaminski

    Seria um tema difícil para mim, mas eu indicaria o Depois do Fim do Bacamarte. Uma produção e um estilo de composição diferente da década em que foi lançado, mas considerando todas as dificuldades das bandas brasileiras em conseguir uma produção de qualidade naquelas décadas, o que o próprio Mário Neto fez com sua obra é um milagre.

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  13. Igor Maxwel

    Sem dúvidas, o diferencial de um álbum não é o trabalho de seus músicos e nem mesmo a arte gráfica de sua capa, mas sim, é a produção a cargo de quem entende muito do assunto que faz com que o mesmo trabalho seja merecedor de elogios. Gostei das citações de Dark Side of the Moon (clássico álbum do Pink Floyd produzido pela própria banda) e Back in Black, a obra-prima máxima do AC/DC produzida por Robert John “Mutt” Lange (que também produziu o Pyromania, do Def Leppard), mas senti falta nessa lista de outros produtores que produziram álbuns históricos do rock, como Martin Birch, Tom Allom, Bruce Fairbairn (RIP),
    Flemming Rasmussen, Bob Rock, Eddie Offord, John Burns, Jon Landau, Dieter Dierks, Roy Z e Andy Sneap, dentre outros “mestres”.

    Dos produtores brasileiros, só tenho um em mente: Mauro Motta (que produziu os discos do Roberto Carlos da década de 1980 a primeira metade dos anos 1990). Não consigo lembrar-me de mais nenhum outro produtor da música brasileira, antiga e atual. Só desse cara aí.

    Por fim, gostaria de citar os meus dois produtores musicais favoritos de todos os tempos: os franceses Paul de Senneville e Olivier Toussaint, fundadores do selo Delphine, que revelou ao mundo o meu ídolo-mor Richard Clayderman, e onde ele está até hoje (rsrsrsrsrsrsrsrs).

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  14. leandro

    Bom ver o nome da Madonna aí. Muitos não lembram que ela é grande artista, o True Blue é pra ser seu melhor álbum.
    Marcou muito os meus ouvidos em Open Your Heart…. Musicasso
    🙂

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    • Igor Maxwel

      Eu já gosto mais do Like a Prayer (1989) por ser um álbum mais diversificado e bem mais produzido do que True Blue. Tudo em Like a Prayer pra mim é perfeito, tirando o estranho encerramento com “Act of Contrition” que pra mim não era pra ter entrado no tracklist deste álbum.

      Responder
  15. Marcel

    Bom tema! Acho o End of Century “overproduced”, não colocaria ele não… Só se fosse como exemplo negativo de “mais é menos” :). Não acredito que ninguém citou a maestria e o minimalismo do St. Anger!!! (essa foi brincadeira). Falando sério agora, acho o Metallica black album uma das melhores produções já feitas, com um excelente som de bateria também!

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    • André Kaminski

      Eu concordo plenamente quando ao disco preto, Marcel. O som da bateria gravada nele é simplesmente fantástico.

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      • Diego Camargo

        Gosto é igual…

        Eu acho o som de batera do Black Album (assim como todo som de bateria do início dos anos 90) pavoroso, cheio de efeitos, reverb e EQ até o talo.

      • Igor Maxwel

        Marcel, André e Davi, devo admitir que apesar de ter sido otimamente bem produzido, o Black Album do Metallica é muito chato!!! Se digo isso é por que hoje não tenho mais paciência suficiente para atura-lo e ouvi-lo do começo ao fim. Pra mim, os quatro primeiros discos deles são os melhores.

      • Davi Pascale

        Bacana, Igor. Eu, contudo, continuo considerando o melhor álbum da banda. Abraço.

    • Diogo Bizotto

      Já tive uma pequena discussão com o Diego a respeito do som de bateria desse disco do Metallica. Da minha parte, gosto muito do resultado atingido. Não é aquele som “fresco” das melhores produções setentistas, mas é muito coerente com o heavy metal que o grupo tocou nesse disco, encaixou-se perfeitamente, assim como praticamente todas as sonoridades de todos os instrumentos, especialmente do baixo de Jason Newsted, que está espetacular.

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  16. Francisco

    Gostei bastante da matéria, em especial das citações de “Aja” do Steely Dan e o disco do arco-íris no prisma de Pink & Floyd. Uma boa produção pode tirar leite de pedra, transformando algo banal em obra de arte. Das obras citadas, porém, nem todas são consideradas obras-primas, ou seja, apesar de todo o investimento técnico, o produto não causa impacto. Será que o contrário pode acontecer? Ou seja, será que um disco mal produzido pode se tornar uma obra marcante? Fica a pergunta e, em caso de “sim”, a sugestão de uma matéria com o outro lado da moeda: péssimas produções que não conseguiram empanar o brilho das composições. É com vocês, consultores!

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    • Diogo Bizotto

      Ah, disco bom com produção ruim é o que não falta por aí. A produção do primeiro do Springsteen, por exemplo, é toda estranha, meio anêmica, mas não tirou o brilho das composições.

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    • Davi Pascale

      Existem vários. Out Of Our Heads do Rolling Stones é um exemplo. LP maravilhoso, produção eu não gosto. Let It Be dos Beatles é outro exemplo. Hotter Than Hell do Kiss. Disco fantástico, produção bem abaixo também.

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      • Diogo Bizotto

        Nossa, o “Hotter than Hell” tem uma produção horrível mesmo, vergonhosa, parece atrasada dez anos. Felizmente, não chegou a estragar suas canções e ele segue sendo um dos melhores discos do Kiss.

        Ainda sobre o assunto, o Metallica tornou-se célebre por avacalhar as dinâmicas de seus álbuns recentes, mas prefiro desviar da loudness war – que assassina a música há vários anos – e focar em produções ruins por outras razões, como a de “…And Justice for All”, com sua bateria clicada, baixo inexistente e guitarras magrinhas. Esse é o caso perfeito de disco que, apesar da produção ruim, permaneceu sendo maravilhoso.

      • Anônimo

        O Hotter Than Hell é maravilhoso, os riffs do Ace Frehley são excelentes demais nesse disco. Eu prefiro ele ao Dressed to Kill, não desmerecendo esse claro, porém o Hotter Than Hell é mais forte!

      • davipascale

        Sou suspeito para falar de Kiss. Minha banda number 1. Sim, o Hotter Than Hell é discaço. Não gosto da mixagem do disco, mas o repertório é fenomenal. Aliás, o local onde rolou a Kiss Expo em que conheci o Peter é justamente onde eles fizeram as fotos da contracapa do Hotter Than Hell… Em se tratando de mixagem, acho que eles cagaram 2 vezes: Hotter Than Hell e o Hot In The Shade.

        E já que o Diogo falou do And Justice For All, vocês viram que vai ser uma edição de luxo com o album remasterizado? Espero que subam o som do baixo…

      • Diogo Bizotto

        Acho que não, Davi. Creio que apenas uma remixagem seria capaz de dar o destaque que Jason merecia.

  17. Ronaldo

    Parabéns pelo tema e pelo texto, pessoal!
    Gostei muito…e gostei muito das descrições do Ulisses ao longo do texto. Ficam duas críticas: 1) o tamanho do texto – muito grande. Está um misto de war room com melhores de todos os tempos. Ler 7 textos (que chegam a ser do tamanho de uma resenha completa) sobre o mesmo álbum ao mesmo tempo é bem cansativo. 2) acho que deveria ser visto com mais naturalidade essa questão de escolher por álbuns que sejam “óbvios”. Penso que nesse caso o mais importante é o tema e não o álbum em sim. Dessa forma, escolhas meritosamente óbvias ajudam a reforçar o tema, sua importância, seus aspectos principais e etc.
    Abraços,

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  18. Igor Maxwel

    “em relação ao magnífico, emblemático, estupendo e memorável Hysteria.”

    Aquela mesma baboseira inútil que o Davi e mais alguns consultores falaram naquela lista dos “Melhores de Todos os Tempos – Os Esquecidos (por Alexandre Pontes)” em seus comentários sobre Blackout (Scorpions) de que seu sucessor (Love at First Sting) é “fantástico, soberbo e magnífico”, “tão melhor que não tem nem comparação”, “o grande representante do que fizeram na década de 1980” e que “possui mais faixas clássicas do que Blackout”.

    Hysteria seria sim um álbum magnífico, emblemático, estupendo e tudo o mais que muitas pessoas dizem que é se fosse menos ambicioso/cansativo do que o Pyromania e se “Love Bites” não tivesse sido arruinada pelo Yahoo mais tarde. E sobre o álbum do Scorpions de 1984, é aquilo que sempre venho defendendo: respeito a opinião dos consultores, mas LAFS seria um álbum maravilhoso e dos meus preferidos do grupo (ao lado de seus três anteriores e de seus dois sucessores) se nele não estivesse inclusa aquela baladinha que eu tanto abomino e desprezo no repertório deles, por conta de seu enorme êxito na época e que quase pôs um inesperado fim na carreira vitoriosa do Scorpions…

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    • Davi Pascale

      “Choora nããããããão coleguiiiiiiiinhaaaa” (Simone e Simaria, 2017).

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      • Igor Maxwel

        Pô Davi, adoro as “Coleguinhas”, cara! Não passo um dia sem ouvir as músicas delas! Agora sim você animou meu dia! Gostei da brincadeira!

      • André Kaminski

        “Quase arruinou a carreira…”, sei… só dobraram o número de ouvintes e venderam uma caralhada de álbuns, além de ter incentivado muitos a irem atrás de outros discos do Scorpions e mesmo foi a introdução ao rock para tantos outros…

  19. Igor Maxwel

    Não, meu caro André, eu não disse que “quase arruinou a carreira” do Scorpions, eu apenas disse que a “música do Baby-Boom” (vamos usar os apelidos ao invés do título certo) quase “acabou com a carreira” da banda, pelo fato de ter feito um enorme êxito na época em que foi lançada, e que gerou uma crise enorme no mundo do rock. Esta é a principal razão com a qual não consigo gostar do LAFS como um todo (disco com o qual o Scorpions ganhou novos fãs e perderam os antigos) e é nela onde reside o principal ponto de discórdia de minha parte quando se trata da lendária banda alemã e de suas românticas baladas. Diria que o Scorpions foi, por conta dessa história toda, uma das primeiras bandas de rock a se vender ao comercialismo antes do Metallica, mesmo não traindo o estilo que o tornou famoso mundialmente, ao contrário da sempre polêmica banda americana que lançou mais tarde o tão chatíssimo disco preto.

    E voltando ao Def Leppard, afirmo pela última vez que apesar de ter sido mais bem-produzido (o tema desta resenha) e bem-sucedido comercialmente, o Hysteria é um trabalho muito mais ambicioso e cansativo do que o anterior Pyromania, que pra mim é mais coeso, conciso e é daqueles discos onde sua audição não cansa ps ouvintes em nenhum momento.

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  20. Anônimo

    O End of the Century dos Ramones pode ser um disco com canções mais pops porém tem algumas pedradas ótimas ali. Eu particularmente gosto muito do som da guitarra do Johnny em Chinese Rocks e principalmente Let’s Go. Essa última na minha opinião tem o melhor som de guitarra de toda a carreira deles. É uma guitarra muito encorpada e o som é “gordo” por assim dizer. O que é ruim nesse disco é o excesso de canções melosas e popzinhas.

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