Por Ronaldo Rodrigues

A longeva banda francesa Magma divide, de forma taxativa, o séquito inteiro de admiradores do rock progressivo e seus congêneres. Há os que ficam na margem “segura” do estilo e de sua faceta mais sinfônica e aqueles que cruzam as correntezas do desbravamento musical e apreciam o caráter mais exploratório do estilo, no qual há tantas intersecções musicais que o termo “rock” torna-se completamente obsoleto. A noite de domingo, 26, no Carioca Club em Pinheiros, na capital paulista, concentrou a segunda massa de apreciadores e também os que, como eu, transitam pelas duas linguagens. Tudo fruto de uma aposta ousada da produtora Overload, que peitou o desafio de trazer pela primeira, e quiçá única vez, o grupo (que possui uma equipe numerosa) ao Brasil em um cenário incrivelmente desfavorável economicamente.

Já era sabido por mim que o Magma possuía, na mesma medida, grandes admiradores e grandes detratores. Quase como uma exceção, minha postura diante da banda até então era sóbria – admirava sua musicalidade e experimentação, mas sabia reconhecer com muita tranquilidade as rebarbas de suas extravagâncias. Contudo, ao avistar Christian e Stella Vander e sua trupe de virtuosos discípulos, fui simplesmente enxovalhado por uma torrente de notas musicais, que no calor desta resenha, ainda ecoam em meus ouvidos e na minha visão. Obviamente, tudo isso distorceu meu conceito sobre a banda, creio que de forma irremediável.

Christian Vander, baterista, vocalista e fundador do grupo no longíquo 1969, parecia uma máquina de ritmos, boxeando insanamente seu kit de bateria. Com vigor impressionante para a idade, ele fluía entre as mais loucas conduções percussivas, batidas tribais e convenções intrincadíssimas. Seus golpes frenéticos fizeram com que um dos pratos caísse do kit durante o show. E, com a sapiência de sua enorme experiência e talento, sabia imprimir dinâmicas grotescas e pausas marcantes. Em dois momentos no show, empunhou o microfone para cantar trechos de músicas e manuseava o microfone como se tocasse um saxofone ou uma flauta. Sua voz era (mais) um instrumento naquele incrível panorama musical. Tudo ali conseguia parecer uma anarquia extremamente calculada, envolta em uma tensão mantida no ar o tempo todo.

A ex-esposa de Vander, Stella, deslocava-se no palco lentamente como uma rainha empunhando seu cetro. Sua voz angelical e longuíssima extensão vocal faziam um encaixe absolutamente impensável no meiado de uma música tão caótica. Ela ainda manejava theremim e pandeirola (essa por duas vezes caiu do suporte, tamanha pressão emanada pelos instrumentos). Sua presença e voz eram magnéticas e seu fôlego (bem como o do incrível tenor Hervé Aknin que a acompanhava) pareciam infinitos, atuando também, frequentemente, como bases para as músicas. À Stella Vander coube o papel de ser a porta-voz do Magma, saudando brevemente a plateia brasileira em inglês, após uma longa sessão inicial de música. Nenhuma música foi anunciada e parecia não haver necessidade – a banda canta em um linguajar próprio; a nota musical emitida da boca dos cantores era muito mais importante do que a letra. O que ali foi ouvido foi um todo em música, não havia como particionar a experiência proporcionada. Nem tampouco outros clichês comuns em shows foram vistos – a banda não fez nenhum agradecimento e nem mesmo apresentou seus integrantes. Ou seja, nada ali, em fato e direito, foi ortodoxo. Ao término da primeira música, a saudação da plateia era avassaladora. Banda e plateia fundiram-se dali até o fim do show.

Baixo e guitarra eram empunhados por dois intensos talentos – Rudy Blas (na banda desde 2016) e Phillipe Bussonnet (que integra o Magma desde 1996). O primeiro era catarse pura, mesmo que deslocasse no máximo um passo à frente e atrás de sua posição no palco – destinava tamanha vontade e intensidade à cada nota, extraindo um timbre incrível de sua Gibson Les Paul, despida de qualquer pedal de efeito. Suas frases funcionavam quase que como uma terceira voz. Nos dois momentos do show em que realizou solos, o fez de forma magistral e deixou boquiaberto os presentes. O baixista era a tradução, em notas musicais, dos ataques percussivos de Vander, acompanhando sua dinâmica com enorme precisão. O tecladista Jeromé Martineau-Ricotti, também de uma nova ninhada de músicos, mantinha o pulso firme na sustentação das bases de toda a complexidade do Magma, com um marcante timbre emulando Fender Rhodes, e o vibrafonista Benoit Alziary trazia um brilho raro e ainda mais virtuoso para a música da banda.

A equalização do som ficou um pouco aquém do necessário para uma música daquele nível; baixo e teclado ficaram pouco nítidos, em frequência e volume. Obviamente, galhos como esse ocorrem, mas não prejudicaram significativamente o espetáculo. A maior baixa ao espetáculo foi a ausência da vocalista Isabelle Feuillebois, que segundo anunciado antes do início da apresentação, havia se machucado após o show no Chile e sentia dores e indisposição para o show. A casa teve razoável lotação, permitindo aos presentes, assistirem ao show sem desconfortos para se locomoverem.

Tive a oportunidade de encontrar muitos músicos e personalidades do meio rock/psych de SP (e de outras paragens) por lá – Fred Barley (Dialeto, O Terço), Nelson Coelho (Dialeto), Fabio Golfetti (Violeta de Outono), Gabriel Costa (Violeta de Outono), Fernando Cardoso (Violeta de Outono, Som Nosso de Cada Dia), Cristiano Oliveira (Mahtrak), Bento Araújo (Poeira Zine), os músicos da banda mineira Cartoon, o vocalista Roger Troyjo, o tecladista Gustavo Jobim, Luciana Aun (do blog ProgRock Vintage), Marcelo Bacha (do selo Editio Princeps) e Marcio Rocha (da Tropicália Discos), este último que viajou comigo os mesmos 400 km do Rio de Janeiro até São Paulo apenas para o show. Infelizmente, não foi possível encontrar o lendário colunista de nosso site, Marco Gaspari, que lá esteve. O trânsito atrapalhou minha pretendida antecedência em chegar no show.

Posso garantir àqueles que não estiveram presentes os arrepios que minha pele registrou em músicas como “Da Zeuhl Ẁortz Mëkanïk”, “Mëkanïk Dëstruktïẁ Kömmandöh”, “Theusz Hamtaahk” e “Kobaïa”. Ao término do show, a plateia custava à abandonar o local, desejosa em se apegar àquilo que tinha acabado de viver.

 

8 comentários

  1. Marco

    Foi um show fantástico, apesar das pulgas imaginárias (só isso explica eu ficar me coçando e beliscando o tempo todo para comprovar que não estava sonhando – testemunhar o Magma ao vivo é coroar mais de 40 anos de fanatismo e o corpo reage de formas estranhas). O show começou às 8 da noite e hora e meia antes eu já estava no escurinho da pista de olho em quem entrava pra ver se via o Ronaldo (picas, ele esperou o show começar só pra não cruzar este velho aqui que poderia muito bem surtar tal a emoção e estragar o espetáculo, obrigando-o a me escoltar a algum pronto socorro – espertinho, hein?). Na realidade, para mim, foi um show do Christian e da Stella, já que eles são os remanescentes da banda original. Os demais, mesmo o guitarrista, já veterano kobaian, não faziam parte da banda nos gloriosos anos 70, época em que até a infame alcunha de neonazista a banda colecionou. Explicando melhor, Klaus Blasquiz e Jannick Top são arroz de festa nas minhas memórias afetivas e sonhava vê-los no palco. Mas todos os atuais integrantes são músicos de magnitude dez na escala Richter de terremoto sonoro: praticamente um apocalipse em qualquer sismógrafo auditivo. A novidade bem-vinda foi o vibrafone, que confesso nunca ter reparado se alguma vez esteve presente no som da banda, e foi um espetáculo à parte. Senti falta da tal Isabelle, a vocalista que se machucou, pois o estilo marcial do Magma é complementado pelo poderoso e muitas vezes lírico recurso das vozes em coral. E, claro, ficou faltando uma coisinha que o Ronaldo relevou em sua brilhante análise: estou me referindo ao fato de que não haveria necessidade de referências às músicas e que a nota era mais importante que a letra. Pois eu senti falta de um programa (fazer o quê?, sou metódico) que traduzisse as letras e as colocasse no contexto da saga de Kobaia. O Magma foi criado tendo a referência sonora em Coltrane e as histórias em quadrinhos como conceito. Os discos da banda lançados ao longo dos anos destrincham capítulos da saga e apresentam personagens fabulosos. Não entender o kobaian significa apreciar apenas o chopp, deixando de lado as delícias dos petiscos desse verdadeiro boteco musical. Bom, mas quem quiser que vá atrás, como eu já fiz algumas vezes. Zeuhl hamatai!

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    • Mairon

      Um comentário fantástico para um texto sensacional. Inveja branca do Ronaldo ter visto esse show e ter viajado ao lado do Márcio Rocha, um grande amigo que tenho no Rio, e do qual aprecio muito também seu talento musical.

      Mas eu conheço o Marco, hehehehe!!!

      Imagino o nosso querido Siri diante do Magma. O cara deve ter virado a cabeça e feito a festa.

      Parabéns à todos, lamento não ter ido nessa experiência, e fica aquela sensação de que precisamos urgente liberar verbas da coleção de discos do Fernando para aquele churrasco em São Caetano, unir a galera e falar mal do Bruce Dickinson

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  2. Luiz H.

    Ouvi muito pouco essa banda no mínimo Excêntrica (até idioma próprio os caras tem). não compreendi direito o som deles, mas foi assim quando conheci outra banda excêntrica, Gong, que tomei conhecimento através deste site, e hoje admiro. algumas bandas não são fáceis de serem assimiladas em apenas uma audição. seu texto e o comentário acima me motivaram a ouvir o som deles de novo. Já li em algum lugar alguém denominando o som deles de Zeuhl. isso é a denominação do estilo deles? se for, esse estilo se propagou? existe outras bandas cujo som se denomina Zeuhl? Se alguém puder e quiser responder agradeço. Abraço

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    • Mairon

      Marco Gaspari é o maior conhecedor de Magma e de Kobaian do mundo (é o Christian Vander brasileiro). Marquinho, fala aí!!

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      • Marco

        Tinha um texto aqui na CR sobre o Magma que o UOL comeu. Vou repetir um trechinho que fala sobre o Zeuhl. Se não for suficiente, apele para o Google que tem muita informação.

        “Em 1972, com a formação que gravou o disco 1001º Centigrades, o Magma assume o nome Univeria Zekt e lança um álbum chamado The Unnamables. Neste disco, o único gravado pelo UZ, o grupo abandona a linha ficção científica de seus dois primeiros lançamentos, o que de certa forma facilita ao ouvinte absorver melhor o excelente
        jazz- rock que o grupo fazia na época.
        Univeria Zekt também pode ser considerado a primeira manifestação de um estilo musical que passou a ser conhecido como Zeuhl Music (Música Celestial), composto de grupos formados por músicos saídos do Magma após suas diversas formações ou influenciados pelo universo musical da banda. A Zeuhl Music engloba dezenas de artistas e grupos e assumiu status de subgênero dentro do rock progressivo.
        François Breant, François Cahen, Couer Magique, Daniel Denis, Eskaton, Gong (disco Flying Teapot), Patrick Goutier, Didier Lockwood, Perception, Yochk’o Seffer, Shub Niggurat, Laurent Thibault, Jannick Top, Weidorje, Xaal e Zao são apenas uma parte do fenômeno Zeuhl Music.”

    • Marco Antonio

      O estilo Zeuhl é seguido por inúmeras bandas na Itália e França principalmente. Caracteriza-se principalmente pelo destaque do baixo e da bateria, entre outros elementos. Mas existem bandas no estilo também no Japão, Bélgica, etc.
      Recomendo Eskaton (França, bem jazz), Koenji Yakkei (japão, um zeuhl furioso), Runaway Totem (Itália, mais pesado), Shub Niggurath (França, bem dark). Para outros consultar o site progarchives.

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  3. Ronaldo

    Obrigado pelos comentários, pessoal!
    Marco meu guru, que pena não tê-lo encontrado…
    Abraço!

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  4. André Kaminski

    Um belíssimo texto do show do Magma complementado pela infinita sapiência do Marco quando se trata de rock alemão. Estudando aqui para quem sabe um dia eu chegar próximo ao nível de conhecimento de vocês dois.

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