Blitz – Aventuras II [2016]

6 de novembro, 2017 | por davipascale
Resenha de Álbum
4

Por Davi Pascale

E eis que a Blitz segue na ativa… Contrariando aos críticos da época que diziam que a banda não resistiria ao fim do verão, 35 anos depois, estamos aqui falando sobre eles. O grupo liderado por Evandro Mesquita soltou recentemente um novo álbum que atende pelo nome de Aventuras II. Para um bom entendedor, meia palavra basta. O título é uma clara referência ao seu álbum de estreia, o (clássico) As Aventuras da Blitz.

A situação era bem diferente. O primeiro álbum chegou às lojas com o jogo meio ganho. O compacto de “Você Não Soube Me Amar” havia vendido feito água e o LP chegou rodeado de uma enorme expectativa. Hoje, o compacto virou itunes. LP virou artigo de luxo. O público jovem largou o pop/rock e correu para o sertanejo. Artistas como Lulu Santos, Paulo Ricardo, Fernanda Abreu e a própria Blitz não desfrutam de toda a atenção que mereceriam.

É claro, não dá para esperar desse disco o mesmo do clássico de 82, nem do (ótimo) Radioatividade. A inocência daquele tempo se perdeu. Além disso, dificilmente uma música daqui terá o destaque que tiveram canções como “Mais Uma de Amor (Geme Geme)” ou a “A Dois Passos do Paraíso”.

Se a base do álbum de 1982 era a new wave, a base musical de 2016 é o reggae. Algo perceptível com clareza em faixas como “Nua Na Ilha” e “Estrangeiro Aventureiro”. Há ainda uma referência de música latina, com a utilização de naipes de metais em alguns momentos. O maior exemplo desse universo, acredito que seja em “Coração de Equilibrista” onde, além de contar com os metais, ainda se encontra uma linha de guitarra claramente inspirada em Carlos Santana. As crônicas repletas de malícia de Evandro e o sentimento de alegria, de universo praiano da Blitz, seguem intactos.

O repertório da Blitz sempre foi um enorme caldeirão. Embora o reggae dê a tônica do disco, é possível pescar influências do samba (“Martelinho de Ouro” e ”Nunca Joguei Com Pelé”), do rock, do ska, além do blues. Se no debut, eles nos apresentavam “Esquizofrenético Blues”, aqui eles nos brindam com o “Chacal Blues”.

Se não me falha a memória, esse já é o décimo-segundo álbum da Blitz. Entre idas e vindas, o grupo acertou algumas vezes (como nos bons Últimas Notícias e Eskute), errou em outras (como nos fracos Línguas e Com Vida), e volta a acertar em Aventuras II.

A minha grande reclamação é que as backings foram pouco exploradas. As vozes femininas sempre foram marcantes na trajetória da Blitz. Faltou um momento onde Andrea Coutinho e Nicole Cyrne tomassem a dianteira, assim como Fernandinha e Márcia Bulcão fizeram em “Betty Frígida” no auge da banda. Os momentos onde as vozes femininas tomam à frente ocorrem com convidadas especiais. A saber, Alice Caymmi e Sandra de Sá.

Para completar a formação, Evandro trouxe seu velho parceiro Billy Forghieri nos teclados (que hoje divide os créditos com o cantor. No passado, essa função era do Ricardo Barreto), Juba na bateria (o baterista que substituiu o Lobão nos anos 80), o guitarrista Rogerio Meanda (que chegou a acompanhar o Cazuza em carreira-solo. Lembra das guitarras de “Exagerado”? Bem.. é ele), a respeitada baixista Claudia Niemeyer, além das já citadas Nicole e Andrea.

O novo álbum está repleto de convidados especiais. Indo desde Paralamas do Sucesso e Frejat até Zeca Pagodinho e Andreas Kisser (não disse que o som desses caras é um caldeirão?). A formação é forte. O repertório é bom, o encarte está bacana. Inclusive, utilizando a velha sacada das ilustrações de quadrinhos. Só não se empolgue no nome achando que você irá encontrar um resgate do primeiro LP. O disco é bom, mas a pegada é outra…

“Estrangeiro Aventureiro”, “O Último Cigarro”, “Nu Na Ilha”, “Baile Quente” e “Chacal Blues” são os grandes destaques desse disco. Nos anos 80, o sucesso da Blitz fez com que as gravadoras voltassem a olhar com atenção para a cena brasileira e começassem a investir em novos nomes. Estamos precisando que uma nova Blitz surja e com urgência!

Tracklist:

  1. Estrangeiro Aventureiro
  2. Pode Ser Diferente
  3. O Último Cigarro
  4. Fominha
  5. Nu Na Ilha
  6. Baile Quente
  7. Coração de Equilibrista
  8. Noku Pardal
  9. Martelinho de Ouro
  10. Júlia, Leila e Edgar
  11. Chacal Blues
  12. O Rei do Gatilho
  13. Nunca Joguei com Pelé



4 Comentarios

  1. Eu achava que a banda até poderia estar tocando, mas apenas em festas temáticas dos anos 80. Não sabia que tinha disco novo.

    • Davi Pascale disse:

      Vira e mexe, eles lançam alguma coisa. Eles também fazem shows fora dessas festas. Fazem eventos fechados e até teatros de médio porte. Próximo show deles vou tentar assistir. Deve ser bacana…

  2. Mauro Reis disse:

    Cada um de nós tem uma banda, um artista, ou um disco, que representou o “começo de tudo”. No meu caso, a Blitz foi a primeira banda “de rock/pop” que ouvi; foi a passagem da música infantil para algo que, na época, eu julgava adulto.

    Mais que isso, aqui no Rio de Janeiro, entre os anos de 1982 e 1985, política fervilhando, os dois primeiro LP da Blitz cumpriu uma importante função de mostrar para os coroas que o pop/rock não era tão reacionário quanto eles viam na TV.

    Bom saber que a banda ainda está em atividade, ainda que não com o mesmo impacto do início (concordo com o autor do texto, a pegada é outra).

    Parabéns pela resenha.

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