Ney Matogrosso – Olho Nu [2014]

11 de outubro, 2017 | por Mairon
Resenha de Álbum
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Por Mairon Machado

No ano de 2014, um dos maiores intérpretes da música nacional decidiu lançar-se em uma audaciosa estratégia de divulgação de sua carreira. Ney Matogrosso, eterno vocalista do Secos & Molhados, uniu forças com o diretor Joel Pizzini, e através de mais de 400 horas de material documentário, reuniu toda sua carreira no excelente documentário Olho Nu.

Com quase duas horas de duração, e feito em parceria com o Canal Brasil, o documentário entra no íntimo da vida de Ney. A relevância da obra foi tamanha que acabou sendo finalista do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, tido como um dos mais importantes da área de cinema de nosso país. Foram mais de 11 mil espectadores a assistir o documentário, o que, nas palavras de Joel: “é uma conquista imensa, ter não só o respaldo de crítica como a aceitação do filme“. Há imagens desde a época com o Secos & Molhados até momentos do cotidiano de Ney, bem como raras imagens do pai de Ney, e do cantor junto de Caetano Veloso e Cazuza, entre outros grandes momentos do artista, chegando até a turnê de Inclassificáveis (2008).

Ney usando uma das roupas da turnê Inclassificáveis

Baseado no tremendo sucesso do documentário, logo na sequência saiu a trilha sonora do mesmo, uma das mais belas obras em termos de coleção musical que Ney Matogrosso já teve lançado. A coletânea abrange bem a carreira do artista, e sem prender-se em obviedades. Pelo contrário, busca raridades e obscuridades registradas por Ney ao londo dos mais de 40 anos de carreira. Ou seja, você não irá encontrar aqui “Sangue Latino”, “O Vira” ou “Flores Astrais”, e tao pouco “Homem com H”, “Vereda Tropical”, “Da Cor do Pecado” ou “Napoleão”.

Pôster promocional do documentário

O máximo que você irá encontrar de conhecido vem da época dos Secos & Molhados, com “O Patrão Nosso de Cada Dia”, clássico do primeiro álbum da banda, e só. Depois, ainda do período Secos, temos “Delírio” e “O Doce E O Amargo”, ambas do segundo álbum da banda.

Olho Nu passeia pela fase psicodélica da carreira solo de Ney, com “Mãe Preta”, a emotiva “Pedra de Rio” e a viajante “Açúcar Candy” (Água Do Céu-Pássaro, 1975) e a linda “Airecillos” (Bandido, 1976).

Do período transicional da carreira de Ney, no final dos anos 70, saem “Fé Menino” (Feitiço, 1978) e “Tem Gente Com Fome” (Seu Tipo, de 1979). Dos álbuns clássicos do início dos anos 80, saem “Uai, Uai”, com participação de Rita Lee, e “Johnny Pirou”, a versão roquer-afeminada-futebolística de “Johnny B. Goode”, ambas lançadas em Mato Grosso (1982).

Olho Nu também traz canções da fase mais intensa e sofisticada de Ney, que vai do final dos anos 80 e início dos anos 2000, com o piano elaborado de “Quem Sabe?”, do ao vivo Pescador De Pérolas (1987), a complexa “Melodia Sentimental” (O Cair da Tarde, 1997), e ainda a deliciosa “Preciso Me Encontrar”, registrada ao vivo.

Por fim, para os colecionadores, ainda temos a raríssima psicodelia latina e alucinante de “Ponta do Lápis”, gravada ao lado de Roberto Fágner no cobiçado compacto da Continental lançado pela dupla em 1976, e a versão de “Simples Desejo”, registrada durante a turnê do álbum Inclassificáveis (2008).

Para quem não pode adquirir a ótima caixa Camaleão, e quer conhecer um pouco além do óbvio de uma carreira repleta de altos e baixos, é uma excelente pedida. E para quem quer ter um material de qualidade para ouvir durante o feriado, e que se acha fácil nas lojas por um preço mais do que acessível, é o ideal.

Ney no lançamento do documentário

Track list

1. Delírio
2. Mãe Preta
3. Açúcar Candy
4. Johnny Pirou (Johnny B. Goode)
5. Fé Menino
6. Airecillos
7. O Doce E O Amargo
8. O Patrão Nosso De Cada Dia
9. Melodia Sentimental
10. Pedra De Rio (Sobre Texto De Paulo Cesar)
11. Quem Sabe?
12. Ponta Do Lápis – Part. Especial: Fagner
13. Tem Gente Com Fome
14. Uai, Uai – Part. Especial: Rita Lee
15. Simples Desejo
16. Preciso Me Encontrar (Ao Vivo)



5 Comentarios

  1. António Marcos disse:

    Ecletismo bem vindo a Consultoria Parabéns pela resenha.

  2. Francisco disse:

    Em tempos nos quais a mídia tenta enfiar goela abaixo uma figura, quase bandeira ambulante, como Pablo Vittar, é uma obrigação moral voltarmos os ouvidos para a obra desse gigante da música brasileira chamado Ney Matogrosso. Um artista que foi transgressivo em uma época difícil da política brasileira, que se impôs pelo talento e sempre buscou fazer aquilo que quis. Respeito o artista, respeito o cidadão Ney Matogrosso. Observando o conjunto da obra, percebe-se que Ney sempre manteve um alto nível em seu trabalho. E o tempo parece não lhe afetar. Comparo-o com Cauby Peixoto, um dos pioneiros do rock no Brasil: a voz permanece única, poderosa e profunda. Longa vida a Ney!

    • Mairon disse:

      Exato Francisco. E outra, Ney nunca precisou usar a mídia para se promover. Seu talento, sua arte e suas interpretações nos palcos impactaram os anos 70, 80 e 90, e ainda hoje trazem frenesi para quem o assiste. O cara é um monstro, e esse disco é uma bela coletânea de material desconhecido do grande público. Abraços

  3. Igor Maxwel disse:

    É uma pena que neste documentário não está inclusa aquela que eu considero a melhor canção gravada pelo N.M: “Poema” (composta pelo saudoso Cazuza).

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