Por Mairon Machado

Em meados de 2016, os admiradores do rock progressivo atual ficaram chocados com a notícia da dissolução de uma das melhores bandas do estilo até então, o sueco Beardfish. Alegando compromissos diversos, o quarteto fechou os trabalhos, e cada um de seus integrantes migrou para projetos paralelos. O líder da banda, Rikard Sjöblom, era o mais atarefado do quarteto, já que estava tocando com o Big Big Train, trabalhava com outros artistas, gravou com o Bootcut e engatinhava seu projeto solo com o nome de Gungfly.

Rikard Sjöblom e Gungfly, ao vivo

Pois foi com o último que ele lançou um dos grandes trabalhos de 2017, o álbum On Her Journey to the Sun. O vocalista, guitarrista, tecladista, pianista, baterista, baixista, acordionista, compositor, arranjador e faz tudo Rikard está acompanhado aqui do ex-colega de Beardfish David Zackrisson (guitarra), os irmãos Rasmus Diamant (baixo) e Petter Diamant (bateria), Sverker Magnusson (teclados), Martin Borgh (teclados), e com a genialidade que possui, criou um álbum que remete bastante a sua antiga banda, mas com uma liberdade maior para criar novas vocalizações, harmonias e melodias.

Segundo o próprio Rikard, o Gungfly surgiu da necessidade de registrar canções que ele escrevia, mas que não cabia no estilo do Beardfish, por terem um aspecto mais pop do que o progressivo tradicional do Beardfis. A palavra vem do sueco, e significa “chão inseguro”, e com o fim da banda, a insegurança parece não existir, já que o material registrado em On Her Journey to the Sun é de uma qualidade e maturidade ímpar nos dias atuais.

Encarte

O álbum começa com uma linda peça, “Of The Orb”, que pelo dedilhado do violão nos repete a “Cinema Show” (Genesis), sendo que inclusive há uma citação a canção na letra de Rikard, mas na medida que a canção se desenvolve, descobrimos que estamos diante de outra obra-prima do sueco. O refrão dessa canção é muito lindo, com uma levada no violão empolgante, Rikard cantando em falsete e aquele timbre de guitarra característico do Beardfish, além das quebradas intrincadas que o grupo consagrou em sua carreira, e que fará os fãs da banda saírem pulando de alegria. Os solos centrais também nos remete a álbuns como Mammoth e The Void, e sinceramente, o solo de moog, e a levada Rutherfordiana aqui apresentados certamente são mais uma evidência de homenagem aos tempos proggres do Genesis. Independente das similaridades com os discos do Beardfish, o ouvinte ficará satisfeito com esse baita som para abrir o disco. Mas ainda vem mais.

A faixa-título possui uma uma espécie de ritmo flamenco, com mais um novo e interessante solo de moog, mas confesso que achei essa a faixa mais fraca do disco. O dedilhado de violão abre a linda “He Held An Axe”, com a voz tocante de Rikard explorando falsetes. Piano e guitarra dão mais tempero para outra grande faixa, que rapidamente faz esquecer a faixa-título. Essas duas canções mostram como Rikard, apesar de ser o pai da criança, possui capacidade para criar além daquilo já feito no Beardfish, o que mostra quão talentoso ele é.

Algumas das letras do álbum

“My Hero” surge alucinante, com muita quebradeira, solos de guitarra e novamente, fortes lembranças de Beardfish durante sua introdução. A parte vocal também segue com características do grupo, apesar de percebermos inovações em diversos momentos. Mas as intrincações, partes bem trabalhadas e os solos grandiosos estão todos lá. Aliás, o solo de moog aqui, acompanhado por uma levada tinhosa dos irmãos Diamant, é muito bom de se ouvir. Piano e violão são os instrumentos principais de outra bela faixa, “If You Fall (Part 1)”, uma faixa curta, com vocais cheios de efeitos, e que nos encaminha para aquela que considero a melhor do disco, “Polymixia”.

A complexidade dessa faixa é gigantesca. São quase doze minutos instrumentais de muitas variações, sem nada de virtuosismo, mas de muita precisão na aplicação das notas, harmonias, riffs e diversas sequências diferentes que constroem uma faixa digna dos grandes mestres do rock progressivo. Rikard está exuberante, mandando ver com suas técnicas, seja no piano, seja nos teclados, no clavinete, seja na guitarra. Kerry Minnear (Gentle Giant) deve dar boas risadas de alegria quando percebe as influências que deixou para as novas gerações. Rikard é um monstro, um grande músico, que tomara venha ao Brasil, seja em carreira solo, ou com o Big Big Train, para podermos conhecer mais de perto sua capacidade de criação. Que faixa massa, buda que partiu! Acho que fiquei uma semana ouvindo ela, direto, de tão sensacional que é. Ter ouvido ela já valeu a pena conhecer o CD, que recém chegou em sua metade, mas dificilmente terá algo que supere essa Maravilha Prog.

Depois da estupefante batida que levamos na cara com “Polymixia”, o clima acalma, com o piano e a presença da violinista Rachel Hall em “Over My Eyes”, uma faixa delicada, onde a combinação voz, piano e violino é arrepiante. “Old Demons Die Hard” é uma canção pop oitentista, que também não justifica sua presença no disco, apesar de algumas passagens instrumentais interessantes, principalmente no solo de guitarra, com uma levada jazzística interessante, e nos duetos de moog/voz e guitarra e voz.

Versão em capa tripla

Nos aproximamos do final de On Her Journey to the Sun com “Keith (The Son of the Sun)”, outra canção amena, com uma bela introdução com o órgão, lembrando um pouco Focus, mas com um andamento diferente dos holandeses, explorando o riff quebrado do baixo. O predomínio dos teclados nessa bela faixa instrumental é uma das atrações, ao lado do solo Montgomeryano por parte de Rikard. A suíte “The River of Sadness” é dividida em cinco partes: “The River Of Sadness”; “Salt And Foam”; “The Distant Shore”; “In Orbit” e “The River Of Sadness (Reprise)”. Como toda suíte, é uma faixa bem trabalhada, repleta de variações, onde a guitarra é o piano são explorados com mais intensidade. O que irá chamar atenção nela é a presença do acordeão, o primeiro instrumento que Rikard aprendeu a tocar, além do bonito solo de baixo. Encerrando o álbum, “All A Dream” é uma narração de Spencer Keala Bowden, sussurada sobre acordes dedilhados do piano elétrico.

On Her Journey To The Sun saiu também no formato de vinil duplo, e o lançamento em CD, com capa tripla gatefold, ainda conta com um CD bônus, apresentando o melhor do que o Gungfly lançou em seus dois primeiros álbuns – a saber, Please be Quiet, de 2009, e Lamentations, de 2011 – e vem bem a calhar para quem já estava com saudades das complexas e belas obras que o Beardfish registrou ao longo de pouco mais de uma década e meia. Discaço!

Contra-capa

Track list

CD 1

01. Of The Orb
02. On Her Journey To The Sun
03. He Held An Axe
04. My Hero
05. If You Fall (Part 1)
06. Polymixia
07. Over My Eyes
08. Old Demons Die Hard
09. Keith (The Son Of Sun)
10. The River Of Sadness
11. All A Dream

CD 2 (The Best of Gungfly)

01. Rumbling Boxes
02. On And On
03. White Light
04. Lamentation
05. No Remorse
06. Before The Winter
07. Bringing Down The Walls
08. She’s Gone Again
09. The Prisoner
10. Are You Aware That I’m Awake?
11. Peace At Mind
12. And She Drives Me…
13. We Will Never Leave
14. Whiskers

3 comentários

  1. Ronaldo

    Tá na minha lista de audições de 2017!
    eu acho tanto o Beardfish quanto o Big Big Train bandas boas, mas que deveriam investir mais nas composições. Trabalham muito o arranjo e a sonoridade, mas faltam bons ganchos nas músicas.
    Abraço,

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    • Mairon

      Talvez o Gungfly seja a resposta para essa tua pergunta Ronaldo. Ouça, com certeza ouça!!

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