Discografias Comentadas: Shákti

23 de julho, 2017 | por Mairon
Discografias Comentadas
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Shakti ao vivo: “T. H. Vikku”, McLaughlin, L. Shankar e Zakir Hussaim

Por Mairon Machado

Há duas semanas, meu amigo Ronaldo Rodrigues apresentou uma belíssima matéria com a Discografia Comentada da Mahavishnu Orchestra. Essa foi uma das grandes bandas da qual  guitarrista John McLaughlin fez parte, mas não a única. Ainda na década de 70, ele envolveu-se em um projeto audacioso, que uniu instrumentos do oriente e do ocidente, e foi batizado de Shákti. Ao lado dos músicos indianos Lakshminarayana “L.” Shankar (violino), Zakir Hussain (tabla), Ramnad Raghavan (Mridangam) e Thetakudi Harihara “T. H. Vikku” Vinayakram (Ghatam), McLaughlin abandonou a guitarra e decidiu se focar apenas no violão. Mas a forma como ele toca o mesmo continua sendo idêntica ao estilo furioso e veloz dos tempos da Mahavishnu, e por que não, da banda de Miles Davis.

Para tocar com os músicos indianos, John encomendou com o luthier da Gibson, Abraham Wechter, um violão especial, que trazia sete cordas adicionais perpendiculares às seis cordas tradicionais do violão normal. AS novas cordas são responsáveis por dar ao violão um som parecido com o Sitar, e virou uma marca registrada na carreira do guitarrista, assim como sua famosa Gibson de dois braços. O grupo surgiu após a dissolução da segunda formação da Mahavishnu, e em apenas dois anos, lançou seus únicos três e fantásticos álbuns, os quais vos apresento agora.


Shakti with John McLaughlin [1976]

A estreia do grupo foi gravada em uma apresentação no South Hampton College, no dia 05 de julho de 1976, e é uma aventura pelos sons da Índia. Apenas três canções preenchem a quase uma hora de show. Duas delas são faixas que demonstram toda a habilidade e capacidade de improvisação dos indianos, e também de McLaughlin. A primeira delas é a sensacional faixa de abertura, “Joy”, uma verdadeira alegria ao ouvir os duelos velozes de violão e violino enquanto a parte percussiva detona ao fundo. A velocidade dos dedos de L. Shankar e McLaughlin é impressionante, e cada solo dos músicos e aplaudido com vibração pela plateia, durante os impressionantes 18 minutos de muita velocidade – não dá para entender como os indianos conseguem manter o pique. Ocupando todo o lado B, e com mais de 28 minutos, “What Need Have I for This – What Need Have I for That – I Am Dancing at the Feet of My Lord – All is Bliss – All is Bliss”, é uma daquelas faixas para se deliciar e entrar em nirvana. Começando deforma suave, apenas com o violão e o violino em destaque, e depois, há um crescendo regado a muita improvisação e sentimento. Durante toda a faixa fica claro que os músicos estão em êxtase em cima do palco, no auge da inspiração e harmonia. Os duelos de ghatam e tabla sobressaem em várias etapas. O clima indiano e a levada diabólica da música com certeza irão fazer você viajar pra outro mundo, mesmo estando no seu quarto. Fechando o track list temos uma versão para “Lotus Feet”, peça registrada por McLaughlin no álbum Inner Worlds (1976), da Mahavishnu, e veio aparecer depois na turnê de McLaughlin com Paco De Lucia e Larry Coryell, mas que aqui foi visivelmente podada, ficando apenas o registro da introdução. Um álbum sensacional, de um grupo único onde todos se encaixavam de forma a harmonizar cada segundo da canção, tornando assim a música uma peça não só para ser ouvida, mas também absorvida como um bom vinho.


A Handful of Beauty [1976]

Sem a presença de Ramnad Raghavan, agora como um quarteto, a Shákti vai para os estúdios registrar seu segundo álbum, o sensacional A Handful of Beauty. Com muita liberdade nos estúdios, os músicos criam aqui uma obra atemporal, e que particularmente, tenho grande simpatia por ter sido o primeiro disco com McLaughlin que ouvi em minha vida. É importante destacar também que Zakir Hussain está em papel de destaque em todas as faixas, executando a tabla como poucos. Os vocais percussivos indianos introduzem “La Danse Du Bonheur”, uma faixa veloz com destaque para os duelos de violão e violino. Outra faixa veloz é “Kriti”, com várias sequências em que o violão faz duelos com o violino e com a tabla, em uma insanidade musical para vibrar pela casa. Durante “Lady L.”, predomina um ritmo suave embalado pelos instrumentos indianos, com exceção do solo de McLaughlin, repleto de velocidade. Esse mesmo ritmo suave está presente na bela “Two Sisters”, um lamento super lento apenas com John no acompanhamento e L. Shankar executando um solo triste e tocante. O clímax fica para as duas faixas longas: “India e “Isis”. “India” talvez seja a mais bela composição do grupo, sendo que escolhi ela para representar a banda na saudosa seção Maravilhas do Mundo Prog. A canção começa com lentos dedilhados e arpejos de John, um crescendo fascinante para os delírios solos de L. Shankar, e um longo improviso que nos remete direto ao oriente. Já”Isis”, está no mesmo nível de “India”. Quinze minutos de uma sequência de solos de Shankar e John, sempre intercalados por um riff principal onde ambos só não fazem chover. A Handful of Beauty é o melhor disco da banda, e um dos melhores da carreira de McLaughlin.


Natural Elements [1977]

Para o terceiro disco, temos como novidade os instrumentos indianos Dholak, Nal, Kanjeera e Moorsing. Essa foi uma tentativa, não bem sucedida, de incrementar e “popularizar” o som da Shákti. Escapam-se a linda “The Daffodil and The Eagle”, com seu início lento, alternando com outros mais rápidos, dando realmente um nó na cabeça daquele que não está acostumado com inovações, o bom suingue de “Get Down and Sruti”, com ótimos solos por McLaughlin e Shankar, além daquela levada contagiante dos instrumentos indianos e as vocalizações percussivas como em “La Danse Du Bonheur”, e a rápida “Mind Ecology”, que poderia ter estado tranquilamente em A Handful of Beauty. No mais, o disco não vinga nos ouvidos. O clima parece um pouco menos descontraído que os antecessores, e apesar da haver boa música, fica faltando um certo tempero. As faixas mais calmas são “Bridge of Sighs”, na qual até McLaughlin parece estar com o freio de mão puxado,  e a bonita e meditativa “Peace of Mind”, que tem como defeito apenas ser muito curta. O embalo do violão em “Face to Face” é o guia para um belo solo pelo músico, assim como a alegre “Happiness is Being Together” parece saída de uma dança oriental, ainda mais pelas vocalizações dos músicos. Ainda temos a curtinha “Come on Baby Dance With Me”, que não acrescenta muito na nota final do álbum, que apesar dos pesares, seria aprovado com a média.

John resolveu voltar para a carreira solo após esse álbum, lançando o magistral Electric Guitarist em 1978. Depois disso, alternou bons e maus momentos em sua carreira solo, reviveu a Mahavishnu Orchestra nos anos oitenta e fez sucesso com o trio ao lado de Al Di Meola e Paco De Lucia. Os demais integrantes da Shakti seguiram suas carreiras independentemente, com Vynaiakram sendo o primeiro músico indiano a ganhar um Grammy (isso já na década de 90).

Em 1997, McLaughlin, Hussain e Vinayakaram, juntos com o músico convidado Hariprasad Chaurasia nas flautas, se reuniram para criar o grupo Remember Shakti. Essa formação lançou três CDs: Remember Shakti (1999), The Believer (1999) e Saturday Night in Bombay (2001), mas isso é papo para outra Discografia. De qualquer forma, a Shakti deixou seu nome registrado na história musical, não somente por ser a primeira banda a misturar sons ocidentais e orientais de uma forma totalmente inovadora, mas também por suas belíssimas composições e arranjos.



1 Comentario

  1. Ronaldo disse:

    Excelente pauta, meu caro! e como de praxe, análise muito bem executada. Concordo na íntegra com as posições e destaques que fez. Abraço!

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