Por Mairon Machado

Um dos lançamentos mais aguardados do ano finalmente chegou às lojas no início do mês passado. Trata-se de Is This The Life We Really Want?, o primeiro disco solo de Roger Waters desde a ópera Ça Ira, em 2005, e principalmente, desde Amused to Death. A expectativa em torno desse disco começou com uma série de divulgações feita pelo site oficial do ex-Pink Floyd, dentre elas, as faixas “Dèja-Vú”, “The Last Refugee” e “Smell the Roses”, que trazem grandes inspirações e citações de clássicos do grupo britânico, e foram escolhidas para serem os primeiros singles do disco.

A minha capa para o disco …

A campanha publicitária sobre o disco foi bem feita e intrigante. No facebook, é possível jogar o teste “Is this the Life We Really Want?”, onde você constrói a sua capa do disco com aqueles problemas que você não quer mais viver em seu dia a dia. Michel Temer, no dia 20 de maio, esteve na página oficial de Waters no facebook, com uma pergunta vergonhosa aos brasileiros: “Brasil, é essa vida que vocês realmente querem?“.

No álbum, Waters está acompanhado por Nigel Godrich (teclados, guitarra, arranjos e colagens), Gus Seyffert (guitarra, teclados e baixo), Jonathon Wilson (guitarra e teclados), Roger Manning (teclados), Lee Padroni (teclados), Joey Waronker (bateria), e o trio vocal formado por Jessica Wolfe, Holly Proctor e Lucius.

“When we were Young” abre o disco, trazendo as maiores lembranças de “Speak To Me” (Dark Side of the Moon), através de vozes que vão crescendo sobre o tic-tac de um relógio. Ficamos no aguardo da explosão de um grito de mulher, mas o que surge é um delicado dedilhado de violão para “Déjà Vu”, faixa suave, lenta, arrastada, no melhor clima Pros and Cons of Hitch-hiking, álbum solo de Waters lançado em 1984, com pitadas de “Mother”. Guiada por pianos, orquestrações e violões, além de colagens como latidos, batidas de coração, vidros quebrados entre outros, torna-se impossível à nossa mente não associar o que estamos ouvindo com Pink Floyd. Mas isso é um problema? Para mim não, e pelo contrário, é uma boa prova de como reconstruir algo que já é genial, ainda mais para uma letra fantástica, onde Waters nos conta o que faria se fosse Deus, ou se fosse um Drone, e acaba concluindo que de todas as formas, tudo é igual.

Brasil sendo vergonhosamente citado no facebook de Waters

A interpretação vocal de Waters é naquele climão rasgado, contagiantemente emocionante, e isso mantém-se na forte “The Last Refugee”, uma clara homenagem ao menino sírio morto numa praia da Turquia, ainda mais pelos sons de gaivotas e do mar no final da faixa. “Picture That” leva-nos a um novo mundo Floydiano, das eras de Animals, principalmente “Pigs (Three Diferent Ones)”. Nela, Waters cospe sua raiva ao mundo, convidando-o a imaginar-se de diversas formas, criticando desde os políticos “sem cérebro”, uma lógica referência à Donald Trump, passando pelos tribunais e Igreja (“Imagine um tribunal sem leis de merda; Imagine uma igreja com nenhuma merda“, e chegando até os fãs que seguem “me filmando no show em um telefone de um assento na primeira fila da frente“, para então, saber como é ser um idiota sem cérebro. “Broken Bones” retorna aos violões e, claro, à Pros and Cons. O violoncelo e a interpretação de Waters aqui são as grandes atrações.

Trump volta a surgir, agora com uma fala sua que introduz a faixa-título, mais uma na qual Waters detona à todos pelo atual momento mundial, apático, capaz de aceitar o que de ruim está acontecendo sem fazer nada, concentrando-se apenas em sua vidinha. Musicalmente, ela é uma faixa tensa, com orquestrações, vocalizações duplas, um piano martelante e um clima de tensão saindo das caixas de som, que acaba levando a “Bird in a Gale”, uma espécie de trilha sonora das tensões que vive o mundo, com noticiários saindo das caixas de som entre acordes de sintetizadores e um ritmo forte, novamente nos lembrando da era Animals, em um crescendo épico e paranóico – os trechos onde Waters cantam chegam a assustar os desavisados.

A audição volta ao clima de Pros and Cons na suave “The Most Beautiful Girl”. Essa faixa contém uma bela melodia musical, levada pelo piano e por mais uma mágica interpretação de Waters. A letra é uma referência à Síria, pelo menos na visão que eu tive da letra, e não a uma menina, especificamente. “Smell the Roses” tem o maior jeitão de “Have a Cigar”, e é uma das melhores faixas de Is This The Life We Really Want?. Impossível não pensar como seria o clássico de Wish You Were Here na voz amarga e raivosa de Waters.

Foto promocional do álbum

“Wait for Her”, “Oceans Apart” e “Part of Me Died” formam uma espécie de “mini-suíte”, começando pelo delicado piano e os acordes de violão da primeira, levado pelo som das gaivotas e do mar para a curtinha “Oceans Apart”, floydiana ao extremo, e encerrando com o piano novamente em evidência junto ao vocal sussurrado de Waters. A sensação que fica nas letras dessas três canções é que cada indivíduo deve buscar a solução para o mundo atual, da melhor forma possível, sem usar da arrogância e do poder e levando em consideração a igualdade entre todos. Uma bela mensagem, ainda mais para os dias de hoje.

Desde o seu lançamento, Is This The Life We Really Want? já conquistou a terceira posição em vendas no Reino Unido, décima primeira na terra de Trump e mais a primeira posição na Bélgica, Escócia, Noruega, República Tcheca e Suíça, mostrando que os fãs estavam – e estão – ávidos para consumir algo relacionado ao Pink Floyd.

Imagem do belo palco da atual turnê de Waters

O disco saiu nos formatos CD e LP 180 gr duplo, trazendo encarte com todas as letras. A turnê está percorrendo os Estados Unidos e deve chegar na Europa em breve, com um palco no mínimo espetacular, resgatando imagens de Dark Side of the Moon, Wish You Were Here, Animals e The Wall. Recentemente saíram notícias de que Waters está tratando de vir para a América do Sul ano que vem com essa turnê. Tomara que venha ao Brasil, por que pelo que está sendo divulgado na internet, é um espetáculo memorável.

Mas, voltando a Is This The Life We Really Want?, é um álbum que não irá agradar de cara aqueles que preferem os timbres suaves de David Gilmour, e também trará algumas dores de cabeça para quem ama as letras de Waters, como é meu caso. Afinal, o músico consegue novamente criar um conceito atual, e entregar aos ouvintes um relato triste, mas fiel, da sociedade em que vivemos, principalmente no que se refere a nova política mundial. Forte candidato a entrar na lista de Melhores de 2017, com certeza.

Contra-capa do vinil

Track list

1. When we were Young
2. Déjà Vu
3. The Last Refugee
4. Picture That
5. Broken Bones
6. Is this the Life we Really Want?
7. Bird in a Gale
8. The Most Beautiful Girl
9. Smell the Roses
10. Wait for Her
11.Oceans Apart
12.Part of Me Died

6 comentários

  1. Fernando Bueno

    Interessante que o álbum que mais de lembrou esse novo do Waters vc sequer citou: The Final Cut. Em três situações eu fiquei com a impressão de que ouviria “Jesus, Jesus, what’s it all about?”.

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    • Diego Camargo

      Eu também não ouvi Pros And Cons nesse disco em praticamente lugar nenhum rs

      Eu ouvi bastante Animals e o The Final Cut como o Fernando mencionou. Apesar de alguns momentos até darem um tom meio Amused To Death, mas bem de leve.

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    • Mairon

      Poxa, que estranho mesmo. Todas as vezes que ouço o disco na íntegra, o Pros and Cons me vem a mente

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      • Mairon

        Acho o melhor disco do Waters, seguido do Amused to Death e do Radio Kaos

  2. Igor Maxwel

    A verdade é que queremos muito ver um dia Roger Waters e David Gilmour fazendo muitos discos juntos e fazendo muitos shows juntos, como nos velhos tempos de Pink Floyd…
    Não custa nada sonhar!!!

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