Por Diogo Bizotto

“Incorruptível.” É um nome forte, concordam? Para Jon Schaffer, líder e principal compositor do Iced Earth desde sempre, o título do novo álbum reflete a integridade de suas decisões para com a banda e a visão de que nada é mais importante que seguir em frente, não importando as dificuldades que se apresentam. Não dá para dizer que Jon prega uma coisa e pratica outra, pois desde Iced Earth (1990) ele fez o que pôde e o que quis a fim de levar o Iced Earth adiante, mesmo que isso significasse entrar em greve contra a própria gravadora entre 1992 e 1995, uma vez que não estaria recebendo os devidos royalties relativos a Iced Earth e Night of the Stormrider (1991).

Entre as maiores dificuldades enfrentadas por Jon está o fato de o vocalista Matthew Barlow, que ingressou na banda em 1993 e caiu no gosto dos fãs, ter deixado o grupo em 2003 para tornar-se um oficial de polícia. Tim “Ripper” Owens, que na época fazia parte do Judas Priest, aceitou registrar, como convidado, sua voz no disco que estava sendo preparado, mas, após a volta de Rob Halford ao Priest, acabou ingressando oficialmente no Iced Earth. O resultado dessa parceria, The Glorious Burden (2004), teve uma recepção morna e recebeu várias críticas, com uma grande parcela de razão. Não era uma simples questão de troca de vocalistas. A qualidade das músicas não é uniforme. O álbum seguinte, Framing Armageddon: Something Wicked Part 1 (2007), provocou reações semelhantes.

No fim de 2007, para a alegria de muitos, Barlow retornou ao grupo e gravou vocais para aquela que seria sua volta triunfal, The Crucible of Man: Something Wicked Part 2 (2008). O álbum, porém, conta em sua maioria com canções escritas e gravadas por Jon na mesma época em que produzira Framing Armageddon. Isto é, por mais que o vocal trouxesse uma familiaridade maior com aquilo tido como o “som clássico” do Iced Earth, o disco reflete uma época menos feliz de Jon como compositor. Em 2011, Barlow deixou a banda em definitivo, abrindo espaço para o pouco conhecido Stu Block (ex-Into Eternity).

Iced Earth em 2017: Luke Appleton, Jake Dreyer, Stu Block, Jon Schaffer e Brent Smedley

A essa altura do campeonato, já nem sabia mais o que esperar do Iced Earth e, confesso, inclusive havia deixado a banda meio de lado após The Glorious Burden. Para calar minha boca e fazer a felicidade dos meus ouvidos, Jon e Stu, acompanhados de Brent Smedley, baterista de tantas ocasiões, Freddie Vidales (baixo) e Troy Seele (guitarra), lançaram um dos melhores álbuns de 2011. Dystopia foi uma surpresa das grandes, carimbando uma série de novos clássicos que dialogam com o material noventista mas não soam como repetição. Para mim, trata-se do melhor disco desde o clássico Something Wicked this Way Comes (1998). Além disso, Stu Block mostrou-se um substituto capaz em estúdio e ao vivo, unindo agressividade, potência e versatilidade.

O lançamento seguinte, Plagues of Babylon (2014), representou alguns passos para trás. Faltou força nas composições e canções mais marcantes. Incorruptible felizmente coloca a banda novamente no caminho certo. Não sinto a mesma quantidade de clássicos em potencial quanto senti em Dystopia, mas se trata de um álbum sólido, digno da história do Iced Earth. Alguns podem chamar de previsível, mas é muito difícil imaginar, considerando seu histórico, que Jon venha a promover alguma guinada ou mesmo lançar um disco tão bom quanto Night of the Stormrider, que tenho como sua obra máxima. Incorruptible apresenta aquele power metal tipicamente norte-americano que ora faz intersecções com o heavy metal mais tradicional, ora pende um pouco para o thrash. Ao lado de Jon, Stu e Brent, o baixista Luke Appleton (que havia ingressado em Plagues of Babylon) e o jovem guitarrista Jake Dreyer (ex-White Wizzard), de apenas 24 anos, entregam performances de bom nível. A produção não se diferencia muito daquilo que vem sendo feito por tantos outros grupos (um dos males da atualidade), mas, considerando o que se ouve por aí, não chega a prejudicar.

Repetidas audições têm mostrado um álbum equilibrado, com bem mais faixas acima da média do que Plagues of Babylon. Quanto mais escuto, mais percebo qualidades em músicas como “Black Flag”, dinâmica e bem construída; “The Veil”, na linha das semibaladas que quase sempre dão as caras em discos do Iced Earth; e “Raven Wing”, que estabelece um belo crescendo e culmina em um solo impressionante de Jake, melódico e bem construído, aparentemente nota por nota. O lado mais thrash metal do grupo dá as caras em “Seven Headed Whore”, que chega a lembrar o material dos álbuns mais recentes do Testament e mostra o lado mais velocista de Jake, que, espero eu, permaneça na banda por muito tempo.

Jon Schaffer

A faixa de abertura, “Great Heathen Army”, assim como “Defiance”, são outras adições positivas, e dedico destaque especial para a instrumental “Ghost Dance (Awaken the Ancestors)”, em homenagem aos povos indígenas norte-americanos, que inclui coros típicos e atinge a façanha de não soar cheesy. Como é normal em tantos lançamentos do Iced Earth, Jon não deixou de lado seu gosto pela história bélica norte-americana, dedicando a última faixa a um episódio específico da Batalha de Fredericksburg, da Guerra de Secessão. Para nossa sorte, Jon não deu importância excessiva à letra em detrimento da música e “Clear the Way (December 13th, 1862)” é uma das melhores faixas de Incorruptible, dona de uma ponte cativante e um interlúdio instrumental recheado de boas passagens.

Como dito mais acima, Jon Schaffer não tem intenção alguma de pregar peças nos fãs. É prudente e, quando inspirado, cria bons riffs em profusão e sabe basear suas composições nessas estruturas. Está muito bem acompanhado e lançou um bom disco. Não tão bom quanto seu melhor, mas ainda assim um álbum que satisfaz, especialmente tendo em vista a quantidade maior de baixos que altos nos últimos 15 anos de carreira. Stu Block foi um grande achado e espero que sua passagem pela banda seja longeva. Caso o Iced Earth resolva aparecer em minha cidade para um show, estarei lá prestigiando.

 

Track list:

  1. Great Heathen Army
  2. Black Flag
  3. Raven Wing
  4. The Veil
  5. Seven Headed Whore
  6. The Relic (Part 1)
  7. Ghost Dance (Awaken the Ancestors)
  8. Brothers
  9. Defiance
  10. Clear the Way (December 13th, 1862)

7 comentários

  1. Daniel Benedetti

    Jon Schaffer é realmente um cara batalhador do Heavy Metal. Eu gosto bastante de álbuns como The Dark Saga e Something Wicked This Way Comes, principalmente do primeiro. Mas concordo que depois deles o grupo deu uma caída bem sensível. A volta do Barlow foi meio frustrante mesmo, acho The Crucible of Man: Something Wicked Part 2 bem fraquinho. Até gostei do Dystopia, mas o Plagues of Babylon eu acho horrível. Nem sabia que eles tinham lançado este trabalho novo, mas pela ótima resenha, vou dar uma chance para ele.

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    • Diogo Bizotto

      Beleza, Daniel? Eu vejo um declínio antes mesmo da saída do Matthew Barlow, pois “Horror Show”, apesar de ser um disco muito técnico (a cozinha é absurda), já mostra algumas composições menos inspiradas que aquilo com o qual a banda havia acostumado os fãs. Aí foi ficando mais embaçado mesmo e só recuperou com “Dystopia”. Só não acho “Incorruptible” o melhor da banda desde “Something Wicked…” justamente por causa de “Dystopia”, que foi uma surpresa muito boa. Claro, não importando a qualidade dos álbuns, Barlow ao vivo sempre era algo poderoso, mas acho que Stu está fazendo um ótimo trabalho. Já os vi ao vivo na turnê de “Dystopia” e gostaria de vê-los novamente na atual, ainda mais agora, com a entrada de Jake, que mandou muito bem em estúdio.

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      • Daniel Benedetti

        Eu ainda não tive o privilégio de assistir a um show deles. Barlow, pelos vídeos que vi no Youtube, sempre me pareceu monstruoso ao vivo, mas que bom que o Stu segura bem a onda… Tomara que eles voltem ao Brasil e eu consiga vê-los pela primeira vez. Quanto ao Horror Show, acho ele um álbum inconsistente apesar de contar com o Steve Di Giorgio, que é praticamente um selo de garantia de qualidade no baixo! Confesso que não conheço o trabalho do Jake Dreyer, mas fiquei ainda mais curioso em ouvir o Incorruptible. Saudações!

  2. André Kaminski

    Eu gosto de Iced Earth, mas cara, não dá para ouvir dois discos seguidos deles devido a mesma tonalidade da guitarra e quase os mesmos riffs repetindo em várias faixas de vários de seus discos. Ouvi a primeira faixa do disco e depois da introdução épica, veio a mesma tonalidade de sempre. Confesso que murchou um pouco o meu interesse em verificar as outras músicas.

    Algo similar me ocorre com o Black Label Society e a guitarra de Zakk Wylde.

    Quanto ao Block, acho ele bom vocalista, se encaixa bem no estilo da banda apesar do Barlow ser incrível.

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    • Diogo Bizotto

      Eu entendo o que você quer dizer, André. Como nunca estudei música, não sei exatamente dizer o nome desse tipo de padrão no qual o Jon escreve boa parte de seus riffs, mas sei a que você se refere. Ao menos para mim, no início da carreira havia mais variação nesse sentido e, como não é de se admirar, “Night of the Stormrider” é meu favorito.

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  3. Júlio Moutella

    “A produção não se diferencia muito daquilo que vem sendo feito por tantos outros grupos (um dos males da atualidade), mas, considerando o que se ouve por aí, não chega a prejudicar.”

    Poderia me explicar exatamente sobre esse “mal da atualidade”, pois eu venho analisando a mesma coisa (acredito ser a mesma coisa) com outras bandas como Blind Guardian, Epica, Sonata Arctica.

    Boa análise sobre o novo album, confesso que nunca peguei pra ouvir a fundo Iced Earth e após ler a sua matéria fiquei com vontade de visitar as obras mais citadas por você aqui, obrigado!

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    • Diogo Bizotto

      Tranquilo, Júlio? Obrigado pelo elogio e que bom que essa publicação te incentivou a ir atrás de material do Iced Earth. Se começar pela coletânea “Days of Purgatory”, que compila material dos primórdios, mas regravado e com os vocais de Matthew Barlow, não tem como errar. Nele estão as versões definitivas dos clássicos dos dois primeiros discos, que contam com outros vocalistas. Quanto ao grande mal das produções atuais, refiro-me à ausência (ou quase) de dinâmicas. Tudo com muito volume, excessivamente na cara, sem nuances. Não sei quanto a Epica e Sonata Arctica, pois não os ouço, mas o que ouvi de relance nos álbuns mais recentes do Blind Guardian não se afasta muito disso mesmo. Lembro que mesmo “A Night at the Opera”, que já tem 16 anos, não me agradou em termos de produção. Difícil mesmo é encontrar bandas de heavy metal que NÃO estejam soltando discos com a sonoridade prejudicada pela falta de dinâmicas, e isso vem desde os anos 1990, mas se fortaleceu demais de uns 15 anos pra cá. Ambiência é uma coisa que tem andado esquecida. Aquele som de bateria da introdução de “Zero Tolerance”, do Death? Esquece! Ultimamente anda melhor ouvir um disco de black metal propositalmente atoscalhado do que essas produções assépticas da atualidade.

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