Midnight Oil – Diesel and Dust [1987]

12 de Abril, 2017 | por micaelmachado
Resenha de Álbum
9

Por Micael Machado

Corria o ano de 1987, e a Atlântida FM, a única “rádio rock” a chegar até a pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul onde eu morava então (e que permanece no ar até hoje, embora com um perfil já diferente) foi dominada por uma música introduzida por uma melodia onde várias vozes entoavam ao mesmo tempo algo como “tchu-ru-tchu-ru-tchu-ru-ru” repetidas vezes. Pouco tempo depois (ou antes, já não recordo), outra música do mesmo grupo invadiu as ondas daquela estação, desta vez questionando “como podemos dormir enquanto nossas camas queimam?”. Do alto dos meus treze anos, eu nunca havia ouvido falar daquela banda (e de muitas outras, sejamos honestos),  mas, assim que descobri se chamar Midnight Oil, e que o disco que continha as duas faixas (a primeira chamada “The Dead Heart“, e a segunda “Beds Are Burning“) possuía como título Diesel and Dust, aproveitei a primeira oportunidade que tive de ir até uma cidade vizinha onde havia uma boa loja de discos e adquirir aquela bolachona (uma das primeiras que tive), em uma das decisões mais acertadas que já tomei, e que causou um caso de paixão por esta obra que permanece intacto mesmo passados quase trinta anos daquela ocasião.

Ao contrário do que eu pensava então, Diesel and Dust estava longe de ser a estreia do Midnight Oil. Sexto registro completo do grupo australiano formado em 1976 e composto, à época, por Peter Garrett nos vocais, Martin Rotsey e Jim Moginie nas guitarras (com o segundo também se dedicando aos teclados), Peter Gifford no baixo (o qual deixaria a banda ainda antes do lançamento do disco, sendo substituído por Bones Hillman) e Robert Hirst na bateria, o álbum foi o responsável por consolidar o nome do quinteto nas paradas mundiais, mas eles estavam longe de ser meros desconhecidos, especialmente em seu país natal, onde sua popularidade já era bastante destacada. Tanto que, ao longo de boa parte do ano de 1986, o grupo se dedicou a uma turnê intitulada “Blackfella/Whitefella”, onde percorreu os confins da Austrália ao lado das bandas Gondwanaland e Warumpi Band, dois grupos formados por músicos de origem aborígene (a população indígena original do país), e que serviu para divulgar as dificuldades que esta população enfrentava para conseguir sobreviver em seu país natal (como ocorre com muitos indígenas em todo o continente americano).

O Midnight Oil em 1987, posando no meio do deserto australiano

A turnê foi crucial para o conceito das letras do próximo registro do Midnight Oil (o mesmo disco do qual estamos tratando aqui), as quais servem para chamar a atenção não só dos australianos, mas do mundo inteiro para as agruras de toda uma raça, a começar pela própria “The Dead Heart” (quarto lugar nas paradas da Austrália, e décimo-primeiro lugar na “Billboard Mainstream Rock Tracks” dos Estados Unidos), cujo título é uma expressão tradicional que faz referência ao imenso deserto que domina boa parte do continente australiano, e onde a maioria da população aborígene reside. A preocupação com a causa indígena continua na roqueira “Warakurna“, minha faixa favorita no álbum (cujo título faz referência a uma pequena comunidade aborígene visitada pela banda durante a turnê “Blackfella/Whitefella”), na rápida “Bullroarer” (nome de um instrumento típico daquela comunidade, e que foi utilizado nesta faixa), na própria “Beds Are Burning” (que chegou ao sexto lugar das paradas australianas, inglesa e norte-americana, e que pede a devolução de terras da Austrália para sua população original), na tipicamente oitentista “Sell My Soul” (que trata dos aborígenes que deixam suas comunidades originais para conviver nas cidades dos “homens brancos”), na empolgante “Gunbarrel Highway” (que acabou censurada nos Estados Unidos, e não faz parte das versões em vinil e cassete da obra, infelizmente, visto ser melhor que algumas faixas da versão “oficial” de Diesel and Dust) e na sinistra (e meio gótica) “Whoah”, onde os aborígenes se voltam à religião dos “colonizadores”, a qual não lhes dá a atenção necessária.

Outras causas defendidas pelo grupo ao longo de sua carreira aparecem também nas letras das demais faixas do disco, como a preocupação com o meio-ambiente e o futuro do planeta (em “Arctic World”, que tem a melodia conduzida por violões e um sentimento mais tristonho ao longo de sua audição), os direitos dos trabalhadores (“Sometimes”, onde os operários são explorados por “canibais de terno e gravata”, e que apresenta melodias que remetem à surf music), questões políticas de seu país natal (na animada “Dreamworld“, que foi lançada em single e ganhou um vídeo) e tópicos pacifistas e anti-guerras  (em “Put Down That Weapon”, um rock mais marcado, com destaque para a linha de baixo, além de um belo refrão onde os teclados assumem a frente da melodia, também lançada como single e recebendo um vídeo de divulgação). O curioso é que, mesmo as letras sendo tão importantes para o contexto geral do álbum, no encarte original era bastante difícil compreendê-las e entender seus significados (especialmente quando se tem apenas treze anos e não existe algo como a internet para lhe ajudar a buscar todas estas informações, as quais só vim a descobrir muitos anos depois), visto que a arte do mesmo foi toda feita de modo a parecer que os textos foram escritos no papel com um óleo bastante viscoso, que “escorre”e “pinga” aqui e ali, e torna tudo bastante difícil de ser lido.

Detalhe do encarte original de Diesel and Dust, cuja arte dificulta a leitura das letras

Como disse, felizmente anos depois a internet deixou tudo mais fácil, e hoje é bastante fácil termos acesso ao conteúdo dos textos de Diesel and Dust, suas traduções e significados, e darmos ainda mais importância a esta verdadeira obra prima do rock australiano, que em 1989 foi considerado pela prestigiada revista Rolling Stone como o décimo-terceiro melhor disco da década de 1980, e listado como “número um” no livro “100 Best Australian Albums”, lançado em 2010, e que em 2008 ganhou uma “Legacy Edition” que vem com um DVD de bônus, o qual contém os vídeo clipes de “The Dead Heart” e “Beds are Burning”, além de um documentário sobre a citada turnê “Blackfella/Whitefella”. Já o Midnight Oil continuou acumulando hits e prestígio até 2002, quando anunciou sua separação, vindo o vocalista Peter Garrett a se dedicar à política de seu país natal, chegando a ser eleito para um cargo equivalente ao de Senador na Austrália, e depois assumindo a pasta de ministro do meio ambiente do país.

Para surpresa geral, em 2016 o quinteto anunciou seu retorno, com uma excursão mundial que iniciará com cinco datas no Brasil entre abril e maio deste ano, da qual a primeira data será dia 25 deste mês na cidade de Porto Alegre, onde certamente estarei presente, cantando, a plenos pulmões, não só os grandes clássicos da carreira da banda, mas também (espero eu) muitas faixas de Diesel and Dust, um dos primeiros discos a chamar minha atenção ainda na adolescência, e que permanece no meu coração até hoje! Que este dia chegue logo, para que eu e muitos outros fãs possamos novamente cantar de forma emocionada o tão conhecido “tchu-ru-tchu-ru-tchu-ru-ru” de uma das grandes faixas da década de 1980! Há de ser épico!

Contracapa da versão original em vinil, sem a faixa “Gunbarrel Highway”

Track List:

1. Beds Are Burning
2. Put Down That Weapon
3. Dreamworld
4. Arctic World
5. Warakurna
6. The Dead Heart
7. Whoah
8. Bullroarer
9. Sell My Soul
10. Sometimes
11. Gunbarrel Highway



9 Comentarios

  1. maironmachado disse:

    Um dos discos mais importantes da década de 80, de uma banda que é quase um One Hit Wonder, assim como aquele do Oingo Boingo que tem “Stay”. Tomara que os shows que estão chegando por aí sejam tão bons quanto essa matéria do Mica. Valeu a lembrança!!

    • micaelmachado disse:

      Pô, o Midnight Oil tem bem mais que um sucesso só, sacanagem chamá-los de “quase um One Hit Wonder”. De todo modo, valeu pelo comentário!

      • maironmachado disse:

        Sim, eles tem bem mais que um sucesso só, assim como o próprio Oingo Boingo, mas todo mundo conhece eles por “Beds are Burning”.

        É que nem o R. E. M., que durante muito tempo era a banda de “Losing My Religion”, sendo que já tinham gravado uma cacetada de clássicos antes disso. Acho que consegui me explicar

  2. António Marcos disse:

    Parabéns MM. Excelente análise. Apresentou muito bem as qualidades das músicas, que se manteve também no excelente Blue sky mine. outra caracteristica é que manteve bom nível em seus lançamentos posteriores, sendo uma das principais bandas da Austrália. Mais um texto com seu selo de alta qualidade MM. Só para constar: MMM vem deixando a desejar: primeiro cometeu a heresia de tirar Velvet underground da lista dos melhores do ano. Agora diz que Oingo Boingo só tem um hit: ledo engano. Tem Just another day, try to believe, Cinderela undercover, entre outros. Inclusive em 1989 foi lançado um LP no Brasil só com sucessos, pois a banda fez parte da trilha sonora da novela top model e fez até show no Brasil.

    • maironmachado disse:

      Ok Antonio Marcos, concordo com você. Mas “Stay” foi o maior sucesso da banda, e muita gente conhece eles só por causa disso. É como expliquei com o R. E. M., se colocar “Losing My Religion”, todo mundo sabe quem é, mas experimenta colocar “Low” ou até “The One I Love”???

    • Micael disse:

      Obrigado pela força, Antonio! Eu curto muito o Blue Sky Mine também, mas, nos demais discos, já tenho de dar uma “filtrada” para conseguir as melhores partes de cada um!

  3. Tiago Bittencourt França disse:

    Sempre gostei de Midnight Oil. Este disco é um clássico. Na minha opinião estão muito longe de serem One Hit Wonder. Espero conseguir assistí-los no Rio. Parabéns pela resenha.

    • Micael disse:

      Valeu, Tiago! Também não os considero “One Hit Wonder”, embora entenda o ponto de vista do Mairon, de que, para a maior parte dos ouvintes casuais, a banda não seja tão conhecida assim!

  4. Micael disse:

    E rolou o show em Porto Alegre, e não é que o Midnight Oil tocou nada menos que oito músicas deste disco? Sonho realizado de minha parte, que nunca havia pensado em ouvir “ao vivo” canções como “Warakurna” ou “Bullroarer”! Espetacular é pouco! Pena que faltaram alguns clássicos, mas, com tantos discos e tantas faixas boas a escolher, sempre vai faltar algo, mesmo que o show dure umas três horas (ainda mais como, no caso do Oil, ele nem chegou a duas…).

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