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Por Mairon Machado

Saímos da gelada (nem tão geladas assim) terra dos presidentes e vamos curtir uma praia em Fortaleza, ao lado de Eudes Baima. Talvez o mais eclético dos consultores, Eudes conta aqui sua relação com a música, política, quadrinhos, leitura e licenciatura, bem como apresenta sua coleção para os leitores, junto de uma boa fritada de camarões e muita cerveja.


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Eudes Baima e suas coleções de livros e CDs

1. Meu amigo de fé e irmão camarada Eudes Baima, nosso coxinha socialista mais querido pelos políticos e apartidários da Consultoria. Obrigado por compartilhar sua história conosco. Por favor, apresente-se para os leitores.

Sou de Fortaleza, embora passe parte da semana numa cidade chamada Limoeiro do Norte, no sertão cearense, onde trabalho como professor na Universidade Estadual do Ceará (UECE). Acho que, junto com o sócio Marco Gaspari, devo compor a velha guarda do CR (class of ’61). Doido por discos, livros e revistas de história em quadrinhos, além de ouvir e contar velhas histórias.

2. Como você conheceu a Consultoria do Rock?

Boa pergunta, não lembro direito. Acho que foi por meio do grupo do Daniel Miceli Sicchierolli no Facebook, ao qual cheguei, acho, por indicação do Gaspari. Gostava muito de brigar com o Daniel nesse grupo. A partir daí fui adicionado no grupo da CR. Mas uma porção de gente que trafegava nestes grupos eu já conhecia de uma antiga comunidade do Orkut chamada Rock&Cultura, um seleto grupo de apreciadores de música e artes em geral que foi uma dos melhores espaços virtuais que já frequentei. Esta comunidade chegou a distribuir bottons para os membros, promover encontros presenciais, etc. Não sei em que recanto do cyber espaço foram parar dezenas de excelentes textos que foram publicados lá. Mas não resistiu à transição para o Facebook. Além do Siri, vem de lá também nosso querido representante no jet set internacional, o Comodoro Zé Leo.

3. Como foi que você passou a colaborar com o site?

Enfim, teve um dia em que alguém (foi você?) me mandou uma mensagem, me convidando para contribuir no site. Aceitei o emprego e estou por aqui até hoje.

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Visão geral da coleção de CDs (acima e centro) e da coleção de K7s (abaixo)

4. Você já tinha experiência em escrever anteriormente ou a Consultoria foi sua primeira experiência?

Bom, sou professor universitário, né? Escrever faz parte do ofício. Também há anos colaboro com um jornal trotskista chamado O Trabalho. Mas em textos de outro teor, não científicos ou políticos, já tinha colaborado esporadicamente com revistas locais (em particular uma chamada Aldeota), páginas na internet ou em grupos e comunidades como a que citei mais acima, mas nada tão contínuo como faço agora no CR.

5. Seus textos são bem variados, desde materiais da música nacional até trabalhos estrangeiros não tão comuns entre os leitores. Quais os fatores que influenciam nessa versatilidade de textos?

Isso me leva a falar de minha relação com a música porque esta variedade dos textos resulta da variedade do gosto musical.
Na infância, fui alimentado a base de Roberto Carlos e jovem guarda em geral (curioso que tive aquela fase de denegar o Rei na minha vida…depois relaxei e gozei das delícias do seu repertório). Depois, ali pelos fatídicos 15 anos, engrenei umas amizades (que estão aí até hoje!) muito alimentadas por música e por um gosto comum pelo rock. Então foram incontáveis noites de hard, progressivo e algum rock nacional. E dá-lhe sectarismo musical! Rock e nada mais!
Ocorre que um desses amigos, justo o cara que já trabalhava e tinha aparelho de som e discos (além de um alpendre no quintal), tinha a cabeça muito aberta e comprava muita coisa de jazz, instrumental brasileiro (Egberto, Hermeto) e até música nordestina. Isso educou meu gosto.
Nos anos 80, tempo de faculdade, me afastei das novas bandas e artistas de rock (odiei o BRock à primeira vista, depois separei o joio do trigo) e descobri o funk e o soul dos anos 60 e 70 (se tivesse tempo e os “bosses” da CR topassem, bancaria uma coluna black no site), a bossa nova (sobretudo meus amados João Gilberto e Tom Jobim), a MPB setentista, e o samba clássico.
Claro que a base de tudo isso continuou sendo o rock, mas a vida é tão curta, né? Por que não provar de tudo que ela tem de bom?
Daí resulta o que você chamou de versatilidade dos textos. Na verdade, eles só testemunham essas coisas que andei ouvindo nos últimos 40 anos.

6. Qual o texto que você mais gostou de fazer?

Vixi, difícil! Só escrevo sobre o que gosto! Mas talvez os 5 discos do Jorge Ben pela porradaria que provocou (aliás, antes que me esqueça, Tábua de Esmeralda >>>>>>todo o hard rock farofa dos anos 80), e aquele sobre os discos “progressivos” do Egberto Gismonti, um amor infinito na minha discoteca.

7. Desnecessário esse elogio ao Tábua … Como você consegue consolidar tempo para o trabalho como professor, um ativo militante político e ainda ouvir e escrever sobre música?

Cara, de fato, é o caos. Eu vivo nesse universo caótico e vou me virando do jeito que dá. Mas te confesso que tenho ouvido muito menos música do que é recomendável. Aliás, minhas contribuições ao site acabam por ser um pretexto para ouvir discos.

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Discos da MPB (acima), The Beatles e afins (abaixo)

8. Quais eram as principais lojas de discos em Fortaleza, onde você começou a ouvir música?

Fortaleza teve um número bastante razoável de lojas de discos, inclusive redes regionais. Mas, claro, não se encontravam raridades, eram mais os discos de artistas conhecidos. Não sei se, há 30 e tantos anos atrás, tínhamos sebos de discos na cidade. Se tinha eu não frequentava. As lojas marcantes foram, nos anos 70, as lojas Vox e, do final dos anos 70 em diante, as redes Tok Discos e Francinet, onde comprei praticamente 100% dos LPs que tive nesta época. A partir dos anos 90, levado pela minha mulher, conheci um dos melhores sebos da cidade, ainda ativo, o Botija Discos, do amigo Leontino Eugênio, baterista e lojista, onde virei sócio atleta.
Gosto muito de uma história de compra de discos que vivi. Em 79, inventamos de ter um grupo de teatro. Para financiar a empreitada, fizemos um forró no sítio de um dos membros do grupo que rendeu algum dinheiro. Daí o grupo explodiu (sabe como é, pintou dinheiro, a banda acaba…como se diz, diferenças artísticas…hahahaha). Bom, cada um ficou com uma parte da grana. A minha virou os LPs Who are you?, claro, do Who, e Truth, da Jeff Beck Band. Vou confessar, pelo que me lembro do texto da peça, o dinheiro foi melhor empregado nos discos.
Outra história de disco foi traumática. Em 79, saiu aqui In Through the Out Door, primeiro disco de inéditas do Led Zeppelin desde de 76. Certo dia, eu e um primo soubemos que o disco tinha chegado nas lojas. Mas cadê dinheiro para comprar? O jeito foi correr pra casa dos conhecidos para dar uma orelhada no disco. Uma epopeia. Um estava dormindo, outro mandou dizer que não estava…enfim, depois de várias tentativas, finalmente ouvimos a bolacha. Talvez por causa da alta expectativa, a decepção foi total. Odiamos o disco. E soubemos ali que o Led Zeppelin tinha acabado, meses antes do John Bonham morrer.

9. Aqui no sul, muitos materiais importados ou de artistas pouco divulgados não chegavam nas lojas. Como era aí no Nordeste?

Disco importado? Nem pensar! Banda underground? Impossível. Maior parte destas coisas menos mainstream do rock eu só vim a conhecer na era do CD e da internet. Vou te contar, mesmo bandas como Velvet Underground e Doors não eram fáceis de encontrar nas lojas por aqui.
Costumo lembrar que, até o começo dos anos 90, só conhecia meu amado Pet Sounds de nome.
Bom, e é claro que tinha a proverbial pobreza, né, que tornava tudo mais difícil. Quando passei a ter salário, comecei a comprar os discos que ouvia na adolescência na casa dos outros. Minha lógica de comprador de discos é até hoje um pouco essa.

10. E hoje em dia, como estão as lojas de discos no Nordeste?

Que lojas? Uma ou outra sobrevive. Aqui temos ainda uma (uma mesmo!) loja de rua, a Desafinado. Mas a maior parte das lojas que persistem são pequenos estabelecimentos na nossa versão local da galeria do rock. O que temos num número razoável são sebos, cada vez mais dedicados a LPs. Como em todo canto, imagino, a venda de discos passou para as mega livrarias.

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Mais algumas prateleiras de CDs

11. Onde você costuma comprar discos?

Na verdade, não costumo mais comprar discos. Compro esporadicamente quando encontro algo que quero muito (meu filho Tibério costuma dizer que você só tem se tiver na forma física). Também, assim como livros, decidi só comprar o que eu escuto efetivamente. Disco para enfeitar estante, daqueles que a gente compra pensando “pô, este disco é importante”, mas acaba nem gostando muito, parei.

12. Você é um assíduo participante das listas de Melhores de Todos os Tempos, mesmo não estando colaborando diretamente com matérias. Qual a sua percepção sobre esse tipo de matéria com vários colaboradores?

Concordo com tudo de mau que falam das listas, mas elas têm uma qualidade que as legitimam amplamente: são muito, muito divertidas. Me divirto fazendo as listas, comentando os discos e batendo boca nos comentários dos leitores. Acho que o segredo é não levar muito à sério (a não ser no cumprimento dos prazos, né, Diogo?).

13. O que você caracteriza como principal característica do Consultoria do Rock, que o torna um diferencial nos demais sites de música?

Eu sabia que tinha algo em troca desta entrevista: merchandising do site! Hahahahaha…mas o que curto muito aqui são três coisas: tirando as listas de melhores (feitas pela consultoria do metal!), a extrema diversidade de temas (em que outro site de rock encontramos a discografia comentada de Elis Regina?), a sabedoria enciclopédica e arqueológica de matérias sobre assuntos e artistas de quem nunca ouvi falar e a convivência leve com o elenco de colaboradores.

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Outra as paixões de Eudes fora a música: Os quadrinhos: aqui, Jimmy Olsen e Super-Homem, de Jack Kirby

14. Voltamos para sua coleção. Com quantos anos você comprou seu primeiro disco, e qual foi? Você ainda tem ele?

Lembro perfeitamente: com 16 anos, em 1977, na Mesbla! Meddle do Pink Floyd. Tive várias edições deste disco (o vinil arranha apenas com o uso…), mas hoje tenho apenas a versão CD.

15. Você acompanhou a transição do LP para o CD. Conseguiu barganhar algumas pérolas nessa época ou se atirou sem dó na nova mídia?

Não, não me atirei na nova mídia. Primeiro porque um CD player não era para qualquer pé rapado. Fui ter um lá por 1991 ou 92, que uma amiga trouxe da Zona Franca de Manaus. Segundo, porque quando surgiu, o CD era bem mais caro do que o LP. Lembro que as locadoras de VHS também locavam CDs. Eu aluguei vários para gravar fitas.
E sim, comprei muita coisa legal a preço de fim de quermesse em LP: bandas da Él Records que saíram aqui, acho, que trazidos pela Eldorado (bom checar), muita música instrumental brasileira, alguns discos de bandas oitentistas queridinhas da Bizz e que acabei jogando pela janela, bastante samba e soul classudo. Tive o Tábua de Esmeralda em vinil…hehehehehe.
Mas, há uns 15 anos, aperreado pela falta de espaço, acabei vendendo meus LPs (ficaram alguns) ou trocando por CD, tipo na base de 5 por 1 (nesse tempo, LP não valia nada). Meu filho mais velho ultimamente anda comprando LP e estamos juntando devagarzinho.

16. Quantos discos você tem?

Não sou um colecionador. Compro os discos que gosto e, como disse, cada vez menos (embora não seja muito adepto da música virtual). Não sei exatamente quantos discos temos em casa. Talvez pouco mais de 500 CDs, uns 100 LPs, se tanto, e umas 50 fitas K-7 originais (tenho tb uma porrada de fitas gravadas do tempo do “toca-fitas do meu carro”, que não tive coragem de me desfazer).

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Coleção relacionada ao Led Zeppelin

17. Qual o artista que predomina na sua coleção?

Bom, tem alguns de quem tenho mais itens. Do Led Zeppelin, claro, a banda mais bacana de toda a história da música do universo, tenho bastante coisa, e tenho o que chamo ironicamente de “obras completas” (pequenas coleções que terminam no disco no qual eu acho que a banda deveria ter acabado… hahahahaha.), tudo do Black Sabbath até Never Say Die, tudo do Deep Purple até Come Taste the Band, tudo de Elton John, até Goodbye Yellow Brick Road, Stones até Tattoo You, e assim por diante. Curiosamente, tenho poucos discos dos Beatles, embora tenha a discografia em mídias virtuais.
Mas, curiosamente, em número de CDs, acho que tenho mais discos de Egberto Gismonti e de Paulinho da Viola, uma de minhas várias obsessões musicais.

18. Quais os estilos que podemos encontrar nas suas prateleiras?

Olha, como se diz em nordestinês, “tem de um tudo”. Talvez não tenha nada de metal extremo, mas tenho discos do SOD e do Sepultura, por exemplo. Tenho, para você ver, uma torrezinha de música brasileira da era de ouro, coisas como Nelson Gonçalves, Aracy de Almeida, Orlando Silva e Chico Alves. Afinal, gosto de música e encontro coisas maravilhosas em diferentes estilos e épocas. Mas pela minha própria trajetória, a maioria dos meus discos são de diferentes vertentes do rock, sobretudo dos anos 60 e 70.

19. Já fez alguma loucura por um disco ou um show?

Não, mas foi quase: quando casei, fizemos, no fusca de minha mulher, uma viagem pelas praias do litoral leste do Ceará (vocês devem ter ouvido falar em Canoa Quebrada, por exemplo). Foi justo nesta Canoa que, passando por uma barraca de praia (restaurantes mais ou menos rústicos, na beira do mar), ouço num carro “Cortez, the Killer”, do álbum Zuma, de Neil Young and Crazy Horse. Este disco saiu nos anos 70 e, lembro, fazia lama nas lojas de discos. Mas, nos tempos de dureza total, não comprei. Depois o disco desapareceu completamente das lojas. Pensei que nunca encontraria o álbum (bom lembrar que no final dos anos 80 não tinha internet, nem sebos virtuais, nem E-Bay, nem Amazon e o hemisfério norte ainda era em outro planeta). Quando ouvi a música, entrei na barraca para perguntar de quem era o carro onde a fita estava tocando, e o cara se apresentou imediatamente. Contei a história e perguntei quanto custava a fita. O cara pediu, sei lá, o que talvez fosse hoje R$ 100,00. Aí, passou a febre e eu agradeci ao cara, mas disse que ficava para outra. Mas quando comprei o CD era ainda uma edição importada.

20. Hahuahuahuahuaua. Imagina tú comprando a fitinha por cenzão, hehehe. Vamos adiant, quando você percebeu que iria virar um colecionador de discos?

Como disse, não me sinto um colecionador de discos. Não tenho edições raras, não costumo comprar caixas cheias de bônus, não sou completista e conheço pouco o mercado do colecionismo de discos. Mas sou doido por itens que de um jeito ou de outro marcaram minha vida. E, como música sempre ocupou um espaço grande em meu cotidiano, muitos discos são marcantes. Como disse, até hoje, uso como critério, não exclusivo, mas importante, para comprar discos, ter aqueles discos que ouvi numa certa época, mas que não possuía. Isto torna minha estante de discos meio conservadora e nostálgica. Sou meio alienado dos últimos lançamentos (ainda bem que tenho filhos jovens e que gostam de arte e música e que me mostram coisas mais atuais). Mas sempre foi assim, se a gente pensar, por exemplo que fui ouvir Led Zeppelin I uns 7 ou 8 anos depois de seu lançamento. Quer dizer, estou sempre correndo atrás do que já foi.
Também não acho que coleciono livros. Embora tenha uma boa biblioteca em casa. O que coleciono mesmo pra valer (hoje, em comum com meus filhos) são quadrinhos. Nossa coleção hoje tem bem mais de 3 mil itens. Alguns relativamente raros.

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Egberto Gismonti (acima), grandes nomes da MPB (centro) e Paulinho da Viola (abaixo)

21. Como você organiza sua coleção?

Por estilo ou época (por exemplo, rock psicodélico e anos 60 são coisas que podem se confundir) e, dentro do estilo, por artista. Também tem bandas que coloco juntas por razão meramente sentimental: ELP, Yes, Pink Floyd, Sabbath e Purple estão juntos, porque são os primeiros amores. Led Zeppelin tem um cantinho só dele, porque é o maior dos amores. Sou chato nisso. Detesto que mexam na ordem dos meus discos. Em compensação, sei onde estão todos eles e sei se estiver faltando algum.

22. Você também é um grande admirador de literatura. Quantos livros e quais os estilos que predominam na sua coleção?

Curioso, nunca usei a palavra “coleção” para me referir aos meus livros. Tenho de fato uma pequena biblioteca. Em parte por dever de ofício. Tenho muitos livros relativos à educação, sobretudo na área de história e filosofia da educação, que são as disciplinas que ensino, e no campo da teoria do Estado, política e gestão da educação, temas com que lido na pesquisa. Ainda neste campo, por ter esta escolha teórica, tenho um bom número de livros dedicados ao marxismo.
Aí, vêm minhas preferências literárias. Sou louco por poesia. Admiro muito os poetas concretos e os autores do passado e contemporâneos em que estes poetas têm referência: Bashô, poesia chinesa, os provençais, os poetas místicos ingleses, Pound, Malarmé, Mayakovsky, os modernistas (sou louco por Oswald de Andrade) brasileiros, etc. Mas gosto muito também de prosadores: Joyce, Machado, Graciliano, Lima Barreto, Clarice…
Meu lado vira-lata é que sou tarado por livros policiais e de detetive: Leonardo Padura, James Ellroy, Andrea Camilleri, Rex Stout, os americanos da fase noir (Hammet, por ex), o brasileiro Gacia-Roza, Vazquez Montalban, e, claro, clássicos como Agatha Christie, Conan Doyle e Simenon.
Tenho alguns livros sobre música e adoro biografias, inclusive de astros do rock. Adoro estes consagrados do tipo Enterrada Viva, Daqui Ninguém Sai Vivo e Mate-me por Favor, talvez o melhor e mais assustador painel já escrito sobre o punk nos EUA. Morre mais gente do que em filme do Tarantino.
Aliás, ultimamente tenho gostado de ler obras de vulgarização científica, principalmente em física: Stephen Hawking, Alain Sakol, Sagan, As Leis do Caos…

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Parte do vasto acervo de livros, quadrinhos e DVDs de Eudes

23. Quais as principais diferenças entre colecionar livros e colecionar discos em sua opinião?

Pois é, não me sinto colecionando nem uns nem outros. Mas livro tem aquela parte que é trabalho, estudo, né? Outra é prazer literário e outra, apenas entretenimento. Disco é só prazer. Mas nos dois casos, não sou aquele caçador de raridades, aquele fissurado em edições específicas…meus discos, por exemplo, não são coisa de especialista, expert, essas coisas…são discos de artistas populares.

24. Na parte literária, há também uma inegável paixão pelos quadrinhos. Conte-nos um pouco sobre isso.

Aí sim, funciono como colecionador. Embora tenha poucas coleções completas. Na verdade, me alfabetizei lendo HQs. Na infância e adolescência (até o rock entrar na minha vida), eu era um ávido comprador de revistas usadas. Então, quando era pequeno, já tinha revista bem antiga em relação à minha idade. Principalmente revistas de uma, então, importante editora de quadrinhos, a EBAL, que é meio uma obsessão quadrinhística minha. A EBAL vem dos anos 30, adotando este nome em 45, tendo resistido até 1992. Quando comecei a trabalhar, nos anos 80, solteiro, recomecei a comprar HQs dos personagens de que gostava na infância, agora publicados pela Abril. De forma que entre 1982 a mais ou menos 1990 ou 91 tenho mais ou menos completas as coleções de revistas de linha desta editora.A partir daí, minhas compras foram ficando mais esporádicas, mas tenho coleções de séries publicadas até o começo dos anos 2000. Quando meus filhos se tornaram adolescentes, retomaram a paixão e foram enriquecendo a coleção com seus próprios gostos. Atualmente compro apenas em sebo ou reedições de histórias antigas de que eu gosto. Mas os meninos colecionam regularmente. Nossa coleção está disponível on line no Guia dos Quadrinhos, no nome de Tibério Baima, que é nosso caçador oficial de velharias (você tem de se cadastrar para entrar em coleções de usuários). Temos muitos títulos dos anos 60 e 70 e alguns dos anos 50. A gente deve ter hoje umas 3.200 revistas, mais ou menos. Ah, HQs adultas são com meus filhos. Meu negócio é super-herói…rsrsrs.
Mantenho viva uma paginazinha no Facebook para conversar sobre literatura, HQs, cinema e afins. Se chama Nos Limites da Literatura. Passem lá.

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Um panorama na coleção de Eudes, e destaque para os discos de Elton John

25. Voltando para a música, você frequentou muitos shows? Tem uma noção de quantos já foi?

Quando jovem, muitos. Depois fui perdendo o tesão para shows. Por preguiça, por achar que muitas bandas tocam mal ao vivo (Los Hermanos é a banda prototípica nisso), enfim, por velhice. Tô naquela fase em que música boa é aquela que ouço em casa e escolho o repertório, numa boa resenha com os amigos.
Mas, claro, até chegar a isso, vi shows de muitos artistas, na maioria nacionais, pois shows internacionais, ainda hoje, raramente chegam a Fortaleza. Vi alguns que considero antológicos: Egberto em nosso belo teatro José de Alencar, foi um show inesquecível. Lô Borges, ainda bem jovem e no auge da criatividade, no mesmo local, Marco Antônio Araújo, com uma pequena formação orquestral e tudo, também nesse teatro. Rita Lee, em 76 ou 77, lançando Entradas e Bandeiras. Classicaço! Ou os Titãs na turnê de Cabeça Dinossauro. Outras apresentações memoráveis foram a do Passport no meio dos anos 70, ainda com uma sonoridade bem novidadeira e o violinista jazz fusion Didier Lockwood, nos anos 80, arrebentando na Concha Acústica da UFC.
E, claro, fui a muitos shows da cena rock local.
Também tivemos aqui, e eu fui, nossa versão de Woodstock, o Festival da Costa do Sol, numa praia ao lado de Fortaleza, em 77, com um elenco excepcional. Lembro bem do show arrebentante de Alceu Valença no seu momento mais roqueiro e o de Belchior, lançando o disco que abria com Coração Selvagem. Outro momento importante, histórico mesmo, foram as duas edições da Massa Feira-Livre, que reunia artistas já consolidados e a então jovem geração da música cearense. Resultou num antológico LP duplo, hoje disputado a tapa nos sebos.
Claro, Paul McCartney em 2013 foi um momento especial e que ficou registrado em resenha publicada na CR. Nem ligando por aspecto mercadológico da coisa, me joguei na emoção de ver a lenda.

26. PUT@ QUE PARTIU, tu viste o Marco Antonio Araujo com orquestra!!!! Como foi esse show em especial? E porra, assistir o Passport!!! Que massa. Deve ter sido inesquecível

Com o tempo a gente vai vendo que “inesquecível” é uma coisa relativa. Deste show do Passport, 40 anos atrás (e sem ter ideia naquele tempo da importância da da banda), não ficou muito coisa, a não ser a lembrança de que voltei pra casa impressionado.
Do MAA, mais de 30 anos, lembro melhor e, veja, não fiquei muito impressionado na época. Achei bem feito mas não muito original…e tb fui meio de impulso ao teatro, só vim a conhecer os discos bem depois, quando a Progressive Rock os lançou em CD.

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Com Arrigo Barnabé (acima) e Lô Borges (abaixo)

27. Quais artistas você teve uma troca de ideias nesses shows?
Num show mais recente, Lô Borges se mostrou bem legal e receptivo, embora a gente não tenha podido falar muito com ele. Já o ensaio aberto de Arrigo Barnabé, também reportado na Consultoria, permitiu um papinho com ele. Também sem um pingo de frescura. Batemos papo e fotos.

28. Conte-nos uma história curiosa que envolva um artista.

Neste festival da Costa do Sol, mencionado acima, Ednardo desceu do palco pra ir direto em cana por ter supostamente agitado o povo contra a Ditadura. Foi um burburinho, empurra-empurra, mas ele não chegou a ficar preso.
Outra história boa é a do show de Raul Seixas no Ginásio Aécio de Borba, anexo ao tradicionalíssimo estádio Presidente Vargas. Isso naquela turnê com Marcelo Nova, com Raul muitíssimo mais pra lá do que pra cá. Nunca fui fã de Raul, mas sabe como é, um sujeito lendário, com o pé na cova, a gente tinha de ir. Nesse caso, Raul não deu as caras e a turba depredou impiedosamente o ginásio.
Mas tem um causo bacana, que envolve shows, mas não artistas. Em 78, por alguma razão de sobrevivência, a excelente banda local, Perfume Azul (não confundir com a banda paulista Perfume Azul do Sol), encabeçada pelo cantor extraordinário Lúcio Ricardo, topou tocar num comício de um candidato a senador da Arena (para os mais jovens, um dos dois partidos que a Ditadura instituiu e que fazia o papel de partido da situação – o outro, que encenava o papel de oposição, era o MDB). Senador da Arena ou não, o Perfume ia tocar, e lá fomos nós. Atravessamos a cidade até o bairro chique e ficamos lá esperando a hora do show, que rolou já com a polícia dando sugesta nos cabeludos da plateia (acreditem, eu tinha cabelo!). Terminado o show, fomos para a parada do ônibus. Foi quando chegou a temida Veraneio da Polícia Federal. Humilhação, cospe pra cá, cospe pra lá, “têm drogas?”, “têm panfletos?”. Pra encurtar a conversa, passamos a noite toda passeando com a PF, fuzis apontados, até sermos desembarcados num conhecido local de desova, já amanhecendo, com a famosa recomendação de “não olhar pra trás”. Vida de roqueiro na Fortaleza dos anos 70 não era moleza não.

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Áutógrafos de Lô Borges (acima), Flávio Venturini (segundo), Arnaldo Baptista (terceiro) e Arrigo Barnabé (abaixo)

29. Musicalmente, o que todo mundo gosta e você não consegue gostar? O que só você gosta?

Isso depende do ambiente e de com quem a gente está, né? Mas, de forma geral, não gosto de quase nada do pós-punk inglês e de sua versão brasileira dos anos 80, coisas como Legião e Capital. Não vejo graça nessas coisas. Mas, como regra, a turma gosta pra caramba, né? Pelo que vi na matéria que escrevi sobre o Police, só eu gosto da banda…hehehehehe…

30. Quais os dez melhores discos da década de 60?
Todas as listas a seguir não estão em ordem de preferência e atendem a critério puramente sentimental. Listas mutáveis, dependendo do jeito que eu acordo.

Abbey Road – The Beatles.
Led Zeppelin II – Led Zeppelin.
Truth – Jeff Beck Group.
In the Court of the Crimson King (An Observation by King Crimson) – King Crimson.
Axis: Bold as Love – The Jimi Hendrix Experience.
O Inimitável – Roberto Carlos.
Let It Bleed – The Rolling Stones.
Pet Sounds – The Beach Boys..
Deja Vu – CSN&Y.
From Elvis in Memphis – Elvis Presley.

31. Quais os dez melhores discos da década de 70?

Zuma – Neil Young.
Phisical Graffitti – Led Zeppelin.
Clube da Esquina – Milton Nascimento/Lô Borges.
Obscured by Clouds – Pink Floyd.
Academia de Dança – Egberto Gismonti.
Blow by Blow – Jeff Beck.
Santana III – Santana.
Amoroso – João Gilberto.
Machine Head – Deep Purple.
Vol, 4 – Black Sabbath.

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Deep Purple, Yes e Pink Floyd

32. Quais os dez melhores discos da década de 80?

Eu Canto Samba – Paulinho da Viola.
Punch the Clock – Elvis Costelo.
Songs From the Big Chair – Tears for Fears.
Thriller – Michael Jackson.
Synchronicity – The Police.
Spirit of Eden – Talk Talk.
Fisherman’s Blues – The Water Boys.
The Real Thing – Faith No More.
Circus Maximus – Momus.
The Top – The Cure.

33. Quais os dez melhores discos da década de 90?

Bandwagonesque – Teenage Fanclub.
Blood Sugar Sex Magik – Red Hot Chili Peppers.
Sobre Todas as Coisas – Zizi Possi.
Nevermind – Nirvana.
Automatic for the People – REM.
Grace – Jeff Buckley.
The Bends – Radiohead.
Ray of Light – Madonna.
Flaming Pie – Paul McCartney.
Harvest Moon – Neil Young.

34. Quais os dez melhores discos dos anos 2000 (de 2001 até agora)?

White Blood Cells – The White Stripes.
Bloco do Eu Sozinho – Los Hermanos.
Smile – Brian Wilson.
Want One – Rufus Wainwright.
Crosby and Nash (2004) – Crosby and Nash.
Back to Black – Amy Winehouse.
De Pés no Chão – Marcia Castro.
Chaos and Creation in the Backyard – Paul McCartney.
Blackfield – Blackfield.
The Look of Love – Diana Krall.

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Black Sabbath fase Ozzy, alguns DVDs e The Rolling Stones

35. Cite dez discos que você levaria para uma ilha deserta.

Claro que, sempre que fizer esta lista, ela sairá diferente. Tirando Phisical Graffitti, os demais não estão em ordem de preferência.

Phisical Graffitti.
Deja Vu.
In the Court of the Crimson King.
Clube da Esquina.
Zuma.
Obscured by Clouds.
Amoroso.
Frank Sinatra Sings for Young Lovers.
Machine Head.
Abbey Road.

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Lord Vader

36. Cite dez itens que deveria ter nessa ilha deserta para completar o prazer de estar com esses dez discos.

Seres humanos valem? Hahahaha…
Se não, aí vão:
– Lord Vader, meu porquinho da índia;
– As obras completas de Neal Adams para o Batman dos anos 70;
– A saga de DNA, de Jimmy Olsen, o amigo do Super-Homem, na arte de Jack “The King” Kirby;
– A USA Underworld Trilogy, de James Ellroy;
– Uma cópia remasterizada de Amarcord, de Federico Felini;
– Arroz de camarão;
– Uma rede;
– Uma tubulação de cajuína geladinha;
– A série Agente 86, com o bom e velho Don Adams;
– Um aparelho de som da velha Gradiente, fabricado nos anos 70 (Abaixo as caixas acústicas de plástico!)

37. Há um fim para a sua coleção?

Não. Enquanto houver um fetiche em forma de disco, uma lembrança bacana em forma de música, vou arrumando um lugarzinho na estante para mais um.

38. Alguma coisa mais que gostaria de passar para nossos leitores?

Sim. Um dia todos vocês terminarão na ASPABROMI ouvindo as obras completas da Yoko Ono.

39. Muito obrigado, e continuemos nossa luta para o impeachment de Gaspari na ASPABROMI.

Fora Marco Gaspari! Nenhum prato de papa ou frauda geriátrica a menos! Lembrando sempre que sou o seguinte na linha sucessória.

19 comentários

  1. Vicente

    Se 0,5% dos que se dizem amantes da música tivessem o discernimento e o ecletismo do Eudes, o cenário musical seria bem melhor. Parabéns a todos os envolvidos no site.

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  2. Marco Gaspari

    Um dia comentei com o sócio Eudes Baima: o acervo de música, livros e gibis do ASPABROMI tá meio pobrinho. Vou desviar coisas minhas pra lá, assim os velhinhos têm o que ouvir e ler. Você não tem nada, Eudes? Não, nada!, respondeu o capadócio.

    Depois dessa ainda tenho que cumprimentar o infeliz pela ótima entrevista. E só mais uma coisa: tão falando em impeachment? Pois o Eudes é meu vice. Tudo a ver, realmente.

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      • maironmachado

        Já estamos com tudo armado, Marco. Seu troninho diante do Atari será cassado em breve. Aguarde …

  3. José Leonardo G. Aronna

    Grande, Eudes!! Querido amigo dos tempos do orkut e que tive prazer de conhecê-lo pessoalmente quando de sua visita a minha terra! Adorei te ver nessa entrevista! Parabéns!!! Grande abraço!!

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  4. maironmachado

    Valeu EuDeus, o nosso futuro presidente da ASPABROMI, por essa belíssima entrevista. Além de um grande espírito, contou sua história sem frescuras. Surpreendente o envolvimento com alguns artistas, mas principalmente, me assustou o fato de ter sido levado para um local de desova durante o show do Perfume Azul. Imagino o pânico nessa situação.

    Forte abraço meu caro, e estou juntando moedinhas (por isso parei de comprar no Siri da Gaita) para poder ir te visitar em Fortaleza. Chega de pagar as pizzas do Marco, agora é Baima presidente!!

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  5. Fernando Bueno

    Já comprei alguns CDs lá na Galreia do Rock versão cearense que o Eudes citou, inclusive os dois Keys of Ascension do Yes e alguns Mini LP do Iron Maiden. Da última vez que estive na cidade Eudes esnobou minha visita e me deixou falando sozinho com o Adriano. Certeza que foi para me punir por alguma coisa que falei do PT…

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    • Eudes Baima

      Deve ter sido na Planet CDs, não? Loja de excelente acervo, mas que, digamos, “não faz por menos”.

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  6. Diego Camargo

    Ah, mais que bacana ler uma entrevista bem eclética! Aqueles Egbertos e Paulinhos, confesso, me deram um tiquinho de inveja 🙂

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    • Eudes Baima

      Considero Paulinho da Viola um dos músicos mais sofisticados do planeta.

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      • Diego Camargo

        E ele realmente é!

        Sempre achei que todo o sucesso e respeito que o Chico Buarque recebe pelo disco Construção deve 101% a Sinal Fechado do Paulinho!

  7. André Kaminski

    O Eudes é um figura hahahahahahahahahahaha! Entrevista muito divertida e eu babei nos cds do Pink Floyd.

    E a foto final com o Lord Vader fantasiado para festa junina foi a imagem que fechou com chave de ouro!

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  8. António Marcos

    Parabéns ao MMM e ao EB pela excelente entrevista. Um salve especial ao EB por incluir em sua lista Radiohead, Teenage Fanclube e REM, com discos que são biscoito fino. As citações ao The Police e Tears for Fears também são bem vindas.

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  9. Francisco

    Bela e divertida entrevista! Eudes é eclético, mas tem um bom gosto a toda prova.

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  10. Ronaldo

    Foi uma delícia ler essa entrevista, não dá nem pra destacar um trecho pq a inteligência, cultura e humor do Eudes impregnam o texto todo.
    Além de muitas coisas em comum que percebo em mim junto a esse nobre camarada da CR, ao menos uma devo destacar: “Um aparelho de som da velha Gradiente, fabricado nos anos 70 (Abaixo as caixas acústicas de plástico!)” Viva!
    Abraço,

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