Running Wild – Gates to Purgatory [1984]

27 de Maio, 2016 | por Fernando Bueno
Resenha de Álbum
10

Runnin Wild Gates

Por Fernando Bueno

Lembro-me muito bem das primeiras vezes que ouvi Gates to Purgatory. O impacto na minha então curta vida de headbanger foi enorme já que na época eu conhecia apenas nomes mais manjados do hard rock e do heavy metal. Também foi a primeira vez que tive contato com um material com temática satânica/obscura mais explícita. Afinal quase todas as bandas de heavy metal foram em algum momento consideradas satanistas pelo preconceituosos e desavisados, mas não eram todos que colocavam esses temas nas letras. Mesmo tendo quase nenhum conhecimento de inglês na época já tinha um pouco de noção que aquelas letras eram mais “perigosas” que as cantadas por Bruce Dickinson ou por James Hetfield. Interessante que toda as vezes que ouço o disco parece que me vejo pré-adolescente manuseando o LP sentado na cama de meu antigo quarto em frente ao aparelho de som, mas não me lembro como aquele disco chegou em minhas mãos. Não consigo me lembrar quem me emprestou.

running wild 1O Running Wild, nome emprestado de uma música do Judas Priest do álbum Killing Machine, tem uma trajetória muito interessante. Apesar de ser considerado um ícone do heavy metal, ser citado por quase todos que converso e conheço como uma banda importante, ainda se mantém forte no underground e mesmo em seus melhores momentos nunca frequentaram o mainstream.

O álbum abre metendo o pé na porta com a velocidade de “Victim of States of Power” e já mostrava aos ouvintes o que seria um estilo que estava sendo criado ali por eles e algumas outras bandas iniciantes, o speed metal alemão, com muito pedal duplo e guitarras abafadas, que no futuro viria a se desenvolver como o power metal. Outra característica que chama a atenção logo de cara é a facilidade com que esses caras conseguiam criar refrãos cativantes. “Black Demon” diminui um pouco a velocidade e agora a ponte entre as estrofes e o refrão que conseguem chamar mais atenção. Ou seja, apesar da aspereza e crueza da música o senso de melodia é evidente. A próxima faixa, “Preacher”, é obscura, e tem uma voz sinistra que chegava a dar medo. A curiosidade é que Preacher era também o codinome do guitarrista Gerard Warnecke. Gerard também fazia backing vocals e ficou pouquíssimo tempo na banda e esse mesmo cara saiu para se tornar um padre. Irônico não? E essa é a deixa para eu apresentar os outros músicos que gravaram Gates to Purgatory: no baixo tinha Stephan Boris e na bateria Wolfgang “Hasche” Hagemann. Ambos deixaram o grupo em 1987. Aliás, a troca de integrantes no grupo sempre foi constante fazendo com que o chefe da trupe, Rolf Kasparek, ou Rock N´ Rolf, seja quase sinônimo de Running Wild. Muitos desses músicos que saíram acabaram entrando em bandas ou formando outras novas com sonoridade muito parecida como o Grave Digger, X-Wild, Accept, Rage e uma pancada de outras.

Running Wild 2A velocidade volta em “Soldiers of Hell”, uma das preferidas de um álbum recheado de músicas boas e que não tem sequer uma ruim. Tem também um trecho de guitarras gêmeas emprestadas das bandas britânicas que surgiram às pencas no início dos anos 80. Já em “Diabolic Force” a alternância do vocal áspero com o falsete no fim de cada estrofe funciona muito bem. Essa é uma faixa que poderia estar perfeitamente em Walls of Jericho dos seus conterrâneos do Helloween. Quando se lê o nome das músicas e encontra “Adrian SOS” imagina alguma história de salvamento ou resgate, mas quando se descobre que SOS na verdade significa Son Of Satan, as coisas começam a ficar mais sérias. Nota: Adrian é o nome do mascote do grupo. Genghis Khan é mas uma faixa forte com um riff marcante e conta a história do famoso conquistador mongol.

“Prisoner of Time” merecia um texto só sobre ela. Esse texto teria que tentar explicar como pode uma música tão simples ser tão legal. É um daqueles hinos do heavy metal, que exalta o estilo, os fãs e obriga todo mundo cantar junto. A progressão até banal de acordes no seu início pode enganar o mais apressado. Até hoje é uma daquelas faixas mais esperadas pelos fãs nos shows.

running wild 3

Nas edições relançadas em CD duas faixas foram adicionadas: “Walpurgis Night”, que tem uma pegada hard rock que viria a aparecer nas músicas do grupo alguns anos mais tarde, além da sugestiva “Satan”. Ambas as faixas tinham saído no single para “Victim of State of Power” e depois de ouví-las entendemos o motivo de terem sido deixadas de fora do lançamento de Gates to Purgatory. Apesar de serem faixas boas, não estavam à altura das que entraram.

Antes de iniciar esse texto a minha intenção era falar sobre a fase em que o Running Wild abordou a temática da pirataria em seus discos. Certamente foi o período mais afortunado dos alemães gravando clássicos como Port Royal, Death and Glory e Pile of Skulls, entre outros. Porém ao ouvir Gates to Purgatory senti que o debut merecia ter uma matéria só dele, já que ele já foi citado na resenha da coletânea The First Years of Piracy, e esses discos podem ficar para o futuro.

“Black and heavy is our sound”.

Running Wild 4

Coletânea com destaque de Adrian na capa

Track List

01 – Victim of States of Power
02 – Black Demon
03 – Preacher
04- Soldiers of Hell
05 – Diabolic Force
06 – Adrian SOS
07 – Genghis Khan
08 – Prisoners of Our Time
09 – Walpurgis Night
10 – Satan



10 Comentarios

  1. Igor Maxwel disse:

    De banda alemã, só gosto mais do Accept (já meu pai prefere mais o Scorpions), mas prometo dar uma ouvida neste disco do Running Wild.

  2. Diogo Maia de Carvalho disse:

    O som do speed metal dessa época era bem genérico e ainda continuo achando a temática proposta pelas bandas inocente demais. É loucura minha?

    • Vc está certo Diogo.
      A temática é realmente até infantil. Mas impressionava um adolescente de 12-13 anos…
      Sobre o speed metal realmente hoje nos parece bastante genérico até pq era o início de tudo. Hoje as banda desenvolveram e elaboraram tanto sobre aquela base criadas por aquelas bandas que tornou o que era inovação em banal…

    • Diogo Bizotto disse:

      Hoje em dia pode soar genérico, mas em 1984 eu duvido muito que fosse. E sobre temáticas bem, a temática da maioria das bandas de rock soa infantil pra mim, no máximo juvenil.

  3. Diogo Bizotto disse:

    É até complicado encontrar palavras para definir esse disco sem que eu soe exagerado demais, ainda mais tendo em vista tratar-se de uma banda de terceiro escalão, sempre firme no underground, apesar do sucesso relativo de alguns de seus discos. Começo dizendo que “Gates to Purgatory” é um dos melhores discos da década de 80 em geral, e só não é o melhor de 1984 pois duas bandas do coração, Metallica e Whitesnake, lançaram seus melhores discos, e Bruce Springsteen soltou “apenas” “Born in the USA”. O que falta em refino sobra em garra nesse álbum, transbordando de cada faixa, de cada riff simples, mas executado no momento certo e do jeito certo. “Prisoner of Our Time” é tão simples que me faz pensar como ninguém tenha feito antes algo minimamente parecido. É uma de minhas músicas favoritas desde o primeiro momento em que a ouvi, e isso permanece. O Fernando citou o Helloween: quem gosta não apenas do Helloween dos primórdios, mas também do Blind Guardian, bandas que galgariam sucesso bem maior, têm a obrigação de conferir “Gates to Purgatory” e perceber que aquela estirpe de heavy metal já vinha sendo praticada na Alemanha, mesmo que com outro rótulo. Bota Kai Hansen cantando “Adrian S.O.S.” e encaixa em “Walls of Jericho”: funcionaria perfeitamente. Ao mesmo tempo que estabeleço essa relação com Helloween e afins, afirmo que quem não gosta desses grupos, assim como de Rage, Grave Digger e outros, pode curtir “Gates to Purgatory” tranquilamente, pois há um certo senso de tosquice que, pra mim, os aproxima mais do que fazia o Celtic Frost dos primórdios, apesar das evidentes diferenças estilísticas. A banda nunca mais fez um disco tão bom, mas “Death or Glory”, de maneira diferente, chegou perto.

    • Igor Maxwel disse:

      Meu caro Diogo, gostei de sua citação ao Born in the U.S.A., a obra-prima do “The Boss” Bruce Springsteen. Este foi o melhor disco lançado em 1984 na minha opinião e que devia ocupar a primeira posição da lista de 1984 aqui da Consultoria, onde tivemos também Defenders of the Faith (Judas Priest), Balls to the Wall (Accept), Purple Rain (Prince), Powerslave (Iron Maiden), Ride the Lightning (Metallica), The Last in Line (Ronnie James Dio) e tantos outros álbuns que não foram citados nesta lista, como Couldn’t Stand the Weather (Stevie Ray Vaughan), All Fired Up (Fastway) e tantos outros. Sem contar aquela piada de extremo mau gosto que foi a inclusão de Love at First Sting (Scorpions) no lugar do já citado Judas Priest com seu melhor disco, na minha opinião. Piada que só foi superada na lista de 1985, com a primeira colocação do RPM!

    • Fernando Bueno disse:

      Li uma resenha em que o cara falava que o Running Wild desse disco era como se o Accept se fundisse ao Venon… Tem a ver né?

      • Diogo Bizotto disse:

        Até acho que tem a ver no sentido de que eles pegaram algo que talvez já estivesse se firmando como “tradicional” (a parcela Accept) e uniram a algo mais subversivo (a parcela Venom). Estilisticamente mesmo eu não vejo tanta semelhança assim, apesar do estilo displicente de Rolf Kasparek cantar ter certa proximidade com aquilo que Cronos fazia.

  4. Thiago Reis disse:

    Foi o primeiro do Running Wild que escutei e imaginei que seria sempre o som estilo speed metal. Depois que escutei alguns outros, percebi que a temática pirata tomou conta da banda. Mas esse disco Gates to Purgatory é excelente.

  5. atilio silva dos santos disse:

    running wild é definitivamente a melhor banda do planeta, esse Rolf Kasparek é um gênio cria riffs estupendos com uma criatividade fora do normal , e as melodias , refrãos ,harmonias etc ??? sem mais palavras ,tirando o Shadowmaker gosto de todos ,uma pena ser ainda tâo injustiçada e ignorada!

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