Armageddon – Armageddon [1975]

26 de outubro, 2015 | por Mairon
Resenha de Álbum
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Por Mairon Machado

Um dos maiores gênios da música britânica e que é pouco reconhecido entre os ditos “conhecedores de música” é o vocalista Keith Relf. Nascido no ano de 1943, aos 19 anos se uniu a Eric Clapton (guitarra), Jim McCarty (guitarra), Chris Dreja (baixo) e Paul Samwell Smith (bateria) para formar aquela que seria a maior banda da década de 60, os Yardbirds (digo maior por que os Yardbirds foram o único grupo que conheço a revelar três grandes guitarristas do nível de Eric Clapton, Jeff Beck e Jimmy Page). Os Yardbirds fizeram muito sucesso, principalmente após a entrada de Beck, mas a banda acabou em 1968, sendo que Jimmy Page seguiu como New Yardbirds e o resto da história até os monges tibetanos conhecem.

Após sair dos Yarbirds, Relf decidiu que a vida louca que estava levando em seu antigo grupo não era exatamente o que ele queria seguir dali em diante (os Yardbirds acabaram, entre outros fatores, pelo abuso de álcool dos integrantes e também por consumir muito mais do que ganhavam, sendo que a banda passou a “viajar” muito nas músicas, fugindo do estilo inicial, que era basicamente o rhythm and blues tradicional). Nesse ponto, levou junto Jim McCarthy, que era o último baterista dos Yardbirds, formando o duo Together, que não durou muito tempo. 

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Cartaz promocional do novo grupo a A & M Records

Com sua irmã, Jane Relf (vocais), mais McCarthy, Louis Cennamo (baixo) e John Hawken (piano), Relf assumiu seu lado guitarrista e formou a Renaissance, mesma banda que posteriormente viria a se tornar mundialmente conhecida com a vocalista Annie Haslam nos vocais. No Renaissance a ideia de Relf era simples: unir a música clássica com alguns elementos de rock (ou seja, progressivo na veia), permitindo, dessa forma, fazer com que Relf abrisse seu leque de experimentações sem ser comparado ao rock cru dos anos 60, afinal a evolução faz parte da vida de todo músico. O Renaissance de Relf durou até o segundo disco, já que brigas internas fizeram com que apenas um integrante (o violonista Michael Dunfrod, que acabou entrando no segundo álbum da banda) seguisse com o nome Renaissance, e o resto da história talvez os monges tibetanos não conheçam, mas foi muito bem narrada pelo colega José Leonardo em 3 partes que você pode conferir aqui, aqui e aqui.

Os demais integrantes (menos Keith) formariam a Illusion anos depois, e Keith ficou na berlinda. Desiludido com a música, isolou-se do mundo, mas em 1974 uma luz surgiu no fim do túnel. A última cartada podia ser dada. Anos antes (1972), Keith havia participado como convidado da banda de blues rock Steamhammer, onde tocava seu ex-colega de Renaissance Louis Cennamo. Na Steamhammer estava o guitarrista Martin Pugh e, ainda em 1972, a banda terminou devido a morte de seu baterista, Michael Bradley. Com isso, Pugh e Cennamo estavam na berlinda juntos, e decidiram mudar-se para Los Angeles, exatamente a cidade onde Relf vivia. 

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Louis Cennamo, Keith Relf, Bobby Caldwell e Martin Pugh

Em 74, os três decidiram voltar a tocar juntos, e convidaram nada mais nada menos que o ex-baterista da Captain Beyond, Bobby Caldwell, para fechar aquele que foi considerado “o super-grupo” dos anos 70, o Armageddon. A proposta era simples: muito hard rock e muito peso nas canções. Keith podia soltar seu lado “progressivo” utilizando sua gaita de boca, e o resto da banda mandaria ver em longos solos e improvisações.

A banda começou a ensaiar e após assinar um contrato com a A & M Records, por indicação de Peter Frampton, seguida lançou um dos melhores discos de hard rock de todos os tempos, o auto-intitulado Armageddon. O álbum abre com a paulada “Buzzard”. A guitarra de Pugh entra com tudo nos ouvidos, acompanhado pela cozinha de Cennamo e Caldwell. Relf entra com os vocais totalmente diferente de suas bandas anteriores, esganiçando o que pode sua garganta enquanto a pauleira rola solta. Com muitos solos e variações, a música passa rápida, mesmo durando quase nove minutos, terminando com um solo de gaita irônico de Keith, como que dizendo “esqueçam o que eu fiz, isso não é mais o que eu farei, ouçam o que tenho para dar agora”. Uma ótima composição que serve muito para empolgar aquele que nunca ouviu o grupo.

A segunda faixa é a bela “Silver Tightrope”, uma das mais lindas músicas que já ouvi. A guitarra dedilhada de Pugh da espaço para Keith cantar de forma totalmente livre, como se estivesse viajando por um paraíso de fadas, duendes, dragões e outros artefatos medievais. Uma linda canção que termina com os quatro integrantes entoando, como um coral de igreja, a frase “ooooooooooohhhhh, silver tightrope“, enquanto Pugh estraçalha a guitarra o que pode em mais um solo memorável. Quando você menos percebe, os 18 minutos do lado A passaram e você já está delirando e curtido no vinho que Relf e os demais preparam para você.

Raríssima imagem da banda. No sentido horário: Louis Cennamo, Keith Relf (de barba), Martin Pugh e Bobby Caldwell

Vêm o lado B com a rápida “Paths and Planes and Future Gains”. O baixão de Cennamo lembra muito Mel Schacher em seus bons tempos. Uma boa dose de hard rock para levantar a gurizada novamente. “Last Stand Before” vêm com seus 8 minutos de um rock and roll simples, bem anos 60, mas com um peso incomum para que soe dessa forma. A bateria de Caldwell está mais precisa do que nunca nessa faixa, bem como as vocalizações dos integrantes, o que mostra que a banda estava bem afiada.

Finalmente, a épica “Basking in the White of the Midnight Sun” encerra o lado B. Com seus quase 15 minutos, a faixa é dividida em 4 partes: “Warning Comin’ On”, “Basking in the White of the Midnight Sun”, “Brother Ego” e “Basking in the White of the Midnight Sun (Reprise)”. A primeira parte é uma paulada, com uma levada bem rápida e com Keith novamente cantando como nunca. A segunda já é mais cadenciada, lembrando bastante as demais bandas de hard rock da mesma época, como Bang, May Blitz e Moxy. Já a terceira é a mais “viajandona”, onde Caldwell mostra por que ele era um dos maiores bateristas de hard rock que já haviam pisado na terra. Finalmente, temos uma reprise da segunda parte, que encerra o álbum de forma nostálgica. Eu, na primeira vez que ouvi esse disco, não aguentei e, quando terminou o lado B, coloquei a agulha no lado A novamente para ouvir a bolacha. Simplesmente o álbum inteiro é uma paulada, mesmo com uma linda balada de oito minutos.

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Bobby Caldwell, Louis Cennamo, Keith Relf e Martin Pugh

O interessante é que o Armageddon não era só festa, pelo contrário. Apesar de a banda mostrar-se super entrosada no LP, por trás das cortinas a pauleira também rolava solta, mas entre os integrantes, afinal um se achava com direitos (e poderes) maiores que os outros, o que fez com que o grupo fizesse apenas dois shows durante toda a sua curta carreira. Mesmo assim, o álbum “Armageddon” foi aclamado por fãs e críticos, obtendo muito sucesso, principalmente na Europa.

Com a decepção gerada pelo fracasso pessoal no Armageddon, e também com vários problemas de saúde devido ao abuso de drogas, Keith acabou afastando-se de vez da música, passando a compor apenas para outros músicos. Exatamente quando estava em casa escrevendo uma canção para ele mesmo gravar, Keith levou um choque de sua guitarra que acabou levando sua vida. Infelizmente uma carreira brilhante se acabava para um gênio quando este tinha apenas 33 anos (!).

Contra-capa de Armageddon

Contra-capa de Armageddon

Cennamo seguiu carreira como baixista, fundando a Illusion ao lado de seus ex-companheiros de Renaissance. Caldwell voltou para a Captain Beyond, mas essa acabou não atingindo o mesmo sucesso de seus dois primeiros álbuns. Pugh afastou-se da música por algum tempo, limitando-se somente a participações esporádicas em álbuns de cantores como Daniel Jones e Geoff Thorpe.

Track list

  1. Buzzard
  2. Silver Tightrope
  3. Paths and Planes and Future Gains
  4. Last Stand Before
  5. Basking in the White of the Midnight Sun



13 Comentarios

  1. Francisco Campos disse:

    Esse disco do Armageddon vale mais que a carreira inteira de muita banda consagrada. “Silver tightrope”, “Brother ego” e “Buzzard” estão na minha lista de favoritas da última semana há alguns anos.

    • maironmachado disse:

      Boa Francisco. Quando eu conheci esse álbum eu fiquei apaixonado. Bandaça, e coloco ela no mesmo patamar de Warhorse, Captain Beyond e Sir Lord Blackmore. Abraços

  2. Erick Cordeiro disse:

    A morte de Relf é a maior prova que a vida é injusta!Cara…Keith pode e,obviamente,deve,ser contemplado,pois ele cantava pacaraica no Yardbirds e fez um exímio trabalho no Renaissance e,CLARO,fez um dos melhores álbuns da história!Sim,da história!!Podem me chamar de louco e cheirador de gatinhos,mas ‘Armageddon’ estar do ladinho de Pet Sounds,Sgt.Peppers,Roxy Music,Radioactivity etc!Claro,ele pode não ser tão superior,mas com certeza eu levaria comigo para uma ilha deserta!!Pois o peso deste álbum tiraria-me o peso do impasse de estar em uma ilha deserta..Se bem que seria até interessante…No mais,Keith foi mais do que gênio,foi G-E-N-I-O-S-O!

    • maironmachado disse:

      O pior é que muita gente torce o nariz pro Yardbirds sem nunca ter ouvido um disco original inteiro (apenas alguma coletânea de singles). Roger the Engineer e Little Games são um dos melhores discos da década de 60, e infelizmente muito esquecidos. Valeu Erick

  3. André Kaminski disse:

    Adoro esse disco do Armageddon, daqueles casos de quem conheceu na época e soube que a banda morreu deve ter chorado de tristeza porque tinham tudo para estar no mesmo patamar de gigantes como o Deep Purple. Baita resgate deles por aqui, Mairon!

    • maironmachado disse:

      Eu sou dos que chorei. Coloco acima do Purple pela qualidade – na real, Purple pós-década de 70 NO ECSISTE

  4. José Leonardo G. Aronna disse:

    Puta disco! O tive em Lp… Agora me contento com um cdzinho! Bela resenha. O riff de “Buzzard” foi chupado de “Penumbra”, longa faixa que abre o álbum Speech(72) do Steamhammer, a´lbum que tem a participação de Cennamo e Pugh!

    • maironmachado disse:

      Nunca tinha reparado nisso José Leonardo. Aliás, aquela matéria do Steamhammer que vc colocou ano passado no Consultoria, e que a UOL nos garfeou, tá em mãos?

    • Francisco Campos disse:

      Confesso que não conhecia “Penumbra”, do Steamhammer.
      Que cacetada!
      Já devo ter escutado umas dez vezes… rsrs

  5. Ronaldo disse:

    O Zé Leonardo lembrou bem dessa…esse riff já existia na época do Steamhammer!
    e eu me lembro bem da ocasião em que eu ouvi a música Buzzard pela primeira vez, lá pelos idos de 2005 em uma loja de discos. O lojista falou…quando chega alguém aqui falando de guitarrista de heavy metal é esse disco que eu boto pra rolar…hahahahaha!
    excelente texto, Mairon!

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