Green Day – Warning: [2000]

12 de outubro, 2015 | por Alisson Caetano
Resenha de Álbum
15

Warning

Por Alisson Caetano

Algumas bandas surgem com o estardalhaço de um single ou de um clipe bonitinho/comovente/amoral/engraçado, conquistando de imediato o coração das massas, ávidas por novidades fresquinhas, mesmo que essa novidade não tenha “tutano” suficiente para perdurar por muito tempo.

Quem se lembra do blink-182 e seus clipes que hoje mais causam vergonha alheia do que nostalgia? As vezes apenas a apreciação de um artista não é o suficiente para julgar se aquilo perdurará muito, cabendo ao tempo a tarefa de varrer para a lata de lixo toda a tranqueira que, inexplicavelmente, ousamos chamar um dia de clássico.

Se persistimos falando do trio verde 20 anos após o multiplatinado Dookie [1995], isso quer dizer que: ou ainda não passou tempo suficiente para limpar o Green Day de nossas mentes, ou a banda já provou, por A+B, que têm mais a mostrar ao público do que letras com bobeiras ginasiais e rostinhos bonitos. Escolho a segunda possibilidade.

Próximos de completar 15 anos de carreira à época, e com dois discos sucessos de vendas, mais um que, se não foi um estouro, rendeu uma turnê de sucesso e um single radiofônico invejável — “(Good Ridance) Time of Your Life” –, Billie Joe, Mike Dirnt e Tré Cool optaram por comemorar o tempo de estrada com uma renovada nos ares.

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Trocando as guitarras por violões e deixando o approach Sex Pistols um pouco de lado em prol de algo mais sóbrio, a banda tinha clara em suas mentes um objetivo: dominar as audiências que ainda não haviam se rendido ao som energético do grupo.

E o disco acerta musicalmente em cheio no objetivo. Soando revigorado e refrescante em melodias que não se sentem nenhum pouco desconfortáveis em serem chamadas de “pops comerciais”, a banda mostrou uma bela capacidade de adaptação sem descaracterizar aquilo que conhecemos por “Green Day”.

Tal qual um bom disco pop, Warning: tem como base de apoio os seus singles. Sem exceção, todos são o resumo do espirito mais leve da banda na época: revigorados, depois de discos gravados sobre forte stress ou após longas turnês mundiais. “Warning”, a música, é simples, mas apresenta sem rodeios a verve acústica com muita simpatia. “Minority” é o cordão umbilical com a fase punk rebelde, enquanto “Waiting” mostra a capacidade do trio em transformar uma música aparentemente comum em algo imediatamente decorável. “Macy’s Day Parade” apesar de genérica, consegue mostrar seu valor como uma balada acústica comum, não prejudicando o encerramento do trabalho.

“Fashion Victim” e “Church on Sunday” ficaram na galeria de canções conhecidas apenas pelos fãs. A primeira é prova cabal de que Billie Joe, mesmo sendo um cantor desprovido de qualidades técnicas, possui uma capacidade interpretativa singular, difícil de descrever (simpática, talvez?). A segunda é o tipico punk simples 4 por 4 com pegada alternativa refrescante e refrão simpático: fórmula usada sabiamente pelo trio em toda sua carreira. Pondo fim aos destaques imediatos, “Hold On” tem cara de música para rolar no rádio do carro em uma viagem ao interior em uma estrada sinuosa.

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Se musicalmente o disco é muito bom, comercialmente ele correspondeu as expectativas? Quem dera. Para uma banda que vendeu 11 milhões de discos anteriormente e achou o desempenho fraco, imagine ver vendas mal batendo a casa dos 4 milhões…

Porém, aquela velha máxima do tempo se faz valer aqui. Se estamos falando de um disco ainda hoje, 15 anos após seu lançamento, é porque talvez ele signifique algo para alguém. Pois tenha absoluta certeza que significa, para a banda, como um ponto de virada interessante para o grupo, e para os fãs, que tem carinho especial para com Warning:.


 

Tracklist:

  1. Warning
  2. Blood, Sex and Booze
  3. Church on Sunday
  4. Fashin Victim
  5. Castaway
  6. Misery
  7. Deadbeat Holiday
  8. Hold on
  9. Jackass
  10. Waiting
  11. Minority
  12. Macy’s Day Parade

 

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15 Comentarios

  1. Erick Cordeiro disse:

    Realmente.O Green Day é uma banda boa quando quer seguir a rádio,mas quando quer seguir seus próprios ares é uma ótima banda!E o Blink-182 é simplesmente uma bos….melhor eu ficar calado…Pra ser sincero,até o The Killers ou Kaiser Chiefs tem mais moral em relação a merd..do Blink-182.No mais,ótima matéria Alisson!É bom ver Consultores que não são presos em cavernas pré-jurássicas,seja essas Progressivas ou MeTÁTÁTÁlicas!!!

  2. Marco Gaspari disse:

    Obrigado, Erick. Você é muito gentil.

    • Erick Cordeiro disse:

      Não tem de quê,Marco.E,caso eu tenha o ofendido,desculpe-me,pois no final todos nós somos presos em algo antigo,eu mesmo sou totalmente preso na maior banda de blues-rock,The Yardbirds,também sou aficionado nos trabalhos de matemáticos,físicos e químicos antigos,porque eles tinham uma mente mais aberta em relação a religiões – VIDE ISAAC NEWTON E PITÁGORAS -,mas ainda assim eu tenho um grande respeito pelos matemáticos e outros no ramo das exatas dos tempos atuais,sejam ateus ou não.Pra ser sincero,eu tô pouco me fodend* para a religião ou não de tal indivíduo,não é preciso ser religioso para se ter e provar caráter.Por essa e outras razões,eu sigo o Deísmo,apesar de não concordar com tudo que esta doutrina considera.Mas voltando ao assunto,é ótimo ouvir coisas do passado,pois de uma forma ou outra,se queres prever o futuro estuda o passado,dizia assim o sábio chamado Confúcio.

      • Alisson Caetano disse:

        Acho que o pessoal podia parar de reclamar sobre os gostos dos consultores. A maior quantidade de posts direcionados a música de décadas passadas apenas reflete o gosto pessoal dos mesmos (e, como vocês sabem, gosto pessoal não se discute). Não me meto a falar sobre rock progressivo e heavy metal oitentista simplesmente porque não é minha preferência.

        Independente do foco, acredito que todos conseguem manter um bom nível de qualidade em suas matérias (o texto sobre ‘Exótica’ do Marco ficou muito bacana). No mais, era isso que tinha a dizer mesmo.

        • Marco Gaspari disse:

          Não me senti ofendido, apenas vesti a carapuça. Sou a pessoa que mais escreve sobre velhidades por aqui, até porque são velhas pra vocês, pra mim são contemporãneas. E senti sim uma certa agressividade no tom do Erick, mas até aí não sou florzinha pra ficar incomodado. O que precisa ficar claro pra todo mundo é que um site com várias pessoas fornecendo conteúdo, com personalidades e bagagens distintas, só pode privilegiar o intercãmbio (não, não estou querendo sair do Brasil, procurando uma família que me receba lá fora). Falo no sentido de intercambiar pontos de vista. E para isso vou usar a imagem de uma das maiores mentes que a Argentina já pariu, Carlos Bernardo Gonzalez Pecotche: se colocarmos várias pessoas sentadas em volta de um vaso, e cada uma contar seu ponto de vista do vaso, todo mundo vai enxergar o vaso completo. É isso aí: no vaso rock”n’roll, green day sem beatles ou gentle giant ou the police jamais será o vaso completo.

          • Erick Cordeiro disse:

            De pleno acordo.No final tudo se entrelaça de uma maneira ou outra!

        • Erick Cordeiro disse:

          Não reclamei dos gostos dos consultores,somente expressei minha opinião,talvez de forma indelicada.Mas eu curto demais a visão de cada consultor,pois se não fosse por eles talvez eu nunca conheceria obras primas como Pet Sounds – principalmente -,Pawn Hearts,Tarkus,Close To The Edge,Vanilla Fudge – debut -,Captain Beyond – debut -,Oa discografia de Keith Relf,Days Of Future Passed,Forever Changes,Zarathustra etc.Ou seja,quando falei que é bom ver consultores que não são presos em cavernas Progressivas ou MeTÁTÁTÁlicas foi apenas uma singela e indireta homenagem causal a alguns Consultores,sim,eu sei que ficou mais para uma reclamação do que uma homenagem,mas That’s Life.Então,PaZ,AmoR e VidA PrósperA para todos,fiquem com Spock e Garcia!

        • Fernando Bueno disse:

          Será que o povo me acha um consultor chato???? Pela descrição vesti a carapuça total!!!!

          • Marco Gaspari disse:

            Não tem será, Fernando. Você é chato pra caralho!

  3. António Marcos disse:

    Olá gostei da matéria e achei divertida a polêmica. Recomendo para os envolvidos escutaram a obra-prima do The Shaggs, que representa o ecletismo que vem marcando o blog nos últimos tempos. Não me surpreenderei quando o MMM do Lou Reed for citado por algum consultor por se tratar também de uma obra-prima.

    • Marco Gaspari disse:

      Boa, Antonio. Mas justamente The Shaggs foi motivo de polêmica quando indiquei as meninas para a lista de bandas só de mulheres. A verdade é que a hipocrisia campeia por aqui, todo mundo querendo ver os outros pelas costas (ui!).

    • Acho que The Shaggs está longe de ser obra prima, mesmo que o grande mestre Zappa tenha dito o contrário anteriormente. Quanto ao MMM do Lou Reed, citei brevemente esse negócio na minha matéria sobre noise rock 🙂

      • Marco Gaspari disse:

        Alisson, o Zappa citou o disco das Shaggs numa clara intenção de tirar sarro daqueles que estavam enfeitando o rock’n’roll além da conta. O disco é ruim, elas nem eram músicos e foram convenientes para a viajem mística dos pais. Mas é por todos esses defeitos que o disco se tornou cult e sua fama cresceu fantasticamente com o passar dos anos. De pior disco de todos os tempos (título que sustentou durante décadas e que talvez seja imbatível até hoje) se tornou um artefato icônico. E foi isso o que me levou a citar as meninas na lista. Não digo que tenha obrigação, mas quem gosta de rock devia gostar de saber essas coisas. De conhecer esse tipo de disco. Ele tem sua importância da mesma forma que um Pet Sounds tem, só que em pontos distintos. E quanto ao MMM, Lou Reed também estava tirando uma também, mas se não me engano da gravadora que o obrigou por contrato a tirar um disco do cú com anzol. Literalmente foi o que ele fez.

        • Marco, eu gosto dessas histórias malucas do rock n’ roll, me divirto muito lendo essas bizarrices, espero que não tenha dado a impressão inversa. O que não entendo é como tem gente que consegue dizer que um MMM tem alguma ponta de qualidade. Uma coisa é você criar ambientações com drones e noises (Jesu e Sunn O))), por exemplo), outra coisa é fazer colagens sem sentido e sem propósito de barulhos. Foi mais ou menos nisso que eu me referi.

          • Marco Gaspari disse:

            Quando eu era rapaz (faz tempo) todos os meus amigos adoravam o Vanilla Fudge. Só não gostavam do segundo disco: The Beat Goes On. O fato é que era proibido gostar desse disco. Todo mundo metia o pau nele. Os músicos do Vanilla Fudge, aliás, eram os primeiros a meter o pau no disco. 9 entre 10 críticos de rock diziam ser esse o pior disco de rock já gravado (The Shaggs era fichinha). Um disco pretensioso, confuso, enfim, uma merda completa. Hoje, no entanto, é um dos discos mais emblemáticos do VF, que ninguém pestaneja na hora de comprar. E está longe de ter melhorado com o passar dos anos. Continua a mesma coisa confusa e pretensiosa que sempre foi, mas ganhou notoriedade. Como o disco das garotas Shaggs, virou um artefato do rock, mais do que um disco de música. Mairon Machado escreveu sobre esse disco com propriedade. Vou repetir aqui o que ele escreveu:

            The Beat Goes On [1968]
            Tido por muitos como um dos maiores erros da história do rock, o segundo disco do Vanilla Fudge é daqueles que facilmente entra na lista do ame ou odeie. Para começar, nele não existe uma única canção completa, a exceção da curta faixa-título (mais uma versão para um clássico de Sonny & CHer) e de “Sketch“, uma bonita peça instrumental de Stein ao órgão e ao piano, apresentando a melodia de “The Beat Goes On”, que aparece repetidamente em quase todo o álbum. A história por detrás do disco é tão bizarra quanto o mesmo. O grupo havia brigado com o produtor George Morton, que resolveu criar o álbum sozinho, pegando partes de diversas canções e entrevistas de pessoas famosas, misturando tudo de forma que fosse criada uma história conceitual sobre o desenvolvimento da humanidade, e utilizando-se da sua criatividade para comandar o que o quarteto precisava gravar. São quatro Phases no total. A “Phase One” concentra-se na evolução da música, passando por trechos de nomes do século XVIII (Mozart), XIX (Stephen Foster) e o rock do século XX (destacando obviamente The Beatles). A maravilhosa “Phase Two” é voltada especialmente para Beethoven, mesclando passagens de “Moonlight Sonata” e “Fur Elise”, o que gerou uma grande polêmica na imprensa, pois ninguém havia ousado fazer uma versão rock pesado para músicas clássica até então. “Phase Three” é a mais desnecessária, já que traz apenas vozes de líderes de estado, como Winston Churchill, Franklin Roosevelt, John Kennedy, entre outros, durante discursos famosos. Por fim, “Phase Four” apresenta os solos individuais de cada um dos membros do grupo, e serve para percebermos um pouco da evolução musical de Martell. A ideia acabou não surtindo efeito, e os próprios membros do Vanilla Fudge se recusam a comentar sobre o disco, alegando que a participação dos mesmos foi somente para não perder o emprego. Mesmo assim, ouvindo de cabeça aberta, é um álbum muito interessante, principalmente pelas passagens de “Phase One” e “Phase Two”, e que chegou na décima sétima posição nos Estados Unidos.

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