Bruford Levin Upper Extremities – Bruford Levin Upper Extremities [1998]

6 de agosto, 2015 | por Mairon
Resenha de Álbum
10

CS1657637-02A-BIG
Por Mairon Machado

Existem discos e discos, todo mundo sabe disso, mas existem discos que nós ouvimos e gostamos automaticamente, mesmo sabendo (e considerando) isso praticamente impossível se levar em conta seu conhecimento e experiência com relação aos seus gostos pessoais.

Pessoalmente, eu sou um grande crítico do King Crimson pós-anos 80. A reformulação do grupo do guitarrista Robert Fripp, com a entrada do também guitarrista (e vocalista) Adrian Belew, ao lado da cozinha Bill Bruford (bateria) e Tony Levin (baixo), mudou totalmente a cara de uma das maiores bandas do rock progressivo da década de 70, lançando três álbuns idolatrados por muitos, odiados por outros, e que para mim, não trazem nenhum sentimento além de desperdício de agulha.

600

Chris Botti, David Torn, Bill Bruford e Tony Levin

Depois, o grupo seguiu nos anos 90 com mais alguns lançamentos que não me dizem nada, e eu praticamente parei de acompanhar a banda, apesar de seguir sempre fiel ao grande Bill Bruford, consumindo com voracidade tudo o que ele tocava, apenas para conhecer um pouco mais do seu já inquestionável estilo de improvisação.

Foi assim que conheci um disco incrível registrado pelo batera. Ainda na década de 90, Bruford e Levin resolveram montar um projeto altamente experimental, no qual o baterista assumiu também o papel de tecladista, e Levin pode mostrar ainda mais seus dotes com o sticker. Para complementar a experiência, agregaram o guitarrista David Torn e o trompetista Chris Botti, e assim, nasceu o Bruford Levin Upper Extremities, ou simplesmente B. L. U. E. , cujo primeiro álbum foi lançado em 1998. São doze canções, gravadas através de diversos improvisos que nasceram em ensaios nas casas de Bruford, Levin e Torn, e que culminaram com um álbum homônimo que pertence ao hall de melhores lançamentos da década de 90, e talvez, o melhor disco de 1998.

billbruford

Bill Bruford

O trio Bruford, Levin e Torn já havia se encontrado no álbum Cloud About Mercury (1987), o segundo disco solo de Torn, cuja ideia é similar a apresentada nesse primeiro álbum do grupo, porém tendo a presença do trompetista Mark Isham no lugar de Botti, além de não soar tão impactante quanto Bruford Levin Upper Extremities.

“Cerulean Sea” surge com os agonizantes acordes de guitarra e efeitos sintetizados, comandados pelo sticker sempre presente de Levin, que repete-se por minutos e minutos enquanto Bruford rufa aleatoriamente sua caixa. A sensação dessa faixa de abertura é que estamos fazendo um tratamento hipnótico, tamanha a capacidade repetitiva e chocante da faixa, que encerra com um “Interlude” no sticker, levando a delirante “Original Sin”, a qual foi a canção que me fez apaixonar pela banda, já que nela, está a essencial explicação para a diferença do B. L. U. E. e do King Crimson, no caso, o trompete de Chris Botti, que traz uma espécie de Miles Davis misturado às loucuras viajantes da guitarra e dos loops de David Torn, enquanto Bruford e Levin acompanham despretensiosamente, quebrando o ritmo como mágica, ou melhor, como apenas gênios conseguem fazer.

Bruford Levin Upper Extremities - Blue Nights - Back

Bill Bruford e Tony Levin (acima); Chris Botti e David Torn (abaixo)

“Etude Revisited” começa com conversas misturadas, saltando para o animalesco duelo de guitarra e trompete entre o ritmo intrincado do sticker e da bateria de Bruford, que inventa ritmos e quebradas impossíveis de se imaginar. As influências de Miles Davis são evidentes no trompete de Botti, e essa faixa irá fácil voltar para a audição após o encerramento do álbum. Mas se você acha que o grupo irá fazer apenas experimentações com quebradeira, ouça “A Palace of Pearls (On a Blade of Grass)”, uma peça seminal levada pelos sinos tubulares de Bruford e com passagens estonteantes de trompete e guitarra, que nos remetem aos momentos mais sombrios de Low (David Bowie), encerrada pelo “Interlude” de baixo e percussão.

A loucura doentia do sticker volta na magistral “Fin de Siecle”, a canção que eu recomendo para o fã do King Crimson se aventurar primeiramente no conhecimento do B. L. U. E., já que é muito similar a algumas faixas da banda, dando uma lembrança de “Red” aqui e acolá, seja pela distorção da guitarra ou pela quebradeira de bateira e sticker, mas claro, o trompete faz toda a diferença, em outra canção que dará gosto rodar de novo nas caixas de som. “Drumbass” é exatamente o que o nome da canção diz, baixo e bateria fazendo um riff através de uma breve faixa, que nos traz a dolorosa presença do arco de violino arranhando o sticker na linda introdução de “Cracking the Midnight Glass”, a mais arrepiante das canções de Bruford Levin Upper Extremities, com seu andamento arrastado que lembra “Kashmir” (Led Zeppelin), mas totalmente desconstruída pela guitarra e pela bateria. Bruford causa uma confusão mental que exige muito esforço para ser compreendido cada quebrada dada no ritmo, e Torn simplesmente esganiça a guitarra com sustains e riffs tirados de algum poço nas profundezas do inferno. Sinistra, arrepiante e encantadora são algumas das definições dessa grandiosa faixa.

ff4b30f486fe05a40ec325d8f77ec99a

David Torn, Chris Botti, Bill Bruford e Tony Levin

A vinheta “Torn Drumbass” apenas inclue o violão de Torn ao lado de Bruford e Levin, levando para a sinistra “Thick With Thin Air”, construída sobre explorações do sticker de Levin, que bate nas cordas com o arco de violino e com os dedos, tendo ainda um estranho acompanhamento vocal ao fundo, transmutando-se para um suave blues acústico comandado pelo slide e loops de Torn. “Cobalt Canyons” retorna aos ritmos quebrados e intrincados de baixo e bateria, e agora, Torn explora sua guitarra no extremo das invenções, empregando distorções diversas para fazer os olhos (e os ouvidos) saltarem com a alucinante sequência final da canção, com uma aula de free jazz para John Coltrane aplaudir do alto de sua sapiência, complementadas por barulhos ao piano em mais um “Interlude”.

tony_levin

Tony Levin

“Deeper Blue” é outra peça magnífica, com Levin deslizando seus dedos pelo baixo comoventemente, e o trompete criando aquela saborosa sensação de “Opa, temos uma raridade do Bitches Brew rodando nas caixas de som?“. Que música fantástica e genial, com méritos ainda para o simples mas perfeito andamento de Bruford com o brush, e o disco encerra com a divertida “Presidents Day”, uma epopeia de viagens na guitarra e no trompete.

Aos que gostam do King Crimson pós-anos 80, recomendo fortemente a audição, e aos que gostam do King Crimson dos anos 70, recomendo mais ainda, pois a surpresa não será só minha. Em tempo, se o trompete é o responsável pela principal diferença na música, convém dizer que a ausência do chatérrimo Belew só faz B. L. U. E. ganhar ainda mais pontos. Ouça e tire suas dúvidas.

51GB0bgLv+L

Contra-capa do álbum

1.  Cerulean Sea

2. Original Sin

3. Etude Revisited

4. A Palace of Pearls (On a Blade of Grass)

5. Fin de Siecle

6. Drumbass

7. Cracking the Midnight Glass

8. Torn Drumbass

9. Thick With Thin Air

10. Cobalt Canyons

11. Deeper Blue

12. Presidents Day



10 Comentarios

  1. Não tinha idéia nenhuma desse disco. Fiquei surioso só pelo fato do Bruford assumir os teclados também. Se ele for 50% bom nos teclados do que é na bateria já é um virtuoso…

    • maironmachado disse:

      Fernando, confesso que ele nos teclados só faz mera participação mesmo. Não há solos de teclados, apenas inserções e acompanhamentos básicos. Mas o disco é ÓTIMO!

  2. Igor Maxwel disse:

    Um dos músicos mais “cabeça-dura” que eu conheço dentro do rock é o Bill Bruford. Se ele não tivesse caído fora do Yes após a gravação de “Close to the Edge” (que como vocês já sabem, não é pra mim o melhor disco do Yes e muito menos de todo o movimento prog), a formação clássica do Yes duraria muito mais. Jon Anderson, Steve Howe, Rick Wakeman e Chris Squire (RIP) se saíram vitoriosos em CTTE, mas quem saiu perdendo aqui foi o Sr. Bruford. Por isso o termo “cabeça-dura”.

    Em 1973 veio o genial Alan White no lugar de Bruford, e o Yes lançou sim sua verdadeira e definitiva obra-prima, pela qual eu tenho um enorme apreço e da qual já falei com exaustão aqui na Consultoria. Depois o Wakeman saiu pela primeira vez do Yes em 1974 e só retornaria em 1977, e o resto da história todos nós já sabemos. E sobre a questão do melhor disco do prog, estou dividido entre “The Dark Side of the Moon” do Pink Floyd e “Selling England by the Pound” meu disco favoritíssimo do Genesis, do qual também puxei muito o saco aqui na Consultoria, e continuo puxando até hoje.

  3. Eudes Baima disse:

    Salivando pavlovianamente depois de ler o excelente texto do Mairon.

  4. Marco Gaspari disse:

    Bom, o que se pode esperar de Bill Bruford, Tony Levin e Mairon Machado tudo junto? Melhor que isso só se o Hugh Banton estivesse nos teclados.

  5. caio disse:

    Sou mais fan da fase new have deles que qualquer outra coisa, nao foi um desperdicio de agulha, foi talento em outro planeta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *