Santana – Guitar Heaven: The Greatest Guitar Classics of All Time [2010]

13 de julho, 2015 | por Mairon
Resenha de Álbum
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Por Mairon Machado

Tem dias que ficam marcados na vida da gente por diversas razões, mas sempre ligadas às emoções que você viveu em tal dia (boas ou ruins). Eu tenho vários dias eternos na minha vida, como o nascimento do meu filho, o dia que o Sport Club Internacional foi campeão do mundo, a aprovação no concurso público garantindo minha estabilidade financeira, o almoço que conheci minha esposa, e tantos outros momentos marcantes.

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Carlos Santana

Outros, de menor significância, por alguma razão as vezes saltam como um pop-up em meu cérebro, e um deles é a data de 22 de setembro de 2010. Na tarde daquele dia, eu estava em Roma, depois de uma curta temporada por Atenas (tão marcante quanto os fatos citados no parágrafo acima) e de ter assistido Ozzy Osbourne em Paris dois dias antes (idem ao citado por Atenas), e resolvi passear pela cidade para conhecer o que me faltava ver da mesma, já que havia ficado alguns dias por lá no início do mesmo mês.

Foi então que me deparei com uma imensa livraria, próxima ao Vaticano, e nela, entrei para verificar a possibilidade de encontrar alguma preciosidade por um preço módico. Enquanto vasculhava os CDs, DVDs e livros do local, ouvia ao fundo um som conhecido, canções clássicas, interpretadas por um timbre inconfundível. Chamei o vendedor e perguntei: “Isto que está tocando é Santana?” e ele prontamente “Sim, é o novo álbum. Se você quer ouvir, sente-se aqui, e fique a vontade.”.

A livraria oferecia um café com bolachas por um preço honesto, e então, larguei o passeio por Roma e fiquei a tarde viajando no ótimo disco Guitar Heaven: The Greatest Guitar Classics of All Time. Ouvi o disco duas vezes, acompanhado por quatro Capuccinos e diversas bolachas, e sai da livraria entusiasmado com o álbum, apesar de não ter adquirido o mesmo na época devido ao fato de, por ser lançamento, seu valor era muito alto (um CD custava mais que vinte Capuccinos).

Quando cheguei no Brasil, meses depois, uma famosa loja online colocou o CD em venda por um preço muito bom, e assim, pude levar para casa um dos melhores álbuns dos tempos atuais, e o melhor disco de 2010 sem dúvidas. Trata-se de uma coleção feita pelo guitarrista Carlos Santana, que elegeu doze grandes solos de guitarra e reproduziu os mesmos através de sua famosa levada latina. Com a participação de diversos convidados, Guitar Heaven vai desde sucessos sessentistas de Beatles e Stones até o peso de AC/DC, passando também pela farofa de Def Leppard, sempre em alto nível.

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Arte promocional do álbum

O álbum abre com duas pancadas logo no início, começando com uma alucinante versão de “Whole Lotta Love”, e Chris Cornell (Soundgarden, Audioslave), mandando ver em uma performance impecável, e a perfeita recriação de “Can’t Your Hear Me Knocking”, um dos grandes solos da carreira de Keith Richards, e que Santana tirou de letra ao incrementar toda sua latinidade nesse clássico da década de 60, trazendo para os vocais Scott Weiland (Stone Temple Pilots).

As tradicionais linhas percussivas que marcaram o início da carreira de Santana estão presentes na sensacional versão de “Sunshine of Your Love”, grande clássico do Cream, e que aqui aparece com a voz de Rob Thomas (Matchbox Twenty). A vocalista India.Arie emociona na recriação de “While My Guitar Gently Weeps”, que conta com o violoncelo de Yo-Yo Ma, atestando mais uma vez que quando se fala em covers para canções dos Fab Four, a versão recriada fica sempre melhor que a versão original. As percussões retornam em “Photograph”, dando apenas o andamento para os vocais de Chris Daughtry (Daughtry), e a guitarra de Santana torna a mesma bem melhor, na minha opinião, que a versão original do Def Leppard.

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Encarte de Guitar Heaven

“Back in Black” ficou irreconhecível nos vocais rappers de Nas, mas manteve o peso original, ficando apenas moderna em relação ao que o AC/DC fez em 1980, assim como “Riders on the Storm”, uma das joias da carreira do The Doors, que ganhou um clima ainda mais flower-power do que sua versão original. Nela, temos a participação especial de Ray Manzarek nos teclados (uma das últimas gravações do tecladista, falecido em 2013) e Chester Bennington (Linkin Park) nos vocais.

“Smoke on the Water” ficou fiel a versão original do Deep Purple, tendo os vocais de Jacoby Shaddix (Papa Roach) e com destaque para o slide e o wah-wah utilizado por Santana, além da percussão batucar o tempo inteiro, fazendo certamente você dar suas balançadas de cabeça. A percussão  latina encaixou divertidamente em “Dance Night Away”, mostrando que até mesmo o Van Halen pode ser condensado a tambores. Os vocais aqui ficaram por conta de Pat Monahan.

O mais interessante é que mesmo com um grande rol de canções e estilos, em nenhum momento a essência de Santana se perde. Podemos verificar que para todos esses clássicos, Carlos Santana conseguiu deixar sempre sua marca registrada, que é o timbre inconfundível de sua guitarra particular, desfilando solos ásperos, rasgados e agudíssimos.

“Bang a Gong” é a única que ficou aquém de sua versão original, até por que é difícil conseguir superar toda a malemolência que Marc Bolan apresentou nessa faixa em 1971, e convenhamos, Gavin Rossdale (Bush) está muito longe de ser um bom cantor. O solo de Carlos Santana é o único grande momento da faixa.

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A guitarra flamejante de Carlos Santana

O encerramento do álbum é simplesmente comovente, começando com Joe Cocker arrasando na linda “Little Wing”, com uma cara totalmente nova, arrepiando até a alma, e fazendo Jimi Hendrix aplaudir em pé ao solo de Santana, e por fim, “I ain’t Superstitious”, clássico de Truth (Jeff Beck), com a mesma potência no wah-wah de Santana, mas aqui muito mais bluesy que sua versão original, e com Jonny Lang saindo-se muito bem no papel de Rod Stewart.

Guitar Heaven ainda saiu em uma versão DELUXE, trazendo dois bônus: “Fortunate Son”, com Scott Stapp nos vocais, e “Under the Bridge”, tendo Andy Vargas no papel de Anthony Kiedis. A versão japonesa ainda foi gratificada com mais um cover, “La Grange”, tendo Kenichi Asai nos vocais. No geral, o disco foi extremamente bem sucedido mundo afora, chegando na quinta posição nos Estados Unidos e décima quinta no Reino Unido.

Apesar de dizer que são Os Grandes Clássicos da Guitarra de Todos os Tempos, é claro que ficou faltando joias como “Free Bird” (Lynyrd Skynyrd), “Stairway to Heaven (Led Zeppelin), “Paranoid” (Black Sabbath) ou “Hey Friedrick” (Jefferson Airplane), mas é inegável que a coleção feita por Santana para esse álbum é de muito bom gosto.

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Contra-capa do CD

Track list

  1. Whole Lotta Love
  2. Can’t You Hear Me Knocking
  3. Sunshine of Your Love
  4. While My guitar Gently Weeps
  5. Photograph
  6. Back in Black
  7. Riders on the Storm
  8. Smoke on the Water
  9. Dance the Night Away
  10. Bang A Gong
  11. Little Wing
  12. I Ain’t Superstitious



6 Comentarios

  1. Eudes Baimas disse:

    Sou fãzaço do guitarrista chicano, mas os discos dele que me interessam se encerram por volta do meio estúdio/meio ao vivo, Europa, de 1976.Depois, gostei esporadicamente de algumas coisa. Quando este disco/DVD saiu, me animei em comprar. O resultado, em geral, soou decepcionante, com uma ou outra exceção. E decepcionante nem tanto pelo repertório (vamos convir, excessivamente óbvio), ou pelas execuções (corretas), mas pela falta de ousadia e ausência de maiores novidades. Sem falar que, em geral, todas as versões são inferiores aos originais.

    Gostei mais do texto do que do disco.

  2. Eudes Baimas disse:

    Por motivos evidentes, a melhor faixa, para mim é “Can’t Your Hear Me Knocking”, dado que, no original, os Stones já emulavam o próprio Santana.

  3. Francisco Campos disse:

    Sou muito, mas muito fã do Santana. Mas concordo com o Eudes, quando afirma que o melhor momento do guitarrista acabou com “Moonflower”, de 1976. Depois disso, o nosso querido Carlos diluiu a sua fórmula e só de vez em quando consegue reproduzir a sua chama inicial. O CD em questão é apenas bom. Não sei o motivo, mas “Back in black” é minha faixa favorita.

  4. eudes baima disse:

    Isso, Francisco, Moonflower, eu me enganei…talvez porque a versão ao vivo de Europe seja a faixa mais marcante.

    • Francisco Campos disse:

      A versão de “Europe (Earth’s cry Heaven’s smile)”, que está em “Moonflower” é sensacional. Da parte ao vivo, gosto muito das versões de “Dance sister dance (baila mi hermana)” e “Toussaint L’Overture”. Da parte gravada em estúdio, “I’ll be waiting”, “Transcendance” e o cover de “She’s not there”, clássico dos Zombies, são minhas favoritas.

  5. eudes baima disse:

    “Europa”

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