Wander Wildner – Existe Alguém Aí? [2015]

7 de julho, 2015 | por micaelmachado
Resenha de Álbum
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Por Micael Machado

Depois de dois discos mais voltados a sonoridades mais acústicas e folk (Caminando y Cantando, de 2010, e Mocochinchi Folksom, de 2013) e de uma temporada morando na Europa, o lendário “punk-brega” Wander Wildner (eternamente lembrado como tendo sido o ex-vocalista d’Os Replicantes) retoma sonoridades “guitarrísticas” em Existe Alguém Aí?, seu oitavo disco solo de inéditas (se não contarmos a compilação Rodando El Mundo, de 2013) e o primeiro que o músico considera como sendo “conceitual”, onde as letras são usadas para tecer críticas contra a sociedade atual e a maneira de viver das pessoas em uma metrópole como a capital do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. Wander, responsável pelos vocais e guitarras, ganha neste álbum o acompanhamento de Gustavo Chaise (baixo) e Cesar Castro (bateria), além de alguns convidados mais do que especiais, que se revezam ao longo das dez faixas da bolachinha para dar amparo ao power trio responsável pelas bases.

Após a tristonha introdução dos teclados do maestro Arthur de Faria, um som de chuva e trovões leva à “Réquiem Para Uma Cidade“, que usa guitarras a la Jesus And Mary Chain para traçar as mazelas de um dia em que “chove, chove, chove em Porto Alegre”, deixando “as ruas todas alagadas” e “os bueiros todos entupidos”, em um clima meio depressivo que vai se espalhar pelas demais letras, e é coroado pela apocalíptica repetição do verso final “o sol nunca mais apareceu”.

Jimi Joe, Gustavo Chaise, Cesar Castro e Wander Wildner ao vivo

A partir daí, as canções acompanham as mazelas das vidas dos personagens desta cidade escura e alagada, passando pela garota que “percebeu que a maioria não queria o que ela queria” em “Naquela Noite Ela Chorou” (inspirada pela derrota de Olívio Dutra para Lasier Martins nas eleições para o senado do Rio Grande do Sul em 2014, e que conta com a guitarra de Jimi Joe, parceiro de longa data do cantor), pela moça que “quer respirar mas não consegue” em “Uma Angústia Presa na Garganta” (abrilhantada pelos teclados de Rust Costa), pelo sujeito que “vive só, consigo mesmo, o tempo inteiro” na pesada “Sua Própria Companhia”, e por aquela que “saiu de casa numa noite fria…porque sua vida merecia ser bem melhor que a da sua tia” em “Vivendo 100% Cada Momento” (um excelente pop punk).

Ainda sobra espaço para criticar o estilo de vida e de se alimentar da população urbana atual (“agora é a hora de fazer, pensar em coisas bacanas, se alimentar de comidas orgânicas”) em “Plantar, Colher e Depois Dançar” (com alguns teclados mariachis a cargo de Flávio “Flu” Santos, ex-baixista do Defalla, e que ganhou um clipe com imagens registradas no festival Morrostock de 2014 e uma versão instrumental diferente daquela presente no álbum) e para um toque de melancolia na baladaça “Saudade”, que encerra o disco soando como uma singela declaração de amor, a qual, segundo o autor declarou em uma entrevista, não é dirigida para uma mulher, mas sim para uma Porto Alegre mais simples e feliz que ficou apenas no passado do cantor.

Apesar da grande identificação das letras com a capital gaúcha (o “riacho Ipiranga” citado em “Réquiem Para Uma Cidade” é o Arroio Dilúvio, que corta uma das principais avenidas da cidade, e a “redenção” por onde vai correr a personagem de “Uma Angústia Presa na Garganta” não é a sensação de atingir a glória e a liberdade espiritual, mas sim o apelido do Parque Farroupilha, no centro da metrópole), a temporada europeia de Wander não foi totalmente esquecida. “Numa Ilha Qualquer”, primeira canção de trabalho divulgada (um excelente pop que tem os teclados, novamente a cargo de Arthur de Faria, remetendo à sonoridade do Echo And The Bunnymen), teve seu clipe registrado em Portugal, país citado indiretamente em “Sobrevoando As Ruas da Cidade” (que conta com a slide guitar de Maurício Chaise e é uma das mais punks do registro), e uma experiência vivida em Berlim serviu de inspiração para a longa “Ela é Uma Phoenix”, uma das melhores faixas do trabalho.

Contracapa de Existe Alguém Aí?

Mesmo com o tom intimista e depressivo de algumas letras, no final quase todos os personagens acabam superando e resolvendo seus conflitos, assim como Wander mostra ter feito com a aparente aversão às sonoridades mais pesadas e recheadas de guitarras que o compositor pareceu ter desenvolvido em seus últimos registros. Sorte nossa, pois Existe Alguém Aí? é, facilmente, o melhor disco nacional lançado este ano até aqui. Confira você mesmo!

O tempo vai, o tempo vem, e tudo volta pro começo…

Track list

  1. Réquiem Para Uma Cidade
  2. Naquela Noite Ela Chorou
  3. Numa Ilha Qualquer
  4. Uma Angústia Presa na Garganta
  5. Sua Própria Companhia
  6. Vivendo 100% Cada Momento
  7. Plantar, Colher e Depois Dançar
  8. Ela é Uma Phoenix
  9. Sobrevoando As Ruas da Cidade
  10. Saudade



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