Por Mairon Machado
Um injustiçado. Assim podemos definir Keith Relf. Afinal, ele foi um dos fundadores de duas das maiores bandas do rock mundial, e foi responsável pela criação de um gigante dos anos 70, o Led Zeppelin. Do blues ao progressivo, passando pelo hard setentista, psicodelia, soul e tantos outros estilos, Keith teve uma carreira escondida por detrás de seus famosos ex-companheiros de Yardbirds (Eric Clapton, Jeff Beck e Jimmy Page), mas deixou, em sua breve carreira musical, discos fantásticos e merecedores de audições intermináveis. Esses são apenas cinco de diversos discos para conhecer um genial músico
Yardbirds – For Your Love [1965]
O primeiro disco de estúdio do Yardbirds é uma coletânea de singles lançados apenas nos Estados Unidos e outros lançados na Europa. Na época, o grupo estava sofrendo uma transição nas guitarras, com Jeff Beck substituindo Eric Clapton, mas o blues-pop do grupo já estava sacramentado. A maioria das canções são versões dançantes para clássicos de outros artistas, como “For Your Love”, “I’m Not Talking“, “I Ain’t Got You” e “A Certain Girl“, nas quais Keith além de cantar muito, solta o fôlego em passagens da harmônica que marcaram época. Keith ainda cômpos a obra-prima “I ain’t Done Wrong”, além de ajudar nas experimentações de “Sweet Music“. O maior sucesso do LP ficou por conta da bonitinha “Good Morning Little Scholgirl”, famosa por ser o primeiro hit da carreira de Clapton. O Yardbirds ainda se formava como banda, mas apesar de jovens, o potencial criativo e bluseiro dos cinco meninos é essencial em qualquer sala de boa música.
Keith Relf (vocals, harmônica), Eric Clapton (guitarras), Chris Dreja (guitarras), Paul Samwll-Smith (baixo, vocais), Jim McCarty (bateria), Jeff Beck (guitarra em 2, 6 e 11).
Participações especiais

Brian Auger (harpsichord em 1)
Denny Pierce (bongos em 1)
Ron Prentice (baixo acústico em 1)

Giorgio Gomelsky (backing vocals em 8)

John Paul Jones (backing vocals em 9)

Manfred Mann (teclados em 9)
Mike Hugg (vibes em 9)
Tom McGuinness (guitarra em 9)
Mike Vickers (guitarra em 9)
1. For Your Love
2. I’m Not Talking
3. Putty in Your Hands
4. I Ain’t Got You
5. Got to Hurry
6. I ain’t done Wrong
7. I Wish You Would
8. A Certain Girl
9. Sweet Music
10. Good Morning Little Schoolgirl
11. My Girl Sloopy

Yardbirds – Little Games [1967]

Alguns podem pensar: “Mas como Roger: The Engineer não está nessa lista?”. Acabo excluindo essa discaço por que ele é muito mais importante para a carreira de Jeff Beck, e não de Keith Relf. Mas em Little Games, Relf mostra toda sua genialidade. O Yardbirds muda de estilo, assume o psicodelismo e lança talvez (polêmica) o melhor disco de 1967. Com a entrada de Jimmy Page nas guitarras, a lisergia rola solta, e as experimentações ampliam-se como formigas em um formigueiro. O agito da faixa-título é um aparte, pois o que predomina é a psicodelia alucinógena, como em “Smile On Me” e “Glimpses”. O bluesão “Drinking Muddy Water” é desconcertante pela pegada de todos os membros. Muitos conhecem “White Summer”, a faixa solo de Page que ele apresentava nos shows do Led Zeppelin, mas Little Games não é exclusivo de Page. Com apenas dois covers (“Little Games” e “No Excess Baggage”), o maior destaque fica para uma canção exclusiva de Relf, a linda “Only the Black Rose“, indicando os rumos progressivos que ele iria tomar dois anos depois.
Keith Relf (vocals, harmônica, percussão), Jimmy Page (guitarras), Chris Dreja (baixo), Jim McCarty (bateria, backing vocals)
Participações Especiais
Nicky Hopkins (teclados)
Clem Cattini (bateria)
John Paul Jones (baixo e violoncelo em 1)
1. Little Games
2. Smile On Me
3. White Summer
4. Tinker, Tailor, Soldier, Sailor
5. Glimpses
6. Drinking Muddy Water
7. No Excess Baggage
8. Stealing Stealing
9. Only the Black Rose
10. Little Soldier Boy

Renaissance – Renaissance [1969]

Fugindo do pop beat, e também da psicodelia apresentada no Yardbirds, Relf funda o Renaissance. Misturando música erudita com rock, agregou na banda sua irmã, Jane Relf, o ex-colega Jim McCarthy e os ótimos Louis Cennamo e John Hawken, e criou um novo estilo dentro do rock progressivo, parindo umas das melhores criações no estilo. E Relf também muda seu estilo de cantar, como em “Innocence“, na qual piano, baixo e bateria fazem uma base densa e envolvente. Além disso, o vocalista demonstra talento na guitarra, fazendo interessantes passagens em “Island” e na própria “Innocence”. “Wanderer” possui uma belíssima sessão instrumental, e é a principal canção de Jane no álbum. A espetacular “Kings & Queens”, com piano e baixo fazendo a base para os vocais de Relf, é a melhor amostra do som que o Renaissance consagrou com Annie Haslam nos vocais, com uma cadência singela e emocionante. E os delírios de “Bullet“, com Relf sugando a harmônica como nos velhos tempos de Yardbirds, complementam um álbum importantíssimo para o rock progressivo. 
Keith Relf (vocals, guitarra, harmônica), Jim McCarty (bateria, vocals), John Hawken (piano, harpsichord), Louis Cennamo (baixo), Jane Relf (vocals, percussão)
2. Innocence
3. Island
4. Wanderer
5. Bullet”

Medicine Head – Dark Side of the Moon [1972]

Brigas internas, mudanças na formação, a Renaissance seguiu seus rumos, e Relf tocou seu barco. Depois de uma tentativa frustrada de seguir carreira solo, e de mergulhar como produtor de discos (destacando o álbum Magical Love, do grupo Saturnalia, o primeiro a ser lançado com um picture disc em 3D), Relf foi convidado para fazer as linhas de baixo do Medicinhe Head, do qual já havia produzido alguns singles, e completando o trio ao lado do guitarrista John Fiddler e da bateria  competente de John Davies. O disco abre com a pegada “Back to the Wall“, mas divide-se em algumas baladas hard (“In Your Eyes”, “You and Me” e “On This Road“), canções flower-power (“Sittin’ in the Sun” e “Only To do What is True“) e o hard de “You Can Make it Here”. A melhor faixa é a pesada “Kum On”, com Fiddler pisoteando o wah-wah como manda o figurino tradicional do hard rock. Um disco que, se não é fundamental, apresenta uma faceta diferente do loiro vocalista (agora baixista) britânico.
John Fiddler (vocals, guitarra, piano), Keith Relf (baixo, guitarras), John Davies (bateria). 

1. Back To The Wall
2. In Your Eyes
3. Sittin’ In The Sun
4. On This Road
5. You And Me 
6. Kum On
7. Only To Do What Is True
8. You Can Make It Here

Armageddon – Armageddon [1975]

O último lançamento com a voz de Relf é simplesmente o melhor de sua carreira. Armageddon faz parte de uma trilogia rara e essencial dentro do hard 70 (ao lado de Captain Beyond e Warhorse, dos grupos de mesmo nome). Este único registro do grupo é um petardo direto, de um dos melhores álbuns da história. Nele, os ingredientes característicos do estilo são apresentados. Melodia e harmonização (“Silver Tightrope”), agito de balançar a cabeça (“Paths and Planes and Future Gains“) e peso (“Last Stand Before”). Ouvir os quinze minutos de “Basking in the White of the Midnight Sun” é ter a certeza de uma viagem enlouquecedora entre acordes rasgados e riffs pegajosos. O auge do álbum é “Buzzard“, com a guitarra de Martin Pugh fervilhando notas e Relf mandando tudo para o espaço, cantando furiosamente e soltando sua raiva contra tudo e contra todos. Uma fantástica despedida para os fãs, já que Relf faleceu meses depois, no dia 14 de maio de 1976, eletrocutado por sua guitarra enquanto fazia sessões de ensaio para o seu primeiro álbum solo! Uma grande perda para a música, mas com um legado rico e original em sua Discografia.

Keith Relf (vocals, guitarra, harmônica, percussão), Martin Pugh (guitarras), Louis Cennamo (baixo, vocals), Bobby Caldwell (bateria)

1. Buzzard
2. Silver Tightrope
3. Paths and Planes and Future Gains
4. Last Stand Before
5. Basking in the White of the Midnight Sun

6 comentários

  1. fernandobueno

    não conheço esses dois últimos e sempre esqueço que o cara do Yardbirds é o cara do Renaissance…Não sei pq nunca faço essa ligação. Eu organizo meus CDs de acordos com as "famílias" das bandas e estou lembrando agora que os discos do Renaissance estão bem longe do Yardbirds. Tenho que arrumar isso…rs

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  2. Mairon Machado

    Bueno, não acredito que você não conhece o Armageddon!!!! Ouça já "Buzzard". Keith Relf é o pai de muita banda boa por aí. Eu tb organizo por "famílias", e por preferência tb. Daí já viu né, é uma confusão (mas o que encabeça é esse Armageddon, depois vem Led, Yardbirds, Renaissance …)

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  3. Marco Gaspari

    Só o fato do Medicine Head sair da tumba e ilustrar este texto do Mairon já demonstra que os zumbis merecem dominar a terra. Maravilha, Mairon!!!

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  4. Groucho KCarão

    Nossa, valeu por essas dicas! Adoro as adaptações pop de blues dos Yardbirds, e a voz e a gaita do Relf são talvez o elemento principal nessas músicas. Ainda tô devendo conhecer o Renaissance, e um dia certamente darei uma conferida pelo menos no Armageddon. Parabéns, Mairon!

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  5. Mairon Machado

    Groucho, qual Renaissance você não conhece? O Armageddon é mais pesado, não sei se você vai curtir. Se você não conhece NENHUM Renaissance, sugiro começar pelo álbum Turn of the Cards. Abraço!

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