Por Mairon Machado

“O que que é isso que está rolando? Parece Santana! Mas será que não é algo inédito do Miles Davis? E agora, virou progressivo de vez!!!”
Essas foram as frases que eu soltei quando ouvi pela primeira vez o álbum Sambanzo, do saxofonista paulista Thiago França, um dos melhores lançamentos do ano de 2012. É mais uma grande satisfação em ouvir um artista nacional gravando um material tão bom, versátil, original e surpreendente.

Acompanhado por Kiko Dinucci (guitarra), Marcelo Cabral (baixo), Samba Sam: (percussão) e Welington Moreira “Pimpa” (bateria), Thiago nos apresenta um ótimo disco instrumental, com muito experimentalismo e técnica de sobra. No seu segundo disco (o primeiro foi Na Gafieira, de 2009), o Brasil recebe um músico maduro e capaz de fazer frente aos grandes instrumentistas do jazz mundial sem perder espaço.

Thiago França ao vivo. Inspiração e versatilidade
Sambanzo: Etiópia começa com o saxofone fazendo a Coltraniana introdução de “Sino da Igrejinha”, acompanhado pela percussão e por batidas nas cordas da guitarra. Após a pequena introdução, Thiago comanda o riff central, e então, a percussão, baixo e guitarra fazem uma miscelânea musical, para então o riff central ser entoado, nos mesmos moldes de clássicos como “My Favorite Things” ou “Afro Blue” (dois grandes clássicos consagrados no saxofone de John Coltrane).
Delírios instrumentais fazem a ponte para a segunda repetição do riff central, seguido por mais delírios no saxofone. A partir de então, o saxofone sola melodicamente, enquanto a percussão pega ao fundo, inclusive com o baixo e a guitarra fazendo barulhos percussivos, voltando então para a introdução e encerrando com a percussão fazendo um leve ritmo que acompanha baixo e guitarra.
Uma grande revelação da música nacional
“Xangô” surge totalmente diferente da sua antecessora, sendo um funkzão excelente, com a guitarra repleta de efeitos e o ritmo de baião da bateria fazendo o riff que acompanha o marcante tema do saxofone. Essa é uma canção bem mais agitada, com destaque para o uso do wah-wah por Dinucci. Depois do primeiro solo, o tema do saxofone é repetido, voltando novamente ao solo, que agora recebe mais ginga e embalo, enquanto o baixo soa funkeado ao fundo, e as notas rasgadas do saxofone, com seus arpejos e efeitos, assombram por vezes. O riff inicial é repetido pela guitarra, e o solo continua, muito dançante e funkeado, e então, o tema do saxofone leva ao encerramento da canção.
Guitarra e baixo abrem “Tilanguero”, uma canção com tons mais latinos, ora lembrando um mambo, ora lembrando uma rumba, ou seja, muito próxima as canções mais leves de Santana, com a melodia do saxofone sendo a maior atração da mesma. 
“Capadócia” retorna ao jazz experimental, com baixo e guitarra puxando o ritmo para o intrincado tema do saxofone, seguido por um curto tema, este mais simples. Na segunda parte do solo, os efeitos eletrônicos no saxofone tornam o instrumento com o som parecido ao de um sintetizador, e é muito interessante ouvir o que Thiago faz nesse trecho da canção, soando altamente progressivo e psicodélico. Thiago volta ao tema inicial, com o baixo repetindo o mesmo incansavelmente, e encerra a canção com muita percussão.
Chegamos na veloz e curta “Xangô da Capadócia”, na qual o riff do saxofone faz a introdução para o delirante free-jazz marcado de uma canção excepcional, na qual Thiago sopra seu saxofone com muita fúria e velocidade, e essa é a mais Coltraniana de todas as canções. A velocidade da bateria e do baixo acompanhando as endiabradas notas do saxofone é impressionante, e a canção encerra-se com a repetição do tema inicial.
A suavidade de “Etiópia” ameniza a velocidade de “Xangô da Capadócia”, com seu embalo quase que de umbanda, e o álbum encerra-se com “Risca-Faca”, uma legítima canção brasileira, com todo o embalo que nossas raízes africanas inseriram em nosso país.
Um grande álbum do início ao fim, e que as gravadoras nacionais apoiem Thiago a seguir essa brilhante carreira, lançando preciosidades como essa com mais constância.
Track list
1. O Sino da Igrejinha
2. Xangô
3. Tilanguero
4. Capadócia
5. Xangô da Capadócia
6. Etiópia
7. Risca-Faca

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