Review Exclusivo: Rick Wakeman (Porto Alegre, 20 de novembro de 2012)

24 de novembro, 2012 | por Mairon
Diversos
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Por Mairon Machado

A noite abafada da última terça-feira em Porto Alegre foi uma aula de rock progressivo para os quarentões e cinquentões que superlotaram o Teatro do Bourbon Country na capital gaúcha, sendo responsáveis pela maior plateia do local até hoje (no formato teatro, já que o mesmo local, retiradas as cadeiras, recebe shows como um bar normal), com mais de duas mil pessoas, inclusive com a necessidade da adição de cadeiras para comportar o número de ingressos vendidos.
Tudo isso para ver Rick Wakeman, um dos maiores gênios do teclado mundial. Ex-tecladista dos grupos Yes, Strawbs e Anderson Bruford Wakeman Howe, além de ter gravado com David Bowie, Cat Stevens, Black Sabbath, Jon Anderson e tantos outros, Wakeman veio ao Brasil para uma série de shows, começando pela cidade de Novo Hamburgo, também no Rio Grande do Sul, onde tocou no maior teatro privado da América Latina, o Teatro da Feevale, um dia antes da apresentação na capital gaúcha.
Wakeman veio acompanhado de nada mais nada menos que Ashley Holt, o vocalista que gravous os clássicos Journey to the Centre of the Earth (1974) e The Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table (1975), além de Tony Fernandez, baterista que o acompanhou entre 1977 e 1981, gravando diversos álbuns. Completaram o quinteto o baixista Nick Beggs e o guitarrista Dave Colquhon, esse último, acompanhado Wakeman desde os anos 2000.
Wakeman, cercado por teclados

Eram 21:05 quando a banda subiu ao palco e começou a fazer uma marcação pesada, puxando um ritmo familiar dos fãs, para que Wakeman adentrasse o palco do teatro, usando sua tradicional capa de brilhantes e ostentando uma senhora pançola por debaixo da mesma. Sob os milhares de aplausos, assovios e ovações ao Deus dos teclados, Wacko postou-se atrás dos seus nove teclados e começou a interpretar “The Journey”, abrindo o espetáculo, para a surpresa de todos, com a execução na íntegra do álbum Journey to the Centre of the Earth, um dos LPs mais vendidos da história do rock progressivo.
Com exceção das falas originais, todos os demais minutos dessa pérola da música mundial foram tocados com perfeição, e ouvir o mesmo na voz de Holt, o cara que o gravou originalmente, deu arrepios aos fiéis fãs de Wakeman. “Recollection” “The Battle” e “The Forest” foram apresentadas uma após a outra, sem interrupção, e com diversas vezes, com a plateia aplaudindo as difícies passagens musicais das canções. Os corais originais foram substituídos por vocalizações dentre o trio Holt, Beggs e Colquhon, e apesar de Holt não ter mais a mesma voz do passado, falhando bastante nos momentos mais altos da suíte, é admirável que o tom original da mesma tenha sido mantido, diferente de outras bandas, as quais diminuem o tom e acabam fazendo uma cover insossa para clássicos do passado (exemplos não faltam).

Ashley Holt
Ver Wakeman saltando de um teclado para o outro, abrindo os braços ora em 180 graus, ora em 90 graus, e criando solos naturalmente, com os olhos fechados, viajando em um mundo só dele, é indescritível. Ele tem um domínio total de seus instrumentos, como se fossem uma extensão de seu corpo, e todos os que acabam por minimizar seu trabalho, comparando-o a outros gigantes como Keith Emerson e Hugh Banton, realmente não tem noção do que é o cidadão ao vivo.
Passados quarenta minutos de Journey to the Centre of the Earth, Wakeman dirigiu-se ao público, agradecendo a todos e anunciando uma canção do álbuns das seis esposas, “as de Henry VIII, não as minhas. Eu tive mais!”, disse entre gargalhadas antes de mandar ver em “Catherine Howard”, clássico de Six Wives of Henry VIII, primeiro álbum solo do músico, apresentada com longos improvisos que a tornaram uma suíte maior do que o original.

Beggs e o Chapman Stick
Na sequência, veio “The Visit”, canção composta por Colquhon, na qual ele mostrou todas as suas técnicas, e um estilo de tocar similar ao do guitarrista Trevor Rabin (também, ex-Yes), e abriu espaço para Beggs fazer um breve solo no Chapman Stick, instrumento imortalizado por Tony Levin. O baixista foi bem competente, sem muita virtuose mas chamando a atenção principalmente pelo estranho formato do instrumento, e deu lugar para Fernandez fazer seu rápido, e cheio de rufadas, solo.
Encerradas as apresentações da “cozinha”, Wakeman voltou ao palco, apresentando Holt, e assim, deu-se início ao Medley de The Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table, abrindo com “Arthur” e passeando pela linda “Guinevere”, encerrando com “Sir Lancelot”, todas tocadas na íntegra. Claro que seria interessante ter visto essa apresentação no formato original, com os patinadores no gelo, mas o que foi apresentado no palco foi belíssimo, com um interessante jogo de luzes e Wakeman fazendo um espetáculo a parte.
Lamentável porém a voz de Holt (novamente), que acabou lendo a letra de todas as canções, e Beggs, que fez as linhas de baixo seguindo a partitura das canções (nos anos 70, suítes bem mais complicadas eram apresentadas por grupos como Yes, Genesis e Pink Floyd sem partitura nenhuma).
O público vibrou após vinte minutos do Medley, e com um grande sorriso na face, Wakeman disse: “Bom, agora vou mostrar a canção que abre No Earthly Connection“, destruindo o coração de todos com as surpreendentes interpretações para “The Spaceman” e “The Realisation”, ambas partes principais da suíte “Music Reincarnate”, registrada no álbum de 1976. Essa foi realmente inesperada. Complicada ao extremo, para mim é uma das obras-primas de Wakeman (ao lado de “The Journey”), e ao vivo, foi possível ver toda a dificuldade que são esses dois movimentos.

Beggs, lutando com a partitura de “The Realisation”

Por diversas vezes, foi engraçado ver Beggs se enrolando lendo a partitura, cometendo erros gritantes que assustavam até Wakeman, olhando contrariado diversas vezes para o baixista, mas Colquhon e Fernandez fizeram seus papeis com perfeição, e Wakeman deu todo o gás para uma bela apresentação.
Vieram ainda “Catherine Parr” e “Merlin the Magician”, sendo que na última, Wakeman desceu do palco tocando o teclado em punhos, relembrando os momentos da turnê de Tormato (1979), e do meio da plateia, buscou uma moça, a qual foi levada para o palco por Mr. Wakeman (enquanto ele demolia o seu teclado, tocando sem parar) para ter a honra de segurar o mesmo enquanto o tecladista fez o solo final de “Merlin the Magician”. Um momento inesquecível para a moça, e uma pequena amostra aos fãs da simplicidade que é Wacko como pessoa.

Wakeman, pouco antes de descer o palco … (acima);
… para levar uma fã ao mesmo (abaixo)

O espetáculo encerrou-se, e vieram os pedidos de “Mais um! Mais um!”, trazendo a banda de volta para tocar “Starship Trooper”, com diversos solos individuais, e deixando claro que Holt não é a pessoa ideal para cantar um clássico do Yes. Aliás, Holt foi a grande decepção da noite, fortemente superada pelo incrível talento de Wakeman. Sozinho, ele já faz um grande show!

No final, agradecendo ao público, Wakeman viu-me com os LPs que estava carregando e me disse: “Irei assinar ali fora!”, com um tom de convicção. E foi mesmo. Acompanhado de sua banda, Wacko reuniu-se com os fãs, após fazer uma pequena canja em um piano improvisado no Bar do Teatro, e com muita atenção e simplicidade, atendeu a centena de fãs que o aguardavam ansiosamente.

Encerramento do show

Mr. Wakeman deu, portanto, não só uma aula de progressivo aos que pensam que bandas como Dream Theater e Marillion são quem faz esse tipo de canção, mas também uma aula de humildade e carinho ao atender aos fãs, do tipo que muitas “estrelas”, com menos talento e menos importância que o tecladista, não conseguem assimilar perante um fã.

E fica o sonho de um dia poder ver ele pilotando seus teclados ao lado de Howe, Anderson, Bruford e Squire, a melhor formação em termos de talento que um grupo musical, em qualquer estilo, conseguiu reunir.

Dois bolhas e Wacko (acima);
Wacko, afirmando ser fã do “Maravilhas do Mundo Prog” (abaixo)

Set list

1. Journey to the Centre of the Earth
      (The Journey / Recollection / The Battle / The Forest)
2. Catherine Howard
3. The Visit
4. Bass and drum solo
5. The Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table
      (Arthur / Guinevere / Sir Lancelot)
6. Music Reincarnate (The Spaceman /
7. Catherine Parr
8. Merlin the Magician
Bis
9. Starship Trooper



8 Comentarios

  1. joseleonardo disse:

    Excelente resenha, Mairon! Apesar das pequenas falhas, o show estava maravilhoso, de arrepiar, bem melhor do que aquele último em 2001!

    Permita-me uma correção, The Visit é a faixa de abertura do álbum Phantom Power, de 1991, portanto acredito não ser uma música do gutarrista Colquhon.

    Eu estava na quarta fila da platéia baixa, bem perto de você! Poderíamos ter nos encontratado para bater um papo!! rsrs

  2. micaelmachado disse:

    Excelente resenha para um excelente show! Graças ao teu espirituoso comentário, ri pacas com a foto do "Beggs, lutando com a partitura de 'The Realisation'", mas acho que pegasses pesado demais com o Holt, que não serve mesmo para cantar Yes (e quem além de Anderson consegue?), mas não fez tão feio assim!

    Wakeman está em um patamar acima dos outros músicos, ladeado por pouquíssima gente, a maioria já longe deste plano, como por exemplo Jimi Hendrix ou Keith Moon. Se alguém não sabia isso, esse show serviu de prova!

    E como ele "fala" n aintro de "Journey to the center", "tã nã nã nã, tã nã nã nã nã nã…"! Grande verdade!

    E tem de se citar a maravilha que é aquele teatro. Mesmo do mezanino lateral, longe pacas do palco, pude ver tudo com perfeição, e ouvir melhor ainda, e muito bem acomodado em uma confortável cadeira. Se todo show tivesse esta estrutura, eu seria muito mais feliz!

  3. rggarcia29 disse:

    Legal a resenha do show, mostrou realmente a impressão que ficou em mim no final da apresentação: Rick Wakeman estava nota mil, o cara tem muito gás ainda para pilotar seus teclados, fiquei mais animado ainda ao ouvir que em um dos teclados tinha timbre semelhante ao do mellotron, deixando a atmosfera mais seventies impossível!!! Foi outro grande sonho a ser realizado em relação a shows de rock progressivo, espero ainda ver o Yes…

    Já sobre o desempenho de Ashley Holt, na real o cara não estava em uma boa noite mesmo, o tempo passa, o tempo voa, tempus fugit… Só de lembrar das acrobacias vocais e berros que ele dava tanto nos discos de Wakeman (No Earthly Connection, King Arthur) quanto em seu início de carreira na banda Warhorse (do ex-Deep Purple Nick Simper) pode-se comprovar como pesa a falta de cuidados com a voz ao longo dos anos; lembrou até o caso de Ian Gillan que hoje em dia não consegue alcançar notas mais altas, nem que seja em meio tom… Sobra de ponto positivo a coragem e a raça, pois não precisou de baixar meio tom nas músicas para poder cantá-las, tudo foi no tom original!

    Grande abraço ao Micael pelo excelente bate-papo antes e no final do show, sujeito batuta, entende pacas de boa música! Parabéns e continuem assim!!!

  4. micaelmachado disse:

    Valeu, Garcia, e eu que agradeço pelo papo, interessante e instrutivo! Pena que não pudesses ficar para a seção de autógrafos, pois foi outro momento inesquecível da noite!

    Seja bem vindo ao blog, e sinta-se livre para comentar quando e o que quiseres sempre!

  5. fernandobueno disse:

    Cada vez mais eu penso que talvez eu nunca vá ver o Eakeman ao vivo. Todas as oportunidades me escaparam…

  6. Bah, mas olha o Zac Belver ali rapá!

  7. Zac Belver disse:

    Segue o link com os comentários do Wakeman http://www.rwcc.com/gorr.asp

  8. Putz! Como ele tá gordo.. E pensar que tive DUAS "oportunidades" de ver a esses shows que ele tava fazendo. Uma grande pena! Eu choraria LITROS ao ouvir "Guinevere" ao vivo, com certeza a melhor música da carreira do Wakeman! A parte inicial de "The Battle" duvido que seja a merma coisa que no disco pois faltaria o coro feminino, mas seria ao menos melhor que a versão que tenho em DVD ao vivo na Argentina. Continuo preferindo Keith Emerson, mas ver o Wakeman ao vivo não é algo assim tão dispensável..

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