Maravilhas do Mundo Prog: Bi Kyo Ran – Double [1982]

1 de novembro, 2012 | por Mairon
Diversos
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Por Mairon Machado

Há algum tempo, apresentei diversas bandas prog japonesas praticamente desconhecidas do mundo ocidental, e que deixaram um legado de Maravilhas Prog para a posteridade e para caçadores de preciosidades como as que aqui foram discutidas. 
Hoje, irei tratar de mais um grande grupo do progressivo nipônico, o qual demorou muito tempo para chegar aos ouvidos dos fãs ardorosos do estilo, e vem sendo revelado lentamente com o passar dos anos para colecionadores e aficcionados por música em geral. Estou falando do trio Bi Kyo Ran, mais conhecido no Japão como “O King Crimson Nipônico”. O apelido não é por menos.

O trio começou em 1973, com o nome de Bikyoran (tudo junto), e tendo na formação Kunio Suma (guitarra, vocais), Shinji Yoshinaga (baixo, vocais) e Yoshitsugu Yamada (bateria, vocais), e tinham em suas canções iniciais um repertório apenas dedicado ao grupo britânico, executando canções de álbuns como In the Wake of Poseidon, In the Court of the Crimson King e Lizard.

O Bikyoran atravessou a década de 70 com diversas mudanças de formação, alternando os bateristas (passaram pelo posto Masaaki Nagasawa e Masaharu Sato), e nesse período, começaram a surgir composições próprias. O lançamento de Red pelo King Crimson, em 1975, e a entrada dos músicos Masumi Kuno (teclados) e Takako Sugita (violinos) transformaram o trio em um poderoso quinteto, ainda mais influenciado pelo Rei Escarlate. Isso em 1978, quando passaram a se chamar Bi Kyo Ran.

Rara foto do grupo, em 1983:
Masahide Shiratori, Kunio Suma e Masaaki Nagasawa

O grupo passou quase dez anos atrás de gravadora, sempre mantendo a mesma linha de composição, a qual incrementa sons orientais e linhas típicas japonesas com o peso, distorções, mellotron e agressão típicos do King Crimson, até que em 1982, conseguiu um contrato com a gravadora Nexus Records, e quando estavam prontos para gravar o primeiro disco, eis que o quinteto volta a ser um trio, agora composto pelo genial Kunio Suma (guitarra, vocais, mellotron), Masaaki Nagasawa (bateria, teclados) e Masahide Shiratori (baixo, guitarra, vocais).

Eles são os responsáveis por Bi Kyo Ran, o álbum de estreia e um dos baluartes da cena progressiva nipônica. Misturando os elementos citados acima, o grande destaque do álbum vai para a guitarra de Suma, que além de ser um grande instrumentista, copia fielmente o timbre da guitarra de Robert Fripp (líder do King Crimson), sendo quase impossível diferenciar o som dos dois. A presença constante do mellotron, e a participação especial de Toshihiro Nakanishi no violino, tornam a sonoridade ainda mais forte ao Rei Escalarte de Red (a saber, Red foi gravado pelo trio Robert Fripp – mellotron, guitarra; John Wetton – baixo, mellotron e vocais e Bill Bruford – bateria e percussão; além do violinista David Cross).

Bi Kyo Ran ao vivo

E logo no início de Bi Kyo Ran, surge a nossa maravilha prog de hoje. Batizada de “Double”, ela é uma ambiciosa suíte que revela todo o talento do trio citado em quase quinze hipnotizantes minutos. Tudo começa com a guitarra e a percussão fazendo um ritmo similar ao de “Lark’s Tongues in Aspic Part I” (King Crimson), apresentando então o riff inicial da guitarra e do baixo, destacando a mixagem do baixo, muito alta nas caixas de som, enquanto Nagasawa faz um acompanhamento cadenciado e cheio de viradas.

Suma passa a cantar, preservando a língua de seu país, e a sua voz alterna as caixas de som. A princípio parece estranho ouvirmos uma canção cantada em japonês, mas a levada da canção nos acostuma os ouvidos rapidamente. A introdução é repetida, e a segunda estrofe é cantada, com o baixo acompanhando a melodia vocal.

Somos levados então para a primeira sessão instrumental, na qual, com um ritmo marcial, Suma faz barulhos diversos na guitarra, chegando em um bonito dedilhado solo do instrumento, no qual a terceira estrofe da letra é cantada, com um xilofone acompanhando a melodia vocal da mesma.

O xilofone fica repetindo a melodia vocal, e sobre o dedilhado da guitarra, o violino chora piedosamente, com um lindo tema, e então, a guitarra de Suma, com o mesmo efeito esquizofrenóide de Fripp, surge para fazer o solo central. O dedilhado inicial encerra-se, e a guitarra ganha distorção, ainda dedilhando, trazendo baixo e guitarra com um acompanhamento contagiante, voltando para a introdução após uma série de viradas da bateria de Nagasawa.

Mais uma estrofe é apresentada, e chegamos ao auge da suíte, com a guitarra fazendo um tema intrincado, imitado pelo baixo e com um cadenciado acompanhamento da bateria. O solo de Suma nesse momento é complicadíssimo, exigindo muitas aulas de guitarra para entendermos a esquisita, genial e perfeita sequência de notas de seu instrumento, enquanto a marcação de baixo e bateria mantém sua cadência. Guitarras passam a solar, sobrepondo-se através das caixas de som, com notas rápidas, acordes agressivos e muita técnica, encerrando a primeira parte do solo com batidas agressivas nas cordas.

O efeito frippiano retorna, e Suma executa um breve tema, executando uma veloz sequência de arpejos, vibratos e mudanças de notas. O tema inicial então é repetido, deixando baixo, bateria e guitarra duelando entre si, voltando então para a introdução e o encerramento da letra, fechando “Double” com o tema intrincado do solo da guitarra repetido por baixo, bateria e guitarra.

Suma, Shiratori e Nagasawa

Bi Kyo Ran segue com a linda “Cynthia”, outra maravilha prog, essa na linha mais clássica, com Suma mostrando seu talento no órgão e no violão clássico em um belíssimo tema, além da bonita presença do violino e da flauta de Yuhki Nakajima, e a pesada instrumental “Psycho Part II”, uma cópia perfeita e inovadora para as composições de Robert Fripp, novamente inspirado em “Lark’s Tongues in Aspic Part I”.

“Monologue” também faz referências diretas ao King Crimson, principalmente na guitarra de Suma, mas os vocais em japonês dessa vez não trazem um efeito muito agradável, principalmente por serem palavras soltas, e Bi Kyo Ran encerra-se com a suíte “Warning”, mais uma candidata a Maravilha Prog,  com uma belíssima introdução da guitarra e do violino, um ótimo arranjo vocal, a guitarra frippiana se fazendo presente e uma mudança drástica a partir de seus sete minutos, mas sem o mesmo impacto que “Double”.

Versão com OBI de Bi Kyo Ran

O grupo permanece na ativa até os dias de hoje, tendo lançado mais de uma dezena de álbuns, a maioria com gravações registradas na década de 70, e que também valem a pena ser buscada pelos caçadores de grupos progressivos, mas o essencial é esse primeiro LP, com uma das mais belas maravilhas progs nascidas na Terra do Sol Nascente.



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