Por Mairon Machado
Na última quinta-feira, o mundo da música sofreu mais uma grande baixa. O baterista, vocalista e um dos fundadores do grupo canadense The Band, Levon Helm, perdeu uma batalha contra o câncer e foi se juntar aos ex-colegas de grupo Rick Danko (baixista, falecido em 1999), Richard Manuel (tecladista, falecido em 1986) e Stan Szelest (tecladista, falecido em 1991).
Uma das principais vozes que o rock já ouviu, Helm foi um músico irreverente, carregando sempre no rosto um sorriso marcante, e que ao lado de outro gênio, o guitarrista Robbie Robertson, conquistou o mundo com petardos certeiros como “The Weight”, “The Night They Drove Old Dixie Down” e “Ophelia”, isso tudo na citada The Band.
Acompanhando Bob Dylan na chamada “fase elétrica” do músico norte-americano, a The Band consagrou-se pelo estilo pioneiro de tocar rock em cima do palco, privilegiando as guitarras, o baixo e arranjos perfeitamente emotivos, misturando com sabedoria harmonias vocais e melodias instrumentais, muitas vezes calcadas na voz de Helm, que além de tudo era um ótimo baterista.

The Band acompanhando Bob Dylan em 1974 (Helm na bateria)

Com uma vasta discografia, o auge da carreira de Helm (e da The Band) foi o espetacular show “The Last Waltz”, ocorrido em 25 de novembro de 1976, quando o grupo encerrou suas atividades pela primeira vez. Contando com a parceria de músicos como Bob Dylan, Muddy Waters, Neil Young, Joni Mitchell, Van Morrison e Eric Clapton, entre outros, a The Band fez uma apresentação sensacional, até hoje considerada por muitos da crítica especializada como o melhor show de todos os tempos. Pelas mãos do aclamado diretor cinematográfico Martin Scorsese, o espetáculo foi registrado e transformou-se no famoso longa-metragem de mesmo nome, lançado em 1978, facilmente encontrado em diversas lojas pelo país.

Mas nem só como músico da The Band Levon Helm se destacou. Em paralelo à música, o baterista construiu uma interessante carreira cinematográfica, tendo participado de outros 11 filmes entre 1980 e 2010. Sua carreira solo também propiciou belos discos, como Levon Helm & The RCO-All Stars (1978) e Ramble at the Ryman (2011). Atrás dos bumbos da The Band, Music from the Big Pink (1968), The Band (1969) e Stage Fright (1971), além do citado The Last Waltz, são discos representativos de uma carreira fantástica, repleta de altos e mais altos ainda. Fora isso, os discos com Bob Dylan (Planet Waves, de 1974; Before the Flood, de 1974; e The Basement Tapes, de 1975), são essenciais em qualquer boa coleção que se preze. Aliás, a turnê de Bob Dylan pelo Brasil, que acontece neste mês, deverá provavelmente trazer alguma homenagem para Helm, já que Dylan tinha uma forte ligação com o músico.

Levon Helm em seu momento relax

No final da década de 90, Helm foi diagnosticado com câncer na garganta. A partir de então, ocorreu uma longa e difícil guerra contra a doença. Um tratamento radioterápico, bem como a remoção do tumor, auxiliaram Helm a enfrentar o problema, mas a primeira baixa já havia acontecido, atingindo sua voz e transformando o potente e claro timbre dos anos 60 e 70 em um leve sussuro, fazendo com que, desde então, Levon voltasse suas performances apenas para a bateria, até 2004, quando finalmente recuperou a voz e gravou o bonito álbum Rambles Sessions Vol. II (2005).
Em 2007, lançou Dirt Farmer, o primeiro disco solo desde 1982, que recebeu o prêmio Grammy como “Melhor Disco de Folk Tradicional” daquele ano, láurea igualmente atingida por Electric Dirt (2009), vencedor do prêmio Grammy na categoria “Melhor Disco de Americana” (categoria que premia álbuns de música tipicamente norte-americana, mas não necessariamente presos ao folk). Finalmente, no ano passado, Helm recebeu seu último Grammy pelo álbum ao vivo Ramble at the Ryman (2011), que traz uma apresentação do baterista registrada em 2008.
O estado de saúde do baterista voltou a se agravar no início deste ano. Semanas atrás, durante a cerimônia anual de indução ao Rock and Roll Hall of Fame, o guitarrista Robbie Robertson fez uma emocionante homenagem a Levon Helm, fato que levantou suspeitas sobre a saúde do músico. No dia 17, o que os fãs temiam foi revelado por sua esposa Sandy e por sua filha Amy, através de seu site oficial. Em um manifesto comovente, ambas agradeceram o apoio dos fãs, pedindo orações e amor para que Helm completasse sua última jornada contra o câncer, já que ele estava passando pelos estágios finais da doença.

The Band, uma das maiores bandas da história:
Garth Brooks, Robbie Robertson, Levon Helm, Richard Manuel e Rick Danko

Robertson então declarou que havia encontrado Helm no hospital uma semana antes, e que sentia-se muito chateado por ter visto o amigo em estado terminal, mesmo com todas as brigas ocorridas entre os dois, que levaram a processos judiciais pelos direitos autorais de diversas canções. Já Garth Hudson, organista, tecladista e saxofonista da The Band, pronunciou-se através da canção “Knockin’ on Heaven’s Door”, e com uma dolorosa mensagem de tristeza e amargura pela perda de um colega.
No início da tarde de quinta-feira, deitado em uma cama no hospital Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em Nova York, Helm subiu aos céus, deixando órfãos milhares de fãs que conheceram sua belíssima voz, e que, assim como eu, devem estar ouvindo e despejando lágrimas enquanto cantam uma das mais belas frases que Helm ajudou a gravar na memória dos fãs, apesar de ter sido registrada pelo colega Rick Danko:
And the sun don’t shine anymore
And the rains fall down on my door

2 comentários

  1. micaelmachado

    Mais uma perda lamentável para o mundo do rock! O que causa mais tristeza é que todos estes ídolos aos poucos estão partindo, e sendo substituídos por outros que não têm competência sequer para trocar as cordas/peles de seus instrumentos!

    Responder
  2. MandySavoy

    Pois é, um dia todos se vão mas, espero que demore muito para chegar a vez de um Geddy Lee ou Trevor Rabin, enfim.

    Responder

Deixar comentário

Seu email NÃO será publicado.