Por Micael Machado

Os suecos do Arch Enemy primeiro chamaram minha atenção por serem a “outra banda” do guitarrista Michael Amott, ex-membro do Carcass e “dono” do Spiritual Beggars, dois grupos dos quais sou muito fã. Algum tempo após eu saber da existência deles (e já com três discos gravados), o antigo vocalista Johan Liiva foi substituído pela loiraça Angela Gossow, um mulherão de tirar o chapéu. Claro que a presença da alemã em uma banda ligada ao som extremo chamaria a atenção da mídia e dos fãs de death metal do mundo inteiro, até pelo inusitado da situação, e da vocalista berrar mais que uma possuída, sendo dona de um registro gutural de causar inveja a muito marmanjo por aí. Confesso que nunca havia escutado um disco inteiro da banda antes, mas as “canções soltas” que ouvi aqui e ali apontavam para um grupo extremamente talentoso na parte instrumental, mas com vocais que não conseguiam chamar a minha atenção. 

O tempo passou e o Arch Enemy chegou a seu sexto registro com os vocais de Angela, chamado Khaos Legions, lançado no Brasil pela Shinigami Records. Infelizmente, a versão lançada aqui é a simples, sendo que lá fora existe uma opção com um segundo CD, intitulado Kovered in Khaos, que traz quatro covers para músicas do Europe (“Wings of Tomorrow”), Kiss (“The Oath”), Discharge (“Warning”) e Dream Evil (“The Book of Heavy Metal”). 

Após a audição do play, mantenho minha opinião a respeito do grupo: o quarteto formado pelos irmãos guitarristas Michael e Christopher Amott (que dividem-se entre solos e bases ao longo das músicas), pelo excepcional baixista Sharlee D’Angelo (ex-Mercyful Fate e vários outros grupos, também membro do Spiritual Beggars) e pelo “monstruoso” (no bom sentido, claro) baterista Daniel Erlandsson (que assumiu com muita competência as baquetas do Carcass quando da volta do grupo em 2007) é, hoje em dia, uma das melhores formações que o mundo do heavy metal pode apresentar. O talento dos músicos (que neste disco ainda contam com a sempre bem vinda presença do tecladista convidado Per Wiberg, outro membro do Spiritual Beggars, e que também toca no Opeth), aliado às composições que saem de suas mentes (todas as músicas são creditadas aos quatro, ficando as letras a cargo da vocalista), tornam o Arch Enemy merecedor de todos os elogios que recebe em publicações mundo afora, aliando muito bem a agressividade e o peso do metal mais extremo à melodia e aos solos cheios de sentimento do lado mais tradicional do estilo. Em uma mesma música você tem trechos que lhe fazem bater cabeça alucinadamente, seguidos de partes bastante calmas, que podem desembocar em um solo à la Judas Priest ou até mesmo em um inusitado trecho com violões, como mostra o final de “Through The Eyes Of a Raven”, que tem no início uma fantástica participação de Erlandsson nos dois bumbos. Até mesmo melodias saídas diretamente do hard rock setentista (coisa que Amott faz com perfeição no Spiritual Beggars) são permitidas aqui, como em “No Gods, No Masters” e “Under Black Flags We March“, mais melódicas que suas companheiras de track list, mas não menos empolgantes.
Imagem promocional para Khaos Legions
“Thorns in My Flesh” e “Vengeance Is Mine” são dois belos exemplos da alternância de climas que os suecos conseguem impor à sua música, e em “City of the Dead” os brothers guitarristas dão um verdadeiro show, com Christopher (que recentemente anunciou sua saída do grupo pela segunda vez) arrasando logo no início, em um solo ultraveloz e bastante cativante. As duas guitarras solam ao mesmo tempo ao final da canção, sendo que uma faz uma linha bastante melódica, enquanto a outra usa o tapping para compor um solo muito agradável e empolgante.
As três vinhetas instrumentais, que em outros grupos passariam despercebidas, aqui se destacam, desde a abertura com “Khaos Overture” – que cria um clima propício à porradaria que virá, já iniciando com tudo a partir de “Yesterday Is Dead And Gone“, primeira música “de fato” e também primeiro single –, passando por “We are a Godless Entity” (meio macabra) e chegando à lenta “Turn to Dust”, que quebra um pouco o ritmo de pancadaria que predomina em outras faixas. Apenas uma das três passa de um minuto e meio, mas ainda assim valem a audição.
Michael Amott, Daniel Erlandsson, Angela Gossow, Christopher Amott e Sharlee D’Angelo 

Seria tudo perfeito e agradável não fosse Angela Gossow, teoricamente o maior “chamariz” que a banda apresenta para um ouvinte ocasional. A loira berra que é uma beleza, mas o problema é que só faz isso. O tempo todo ela canta com o mesmo tipo de vocal, mantendo o mesmo registro, praticamente sempre usando as mesmas linhas e melodias música após música. No começo, ou de vez em quando, seus vocais soam até legais, mas após algum tempo se tornam cansativos, e depois de quase uma hora (o tempo de duração do play) você já está quase detestando a voz da moça. “Cruelty Without Beauty” mostra certa variação, pois as linhas vocais são muito rápidas, e em “Secrets”, a faixa de encerramento, um efeito na voz faz com que ela soe diferente das demais, sendo que estas duas músicas mais as vinhetas citadas acabam sendo um oásis no meio de muita repetição por parte de Angela. Não dá para negar que a alemã é extremamente competente no tipo de vocal que adotou, mas a falta de variações torna momentos memoráveis em trechos bastante confusos, como alguns dos momentos mais melódicos, que praticamente “imploram” por um vocal limpo, como acontece no refrão de “Bloodstained Cross”, outra que ganhou um interessante videoclipe, com imagens da banda ao vivo em diversas partes da Europa e no Marrocos, mas nos quais o gutural da vocalista tira qualquer possibilidade de que eu pelo menos possa curti-los com plenitude. Pode soar distinto de outras bandas por aí, mas não significa que seja bom.
No geral, classifico Khaos Legions como um bom disco, e, se você conseguir superar a barreira imposta pelos vocais (se conseguir gostar e não se cansar deles, melhor ainda), com certeza terá muitos momentos de prazer ao ouvi-lo, até porque as partes puramente instrumentais aparecem com frequência nas composições, que espertamente não ficam focadas nos vocais o tempo todo. Mas, confesso, não consigo entender como esta banda consegue um destaque muito maior que o destinado ao Spiritual Beggars, sendo que este último grupo é bastante superior. Coisas da vida…
Contracapa do disco
Track List:
1. Khaos Overture
2. Yesterday is Dead and Gone
3. Bloodstained Cross
4. Under Black Flags We March
5. No Gods, No Masters
6. City of the Dead
7. Through the Eyes of a Raven
8. Cruelty Without Beauty
9. We are a Godless Entity
10. Cult of Chaos
11. Thorns in My Flesh
12. Turn to Dust
13. Vengeance is Mine
14. Secrets

1 comentário

  1. diogobizotto

    O Arch Enemy nunca me pegou de vez. A banda é legal? É. Os caras tocam pra caralho? Tocam, com sobras. Apesar disso e de serem muito competentes, inclusive criando composições interessantes, não bateu, não chamou a atenção a ponto de fazer soltar aquele "puta que pariu, que sonzaço", despertar a vontade de fazer air guitar. Talvez meu parâmetro anterior em se tratando de Michael Amott seja muito alto e atrapalhe meu julgamento, mas o fato é que fica difícil fazer algo que se compare a dois clássicos indiscutíveis como "Necroticism: Descanting the Insalubrious" e "Heartwork", os dois álbuns registrados pelo guitarrista com o Carcass, essa sim uma banda que faz com que o cara pule do sofá e saia vociferando toda sorte de impropérios enquanto acompanha a insanidade orquestrada por aquele quarteto maldito.

    Responder

Deixar comentário

Seu email NÃO será publicado.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.