Discografias comentadas: Neil Young – Parte III

25 de março, 2012 | por micaelmachado
Discografias Comentadas
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Por Micael Machado

A década de 80 já ia pela metade, e, com o processo imposto pela gravadora a ele sendo resolvido em um acordo fora dos tribunais, Neil Young ainda tinha dois discos a gravar para cumprir seu contrato com a Geffen. Como o canadense nunca foi de ficar parado, após a apresentação no Live Aid em 1985 era hora de voltar aos estúdios e dar continuidade à sua carreira solo, como você confere nesta terceira parte da Discografia Comentada de Neil Young.

Landing On Water [1986]

Não dá para entender como Young achou que este disco merecia ser lançado. Registrado após a questão do processo com a Geffen ter sido resolvida, e com o músico mergulhando de cabeça no pop oitentista, em canções recheadas de sintetizadores gravadas ao lado do co-produtor Danny Kortchmar (também responsável por guitarras e synths) e do baterista Steve Jordan (todas as linhas de baixo são feitas pelos teclados), Neil fez o pior disco de sua carreira sem dúvida alguma. Coisas como “Weight Of The World” (que abre o disco), “Bad News Beat” e “People On The Street” estão com certeza dentre as piores músicas que Young já gravou. A roqueira “Pressure” (apesar do excesso de sintetizadores e do ridículo refrão) e a agitada “Touch The Night” (que chegou a ganhar vídeo clipe) ainda se salvam (mostrando que Neil ainda sabia fazer músicas interessantes, só parecia não estar com vontade), assim como o solo de guitarra de “Violent Side” ou o refrão de “Hippie Dream”. Mas é muito pouco para um disco de um artista da importância de Neil Young. Completam o track list deste álbum totalmente dispensável as fracas “Hard Luck Stories”, “I Got A Problem” e “Drifter”.

Life [1987]

Em muito devido à produção e aos timbres da bateria, que hoje soam muito datadas, e ao próprio estilo oitentista de rock and roll adotado pelo cantor na maioria das composições, considero este o pior álbum de Young ao lado do Crazy Horse. O que não significa que seja o pior de sua carreira, ou mesmo um disco ruim, bem ao contrário, pois, superados os “problemas” citados, é um álbum que se deixa ouvir com bastante prazer. Praticamente gravado ao vivo nos dias 18 e 19 de novembro de 1986 no Universal Amphitheatre da cidade de Universal City, CA (com os devidos retoques de estúdio adicionados posteriormente, claro), a maior parte das canções de Life tem o estilo parecido com o de re-ac-tor (1981 – não por acaso o disco mais recente gravado junto ao Crazy Horse antes deste) com muitas guitarras e distorções, como as interessantes “Too Lonely” e “Prisoners Of Rock’n’Roll”. Mas as melhores são as que fogem desta formula, como “Long Walk Home” (balada com jeito de hino, levada ao piano) e os quase oito minutos da épica “Inca Queen”, levada ao violão, e cuja melodia lembra “Pocahontas”, de Rust Never Sleeps (1979). A lenta e meio depressiva “When Your Lonely Heart Breaks” também se destaca, ao lado da bem marcada “Around The World”, com timbres de teclados “modernosos” e bastante diferentes do que se esperaria de Young. O track list é completado pelas canções “Mideast Vacation”, “Cryin’ Eyes” e a balada “We Never Danced”, neste que foi o último disco do contrato com a Geffen, com o canadense voltando para a Reprise  (sua antiga gravadora) logo depois.

This Note´s For You [1988]

Vinte anos depois de seu primeiro disco, Neil Young continuava surpreendendo e explorando estilos até então não trilhados por ele. Neste disco, o canadense adicionou um tempero de jazz ao seu som, algo que ainda não havia aparecido antes em sua trajetória (e nem apareceria depois). As músicas não são típicas do estilo, mas o sentimento jazzístico está presente em faixas como “Ten Men Workin’” (com algo de blues também), “Married Man”e “Life In The City”, em muito devido à adição de um sexteto de metais ao trio formado por Frank “Poncho” Sampedro nos teclados, Rick “The Bass Player” Rosas no baixo e Chad Cromwell na bateria (sendo este grupo batizado de The Bluenotes), companheiros de Young nas gravações. “Hey Hey” (onde o cantor suplica: “saia do sofá e desligue sua MTV”) tem uma pegada mais rockabilly, e “Sunny Inside” tem algo de soul music em seu arranjo, sendo um dos destaques, ao lado da faixa título, cujo vídeo clipe foi inicialmente proibido pela MTV, por citar nominalmente marcas como a pepsi e a coca-cola, e a emissora encarar isso como forma de promoção destas marcas, além do fato do vídeo fazer uma paródia com o acidente de Michael Jackson ao incendiar o próprio cabelo ao gravar um comercial também não ajudar muito. Depois de fazer sucesso em outras emissoras, a MTV reconsiderou sua posição, e passou a exibir o clipe, que inclusive ganhou o prêmio de vídeo do ano em 1989 no Video Music Awards. As faixas “Coupe de Ville”, “Twilight” e “Can’t Believe Your Lyin’” são em um ritmo mais lento (sem chegar a serem baladas), assim como “One Thing”, a mais longa de todas (com pouco mais de seis minutos), e que encerra o track list deste álbum apenas regular, que se tornou mais um “estranho no ninho” na discografia de Young, como outros lançamentos desta década.

Freedom [1989]


Este é o álbum que levou a carreira de Neil Young de volta ao nível de popularidade que ele tinha durante os anos 70. Freedom lembra em muitos aspectos o clássico Rust Never Sleeps, de 1979, não apenas por abrir com uma versão acústica (gravada ao vivo) e encerrar com uma versão elétrica da mesma música (no caso, a excelente “Rockin’ In The Free World”), mas também pelo fato de suas primeiras faixas serem acústicas e as últimas elétricas. Não que a guitarra de Young não tenha intervenções em partes da épica “Eldorado” (cujos mais de seis minutos me lembram “Cortez the Killer”, de Zuma, de 1975) ou da excelente “Don’t Cry” (que havia aparecido em uma versão mais longa no EP Eldorado, do mesmo ano, ao lado da faixa título deste lançamento, do cover para a clássica “On Broadway“, de Lieber e Stoller, com a guitarra de Neil repleta de distorções, música também presente em Freedom, e das inéditas “Cocaine Eyes” e “Heavy Love”, dois puta rockões que representam bem a “escola Neil Young” de fazer música); mas, no geral, são os instrumentos acústicos que comandam canções como os quase nove minutos de “Crime In The City (Sixty To Zero Part I)” (com intervenções de metais, algo raro na carreira do canadense, e que também se repete na bela balada “Someday”), nas baladas “Hangin’ On A Limb”, “The Ways Of Love” e “Too Far Gone” (estas duas com toques de country, estilo presente constantemente na obra do bardo do Canadá). A balada levada ao piano “Wrecking Ball” e o rockão “No More” (que parece sobra de Life, de 1987) completam o track list deste disco, gravado por Young ao lado de Frank “Poncho” Sampedro nas guitarras e teclados, Ben Keith na pedal steel guitar e teclados, Rick “The Bass Player” Rosas no baixo (substituído por Tony Marsico em “No More”), Chad Cromwell na bateria e Linda Ronstadt nos backing vocals, além de um quarteto de metais. Embora eu prefira o EP Eldorado, ao qual, se fossem agregadas as duas versões de “Rockin’ In The Free World” e “Crime In The City”, seria com certeza um dos cinco melhores discos da carreira de Young, Freedom é um belo álbum, e se destaca na discografia do músico canadense.


Ragged Glory [1990]

Continuando de onde Freedom havia parado, Ragged Glory (gravado ao lado do Crazy Horse) é um álbum onde as guitarras comandam, recheado de solos do instrumento de Young, especialmente nas três maiores canções: a retona e agitada “Over And Over” (e seus mais de nove minutos, dos quais três e meio aparecem no vídeo clipe oficial), os quase dez minutos de “Love To Burn”, e os mais de dez da empolgante “Love And Only Love”. Mas o maior destaque, sem sombra de dúvidas, é “F*!#in’ Up”, a qual conheci através da versão gravada pelo Pearl Jam no ao vivo Live on Two Legs, e que, possivelmente, foi a canção que despertou o meu interesse para a obra de Neil Young. A meio country “White Line” (versão regravada para uma sobra do não lançado Homegrown, de 1975, e que, assim como “Country Home”, a faixa de abertura, costumava ser interpretada ao vivo com o Crazy Horse desde os anos 70, tendo finalmente uma versão oficializada) também se destaca, ao lado de “Mansion On The Hill”, que chegou a sair em single (com  direito a um vídeo clipe, e tendo a inédita “Don’t Spook the Horse” como lado B). “Farmer John” é um cover para uma canção dos anos 60, original de Don and Dewey, e também ganhou um interessantíssimo vídeo. “Days That Used To Be” foi, segundo Young, inspirada por “My Back Pages”, de Bob Dylan, e “Mother Earth (Natural Anthem)” (gravada ao vivo) fecha o álbum com um clima de hino (na verdade, ela é uma versão para a tradicional canção country “The Water Is Wide”, com uma nova letra atentando para os perigos do desrespeito à natureza). Um bom disco, embora inferior ao anterior. Sua turnê rendeu o duplo ao vivo Weld (1991, também lançado em um hoje muito procurado VHS, pois ainda não saiu em DVD), que chegou a ser vendido em uma edição especial tripla, onde o terceiro disco era composto pela composição “Arc”, feita de feedbacks e ruídos diversos dos instrumentos, além de esparsos trechos vocais, gravados ao longo dos vários registros feitos para Weld, retirados normalmente das espécies de jams que a banda fazia ao início ou final das canções, e montados no estúdio em uma única (e, segundo muitos, inaudível) faixa de trinta e cinco minutos, cuja inspiração foram as viagens instrumentais do Sonic Youth, o grupo que serviu de banda de abertura para a turnê. Arc depois passou a ser vendido de forma separada, no formato EP, e chegou até a receber uma versão single de pouco menos de três minutos e meio.

Harvest Moon [1992]

Por causa da óbvia conexão entre os títulos, e por também contar com os Stray Gators (acrescidos de Spooner Oldham no piano e teclados) como banda de apoio, muitos consideram este álbum uma seqüência para Harvest, de 1972. De fato, os dois discos dividem o mesmo sentimento, com canções acústicas em sua maioria calmas e suaves. Os destaques vão para a faixa título (cujo tema de violão já havia aparecido antes na música “Little Thing Called Love”, de Trans, lançado em 1982), a abertura com “Unknown Legend”, a bela “From Hank To Hendrix”, e as baladas “You And Me” e “Dreamin’ Man”. “Old King” foi escrita em homenagem a Elvis Presley (embora sua letra trate de um velho cachorro chamado King, que morreu, muitos defendem que o cão é uma analogia a Elvis, embora eu não possa comprovar isso), “Such a Woman” possui muitas orquestrações e corais, e os quase onze minutos da excelente “Natural Beauty”, gravada ao vivo em janeiro de 1992 (e cuja letra defende a preservação da Amazônia), fecham um álbum leve e muito agradável de ouvir, que ainda possui as faixas “War of Man” e “One of These Days”, e que chegou a ser lançado em vinil apenas na Europa, em uma edição que é considerada uma raridade hoje em dia. Em 2009, foi lançado o álbum Dreamin’ Man Live 92, contendo versões ao vivo de todas as músicas de Harvest Moon, embora em ordem diferente daquela que aparece neste disco, e gravadas durante sua turnê de promoção.

Neil Young no Unplugged MTV

Ainda em 1992, Neil Young participou do concerto comemorando os 30 anos de gravação de Bob Dylan (que depois foi lançado em disco), estando presente em três músicas: “Just Like Tom Thumb’s Blues”, “All Along the Watchtower” e “My Back Pages”. Em 1993, a gravadora Geffen lançou a coletânea Lucky Thirteen, com treze faixas retiradas dos discos que Young gravou para ela, sendo que, destas, duas faixas de estúdio e quatro faixas ao vivo em versões inéditas até então. Ainda no mesmo ano, o canadense registrou o seu Unplugged MTV, ao lado dos velhos companheiros Nils Lofgren nos violões, Ben Keith no dobro, Spooner Oldham no piano, Tim Drummond no baixo, Oscar Butterworth na bateria e Astrid Young e Nicolette Larson nos backing vocals, com um set list que fugia do convencional greatest hits, tendo inclusive uma música inédita, a bela “Stringman“, composta ainda nos anos 70. 




Sleeps With Angels [1994]


Novamente ao lado do Crazy Horse, Neil Young registrou este álbum onde a maioria das canções tem um clima pesado, não na sonoridade, mas no sentimento, com uma sensação meio depressiva e angustiante, bem representada por canções como “Safeway Cart”, “Trans Am” e a faixa título (dedicada a Kurt Cobain, que havia falecido recentemente, e citado Young em sua alegada carta de despedida). A música mais conhecida é com certeza a rápida e agitada “Piece Of Crap” (com uma letra de protesto, como é comum na carreira do canadense), que ganhou um divertido vídeo clipe, e é a que mais difere do estilo predominante no resto do disco. Mas a melhor canção (e uma das melhores de toda a discografia do bardo do Canadá) é a maravilhosa “Change Your Mind”, com quase quinze minutos de muitos solos de guitarra, como Young não gravava havia muito tempo. As outras músicas também mantém um ritmo mais arrastado que agitado, como as roqueiras “Driveby”, “Prime Of Life” (com algumas flautas, algo raro na discografia de Young, e, segundo o encarte, tocadas por ele mesmo) e a blueseira “Blue Eden”. “My Heart” e “A Dream That Can Last” são baladas levadas ao piano, e as folks “Western Hero” e “Train Of Love” tem exatamente a mesma melodia, apenas com as letras alteradas (será que Young estava com dificuldades para compor?). Um bom álbum, mas não o suficiente para se enquadrar entre os melhores de sua carreira. Neste mesmo ano, Young participaria da trilha sonora do filme “Philadelphia”, estrelado por Tom Hanks, interpretando a bela faixa título.

Mirrorball [1995]



Após se apresentar junto ao Pearl Jam no MTV Video Music Awards de 1993 (onde interpretaram uma acachapante versão de “Rockin’ In The Free World“), Young, que há muito tempo já era considerado o “padrinho” do grunge (pois suas músicas eram citadas como inspiração por muitos músicos do estilo) convidou o quinteto de Seattle (à época formado por Stone Gossard e Mike McCready nas guitarras, Jeff Ament no baixo e Jack Irons na bateria, além de Eddie Vedder nos vocais) para ser seu grupo de apoio em seu próximo disco. Gravado em duas sessões de dois dias cada em janeiro e fevereiro de 1995, e produzido por Brendan O’Brien (também responsável pelos teclados e algumas guitarras), na cidade natal do PJ, Mirrorball é um dos destaques na discografia do bardo canadense, registrado no formato “ao vivo no estúdio”, e onde o Pearl Jam (que não pode ser creditado no encarte devido a questões contratuais) quase chega perto do nível de excelência do Crazy Horse, em um disco que chega a ser melhor que muitos álbuns de sua própria discografia. A embalada “Downtown” foi escolhida como faixa de divulgação, mas os destaques vão para os mais de sete minutos das excelentes “I’m the Ocean” e “Peace and Love” (a única a contar com a participação de Vedder, cantando em dueto com Neil), a roqueira “Big Green Country” (cuja melodia é repetida de forma mais lenta na vinheta “What Happened Yesterday”) e a viajante “Scenery”, de quase nove minutos. A vinheta “Fallen Angel” (outra dedicada a Kurt Cobain, assim como a faixa título do disco anterior) fecha o álbum, repetindo de forma mais lenta a melodia de “I’m the Ocean”, e o track list ainda contém as músicas “Song X”, “Act of Love”, “Truth Be Known” e “Throw Your Hatred Down”. As sessões de gravação ainda renderam o single Merkinball, creditado ao Pearl Jam mas com a participação de Young em suas duas músicas, “I Got ID” e “Long Road”, ambas cantadas por Vedder, e que depois seriam incorporadas ao repertório ao vivo do quinteto norte-americano.

Neil Young e Pearl Jam ao vivo em 1995

Neil Young e o Pearl Jam (mais O’Brien nos teclados) saíram em uma excursão que o empresário do canadense, Elliot Roberts, considerou “uma das melhores turnês de nossas vidas”. Mas, embora tenham se encontrado vez por outra sobre os palcos (especialmente nas edições do Farm Aid, concertos beneficentes anuais dos quais Young é um dos organizadores desde 1985), a parceria terminou por aí, e Neil retornou para sua carreira solo, como você confere semana que vem na quarta e última parte da nossa Discografia Comentada de Neil Young.



1 Comentario

  1. Bem, tô baixando ao menos o This Note's for You, já que ele foi lançado no ano em que nasci – tô fazendo uma listinha com os melhores, hehe, e tá complicado! Meu irmão tem o Sleeps with Angels em CD, mas nunca ouvi. Um dia, eu chego lá…

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