Discografias Comentadas: Neil Young – Parte II

18 de março, 2012 | por micaelmachado
Discografias Comentadas
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Por Micael Machado

Em 1977 foi lançada a coletânea em vinil triplo (depois CD duplo) Decade, celebrando os primeiros dez anos da carreira de Neil Young, com músicas já lançadas, takes alternativos, versões ao vivo e sobras de estúdio de suas gravações ao lado do Buffalo Springfield, do Crosby, Stills, Nash and Young e de sua carreira solo, trazendo cinco músicas inéditas e constituindo, até então, o melhor apanhado da produção musical do canadense. Só que Young não parou de gravar, e ainda em 1977 daria continuidade à sua carreira, como você confere na segunda parte dessa discografia comentada.


American Stars ‘n’ Bars [1977]

Lançado meses antes de Decade, American Stars ‘N Bars é composto por duas metades bem distintas. No lado A, registrado em abril de 1977 (com Young ao lado do Crazy Horse, de Ben Keith no pedal steel guitar, Carole Mayedo no violino e das backing vocalists Linda Ronstadt e Nicolette Larson), temos a veia country do canadense levada ao extremo, e, à exceção do encerramento com a roqueira “Bite the Bullet”, todas as demais músicas adotam esse estilo em sua composição, equivalendo-se em termos de qualidade. O lado B é bem melhor, sendo composto por canções gravadas em 1974 (a bela “Star of Bethlehem“, uma das sobras do não lançado Homegrown, e que conta com Ben Keith no dobro, Tim Drummond no baixo, Karl T. Himmel na bateria e Emmylou Harris nos backing vocals), 1976 (a balada “Will to Love“, apenas com Young ao violão e voz) e 1975 (as clássicas “Like a Hurricane” e “Homegrown“, que seria a faixa título do abortado disco do mesmo ano, gravadas aqui ao lado do Crazy Horse). Um álbum que mostra dois lados diferentes do bardo canadense, e que pode não agradar a todos os que o ouvirem, mas que vale por conter o registro oficial de “Homegrown e “Like a Hurricane”, outro épico guitarrístico na linha de “Cortez The Killer”, de Zuma, e uma das melhores composições da discografia de Neil Young.

Comes A Time [1978]

Comes A Time soa como uma continuação dos álbuns Harvest (1972) e After The Goldrush (1970), recheado de baladas acústicas e timbres country. Inicialmente, seria um trabalho contendo apenas Young ao violão e piano (além da voz, claro), mas a gravadora Reprise lhe pediu que acrescentasse uma seção rítmica depois de ouvir as faixas gravadas pelo canadense. Desta forma, duas faixas foram registradas ao lado do Crazy Horse (as belas “Look Out For My Love” e “Lotta Love”), e o restante do disco teve o acompanhamento da chamada Gone With The Wind Orchestra, composta por mais de trinta músicos, onde se destacam Ben Keith na pedal steel guitar, Tim Drummond no baixo, Carl Himmel na bateria e Nicolette Larson nos backing vocals. A clássica faixa título e “Field Of Opportunity” retomam o lado country de Young, enquanto “Motorcycle Mama” e “Four Strong Winds” tem uma pegada mais roqueira. Das faixas restantes (“Goin’ Back”, “Human Highway”, “Already One” e “Peace Of Mind”), destaca-se esta última, com uma interpretação emocionante por parte de Young e Nicolette. Não é tão bom quanto os dois discos citados, mas não chega a fazer feio na discografia do bardo canadense. A versão original existe em bootlegs por aí, mas nunca foi oficializada.

Rust Never Sleeps [1979]

O projeto “Rust” envolvia o lançamento de um disco de inéditas e de um filme com o mesmo nome do LP (retratando um show de Young com o Crazy Horse, contando com um conceito especialmente planejado para a gravação), e acabou gerando um álbum duplo ao vivo, o essencial Live Rust (1979), um dos melhores discos gravados on stage na história do rock. Os três se caracterizam por conter uma sequência de músicas acústicas, seguidas de canções elétricas, em alguns dos melhores momentos da carreira do músico canadense. Com o lado A composto apenas de canções acústicas, e o lado B tomado pelas faixas elétricas, as músicas de Rust Never Sleeps foram praticamente todas gravadas ao vivo durante 1978, com overdubs executados pelo Crazy Horse posteriormente, à exceção da clássica “Pocahontas” (gravada por Young sozinho na voz e violão em 1975) e de “Sail Away”, parcialmente gravada nas sessões de Comes A Time, com overdubs adicionados posteriormente pelo Crazy Horse, e que fica em um nível de qualidade um pouco abaixo das demais, ao lado de “Thrasher” (todas estas são do lado A). De resto, só clássicos da carreira do canadense, como a acústica “Ride My Llama” e as quatro faixas do lado B: “Powderfinger”, “Welfare Mothers”, “Sedan Delivery” e “Hey Hey, My My (Into The Black)”, talvez a música mais conhecida da carreira de Young, e que encerra o álbum em contraponto à sua irmã acústica “My My, Hey Hey (Out Of The Blue)”, que abre o lado A (e é interessante a maneira como Young trabalha as letras das duas, invertendo situações e frases ao longo das músicas). As duas versões citam Johnny Rotten, então já ex-vocalista dos Sex Pistols, em sua letra, e a acústica possui a frase “it is better to burn out than to fade away”, que ficou conhecida por ser citada na alegada carta de suicídio de Kurt Cobain, vocalista e guitarrista do Nirvana. Estes três lançamentos de 1979 encontram-se entre as melhores coisas que Young já gravou, sendo obrigatórios a qualquer um que queira adentrar na carreira do bardo canadense.

Capa do filme Rust Never Sleeps, com os roadies vestidos de monges ao lado de Young

Where the Buffalo Roam [1980]

Esta é a trilha sonora do filme homônimo, estrelado por Bill Murray e lançado no mesmo ano de 1980. Young participa com sete temas, sendo o principal “Home, Home on the Range“, o hino do estado americano do Kansas, onde Neil canta e toca harmônica. As demais canções são variações desta (quatro delas denominadas “Ode to Wild Bill #1” até “Ode to Wild Bill #4”), em versões ou orquestradas, ou com guitarras, sendo que os destaques são a abertura com “Buffalo Stomp” e a faixa de encerramento, “Buffalo Stomp Refrain”. O resto do disco é formado por canções de Bob Dylan (“Highway 61 Revisited” e “All Along the Watchtower”, na versão do Jimi Hendrix Experience, que também aparece com “Purple Haze”), The Temptations (“Papa Was a Rollin’ Stone”), The Four Tops (“I Can’t Help Myself”), Creedence Clearwater Revival (“Keep on Chooglin'”) e uma versão para “Lucy in the Sky with Diamonds”, dos Beatles, interpretada por Murray, além de diálogos do filme. Outro disco que não foi relançado em CD, é indicado apenas para completistas, pois as composições de Young, somadas, não chegam a quinze minutos. Mas as demais músicas compensam a pouca participação do canadense, formando uma bela coletânea do rock do final dos 60 e início dos 70.

Hawks and Doves [1980]

Um dos mais curtos discos já lançados por Neil Young (pouco menos de meia hora), Hawks & Doves (“Falcões e Pombas”) é outro LP composto por dois lados bem distintos, como outros em sua carreira. No lado A (“Doves”, o meu favorito), temos composições registradas em sessões entre 1974 e 1977, com quatro faixas acústicas bem calmas, em um lado folk que constantemente aparece na obra do canadense, onde as canções se equivalem em termos de qualidade, sendo que “Captain Kennedy” costuma ser a mais citada quando alguém trata deste álbum, embora eu prefira “Lost In Space” ou os mais de sete minutos de “The Old Homestead”. Cabe citar que a faixa de abertura, “Little Wing”, não tem nada a ver com sua homônima registrada por Jimi Hendrix (estas duas também são sobras do abortado Homegrown). O Lado B (“Hawks”) foi gravado no começo de 1980, com o velho companheiro Ben Keith na steel guitar, Greg Thomas no baixo, Dennis Belfield na bateria, Ann Hillary O’Brien nos backing vocals e Rufus Thibodeaux no fiddle (uma espécie de violino típico dos músicos do estilo country norte-americano). Nas canções deste lado, Young assume sua porção country mais uma vez, e, se juntássemos este lado B ao lado A de American Stars ‘N Bars, teríamos o disco mais caipira da carreira do cantor até então. “Union Man” e “Comin’ Apart At Every Nail” são quase gêmeas, e, se você não prestar atenção, nem vai perceber que passou de uma para a outra. Ambas são country de raiz, com letras exacerbando o patriotismo e o prazer de morar nos EUA (mesmo tema da faixa título), algo meio estranho visto Neil ser canadense… “Stayin’ Power” e “Coastline”, embora também bebam do country, são menos caipiras que as outras três músicas deste lado, e completam um disco que não me agrada muito, mas, se analisado expressamente dentro da proposta apresentada pelo bardo canadense, não chega a fazer feio.

re-ac-tor [1981]

Neil Young resolveu adentrar a década de 80 com um disco onde as guitarras comandam, com um timbre sempre sujo e distorcido, em músicas agressivas e por vezes quase pesadas, em uma fórmula que ele ainda não havia utilizado durante um álbum inteiro ao longo de sua carreira. Para isso, claro que Neil recorreu ao Crazy Horse para lhe amparar, e o grupo mais uma vez se mostrou a banda de apoio perfeita para suas composições. As exceções a esta “fúria guitarrística” adotada pelo músico são a meio rockabilly “Get Back On It”, levada ao piano, e a quase country “Motor City”. De resto, só um show das seis cordas de Neil e de Poncho. Embora nenhuma de suas canções tenha se tornado um clássico, os nove minutos de “T-Bone” (com uma letra repetitiva e muito divertida, onde Young reclama de só ter purê de batatas sem nenhuma bisteca de gado para acompanhar, e recheada com muitos solos), os quase oito minutos recheados de distorções e solos de “Shots” e a abertura com “Opera Star” (cuja melodia lembra “Welfare Mothers”, do disco Rust Never Sleeps) se destacam, em um track list regular, que ainda possui as faixas “Surfer Joe And Moe The Sleaze”, “Southern Pacific” e “Rapid Transit”. Somente anos depois algum disco de Neil soaria como este, o qual pode ser encarado como uma prévia para a sonoridade que Young adotaria durante grande parte dos anos 90, e, se re-ac-tor (assim mesmo, com a primeira letra minúscula) não chega a ser um dos destaques de sua discografia, também está muito longe de figurar entre suas falhas. Um disco que merecia um maior reconhecimento, e que marcou a despedida do canadense da gravadora Reprise, que havia lançado todos os seus álbuns solo até ali, assinando então com a Geffen um contrato de um milhão de dólares por disco!

Neil Young e Bruce Palmer na turnê de Trans

Trans [1982]

Impressionado pela tecnologia que lhe permitia se comunicar com seu filho Ben (que nasceu com paralisia cerebral e não conseguia falar), Young trouxe estes então “novos” recursos para o seu primeiro lançamento pela Geffen, gravado ao lado de Nils Lofgren na guitarra e teclados, Ben Keith na pedal steel guitar, Bruce Palmer no baixo, Ralph Molina na bateria e Joe Lala na percussão, além da participação de membros do Crazy Horse em algumas faixas, com o canadense enchendo o álbum de sintetizadores e vocais com o uso de vocoder (um recurso que deixa a voz parecida com um robô), em um registro que soa como um “estranho no ninho” em sua discografia. Essas características estão presentes na maioria das faixas, sendo que “Sample And Hold” chegou a tocar bastante na MTV, na versão ao vivo gravada em Berlin, cabendo citar que esta música aparece em mixagens diferentes nas edições em vinil, onde tem pouco mais de cinco minutos, e em CD, onde tem mais de oito. O mesmo acontece com “Like An Inca”, uma composição que lembra as músicas cantadas por Stephen Stills no disco Long May You Run (assim como a faixa de abertura, “Little Thing Called Love”), que tem oito minutos no vinil e no CD chega quase a dez. “Transformer Man”, outra canção eletrônica que conta com o uso do vocoder, chegou a receber uma nova versão anos mais tarde no Unplugged MTV, com um arranjo surpreendente e bem melhor que o apresentado aqui. A balada “Hold On To Your Love” e uma dispensável versão eletrônica para “Mr. Soul”, clássico do Buffalo Springfield escrito por Young, são as outras faixas que não usam o vocoder, que está presente em “Computer Age”, “We R In Control”e “Computer Cowboy (aka Syscrusher)”, que fecham o track list (a canção “If You Got Love” aparece listada, mas não está no disco) deste que é um dos menos apreciados lançamentos do canadense. Um show gravado antes do lançamento de Trans, mas já com músicas deste, foi lançado em vídeo em 1986 com o nome de Neil Young in Berlin, e partes de algumas composições do álbum aparecem na trilha sonora de Human Highway, comédia dirigida por Young sob o pseudônimo Bernard Shakey, e que tem a participação no elenco do ator Dennis Hopper e de membros da banda Devo, além do próprio cantor.

Everybody’s Rockin’ [1983]

Neil queria que o seu segundo álbum pela gravadora Geffen fosse um disco de country music chamado Old Ways, mas a gravadora, ressentida do fracasso comercial de Trans, arquivou o projeto, e lhe exigiu um álbum “de rock and roll”. Desgostoso com a situação, foi exatamente isto o que Young lhes entregou: vinte e cinco minutos (o mais curto lançamento do músico até hoje) de canções ao estilo rockabilly, como que saídas dos anos 50 e início dos 60. Algumas realmente saíram, como as covers para “Betty Lou’s Got a New Pair of Shoes”, de Bobby Freeman,”Rainin’ in My Heart”, de Slim Harpo, “Bright Lights, Big City”, de Jimmy Reed e “Mystery Train”, gravada por Elvis Presley na sua época de Sun Records. Outras foram compostas por Neil especialmente para o álbum, como a faixa título, “Kinda Fonda Wanda” (com um belo solo de piano), “Jellyroll Man”, “Payola Blues” (que Young dedica a Alan Freeman no início da faixa), e “Cry, Cry, Cry“, além de “Wonderin’“, que vez por outra fazia parte do set ao vivo do canadense desde os anos 70 (estas duas últimas ganharam video clipes de divulgação, os primeiros vídeos oficiais da carreira de Young, mas que não contribuíram muito para as vendas do disco). Registrado ao lado do grupo The Shocking Pinks (formado pelos velhos amigos Ben Keith na guitarra e sax alto, Tim Drummond no baixo e Karl Himmel na bateria, além de Larry Byrom no piano e os backing vocals de Anthony Crawford e Rick Palombi), Everybody’s Rockin’ talvez seja o álbum mais regular da carreira do bardo do Canadá (além de ser provavelmente o de pior capa), sem pontos altos ou baixos, e, a não ser que você seja muito fã de Elvis Presley, Jerry Lee Lewis ou outros músicos do estilo, não irá conseguir levar este disco a sério. Um ponto tão baixo na discografia de Young que a Geffen, desgostosa com o fracasso comercial tanto deste lançamento quanto do anterior, processou Neil Young por “gravar álbuns intencionalmente não comerciais e que não seguem as características de seus trabalhos anteriores”, lhe causando uma dor de cabeça que só seria resolvida em 1986, com um acordo fora dos tribunais. Mas o pior disco do canadense pelo selo ainda não havia sido gravado…

Old Ways [1985]

A rejeição da Geffen à primeira versão deste álbum em 1983 desagradou muito a Neil, o que, aliado ao processo imposto pela gravadora ao canadense, fez com que 1984 fosse o primeiro ano sem um lançamento seu desde 1966 (versões do Old Ways original existem hoje por aí na forma de bootlegs). Young queria gravar um álbum inteiro de country music, e isto é o que ouvimos aqui, em um disco caipira ao extremo, em uma versão diferente da concepção original de Neil. Mais de 50 músicos participaram das gravações, dentre eles os velhos conhecidos Ben Keith (pedal steel guitar e dobro), Tim Drummond (baixo) e Karl Himmel (bateria), além do ídolo country Willie Nelson na guitarra e vocais. Mesmo que você curta os outros momentos country de Young (especialmente o lado A de American Stars’n’Bars e o lado B de Hawks and Doves), este disco soará estranho, pois a maioria das faixas não se parece com nada que o guitarrista já tenha feito, seja antes ou depois. Se destacam as que lembram algo naquela linha, como “Get Back To The Country” (com muito fiddle, harpa de boca e banjo), a agitada “California Sunset” ou a marcada faixa título, mas canções como “The Wayward Wind” ou “Are There Any More Real Cowboys” com certeza causarão estranhamento aos fãs de longa data do canadense que as ouvirem pela primeira vez. As baladas “Once An Angel”, “Where Is The Highway Tonight “ e “My Boy” (com uma bela letra), a estranha “Misfits” e “Bound For Glory” completam o track list de um disco sem similares na discografia de Young, e bastante deslocado em relação à ela. Em 2011 foi lançado o álbum A Treasure, que foi gravado durante os shows desta turnê, mas contém apenas uma faixa deste álbum (“Get Back To The Country”), e que possui seis músicas inéditas.

Neil Young no Live Aid
Young se apresentou junto com o Crosby, Stills and Nash no show da Philadelphia do evento Live Aid, em 13 de julho de 1985, na primeira performance pública do quarteto em mais de dez anos. Mas ele não abandonou sua carreira solo, como você confere semana que vem na terceira parte da Discografia Comentada de Neil Young.



4 Comentarios

  1. Carlos disse:

    Maravilha, um dos artistas mais geniais da história, capaz de cativar platéia só com um violão e sua voz!!!

  2. Conheço pouco de Neil Young, e pela separação de álbuns do Micael, certamente essa é a fase que eu conheço melhor. De tudo que eu ouvi, até o Rust Neer Sleeps a coisa funciona bem, mas aturar Hawks and Doves, Trans e principalmente o Old Ways, não é facil. Pior que esses todos é o Landing on Water. Eu tive esses discos por 1 real, e acabei me desfazendo não lembro como, mas dou graças a Steve Howe por isso

  3. Marcello disse:

    re-ac-tor foi o último disco realmente bom do Neil Young até ele voltar à forma com "Freedom". Os discos da fase Geffen são irregulares demais!

  4. Err.. Ainda não conheço nenhum disco pós-Tonight's the Night, mas fiquei curioso com alguns, especialmente esse Old Ways. hehe

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