Maravilhas do Mundo Prog: Jethro Tull – Thick As a Brick (Parte I) [1972]

8 de março, 2012 | por Mairon
Diversos
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Por Mairon Machado
As “Maravilhas do Mundo Prog” estão de volta às quintas-feiras de 2012, dessa vez quinzenalmente apresentando uma pérola do rock progressivo, contando sua história e narrando detalhes da música em questão. Começamos este ano com a principal canção progressiva feito pelo grupo britânico Jethro Tull.
No último sábado, demos início a uma série de homenagens aos quarenta anos do álbum Thick As a Brick, lançado pelo Jethro Tull no dia 3 de março de 1972. O disco tornou-se um marco no rock progressivo, principalmente por ter sido lançado por um grupo que não era ligado ao estilo, causando inovações tanto na forma de compor quanto nos shows de grupos como Yes, Genesis e Pink Floyd.
A coluna “Maravilhas do Mundo Prog” ambiciosamente narrará e descreverá, no mês de março, o poema escrito pelo menino Gerald Bostock, que ocupa os dois lados do vinil original, somando exatos 43 minutos e 46 segundos. Para não tornar a leitura maçante, estou dividindo a canção em duas partes – os dois lados do vinil. Nesta primeira parte, apresento os primeiros 22 minutos e 40 segundos de “Thick As a Brick”, ou seja, o lado A do vinil de mesmo nome. Lembrando que, se você quiser conhecer melhor a história  que originou o álbum, basta ler a edição da seção “Datas Especiais” publicada sobre o LP.
Jeffrey Hammond-Hammond, Barriemore Barlow (acima),
John Evan, Ian Anderson e Martin Barre (abaixo). Formação de Thick As a Brick.
Vale ressaltar que, na época do lançamento, o Jethro Tull de Thick As a Brick era formado por Ian Anderson (flauta, violão, voz, trompete, saxofone, harmônica, violinos), Martin Barre (guitarra, violão), Jeffrey Hammond-Hammond (baixo), John Evans (teclados, órgão, piano) e Barriemore Barlow (bateria, percussão, marimba, xilofone), além de ter como convidado o maestro e tecladista David Palmer.
“Thick As a Brick” é um deboche ao rock progressivo, narrando o apreensivo desenvolvimento intelectual de um garoto de oito anos, chamado Gerald Bostock, que, por algum motivo, depara-se com a situação de ver-se envelhecendo, perdendo sua ingenuidade quando criança mas continuando sempre sendo um zé ninguém na sociedade (daí a expressão “thick as a brick”, que significa algo como um cidadão com dificuldade de aceitar a verdade, um cabeça dura, espesso como um tijolo). Esse garoto é o responsável pelo poema que é a letra de “Thick As a Brick”, e que nunca existiu na realidade (apesar de muitos terem pensado ao contrário na época).
A faixa é repleta de variações e temas marcantes, começando com um deles, proveniente do violão de Anderson, que canta a letra do garoto Bostock, falando sobre como é sentir-se um idiota insignificante enquanto outras pessoas vivem a vida apenas por viver, sentindo prazer espontâneo e pronto, não valorizando o momento, com a participação da flauta fazendo uma melodia similar à do violão para cada frase. Na segunda frase, piano, baixo, guitarra e bateria executam uma pequena intervenção, chegando ao final da primeira estrofe, na qual flauta, violão e voz fazem a mesma melodia para que Anderson entoe pela primeira vez o nome da música, após cantar “And your wise men don’t know how it feels to be thick as a brick” (“E seus sábios não sabem como é sentir-se espesso como um tijolo”).

O garoto fictício que escreveu o poema “Thick As a Brick”
A ponte instrumental apresenta escalas diminutas de violão, piano e baixo, com a marcação do prato, fazendo as intervenções para cada frase de Anderson, que continua cantando na mesma melodia, agora com Bostock criticando a postura ostensiva do ser humano, tentando mostrar aos outros posses que não tem. No final da segunda estrofe, a frase And your wise men don’t know how it feels to be thick as a brick, é proferida com todos os instrumentos acompanhando a melodia vocal.
A flauta muda o tema, junto com a guitarra, trazendo o órgão, enquanto o violão muda o ritmo. Anderson canta sobre os problemas de estar longe de quem se ama, de ter dormido mal à noite, e sobre a indiferença de alguém perante aquilo que Bostock julga ser seus problemas, tendo o xilofone acompanhando sua melodia vocal, instrumento que executa o tema central junto à flauta. Bostock volta para os dias da sua juventude, tentando esconder-se das vergonhas de ser um adulto, atrás de cortinas negras, em um tema mais sinistro, no qual o dedilhado do violão é mais pesado, apesar de usar das mesmas repetições do tema inicial. Anderson canta acompanhado apenas pelo violão, que então, muda de ritmo.
Após um pequeno tema feito pela flauta, surgem piano, baixo, guitarra e bateria executando temas marcados, começando a primeira sessão veloz, na qual guitarra e baixo fazem o mesmo técnico tema, com o acompanhamento jazzístico de Barlow e com o órgão duelando com a melodia vocal de Anderson, que conta o nascimento do garoto, mijando-se nas fraldas e destinado a lutar para viver, como mais um operário para trabalhar no comércio, encerrando as estrofes com temas marcados de órgão, bateria, baixo e guitarra. O peso toma conta, e sobre o ritmo forte de guitarra e baixo surgem trompetes, saxofone e o órgão de Evan, que executa um solo virtuoso, com notas rápidas, levando a uma pequena passagem de guitarra.
Anderson, Jeffrey, Barre, Barlow e Evan (em sentido horário)
Entramos na primeira viagem instrumental da faixa através do violão de Anderson, com temas marcados e melodiosos de baixo, guitarra, órgão e bateria, em uma perfeição puramente clássica, como um grande concerto. As variações do órgão e da guitarra levam para a marcha de baixo e bateria, conduzindo Anderson ao seu primeiro solo. O crescendo da canção é belíssimo, com Barlow como seu coração, e claro, com Anderson chamando todas as atenções para sua flauta.
A letra é retomada, acompanhada por uma bonita variação de acordes feita apenas pelo órgão, com a marcação da bateria. Anderson canta três fases da vida imaginadas por Bostock: um poeta trabalhador na fase adulta (“The poet and the painter casting shadows on the water”), um soldado adolescente no serviço militar (the sun plays on the infantry returning from the sea”) e os dias de caçula da família em uma fazenda distante, longe do pai que foi trabalhar (“The home fire burning, the kettle almost boiling, but the master of the house is far away”), grifando esses versos nesse momento da canção. Aos poucos, guitarra e baixo vão acompanhando o órgão e a bateria, com Barlow soltando o braço nos pratos, em mais um crescendo pesado e bonito. Os instrumentos juntam-se, executando um poderoso e pesado escudo para que Anderson continue cuspindo a letra, e, com uma longa vocalização, levar à segunda sessão instrumental.
Em um ritmo cadenciado de baixo e bateria, Barre executa seu longo solo, alternando momentos rápidos com outros não tão velozes, tendo intervenções da flauta. Pouco a pouco, a guitarra vai ganhando distorções. Cada vez mais, guitarras são sobrepostas, formando uma densa nuvem sonora, pesadíssima, que leva tudo pela frente com a entrada mirabolante do órgão, quando Hammond dá show no baixo, e as guitarras sobrepostas de Barre, rasgadíssimas, em longos bends, arrancam aplausos do ouvinte que está delirando no quarto, tamanha a euforia causada por esse momento.
Jethro Tull, durante a turnê para Thick As a Brick
Anderson retorna à letra, falando ainda sobre as três fases do homem, tendo ao fundo o tema da terceira parte da canção, com Barlow socando os tons e os pratos, e com Evan recheando a música com camadas de órgão. O peso e a dose emocional transmitida pela voz de Anderson são emocionantes.
Após essa estrofe, a faixa ganha outro ritmo, com guitarra, piano e flauta executando um novo tema. O órgão fica sozinho, viajando em mudanças de acordes, com intervenções de flauta e guitarra. A flauta executa um pequeno tema, acompanhado por órgão, pratos e baixo. “Thick As a Brick” explode em um tema marcado de guitarra, baixo e órgão, com Barlow executando viradas muito velozes e com Anderson gritando sobre os momentos de desafio pelos quais um homem passa, quando acaba não tendo ninguém para ajudar.
Flauta e órgão executam mais um tema marcado, deixando o órgão sozinho, com notas que criam um tema diferente do que havíamos ouvido até então. Esse tema, como uma marcha alegre, cresce aos poucos, trazendo bateria e baixo, para que órgão e flauta fiquem duelando sobre o mesmo marcial tema, deixando Anderson continuar a letra, na qual Bostock enfrenta seu alter-ego rigoroso como um general militar, tendo que colocar seu batalhão no pensamento e na forma de agir corretas. O tema marcado acompanha a letra, enquanto, ao fundo, um violino executa um solo estranho e choroso. Duas estrofes são cantadas com esse ritmo, trazendo o segundo solo de flauta da canção, com violinos se fazendo presentes em destaque ao fundo.
Após um novo tema marcado entre bateria, baixo, guitarra e órgão, voltamos ao ritmo marcial, com Bostcok revelando uma pessoa egoísta que se julga ser o rei soberano e injulgável entre os homens. O novo tema marcado retorna, deixando apenas o órgão, repetindo-o por diversas vezes, em mais um belo crescendo, no qual a guitarra executa o tema ao fundo, e com a entrada do violão, “Thick As a Brick” retorna ao tema inicial. Anderson canta tristemente o desafio de receber ordens e cumprir tarefas sendo apenas uma criança, tendo o xilofone imitando sua melodia vocal, acompanhado por vocalizações, piano e batidas nos pratos.

Foto de divulgação do LP
O piano nos leva à reta fina de nossa maravilha, na qual os acordes de violão tornam-se pesados e o órgão puxa notas que executam uma bela melodia. Anderson canta novamente os fatos arrogantes e insossos da fase adulta, a prepotência do ser humano, acompanhado pelo dedilhado do violão e pelas notas do órgão. Duas estrofes e então surgem trompete, baixo, guitarra e bateria, com a flauta imponente solando à frente de todos eles. A letra continua, falando sobre a imaginação infantil que não existe mais como adulto, a perda da inocência, saindo do mundo das crenças nos heróis em quadrinhos, que podiam salvar o mundo, para viver em um mundo político, de jogos e vícios. O tema do órgão dita o ritmo dos demais instrumentos ao fundo. As participações da flauta são como um pássaro cantando em uma floresta densa, formada pelos instrumentos do Jethro Tull.
É a flauta que executa o último solo do lado A de Thick As a Brick, com Anderson sobrepondo diversas notas, voltando para a letra e cantando sobre estar longe dos amigos de infância, sobre ter envelhecido e não ter notícias dos mesmos, já aposentados e escrevendo suas memórias para manuais de escoteiros (They’re all resting down in Cornwall, writing up their memoirs for a paperback edition of the boy scout manual”). Barlow soca os pratos com força e chegamos ao final do lado A após mais uma passagem das flautas duelando com a guitarra, que deixam a canção apenas com o violão fazendo acordes soltos, trazendo as pesadas marcações de órgão, bateria, piano, baixo e guitarra, de onde surge o entorpecido órgão de Evan solando um dos temas da faixa. O tema marcado é repetido diversas vezes, com ecos que diminuem o volume de tudo, até reproduzirem-se em um chiado ensurdecedor, e, sob o ruído de vento, o baixo executa um tema sinistro.
É esse tema que abrirá o lado B de Thick As a Brick, que será narrado daqui a quinze dias na segunda parte da coluna “Maravilhas do Mundo Prog” em homenagem a essa maravilhosa suíte criada pelo Jethro Tull.



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