Existe Pink Floyd sem Roger Waters?

5 de março, 2012 | por Fernando Bueno
Artigos Especiais
24
Por Fernando Bueno
Pink Floyd sem Roger Waters… Esse tema gera inúmeras discussões, com fãs apaixonados defendendo o baixista, e outros, não menos apaixonados, apoiando o guitarrista David Gilmour.
Assisti há algum tempo parte de um documentário a respeito do Pink Floyd no canal Multishow, do qual não me lembro o nome. Em um certo momento, Roger Waters falava de seus sentimentos em relação à continuidade da banda e citou como exemplo alguns shows feitos por ele na França dois ou três anos depois de sua saída do grupo. Dizia ele que tinha um show em um fim de semana e cerca de 3 mil ingressos haviam sido vendidos. O problema foi que, um dia antes, por coincidência, o Pink Floyd havia realizado um show na mesma cidade para mais de 40 mil pessoas, e Roger se perguntava se isso era justo. Afinal, mais da metade das músicas executadas no concerto eram de autoria dele.
Citei essa passagem porque os defensores de Roger Waters relacionam sua criatividade musical a uma possível perda de força que a banda teria apresentado após sua saída. Considero Roger Waters o integrante mais importante da história do Pink Floyd. A partir da saída do guitarrista e vocalista Syd Barret em 1968, o baixista se tornou o mentor da banda e a elevou à categoria dos grupos mais inesquecíveis da história do rock. Ninguém pode negar sua importância.
Em outro documentário que adquiri recentemente, Pink Floyd: Behind the Wall, Inside the Mind of Pink Floyd, Waters comenta que todos tinham sim suas opiniões na banda, mas nos momentos em que elas eram contraditórias, “coincidentemente” era a dele que predominava. Em uma passagem, o baterista Nick Mason declara que uma pessoa que se acha tão importante só precisa de uma coisa: terapia. Mas será mesmo que Waters era um compositor tão fenomenal assim? Será que os outros componentes não tinham influência na sonoridade da banda? Pensando nisso, e por sempre ter a idéia de que Roger Waters era mesmo a força motriz do quarteto, fiz uma pequena pesquisa digna de um bolha. Compilei todas as faixas presentes nos álbuns em que Roger Waters e David Gilmour trabalharam juntos no Pink Floyd e enumerei as músicas da seguinte forma: composições em conjunto, composições de Waters sozinho ou com outra pessoa que não fosse Gilmour, e, para esse último, fiz o mesmo. O resultado foi o seguinte:
105 músicas
60 composições de Waters (sozinho ou com outros compositores – exceto Gilmour)
29 composições de Waters e Gilmour em conjunto
6 composições de Gilmour (sozinho ou com outros compositores – exceto Waters)
Como nessa compilação estão computadas as faixas presentes nos álbuns The Wall e The Final Cut, obras feitas essencialmente por Waters resolvi considerar então apenas os discos mais aclamados do grupo, aqueles que cimentaram a idolatria à banda: Atom Heart Mother, Meddle, The Dark Side of the Moon, Wish You Were Here e Animals:
31 músicas
12 composições de Waters (sozinho ou com outros compositores – exceto Gilmour)
14 composições de Waters e Gilmour em conjunto
2 composições de Gilmour (sozinho ou com outros compositores – exceto Waters)
Como vocês podem constatar, existe uma ampla vantagem para o lado de Roger Waters. Obviamente, apenas números não são suficientes para explicar uma arte como a música, e mesmo quando uma faixa é creditada a apenas um compositor, é sabido que outros integrantes da banda podem ter contribuído com arranjos que acabam por modificar o resultado final.
Pink Floyd reunido em 2005 para o Live 8
Por outro lado, se compararmos o material produzido por Waters depois de sua saída do quarteto ao material criado pelo Pink Floyd e até mesmo à carreira solo de David Gilmour, é possível constatar que o baixista não conseguiu se manter no mesmo nível. Possuo discos de ambas carreiras solo, e os mais ouvidos são os de Gilmour. Acredito que Waters acabou se perdendo na insistente necessidade de criar álbuns que transmitissem seus valores pessoais, seus traumas, sua insatisfação com o status quo. Os valores transmitidos por ele até podem ser corretos, contudo, as músicas criadas com essa finalidade revelaram-se irregulares.
Além disso tudo, David Gilmour conseguiu manter uma carreira mais sólida, gravando álbuns mais constantemente e realizando muitos shows. Vários deles se tornaram DVDs imperdíveis, como David Gilmour in Concert e Remember that Night: Live at Royal Albert Hall. A partir disso e dos dados apresentados mais acima, posso concluir que Roger Waters é sim um ótimo compositor, mas que trabalha melhor quando rodeado por companheiros à sua altura, que tenham afinidade e saibam executar o que o baixista estiver tentando passar. No fim das contas, a conclusão é um tanto óbvia: Waters e Gilmour trabalham melhor juntos do que separados.
Os dois álbuns editados pelo Pink Floyd sem Roger Waters, A Momentary Lapse of Reason e The Division Bell, além de ótimos, são carregados pelas influências musicais de Gilmour. Escutando seus discos lançados em carreira solo, podemos identificar todos os elementos presentes nesses dois discos: a estrutura das músicas, o tipo de melodias, os solos de guitarra… “One Slip”, “Learning to Fly”, “On the Turning Away”, “What Do You Want From Me”, “A Great Day for Freedom”, “Keep Talking” e “High Hopes” são canções fantásticas, impossíveis de não serem apreciadas por aqueles que as conhecem e gostam de boa música.
Podemos terminar este artigo respondendo a pergunta lá de cima: existe Pink Floyd sem Waters? Sim, existe, mas entendo que a única discussão que deveria existir é se foi uma boa ideia continuar a banda com o nome “Pink Floyd”, já que a qualidade das músicas produzidas nos dois álbuns capitaneados por David Gilmour é indiscutível.



24 Comentarios

  1. Marco Gaspari disse:

    Ótimo, Bueno, mas…
    a grande questão é esta: existe PF sem o Richard Wright? NÃO, porque a química Waters, Gilmour, Mason e Wright, que fez o PF chegar aonde chegou, nunca mais poderá ser repetida. O resto é picuinha e vaidade.

  2. fernandobueno disse:

    Marco
    Deixa ver se entendi. Vc tá falando da falta do Wright hoje em dia por ele estar morto ou por causa da demissão dele na época do The Wall e The Final Cut?
    Como ficou entendido no texto, acho que os caras trabalhando em conjunto são muito melhores do que cada um por si e isso acaba incluindo o Wright também….

  3. Marco Gaspari disse:

    Sim, você está correto.
    Durante anos especulou-se a volta dos Beatles. Você acha que eles seriam os mesmos sem o John Lennon ou se o John Lennon sozinho seria os Beatles? Claro que não. Com a morte do John e do George, essa discussão acabou. O mesmo para o Pink Floyd. Mesmo com a substituição do Gilmour pelo Barrett, acabou um PF e começou outro que se esgotou com a saída do Waters. Não sei se essa discussão sobre a importância de um ou outro elemento para a continuidade do grupo é tão fundamental quanto o fato de que o legado PF pertence aos 4 integrantes que a ransformaram numa das mais importantes bandas da história.
    Mas sei lá, poderíamos estar discutindo o Deep Purple sem o Blackmore ou o Sabbath sem o Ozzy. Fãs são uma raça esquisita, não é mesmo?

  4. Anônimo disse:

    O melhor disco deles é sem o Waters.

  5. Bom, eu acho que vou levar pedradas. Não gosto do Pink Floyd pós-Waters. O AMLOR é muito fraco, onde escapam-se duas ou tres musicas, e o Division Bell é um disco solo do Gilmour, e eu prefiro muito mais os solos do Waters. The pros and cons of hitch-hiking, Radio Kaos e Amused to Death são muito bons, para não dizer excelentes, e do gilmour, sinceramente, só o primeiro eu consigo engolir

    O Pink Floyd acabou em 1979. Como Marco bem frisou, o Wright era outro membro importantíssimo, não só na composição, mas na parte instrumental e vocal (eu acho ele o melhor vocalista dos três)

    Um belo trabalho Bueno, essa catalogação, e acho que vai dar bastante lenha para a fogueira esse assunto

  6. fernandobueno disse:

    Caro Anônimo
    Poderia ser mais específico? Qual dos discos?
    Até mais

  7. Marco Gaspari disse:

    Se Salomão fosse vivo, o Waters ficaria o com o Pink e o restante da banda com o Floyd. E vice-versa: o Waters ficaria com o versa e o resto com o vice, hehe…

  8. Fábio RT disse:

    Faço de minhas palavras as do MAiron
    "O AMLOR é muito fraco"

    Sim…existe Pink Floyde sem Waters … mas é uma outra banda … totalmente diferente … assim como é outra banda sem o Barret e assim por diante….

  9. Fábio RT disse:

    Ops…Pink Floyd …hehehehhe

  10. ericunix disse:

    Gostei muito do texto, li na íntegra e concordo em gênero número e grau. Bom, em primeiro lugar quero deixar claro que sou um grande fã do Pink Floyd. Sou fã tb do Gilmour, tenho tudo dele. Acharia uma grande injustiça a banda ter terminado após a saída de Waters, foi o que não aconteceu. Ainda bem que não, porque gerações futuras, como eu, conheceu o Pink Floyd por excelentes discos com Division Bell, Momentary Lapse of Reason. Pink Floyd é Pink Floyd sem Waters? É sim, até porque ele se esqueceu de tudo que pregrava e se tornou o ditador, mas não prevaleceu. Gosto muito da era Waters, assim como gosto da era Gilmour, este último, que na minha opinião, é o melhor músico da banda.

  11. ericunix disse:

    O que seria "AMLOR"?

  12. fernandobueno disse:

    ericunix

    obrigado pela participação aqui no blog. Espero que volte sempre. AMLOR é simplemente uma mania que temos, por pura preguiça, de abreviar o nome dos albuns. AMLOR é A Momentary Lapse Of Reason, do mesmo jeito que TDSOTM é o The Dark Side Of The Moon e o SSOASS é o Seventh Son of a Seventh Son do Iron Maiden…rs
    Abraços

  13. diogobizotto disse:

    Eu não sei se o que o Marco disse foi proposital, mas a colocação afirmando que não existe Pink Floyd sem Richard Wright faz, ao menos para mim, todo o sentido do mundo, pois considero "The Final Cut" e principalmente "A Momentary Lapse of Reason" os discos mais fracos da carreira do grupo (apesar de Wright ter colaborado um pouco em AMLOR). Felizmente o tecladista retornou, e, mesmo colaborando em uma proporção menor, ajudou a fazer de "The Division Bell" um álbum muito superior aos seus dois antecessores, não devendo para a carreira solo de Waters, que sim, considero o líder e mentor do grupo por merecimento, fazendo jus ao rótulo de gênio. Apesar disso, jamais negaria o fato de Gilmour ser meu vocalista e músico favorito no Pink Floyd.

  14. fernandobueno disse:

    Roderick Verden
    Não faça isso. Volte sempre sim. Afinal uma das idéias do blog é gerar assunto para que todods aprendam cada vez mais. E alguem que vivenciou diversos momentos que tentamos descrever aqui sempre é importante.

  15. Me desculpe, sou meio(ou inteiro) paranoico. Por vc não ter respondido meu comentário e o de outro opinante, pensei que fostes com alguns(poucos) blogueiros, que dão atenção para uns e para outros não(rs).

    Fui impulsivo em deletar o comentário. Mais uma vez peço desculpas.

  16. Anônimo disse:

    @Roderick Verden Quando você arrumar sua primeira namorada(mundo REAL, fora da net) essa frescura melhora um pouco.

  17. Primeira namorada?!rs

    Como vc é corajoso, hein, e sabe das coisas, não é , "anônimo"?

    Sou assim mesmo, cara, sempre fui assim. Minhas namoradas, minha ex-mulher, meus "amigos", meu irmão, meu pai e até minha mãe, todos já saborearam minha ira, e quando erro, peço desculpas. Quer ser vítima da minha ira também, corajoso "anônimo"?

    E continuarei assim, me defendendo de pessoas nefastas como você. Minha frescura é ser educado demais, mas quando sou ofendido, pago o ofensor, com juros e correção monetária.rs

  18. Roger Waters – Pink Floyd > Pink Floyd – Roger Waters > David Gilmour – Pink Floyd

    Division Bell e um ótimo disco, apesar de eu não ouvi-lo mais; AMLOR é, em 80% do tempo, uma cagada; Final Cut é um puta discão!
    Amo o Wright de paixão, mas meu favorito do Floyd, como compositor e como vocalista é o Waters. O Gilmour é um ótimo compositor e vocalista tb, mas como pessoa tb prefiro o chato do Waters mil vezes!

    P.S.: Radio K.A.O.S. > todos os demais discos solo do Floyd juntos, incluindo os do Roger!

  19. fernandobueno disse:

    KCarão
    Sei que você percebeu que esse é um texto que fiz para aquele nosso projeto de blog. Eu tenho o texto com a sua opinião sobre o tema. Se vc quiser eu coloco aqui nos comentários. O que acha?

    Abraços

  20. Meus caros

    Estou ouvindo o podcast que fiz do Roger Waters. Peguei músicas que eu não tinha tanta afeição e coloquei, até por não serem as mais conhecidas dos respectivos álbuns, e só tenho uma coisa a dizer: "quem acha o Gilmour o cara do Pink Floyd não pode falar sério, ou não gosta de rock progressivo". O Gilmour era um mãezinha. só sentimento e nada mais. O Waters é uma máquina musical.

    Até mesmo a carreira solo de Waters é cercada de ótimas composições, que eu agora parei para ouvir e me deparei com preciosidades, principalmente o Amused to Death, que baita disco.

    Enfim, não sou o dono da verdade, mas fica aqui o meu desabafo.

    WATERS 4EVER RULES!

  21. micaelmachado disse:

    Estava sem tempo para colocar a leitura do blog em dia, e finalmente cheguei neste texto. Tenho de dar minha opinião.

    Sempre achei possível Pink Floyd sem Roger Waters. Não gosto do Final Cut, que é quase um disco solo do Waters, tanto quanto não gosto do AMLOR, que é um trabalho mais Gilmour. Mas não havia me dado conta de que os dois piores discos do Floyd, ao menos para mim, são os que não têm a participação do Wright, que é, sim, um grande músico e cantor, apesar de seu trabalho como compositor não ser tão destacado no grupo. Mas seus teclados fazem a diferença, especialmente na fase que vai de "Atom" a "Animals".

    Gosto e muito do "Division Bell", e não concordo que seja um "disco solo" do Gilmour (como o Mairon citou) da mesma forma que o Final Cut é um disco solo do Waters. Até porque, da carreeira solo dos quatro, não consigo gostar de quase nada, acho todos os discos intragáveis, com algumas poucas canções soltas espalhadas aqui e ali.

    O que me faz concordar mais uma vez com o Marco, de que a força da banda estava na união dos quatro membros. À exceção, para mim, do "Division Bell", que é aquela que confirma a regra.

    Claro que não incluo a "fase Syd" neste meu comentário, pois esta é uma banda à parte…

    Parabéns pelo texto, Bueno!

  22. Reginaldo Santos disse:

    Apesar de já ter este mesmo "conceito" sobre o assunto, curti o texto, principalmente a idéia de contabilizar as canções, mas acho que você deveria postar a lista de canções, assim o conteúdo seria também utilizado na avaliação e não somento o volume.

  23. Bueno, eu notei sim, mas deixe meu texto quietinho, hehehe. Resumindo, é isso: Waters Solo é melhor que Floyd sem Waters. O primeiro do Wright eu lembro que é bom, o Broken China eu já não curti; os dois primeiros do Gilmour são bons; e os do Mason ouvi poucas vezes, mas a verdade é que não ouço há muito tempo esses discos solo. Só os do Barrett, que são hors concours!

  24. Anônimo disse:

    Imagina o RESTART sem o Pê Lanza!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *