Por Mairon Machado
Formado em 1989 na Flórida, Estados Unidos, o Deicide tornou-se uma das principais referências do death metal americano. Inicialmente batizado de Amon, ainda em 1987, o início da carreira do Deicide foi avassalador. Cercado de polêmicas, com declarações tempestuosas vindas principalmente do líder do grupo, o baixista e vocalista Glen Benton, o Deicide rapidamente alcançou o status de big band do death, e conseguia traduzir musicalmente toda a violência exalada pelas declarações do grupo nessa época.
Uma das declarações mais famosas foi a que todos os membros do Deicide iriam cometer suicídio em pleno palco, quando completassem 33 anos (uma analogia à idade que Cristo morreu). Essa declaração foi dada exatamente no meio do lançamento de duas obras primas do death mundial, e que são os dois primeiros discos do Deicide. 

A essencial estreia do Deicide

A estreia, batizada apenas de Deicide, foi lançada em 1990 e chocou os conservadores americanos e muitos dos apreciadores do estilo pela forte temática anticristã. Canções como “Sacrificial Suicide”, “Crucifixation” e “Blaspherereion” atingiram violentamente o peito dos iniciantes no som do Deicide, fazendo do álbum homônimo fundamental para a progressão do death metal, principalmente pela inigualável brutalidade registradas nos sulcos do vinil, que era reforçada pela performance assustadora de Benton, o qual manipulou em estúdios a sua voz, tornando-a ainda mais demoníaca. Não à toa, Deicide está ainda hoje entre os álbuns mais vendidos da história do death metal.

Uma das 12 (!) cruzes que Benton usou em sua testa

Assim como quando falamos de Jethro Tull, a imagem de Ian Anderson vem à nossa cabeça, falar de Deicide é lembrar de Glen Benton. Depois do lançamento de Deicide, Benton passou a produzir sua imagem para conquistar ainda mais a atenção tanto dos fãs quanto da mídia. Além das declarações, Benton passou a dizer que praticava rituais de magia negra, assassinava animais e, principalmente, passou a usar uma cruz invertida marcada na testa.
Foi com esse perfil, e ao lado de Brian Hoffman (guitarras), Eric Hoffman (guitarras) e Steve Asheim (bateria), que Benton criou Legion, segundo álbum do Deicide, lançado em 1992. A formação é idêntica à que registrou Deicide, mas existe um diferencial entre os dois, definitivo para que muitos fãs considerem um melhor que o outro. Esse diferencial é a maturidade expressa nas composições que estão presente no segundo disco do grupo.
Deicide no início de carreira: Steve Asheim, Eric Hoffman, Glen Benton e Brian Hoffman

Legion é uma paulada tão grande quanto Deicide, só que o trabalho de composição foi feito com muito mais atenção, gerando clássicos do death que, no meu ponto de vista, por melhor que seja, Deicide não consegue atingir. Em menos de 30 minutos, a casa vem abaixo, não sobrando um tijolo para contar a história, e a brutalidade das canções do álbum corrói o cérebro do ouvinte.
Tudo começa com  “Satan Spawn, The Caco-Daemon“, na qual sua assustadora introdução, contando com bodes berrando entre barulhos de vento e uma satânica voz, nos mostram as portas do inferno, trazendo um riff matador de baixo e guitarras, com Asheim destruindo a bateria. A pegada dos irmãos Hoffman é muito forte, diferente de tudo o que você já ouviu, complementada pela potência do baixo de Benton (sim, é possível ouvir o instrumento com nitidez). Benton passa a cantar com sua voz gutural, às vezes duelando com a voz “satânica” (muito similar à da menina  Regan MacNeil, do filme “O Exorcista”, lançado em 1973). A sequência de riffs entre baixo e guitarra e a voz gutural de Benton fazem com que muita criancinha corra para o banheiro, se borrando de medo, principalmente durante os berros que entoam o nome da canção, e isso é apenas o início de Legion, com o encerramento da faixa sendo uma absurda sequência de riffs e quebradeira geral na bateria, entre gritos alucinados do demônio.
“Dead But Dreaming” inicia com um riff marcado dos irmãos Hoffman e do baixo de Benton, e agora Asheim usa mais os dois bumbos do que na faixa anterior. Não tão veloz quanto a primeira, a canção apresenta uma fenomenal sequência de riffs, extremamente trabalhados e complicados de se reproduzir, exigindo muito da mão direita dos guitarristas. A voz satânica está presente, gritando o nome de mais uma canção assustadora, que conta ainda com um encerramento fantástico, com muita velocidade nos riffs de baixo e guitarra e principalmente na bateria, levando ao rápido solo da guitarra.
A pauleira continua em “Repent to Die“, na qual o baixo de Benton é o destruidor de mentes da vez. A velocidade das notas, acompanhando os riffs da guitarra, com um barulho ensurdecedor, puxa o riff marcado que traz as vozes gutural e satânica cantando juntas. Essa é uma das faixas mais trabalhadas de Legion, com sequências quebradas de baixo, guitarra e bateria, que são um atrativo a mais ao grande álbum de death metal que estamos ouvindo. Obviamente, o baixo de Benton precisa ser destacado, aparecendo muito mais em relação a outros discos do gênero. Se você curte o instrumento, essa faixa é uma boa indicação.
Barulhos de vidros quebrando e um veloz solo de guitarra introduzem “Trifixion”, mais uma paulada criada pelo quarteto, porém com um riff mais cadenciado e sem tanta velocidade, na qual a participação da bateria é o ponto que mais chama a atenção, com um incansável trabalho nos dois bumbos. A canção muda depois de algumas estrofes, lembrando um pouco o Slayer de Reign in Blood (clássico do thrash metal lançado em 1986), e então uma voz grave surge declamando um pequeno trecho da letra da canção, para que logo após a voz satânica de Benton acompanhe seu gutural na sequência da letra, para que canção encerre-se com a repetição do riff inicial.

Deicide em 1992: Eric Hoffman, Steve Asheim, Glen Benton e Brian Hoffman

Um riff sujo e veloz abre “Behead the Prophet (No Lord Shall Live)”, com muita violência do baixo e bateria acompanhando as guitarras. Benton canta com suas vozes gutural e satânica misturadas, e o baixo vai destruindo os tijolos do seu quarto junto com a potente força exalada nas batidas da bateria e nos furiosos riffs da guitarra, levando ao mágico solo de guitarra, na qual a alavanca é abusada como cordeiros inocentes em meio a uma alcateia de lobos famintos, para que então Benton estoure suas cordas vocais no encerramento da canção, o qual é feito por um segundo solo de guitarra, dessa vez veloz, mas sem abusos de alavanca.
“Holy Deception” é a mais “calma” canção do álbum, começando com as viradas e quebradeira de bateria, que trazem a voz de Benton cantando muito rapidamente, alternando entre as vozes gutural e satânica. A ponte central, com baixo e guitarra repetindo o mesmo riff, muda a canção, tornando-a mais rápida e com as vozes misturadas cantando a sequência da letra, voltando então para as viradas e quebradeiras da introdução. Os solos de guitarras são indecifráveis. Só ouvindo para tentar compreender o que está acontecendo. Cada um dos irmãos Hoffman faz sua parte de forma sensacional, levando à conclusão da letra e, consequentemente, o término da canção.
Os riffs velozes de “In Hell I Burn” apresentam outra canção extremamente trabalhada, com guitarras e baixo alternando riffs marciais e outros repletos de variações, todos intercalados pelo belíssimo trabalho de Asheim, um dos melhores e mais injustiçados bateristas do metal em geral. A sessão de risadas satânicas no meio da canção novamente irá levar criancinhas para o banheiro, correndo lágrimas dos olhos e com muito medo da brutalidade sonora que acabam de ouvir. A canção encerra-se com os solos mesclados de guitarra, além dos riffs quase impossíveis de serem reproduzidos, devido à grande velocidade dos mesmos.
Por fim, “Revocate the Agitator” conclui essa obra-prima com uma introdução matadora, o tiro de misericórdia perfeito para um álbum perfeito. Os vocais divididos entre o gutural e o satânico, o trabalho dos dois bumbos e os solos de guitarra com uma velocidade descomunal, são os complementos adicionais de uma fúria jamais repetida em um disco do Deicide, e que ainda hoje assombra nas primeiras audições. 
Deicide em 2002: Brian Hoffman, Glen Benton, Steve Asheim e Eric Hoffman

Legion foi tão bem sucedido quanto Deicide. A formação que gravou esse álbum permaneceu junta até 25 de novembro de 2004, quando os irmãos Hoffman largaram o barco, sendo substituídos por Jack Owen (Cannibal Corpse) e  Dave Suzuki (Vital Remains). Em 2006, Ralph Santolla (Death, Iced Earth) entrou para o lugar de Suzuki. Obviamente, Benton e seus colegas de grupo não cometeram suicídio em pleno palco quando completaram 33 anos. Depois que o Deicide finalmente conquistou o status que merecia, esse lado mais “chamativo” de Benton foi abandonado.

Aos poucos, o grupo foi adquirindo uma sonoridade mais amena, mas mantendo-se entre os principais do death metal. Álbuns como  Serpents of the Light (1997) e Till Death Do Us Part (2008) são os melhores representantes da nova fase do grupo, não tão violenta quanto no início, mas ainda assim, muito poderosa. A amostra mais recente está no álbum lançado em fevereiro deste ano, To Hell With God, que, contando com Benton, Owen, Asheim e Kevin Quirion (Order of Ennead), mostra como o Deicide ainda tem força para continuar quebrando paredes por muitos anos.

Track list:

1. Satan Spawn, the Caco-Daemon
2. Dead But Dreaming
3. Repent to Die
4. Trifixion
5. Behead the Prophet (No Lord Shall Live)
6. Holy Deception
7. In Hell I Burn
8. Revocate the Agitator

4 comentários

  1. diogobizotto

    Maravilha, Mairon… difícil é decidir qual entre os dois primeiros álbuns do Deicide é o melhor, pois ambos são essenciais à compreensão do que era o death metal na Flórida no final dos anos 80 e início dos 90, e são recheados de músicas muito inspiradas… É uma pena que a banda tenha ficado um tanto preguiçosa durante alguns anos, funcionando no automático, mas desde a saída dos irmãos Hoffmann o grupo teve o gás renovado.

    Aliás, aproveito pra externar uma opinião que já manifestei pessoalmente pro Mairon: não nego que Glen Benton empreste uma identidade especial ao grupo, tanto por seus vocais quanto por sua imagem, mas para mim o verdadeiro motor do grupo é Steve Asheim. Além de ser um dos bateristas mais subestimados do heavy metal, dono de pegada e sonoridade características, o cara ainda faz as vezes de grande compositor, exprimindo muitas ideias na guitarra, instrumento que também toca.

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  2. Jairo

    Apesar de ter um carinho especial pelo Serpents Of The Light e Once Upon The Cross, concordo que os dois primeiros do Deicide são clássicos… Grande texto !!!

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