Maravilhas do Mundo Prog: Anderson Bruford Wakeman Howe – Brother of Mine [1989]

24 de novembro, 2011 | por Mairon
Diversos
4

Por Mairon Machado
Encerrando essa sequência de matérias sobre as maravilhas do mundo prog lançadas por membros e ex-membros do Yes fora do grupo britânico, e também encerrando a sessão nesse ano de 2011, vamos narrar um pouco a história do projeto Anderson Bruford Wakeman Howe, o qual durou apenas dois anos, no final da década de 80, mas que foram significantes para o retorno do Yes ao progressivo.
Depois do lançamento dos álbuns 90125 (1983), 9012-Live (1985) e Big Generator (1987), o Yes, na época formado por Jon Anderson (vocais), Chris Squire (baixo, vocais), Trevor Rabin (guitarra, vocais), Alan White (bateria) e Tony Kaye (teclados) estava absorvendo o sucesso inesperado. Afinal, o grupo havia conquistado seu nome na década de 70 como um dos maiores do rock progressivo, e invadiu os anos 80 com uma sonoridade mais pop, influenciada principalmente pela entrada de Rabin, levando o grupo ao estrelato com canções como “Owner of a Lonely Heart” (de 90125) e “Love Will Find a Way” (Big Generator).
Ex-membros do Yes, reunidos sob um novo nome:
Anderson Bruford Wakeman Howe
Porém, Anderson sentia-se pouco a vontade com sua participação no grupo. Antes, ele era um líder (ao lado de Steve Howe, guitarras), criando letras e canções mirabolantes, e que simbolizavam um dos principais momentos da história da música. Agora, ele estava relegado a segundo plano, com Rabin sendo o centro das atenções e compondo as principais canções do grupo.
Foi assim que Anderson, indignado com a sonoridade que o Yes havia seguido, decidiu seguir em carreira solo. Alegando ter mais interesse em música do que em dinheiro, ele sai do Yes em 1988, pouco depois do término da turnê de Big Generator, e lança ainda em 1988 o fraco In the City of Angels
Enquanto isso, o ex-tecladista do Yes, Rick Wakeman, também naufragava em uma carreira solo repleta de imperfeições. Desde sua saída do Yes, em 1979, o tecladista não havia mais conquistado o espaço que por hora havia sido seu: o de principal tecladista do rock. Apesar do respeito dos fãs, uma série de álbuns sem sucesso, e também composições para trilhas sonoras de filmes (The Burning, 1981; Crimes of Passion, 1985), e a Copa do Mundo de 1982, (G’ole) , entre outros álbuns de menor expressão, não foram suficientes para manter Wakeman entre os artistas mais comentados da década de 80.
Poster de divulgação
da turnê do grupo
Já o guitarrista Steve Howe vinha de um esplendoroso e ao mesmo tempo decepcionante projeto: o GTR. Depois de fazer sucesso com o Asia, um dos principais nomes do AOR, Howe teve ao seu lado o guitarrista Steve Hackett (ex-Genesis), fundando o GTR, o qual tinha tudo para ser um estrondoso sucesso. Porém, ao invés de seguir o esperado, com uma sonoridade progressiva que prioriza-se as guitarras de Howe e Hackett, o som do grupo era um pop meloso que não agradou nem aos próprios músicos, durando menos de um ano e lançando apenas um álbum, o colecionável GTR (1986).
Por fim, o baterista Bill Bruford (também ex-membro do Yes) era o único que estava satisfeito com o que estava fazendo. Depois do término do King Crimson, em 1984, Bruford passou a investir no jazz rock, montando o Earthworks e lançando o ótimo Earthworks, em 1987. 
Mas, como o mundo da voltas, naquele final de 1988 Anderson trabalhava em mais um disco solo, quando convidou Wakeman para participar do mesmo. Wakeman trouxe com ele Howe, e assim, passaram a criar a ideia de um novo projeto musical. Isolados na europa, Anderson, Wakeman e Howe decidiram que era possível fazer um álbum juntos, após anos sem se falar. Para isso, faltava um baterista.
O primeiro nome que veio à cabeça de Anderson foi o de Bruford. De certa forma chateado com os ex-colegas do Yes (que ficaram morando nos Estados Unidos), Anderson pensou que trazendo Bruford para o novo grupo, significaria trazer novamente o som do verdadeiro Yes, e não o Yes de Rabin, Squire, Kaye e White. Bruford não aceitou de imediato, mas com o tempo, as coisas foram mudando.
Capa alternativa de Anderson Bruford Wakeman Howe
As especulações e boatos da nova banda passaram a circular fortemente na mídia especializada, que não demorou para batizar o Yes original de Yes-West (já que os membros do Yes viviam no lado oeste do planeta), enquanto o novo grupo que surgia na europa era batizado de Yes-East. Como os direitos autorais do nome Yes pertenciam a Squire, o verdadeiro Yes permanecia nos Estados Unidos.

Assim, depois que Bruford finalmente aceitou participar do projeto, uma pequena sessão de entrevistas anunciava ao mundo o nascimento de um novo grupo: Anderson Bruford Wakeman Howe. O estardalhaço gerado foi o de um tsunami. O planeta inteiro esperou ansiosamente o trabalho do que os membros do Anderson Bruford Wakeman Howe diziam ser o retorno ao rock progressivo dos anos 70.
A concepção do LP foi feita com cuidado. Ao Yes-East, agregaram-se o baixista Tony Levin, o tecladista Matt Clifford, o guitarrista Milton McDonald e mais uma série de vocalistas, como a filha de Jon Anderson, Deborah Anderson, Tessa Niles, Carol Kenyon, Frank Dunnery e Chris Kimsey. O grupo começou os ensaios em Paris, fazendo as gravações em Montserrat, onde gravaram também com a Emerald Community Singers. Os trechos finais foram feitos em Londres, onde o LP/CD também foi mixado.
Single de “I’m Alive”, uma das
partes de “Quartet”
No dia 13 de junho de 1989, chegou às lojas Anderson Bruford Wakeman Howe. Apesar da grande expectativa, e resgatando as belas capas de Roger Dean (que trabalhou nas capas do Yes no auge do sucesso do grupo, entre 1971 e 1975), o som do álbum não reflete os grandes momentos de destaque do Yes nos anos 70. Analizando friamente, o álbum soa como uma espécie de mistura das carreiras solo de cada um dos integrantes do quarteto, tendo mais relevância para o trabalho de Jon Anderson. Inclusive, uma das canções, “Let’s Pretend”, é uma canção que ficou de fora do último álbum feito pelo projeto Jon & Vangelis, entre o vocalista do Yes e o tecladista Vangelis, projeto esse que teve três álbuns lançados no início dos anos 80, e posteriormente, um em 1991. 
Rick Wakeman, Jon Anderson, Bill Bruford e Steve Howe
As canções mais curtas, como a citada “Let’s Pretend“, apenas com Anderson nos vocais e Howe nos violões, a bela faixa de abertura “Themes“, onde Bruford mostra seus dotes com a bateria eletrônica, “Birthright”, com um espetacular trabalho de violão feito por Howe, e “The Meeting”, somente com Wakeman e Anderson, são os momentos mais apreciáveis, onde podemos ouvir resquícios do que um dia foi o quarteto trabalhando como Yes (apenas lembrando que os quatro, mais Chris Squire, são os responsáveis por compor e gravar dois álbuns essenciais do progressivo: Fragile, de 1971, e Close to the Edge, de 1972). Por outro lado, existem canções inexplicáveis, como a péssima “Teakbois”, com seus ritmos caribenhos, ou as cansativas “Order of the Universe” e “Quartet”, que apesar de possuirem bons momentos, não são de todo completamente satisfatórias em suas audições. Isso se deve principalmente pela mixagem feita por Anderson e o produtor Chris Kimsey, que limou muitas partes feitas pela guitarra e pelo teclado, as quais podiam ter dado uma nova cara para o álbum. Uma prova disso é a versão de “Fist of Fire” que econtra-se no box In a Word, lançado em 2002, a qual apresenta uma mixagem feita por Howe.
Porém, mesmo em um disco bem irregular, seria impossível que Jon Anderson, Bill Bruford, Rick Wakeman e Steve Howe fossem capazes de não gravar nenhuma maravilha prog, e claro, isso não aconteceu. Na terceira faixa do lado A, dividida em três partes que foram compostas pelo quarteto em parceria com o tecladista Geoffrey Downes (também ex-Yes), “Brother of Mine” é a canção que representa o que estaria fazendo o Yes se assim o grupo fosse batizado, mesclando as sonoridades de cada integrante em uma canção que encaixa-se perfeitamente no mundo progressivo, apesar de sua sonoridade extremamente moderna.
Single de “Brother of Mine”
Tudo começa com “The Big Dream”, onde gongo e harpa trazem os teclados de Wakeman e a cristalina voz de Anderson, acompanhada por dedilhados da guitarra. Baixo, sintetizadores, bateria e guitarra criam o lento andamento extremamente AOR, com Howe fazendo um pequeno solo, e destacando as intrincadas linhas do baixo de Levin. Anderson passa a cantar a linda letra da canção sobre esse andamento, com Bruford dando um show a parte em variações lentas mas extremamente quebradas. Chegamos na segunda parte, batizada de “Nothing Can Come Between Us”, onde vocalizações acompanham a voz de Anderson cantando “Nothing can come between us”, enquanto Anderson canta que “You’re a brother of mine”.
Uma agitada ponte leva para o belo solo de piano de Wakeman, com um andamento muito leve, e com mais uma pequena participação do solo de Howe. Após a repetição da agitada ponte, Anderson repete os versos finais de “Nothing Can Come Between Us”, destacando bastante o nome dessa parte da canção junto das vocalizações e diversas viradas nos tons de Bruford, para então, repetir as frases iniciais de “The Big Dream”. 
Contra-capa de Anderson Bruford Wakeman Howe
As diversas repetições dessas frases vão crescendo, explodindo no melodioso solo de Howe, abusando de longos bends e arpejos, em um crescendo muito bonito. Bruford conduz a canção nos pratos, e assim, Wakeman cria um lindo tema no sintetizador, duelando com o baixo de Levin, enquanto Howe sola sobre o complicadíssimo andamento de Bruford, trazendo as vocalizações e palmas de “Long Lost Brother of Mine”, a parte final de “Brother of Mine”. 
Relançamento de
Anderson Bruford Wakeman Howe,
com faixas bônus
A quebradeira repete-se, agora para o solo de Wakeman,  e então, as vocalizações retornam, em um ritmo dançante e envolvente, chegando a um momento mais leve, onde teclados e vozes duelam, para a quebradeira voltar enquanto Anderson canta o encerramento da letra. Voltamos ao final dos anos 70, com Going for the One (1977) e Tormato (1978), os últimos discos lançados por Wakeman com o Yes, e então, as vocalizações de Anderson cantando o nome da última parte da mini-suíte levam para outro lindo solo de piano de Wakeman, com mais um show de Bruford, e com Howe fazendo um belíssimo dedilhado, fechando a canção com uma complicada escala feita por piano, guitarra, baixo e a bateria de Bruford acompanhando tudo. Tão genial quanto podia ser algo vindo desses monstros do progressivo!
Anderson Bruford Wakeman Howe ficou em trigésimo lugar nos Estados Unidos, e décimo quarto na Inglaterra. Ele foi relançado em uma edição limitada em março de 2011, trazendo um CD bônus com diversas faixas inéditas. Apesar de oscilante, é uma boa adição para os fãs do Yes, sendo melhor do que 90125 ou Big Generator na opinião deste que vos escreve, e também, bem melhor do que o Yes viria a fazer depois com Union (1991), o pomposo projeto que uniu oito de doze membros que haviam passado pelo Yes somente no palco, e que não funcionou em estúdio.
O essencial ao vivo de Anderson Bruford Wakeman Howe
Nove das treze canções de Union foram compostas para o segundo álbum do Anderson Bruford Wakeman Howe, o qual nunca saiu. Detalhes sobre o processo da gravação desse álbum podem ser conferidos nessa matéria feita aqui no blog. Antes do lançamento de Union, a turnê de Anderson Bruford Wakeman Howe foi de extremo sucesso. Nos palcos, o quarteto (acompanhados de Tony Levin no baixo, Julian Colbeck nos teclados e Milton McDonald nas guitarras) resgatavam sucessos do Yes, além de apresentar as canções do LP. O último show dessa turnê foi lançado no essencial CD/DVD An Evening of Yes Music Plus (1993), tendo como baixista Jeff Berlin (ex-colega de Bruford no grupo Bruford). Esse álbum vale principalmente por ser o único registro oficial do Anderson Bruford Wakeman Howe, trazendo versões preciosas para “Heart of the Sunrise”, “And You And I”, “Starship Trooper“, “Roundabout” e claro, “Brother of Mine”, a não única, mas melhor maravilha prog gravada por membros do Yes, mas não sob o nome de Yes!
Palco da turnê de Anderson Bruford Wakeman Howe
O Maravilhas do Mundo Prog encerra suas atividades esse ano, mas volta em fevereiro do ano que vem, resgatando pérolas do progressivo que encantam apreciadores do estilo desde a década de 60 até os dias de hoje. 
Um forte abraço, boas festas de fim de ano para todos e nos vemos nessa viagem pelo progressivo no ano que vem!



4 Comentarios

  1. Parei no Big Generator e não tenho expectativas de conferir o restante da produção do Yes. A voz do Anderson só me agrada até o Tormato – e com sérias ressalvas! -, as composições se tornaram aguadas, e tem muita banda merecendo mais minha atenção, hehe. Resumindo: não sou conhecedoir do ABWH, apesar de já ter ouvido uma ou otra vez no passado. De qualquer forma, parabéns pelo texto e principalmente pela série abordando as carreiras solo dos membros do Yes!

  2. Groucho, valeu pelo comentario

    Agora, larga mao do preconceito e vai ouvir: Talk, Os dois Keys, The Ladder, Magnification e Fly from Here.

    São muito bons!!

  3. Os Keys to Ascension já ouvi – tenho o primeiro em CD – e curto muito a parte ao vivo do primeiro e a parte em estúdio do segundo. Do Magnification, eu ouvi a faixa "Spirit of Survivor" no rádio, logo que o disco foi lançado, e achei aquilo um desperdício de horas no estúdio. O Yes já fez coisa bem pior, mas o fato é que pelo menos essa música não empolga.

  4. Ouve in the presence of e cai chorando. Para mim, uma das 10 melhores canções que o Yes já fez para o rock progressivo.

    Magnification a musica tb é muito boa

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