Discografias Comentadas: Deep Purple – Parte II [1984 – 2011 ]

Discografias Comentadas: Deep Purple – Parte II [1984 – 2011 ]

Por Micael Machado

Depois do final da MK IV em 1976, Jon Lord e Ian Paice formaram o Paice, Ashton Lord, e David Coverdale, Glenn Hughes e Tommy Bolin saíram em carreiras solo, todas de breve duração: a de Coverdale interrompida pela formação do Whitesnake (que se tornaria um dos principais nomes do hard rock na década seguinte); a de Hughes devido ao exagerado consumo de drogas por parte do músico (sendo retomada efetivamente apenas nos anos 1990, com relativo sucesso); e a de Bolin pela trágica morte do guitarrista devido a uma overdose de heroína. Ian Gillan estava em prolífica carreira solo, e Ritchie Blackmore seguia firme e forte com o seu Rainbow, onde logo teria a companhia de Roger Glover e seu baixo (ele que havia feito fama como produtor depois de sair do Purple). Lord e Paice ainda reencontrariam Coverdale no Whitesnake dali há pouco, em uma das mais marcantes formações da Cobra Branca.

Diversas coletâneas e alguns álbuns ao vivo foram lançados nesse período, mantendo o nome do Deep Purple vivo. Destes itens, merece destaque a compilação Powerhouse (que contém músicas até então inéditas) Do lado ao vivo, não poderíamos deixar de citar o magistral Live In London (com a MK III) e o sublime In Concert, com gravações da MK II para a BBC feitas em 1970 e 1972.

Por volta de 1982, o retorno da MK II já era dado como certo nos meios musicais, tanto que Gillan havia desfeito sua Ian Gillan Band para se dedicar
ao renascido Deep Purple. Porém, as obrigações contratuais de Blackmore e Glover com o Rainbow, e de Lord com o Whitesnake (Paice já estava tocando
na banda de Gary Moore nessa época), atrasaram a volta da banda, o que deu tempo para Gillan entrar para o Black Sabbath, gravando o excelente (e ainda hoje subestimado) Born Again e fazendo a turnê de promoção do mesmo.

Mark II em 1984: Ritchie Blackmore, Ian Gillan, Ian Paice (acima),
Jon Lord e Roger Glover (abaixo)

Em 1984, nada mais impedia o quinteto de se reunir, e a MK II estava de volta para mais uma vez colocar o mundo inteiro a seus pés! Será mesmo?

Perfect Strangers [1984]

O álbum de retorno da MK II deixou dois clássicos para a carreira do Purple, a excelente faixa título, com sua letra de certa forma autobiográfica, tratando sobre a volta do grupo (e sou só eu que acho isso ou essa música parece mesmo muito mais uma composição do Rainbow do que do Deep Purple?) e a levemente pop “Knocking At Your Back Door“, que conta com uma excelente introdução por parte de Lord, sendo que a acelerada “Under The Gun” é outra que não faz feio no track list, além de mostrar novamente o fascínio de Blackmore pela música clássica em um curto trecho de seu solo. Se “Nobody’s Home” mostra um pouco o estilo que o Purple seguiria anos depois, ecos da fase mais comercial do Rainbow (a qual, não por coincidência, tinha Roger Glover no baixo, além do chefão Blackmore) podem ser sentidos em “Mean Streak” (que conta com um belo trabalho de teclados de Lord), na boa “A Gypsy’s Kiss”, e na balada cheia de sacarose “Wasted Sunsets”, possivelmente a pior coisa já feita pelo Purple até então. Rompendo a tradição da MK II de fazer discos com sete faixas, a oitava e última música chama-se “Hungry Daze” (uma composição de certo modo diferente na carreira do grupo, com um arranjo que chega a lembrar o Rainbow da fase Dio em certos momentos, reforçado pelo belo trabalho de Ritchie e Lord, configurando-se em um dos destaques do play), sendo que a versão original em CD e cassete possuí ainda uma faixa extra, a mediana “Not Responsible”. Em 1999, uma versão remasterizada adicionou ao track list a instrumental “Son Of Aleric“, uma das melhores composições do Purple nos anos oitenta, e que havia sido lançada como lado B para o single de “Perfect Strangers”, além de figurar na coletânea Knocking at Your Back Door: The Best of Deep Purple in the 80’s. Um disco nada mais que mediano, mas que marcou o retorno da MK II com muito sucesso comercial, tendo uma turnê pelos EUA com seus ingressos esgotados rapidamente. O grupo aproveitou-se do sucesso e lançou a coletânea Anthology, recomendada mesmo ao mais fervoroso fã da banda, por abranger todas as fases do grupo até então, e conter diversas faixas exclusivas, como “Hallelujah” (o primeiro single gravado com Gillan e Glover na formação), “Love Help Me”, “Grabsplatter”, “Freedom” e “Coronarias Redig” (atenção: não confunda esta coletânea com outra chamada The Compact Disc Anthology. O álbum a que me refiro tem uma foto de Ritchie na capa durante a explosão final do amplificador no California Jam, enquanto a lançada em CD tem uma foto da MK II ao vivo, além de um track list muito menos interessante). Anos depois, já nos anos 2000, um DVD dessa fase seria lançado, com o nome de Live In Paris 1985.

The House Of Blue Light [1987]

Este é um disco bastante contestado pelos fãs do Purple, e com toda a razão, pois ouvir de uma só tacada suas dez faixas é quase uma tortura. O clima dentro da banda não estava bom novamente, e, segundo Gillan declarou anos depois, tudo foi feito muito rápido, tentando aproveitar o sucesso de Perfect Strangers, além da banda ter tentado encaixar a sonoridade em voga à época em seu próprio estilo, algo que, obviamente, não deu muito certo. A sonoridade do álbum hoje soa datada (o que não acontece com o anterior), mas o maior problema é a discreta participação de Paice e Lord ao longo do LP, executando linhas muito simples e comuns, que não fazem jus ao seus talentos como instrumentistas. Além disso, em várias faixas foram sobrepostos efeitos aos vocais de Gillan, que na época podem ter parecido legais, mas hoje soam ridículos. Blackmore tomou conta de vez, e Lord só tem espaço para um único (e curto) solo de destaque, em “Mad Dog“, além de outro menor ainda na rápida “Dead Or Alive”. “The Spanish Archer” é a melhor faixa do disco (e o principal motivo para ele não ser um fracasso completo), com seu arranjo incorporando melodias de música clássica (algo que Blackmore sempre foi mestre em fazer) e o guitarrista alucinando em solos fantásticos, como no início do Rainbow. “Bad Attitude” até que é bastante aceitável, “Strangeways” tem algumas boas passagens da guitarra de Blackmore, “Mitzi Dupree” com seu ritmo lento quase chega a agradar, e alguns refrãos até se deixam ouvir. Mas, no geral, é a mediocridade quem comanda os arranjos na maioria das composições. Algumas faixas do CD original têm uma duração maior do que a do vinil, sendo que, quando foi lançada a versão remasterizada em 1999, foram utilizadas as fitas master que deram origem ao vinil, o que fez com que este CD tivesse a mesma duração da versão daquele formato, e não a do CD original. A turnê de promoção gerou o horrível disco ao vivo Nobody’s Perfect (1988), que mostrava o quanto o Purple estava perdido naqueles tempos quanto à sua musicalidade, tendo inclusive uma nova (e dispensável) versão de estúdio para “Hush“, o primeiro sucesso do grupo, naquela época ainda com Rod Evans nos vocais, e agora com Gillan e sua já combalida silver voice. Ao final da tour, Blackmore jogou o famoso “ou eu ou ele” para cima de Gillan, e o vocalista acabou saindo da banda, abrindo espaço para a entrada de Joe Lynn Turner (ex-parceiro de Ritchie e Glover no Rainbow) e a formação da MK V.

Mark V: Ritchie Blackmore, Ian Paice, Joe Lynn Turner, Jon Lord e Roger Glover
Slaves & Masters [1990]
Para mim, é bastante complicado comentar sobre este disco, o único com esta formação. Ele já foi muito bem defendido aqui mesmo na consultoria, onde qualidades que eu não consigo ouvir foram exaltadas pelo nosso colaborador Eduardo Luppe. O meu problema com este disco não é nem a presença do vocalista Joe Lynn Turner (um cantor que pautou sua carreira em cima da máxima “ame-o ou odeie-o”), mas sim o estilo que o grupo adotou em suas composições. Com 3/5 do Rainbow novamente reunidos (Turner, Blackmore e Glover), desta vez amparados por dois excelentes instrumentistas como Lord e Paice, o chefão Ritchie Blackmore resolveu retomar a sonoridade AOR dos últimos dias do Rainbow, algo nunca antes (nem depois) tentado no Purple. Isso fez com que canções como “Fortune Teller”, “Too Much Is Not Enough” e “Wicked Ways”, que poderiam soar diferentes se a banda tivesse outro nome (pelo menos para mim), saíssem sob a mágica chancela do Deep Purple, algo inconcebível se pegarmos a carreira prévia do grupo. Novamente a participação de Lord e Paice é bastante discreta (o tecladista tem apenas um grande solo, em “The Cut Runs Deep“, forte candidata a melhor faixa do disco), e a balançada “King Of Dreams” e a rápida “Fire In The Basement” até me agradariam mais se fossem músicas do Rainbow ou de outra banda desconhecida. Mas, como músicas desta instituição britânica chamada Deep Purple, não me passam na garganta. Isso para não citar as baladas “Truth Hurts”, “Fortuneteller” e “Love Conquers All” (esta, proibida para diabéticos, devido ao alto teor de glicose que possui), direcionadas para as FMs comerciais da época, e que não exalam aquele “sentimento”, como faziam as magníficas baladas gravadas pelo grupo nos anos 70. Um álbum desprezível? Não chego a tanto, mas um dos piores do Deep Purple com certeza. Ou apenas um desvio em um caminho já acidentado por si só. A turnê de promoção foi muito bem sucedida, inclusive trazendo o grupo pela primeira vez ao Brasil, realizando o sonho (em parte) de muitos fãs da banda por aqui, além de, pela primeira e única vez, apresentar canções de todas as formações do Deep Purple até então. Mas, após o seu final, os empresários (e, supostamente, alguns membros da própria banda) forçaram a volta de Gillan para um disco e tour comemorando os vinte e cinco anos do Deep Purple. Assim, este seria o final da MK V, e da passagem de Turner pelo grupo. Detalhe: não há (ainda) nenhum registro oficial ao vivo desta época lançado no mercado.
Mark II em 1993: Roger Glover, Ritchie Blackmore, Jon Lord, Ian Gillan e Ian Paice

The Battle Rages On [1993]

A volta de Gillan (e, consequentemente, da MK II) rendeu o melhor disco do grupo até então desde seu retorno (ao lado de Perfect Strangers), cujo título, que pode ser traduzido como “E a batalha continua…”, foi parodiado entre os fãs brasileiros como “A luta continua, companheiros”, usando o bordão de um famoso político da época (depois, presidente do país). O álbum abre muito bem com a maravilhosa faixa título (talvez a melhor música com Blackmore desde a volta do grupo, mais uma vez ao lado da faixa título de Perfect Strangers – e como é bom ouvir Paice e Lord detonando novamente, após dois discos em que ambos ficaram à sombra de Blackmore), e canções como a fantástica “Anya” (mais uma música com inspiração medieval na carreira de Blackmore, e que anos depois seria “plagiada” pelo próprio na linda “Ariel”, do Rainbow), a rápida “A Twist In The Tale” e a “malemolente” “Talk About Love” mantém o nível do play lá em cima. “Lick It Up” se parece com algumas coisas que o grupo faria depois (já com Morse na guitarra), e o refrão de “Time To Kill” parece feito para se ouvir em um ensolarado dia de sol na praia (algo bem incomum na carreira do Purple). A boa “Ramshackle Man”, a setentista “Nasty Piece Of Work” (outro belo trabalho de Lord), a marcada “Solitaire” e “One Man’s Meat” completam o track list, sem terem muito destaque, mas servindo para formar o mais conciso álbum do Purple desde 1976, e um dos três melhores do grupo desde a volta em 1984. 
Mark VI: Ian Gillan, Ian Paice, Joe Satriani, Roger Glover e Jon Lord
A turnê de promoção rendeu o CD Come Hell Or High Water, gravado em apresentações em Stuttgart, na Alemanha, e Birmingham, na Inglaterra (os dois shows seriam lançados na íntegra anos depois no box set On Tour MCMXCIII), e o DVD de mesmo nome, gravado no show de Birmingham. Neste show, aconteceu o infame incidente (registrado no DVD) em que Blackmore, após entrar no palco já no meio da execução da faixa de abertura (a clássica “Highway Star”), jogou um copo de água na direção de Gillan, o que teria causado um enorme mal estar no grupo. Na verdade, a situação é um pouco diferente: Blackmore havia pedido a seu roadie que avisasse o pessoal da filmagem para que não ficasse no palco, atrapalhando sua performance (algo parecido com o que ocorrera anos antes no California Jam). Quando a banda se preparou para entrar no palco, já com a intro rolando, Ritchie viu que o pessoal das câmeras continuava ali, e se recusou a entrar antes que eles saíssem. A banda começou a tocar, e o roadie de Blackmore novamente pediu à equipe de filmagem que deixasse o palco. Quando a situação parecia resolvida, Blackmore entrou em cena (pouco antes de ter de iniciar seu solo), sendo ovacionado pela plateia, que já se perguntava se o guitarrista iria ou não participar do show (esta parte não consta do DVD). Ritchie entra em cena com um olhar de fúria, aparentemente direcionado à Gillan, mas na verdade o guitarrista olhava para trás do vocalista, para um camera man que, malandramente, se posicionara nas sombras atrás do teclado de Lord. Ritchie então se dirige ao lado do palco onde estavam Lord e Gillan (e o tal câmera), e jogou um copo de água no sujeito, e não em Gillan, como se pode perceber pela imagem da filmagem feita pela câmera do profissional, então completamente encharcada. De qualquer forma, este tipo de atitude (recorrente na carreira do guitarrista) começava a incomodar muito os outros membros do Purple, e, quando Ritchie novamente mandou o “ou eu ou ele” para cima de Gillan, desta vez o grupo escolheu o seu vocalista, e Blackmore partiu para reformar o Ritchie Blackmore’s Rainbow (novamente com seu nome à frente do da banda, coisa que não ocorria desde o álbum de estreia, mostrando bem quem é que mandava ali) e depois para ingressar no projeto medieval Blackmore’s Night, ao lado de sua linda esposa Candice Night. O excepcional Joe Satriani aceitou a responsabilidade de assumir as seis cordas do Purple no complemento da turnê, formando o que ficou conhecido como MK VI (e, se você nunca ouviu algum dos bootlegs desta fase, faça-o com urgência, pois o som do Deep Purple com este mago nas guitarras é o que de melhor você encontrará no Purple pós-1976), mas resolveu continuar em sua carreira solo ao invés de assumir full time o papel de guitarrista da lenda britânica. Assim, o americano Steve Morse (ex-Dixie Dregs e Kansas) se tornava o novo dono das seis cordas do Deep Purple, dando início à formação conhecida como MK VII (e não se perca nas contas!).
Mark VII: Steve Morse, Roger Glover, Jon Lord, Ian Gillan e Ian Paice
Purpendicular [1996]
A entrada de Steve Morse renovou os ares dentro da banda. Gillan chegou a declarar à época: “imagine que você está morrendo de um câncer terminal, sem esperanças de recuperação, e de repente descobre que está totalmente curado! Foi assim que nos sentimos quando Ritchie deixou a banda!”. O americano, curiosamente, levou a sonoridade do Purple para um estilo mais europeu, afastando o grupo do estilo mais americanizado que o britânico Ritchie Blackmore havia lhe imposto nos anos anteriores. Assim como é quase impossível imaginar o álbum Come Taste The Band com Blackmore nas guitarras, também é muito difícil imaginar este disco com o antigo chefão comandando as seis cordas. Canções como a belíssima “The Aviator” (com seu arranjo acústico meio celta), a interessante “Soon Forgotten” (cuja introdução lembra a da música “Perfect Strangers”, mas cujo ritmo quebrado e a sonoridade meio macabra dos teclados são totalmente não usuais na carreira da banda, além de contar com mais um belo solo de Lord) e “Rosa’s Cantina” (com seu ritmo inicial lembrando “Hush”, do primeiro disco da banda) apresentam novos horizontes para a sonoridade do grupo, trazidos pelas hábeis mãos de Morse. “Cascades: I’m Not Your Lover” tem algo do álbum anterior em seu arranjo, assim como “”A Castle Full of Rascals”; e a faixa de abertura “Vavoom: Ted the Mechanic” tem um estilo mais “malemolente”, na linha do que o grupo já havia feito antes em músicas como “Nobody’s Home” e “Lick It Up”. Morse já mostra na introdução desta canção que seu estilo de guitarra não é uma mera cópia do de Blackmore, demonstrando ao longo da evolução da mesma que, apesar disso, seus freaseados se encaixariam perfeitamente ao novo som do Deep Purple. “Loosen My Strings” é uma canção mais cadenciada, mas com um belíssimo arranjo que ganha força no refrão, e possui um solo de guitarra onde Morse demonstra que pode, sim, emular o estilo de seu antecessor, porém sem deixar de acrescentar suas próprias características. “Sometimes I Feel Like Screaming” é uma das mais belas baladas já gravadas pelo Purple, tendo neste disco a companhia de “A Touch Away”, que se não chega a ser uma “baladaça”, é também bastante melódica; “Hey Cisco” é bastante divertida, e “Somebody Stole My Guitar” tem outro belo trabalho da dupla Morse/Lord, que mostra um grande entrosamento ao longo das músicas deste disco. “The Purpendicular Waltz” encerra um álbum quase perfeito, o melhor gravado pelo Purple desde 1976 até hoje, e um dos melhores da longa carreira do grupo. Que estreia fantástica para a MK VII! (Após a entrada de Morse, diversos discos e DVDs ao vivo começaram a ser lançados a cada álbum – só desta turnê são pelo menos dois álbuns e dois DVDs oficiais – e, por questão de espaço, não irei mais citá-los daqui para a frente).

Abandon [1998]

Este não é um álbum tão bom quanto seu antecessor. Apesar de as músicas se deixarem ouvir sem maiores problemas, nenhuma delas marca realmente em nossa memória, nem chega a atingir um status de “clássico”. A banda inteira executa suas partes muito bem, e alguns refrões e solos são bastante interessantes, mas, no geral, é apenas um álbum mediano do grupo. O ritmo quebrado da faixa de abertura, “Any Fule Kno That“, as diversas variações de “Watching the Sky“, a bela balada “Don’t Make Me Happy”, a sacana “‘69” e as partes acústicas de “Fingers to the Bone” ganham algum destaque perante as demais faixas, mas é a regularidade pela média quem dá o tom ao disco. De negativo, a desnecessária regravação de “Bloodsucker”, de In Rock, aqui rebatizada como “Bludsucker”. Após a turnê desse disco, o Purple embarcou em outra para celebrar os trinta anos do Concerto For Group And Orchestra, com o grupo se apresentando ao lado de uma orquestra e executando os três temas do álbum original, além de sucessos de sua carreira. Várias apresentações foram realizadas, e em muitas delas o saudoso vocalista Ronnie James Dio cantava junto com a banda e a orquestra “Sitting In A Dream” e “Love Is All”, do álbum The Butterfly Ball and the Grashopper’s Feast, de Roger Glover, onde ele também canta nas versões originais (além de juntar-se a Gillan na versão de “Smoke On The Water” ao final do show). Esta turnê foi muito bem recebida pelos fãs, e chegou inclusive a passar pelo Brasil, com uma única apresentação em São Paulo. Ao final da digressão, Jon Lord anunciou a sua saída do grupo, alegando ter vontade de ficar mais em casa, declarando que sua saúde não estava mais aguentando o ritmo das constantes viagens e compromissos do Deep Purple. Desde então, ele embarcou em uma pouco significativa carreira solo, além de tocar ao lado de amigos vez por outra, como no recente projeto Who Cares (ao lado de Gillan e Tony Iommi, do Black Sabbath).

Mark VIII: Ian Paice, Roger Glover, Ian Gillan, Don Airey e Steve Morse

Para o lugar de Lord, foi escolhido o experiente Don Airey, que tocou praticamente com todo mundo que importa no mundo do rock, sendo que podemos citar Black Sabbath, Rainbow, Whitesnake, Ozzy Osbourne (é dele a intro de “Mr. Crowley”, do primeiro disco da Blizzard Of Ozz), Jethro Tull, Gary Moore, Collosseum II e uma infinidade de outros grupos. O músico foi muito bem aceito pelos fãs (até por seu passado de certa forma ligado ao Purple pelas participações no Rainbow e Whitesnake), e, com ele, estava formada a MK VIII do Deep Purple, que permanece junta até hoje.

Bananas [2003]

A estreia da MK VIII rendeu outro álbum mediano, embora melhor que o último da MK VII, com maiores variações de “climas” entre as músicas. A linda balada “Haunted” talvez seja o maior destaque, ao lado da “malemolente” “I Got Your Number“, da agitada faixa de abertura “House of Pain” (um belo exemplo do estilo que o Purple adotou nestes discos com Morse na guitarra) e da mid tempo “Sun Goes Down” (que tem um certo clima misterioso em seu arranjo). Don Airey ainda não coloca suas características na sonoridade do grupo, limitando-se a emular o que Lord já fizera, sendo que em certas partes realmente parece que o grande maestro das teclas púrpuras ainda permanece comandando o teclado do grupo, como nos solos de “Picture of Innocence” ou “Silver Tongue” (que tem um arranjo muito legal, bastante diferente em relação ao que o grupo costuma fazer em suas músicas). A longa “Walk On” é uma semi balada bastante interessante; “Never a Word” tem um arranjo acústico que lembra um pouco “The Aviator”, de Purpendicular (além de uma bela introdução feita por Don Airey); a agitada faixa título tem o diferencial da harmônica de Gillan, e um duelo teclados/guitarra como nos velhos tempos da banda; “Doing It Tonight” é uma música estranha ao repertório do grupo, com seu ritmo que tem algo do Caribe na percussão; e o álbum se encerra com a curta instrumental “Contact Lost“, com Morse executando um triste tema na guitarra em homenagem aos astronautas da nave Columbia, que explodiu matando todos os seus tripulantes a primeiro de fevereiro de 2003. Não se deve “dar uma banana” a este álbum, mas ele também não conseguiu marcar o seu lugar como um item essencial na discografia do Purple.

Rapture of the Deep [2005]

Já tratei deste álbum aqui no blog quando do lançamento da sua Tour Edition no Brasil pela Hellion Records. Um disco superior aos anteriores com Morse (exceto, claro, Purpendicular), apesar de manter o mesmo estilo destes. Don Airey aparece mais solto, colocando seu estilo nas composições ao invés de apenas emular Jon Lord, como em passagens do disco anterior. Boas canções como a faixa título, “Money Talks“, “Clearly Quite Absurd” e “Kiss Tomorrow Goodbye” convivem lado a lado com outras que, se não chegam a empolgar o ouvinte, passam longe de ser uma decepção. A Tour Edition mencionada merece destaque em relação à versão normal, não só pelas faixas extras, mas também pelas versões ao vivo que comparecem no segundo CD. Longe de ser um clássico na carreira da banda, Rapture of the Deep é um belo álbum, que, aparentemente, encerra a carreira do Deep Purple no que diz respeito a gravações de estúdio.

Deep Purple ao vivo

Recentemente, membros do grupo deram declarações de que não veem sentido em lançar um novo disco de estúdio, devido ao pouco retorno que este formato dá aos artistas e gravadoras hoje em dia. O grupo segue em uma incessante turnê, tendo inclusive passado recentemente pelo Brasil mais uma vez, novamente com bastante sucesso. Até quando o Púrpura Profundo seguirá na estrada, só o tempo dirá, mas com certeza milhares de fãs continuarão acompanhando esta verdadeira lenda do rock ao longo do seu caminho.

15 comentários sobre “Discografias Comentadas: Deep Purple – Parte II [1984 – 2011 ]

  1. Eu parei de me interessar pelo Purple no álbum Who do we think we are, que também não achava nenhuma maravilha. E mesmo após ler este ótimo texto do Micael, não tenho a menor intenção de redescobrir a banda. Aconteceu o mesmo com o Sabbath após Sabotage e tantos outros grupos da época. Acho que de repente, lá pelos 20 anos, fiquei velho, careta e preconceituoso. Vejo muito roqueiro vetusto como eu dizer a mesma coisa: que bom mesmo era o Sabbath com o Ozzy, o Purple com o Gillan, que o rock deu tudo o que tinha que dar até 74, essas bobagens… A verdade, pelo menos a minha, é que a emoção que o rock causa na gente aos 16, 17 anos, jamais será superada, daí a preferência pelos álbuns que ouvíamos naquela época. Não que a gente deixe de descobrir coisas tão boas ou melhores depois. Mas daí a gente é um adulto babaca, cheio de responsa. A intuição foi embora e aquela magia já não é a mesma. Agora, dá licença que eu vou cortar os pulsos, hehe…

    1. Se vc parou ai mano vc perdeu verdadeiras obras dessa arte chamada música… O disco que veio depois dele então chamado Burn… Meu Deus que disco 🤘🏻

  2. Marco, sei que estás de brincadeira, mas recomendo que não cortes os pulsos, pois seria uma enorme perda para nós, que ficaríamos sem um grande amigo e alguém com enorme conhecimento musical, capaz de nos instruir por anos e anos… ainda mais por um motivo tão fútil como não achar mais prazer na música atual… meu irmão Mairon tem menos de 30 anos e também não se encanta mais com grupos novos há tempos… mas vive descobrindo coisas obscuras do final dos 60 e início dos 70, e vai vivendo feliz com essas "novidades"…

    Não sei se é o fato de termos virado "adultos babacas, cheios de responsa", ou se é a música atual que não tem mais a qualidade e aquele ar de novidade da música dos seventies. Afinal, seja o que for que surja hoje em dia, se pode comparar a isso ou aquilo, dificilmente é algo original. Naquela época não havia comparação, a não ser entre as próprias bandas, e como comparar, por exemplo, Led, Purple e Sabbath, tão diferentes musicalmente apesar de jogadas no mesmo balaio do hard rock? Mesmo as bandas que chamam a atenção neste 2011 são meras "requentações" de algo feito entre 35 a 50 anos atrás… e muitos preferem a coisa "original" do que a cópia requentada, certo?

    E os poucos sobreviventes, como o Purple, mudaram seu estilo, adaptaram-se a exigências da idade, do mercado ou das próprias limitações físicas, e acabaram perdendo um pouco da originalidade do início… ou então entraram em um processo semi-automático de auto-cópia, como o Motorhead e o AC/DC, sem ousar muito além do que já fizeram antes… Então, a novidade e a sensação de "conhecer algo diferente" se perde entre tantas recriações do mesmo tema… aí fica difícil se identificar com os novos "bons sons" do mundo da música…

    Viva a música gravada entre 1967 e 1977… época dourada do rock mundial!

  3. Bom, vamos por partes:
    Primeiro, viva a música gravada entre 67 e 77… época dourada do rock mundial!!!
    Segundo, eu estava me referindo às bandas de grande longevidade, como Purple, Sabbath, Rolling Stones… que ainda fazem a cabeça de muito garoto que está descobrindo o rock agora e eles conseguem se emocionar com os discos que essas bandas gravaram há pouco, coisa que não acontece mais comigo.
    Mas não tenho preconceitos em relação às bandas novas. O que eu tenho é preguiça de acompanhá-las e mantenho certo ar blasé de achar que elas não estão criando nenhuma novidade. O que é injusto. Todas as bandas partiram de alguma referência. A diferença é que nas bandas novas a referência é muito maior devido ao aumento de opções ao longo dos anos.
    O rock é um saco sem fundo de oportunidades. Somos capazes de descobrir todos os dias pelo menos uma banda boa que não conhecíamos. Seja ela dos 50, 60, 70 e por aí vai. Eu só acho (repito, é uma opinião minha e respeito todas as outras) que é possível e até saudável você ouvir de tudo, mas concentrar seu interesse maior em uma determinada época.
    É como coleção de selos. Ou você procura um tema e forma uma coleção temática de respeito ou está apenas juntando selos aleatoriamente.
    Eu tenho alguns temas de interesse no rock e é nisso que eu concentro minha atenção e o pouco tempo que tenho para isso. E não estou falando apenas de rock dos anos 60/70. Tem coisas mais novas e mais velhas, tem outros gêneros também. Não vou trocar isso pela audição acurada do Perpendicular, do Purple, por exemplo. E para ser sincero, acho que o Purple também está cagando e andando para a minha opinião sobre seus discos. Então estamos quites.

  4. Tches

    Primeiramente, quero aqui complementar a primeira parte. Eu realmente desconsidero essa fase de 84 para ca do Purple. O melhor disco deles nesseperiodo é o Slavesand Masters, simplesmente pq é uma copia do que era o Rainbow no final da carreira. O Gillan, depois de ter cantado mito no Born Again, nunca mais foi o mesmo. O Paice se tornou um baterista simples. O Glover nunca evoluiu. A saida do Lord e a entrada do Airey até deu umacara nova, mas nada comparavel ao que foi a banda um dia. E o Morse é um mala sem alça. Aquelas escalas dees são tão manjadas que nem ele aguenta tocar mais. Muito, mas muito chato de ouvir sempre a mesma coisa…

    Quanto ao fato de ouvir coisa nova, eu tento ouvir de tudo. Adoro progressivo, hard setentista e jazz. Eses são os meu estilos e o que eu corro atrás. Claro, sempre tem um que outro estilo que atrai, mas a maioria do material que eu tenho fica entre os três. Ja ouvi muita banda nova, e tem muita banda boa (esse ano mesmo, a Massahara surpreendeu positivamente). Agora, dessas bandas antigas, é dificil pegar um disco novo e dizer "que disco bom". O Yes tem feito isso. Magnification é otimo, e o Fly From Here é uma perfeita sequência do Drama. Os stones, apesar dos pesares, manteram-se na media, mas a criatividade diminuiu, assim como o AC/DC e o Motorhead citados pelo micael. O Próprio Rush, a vergonha do ano, parece q desisitu do albm novo.

    A desculpa do Purple de "nao render mais dinheiro" pode ser influencia em fazerem discos sem criatividade, mas sinceramente, os discos nao vendem pq as musicas nao sao boas. É um circulo vicioso: um sem vontade de tocar por que nao tem dinheiro, outro sem dinheiro e não dando vontade de tocar.

  5. Em compensação, descobrir grupos como Bodkin, Silberbart, Mu, Beggar Opera, Ekseption, Trace, Veludo Azul, Almendra, e por ai vai, isso ainda me atrai. Parece q os anos 70 tinham uma magia maior. Nao importava o dinheiro. Era botar para fora a raiva do mundo, a raiva contra a guerra do vietnã, a ditadura, os hippies, a guerra espacial, …, e isso era feito diretamente na musica. Hoje, o rock em geral virou um dramalhão sem criatividade. Dai, quando o Judas lança uma obra-prima como Nostradamus, o disco é queimado em praça publica, e o grupo acaba em uma turne dedespedida sem o seu maior guitarrista. Uma pena, pois eu ainda tinha esperanças de ouvir uma sequencia para o Nostradamus, o melhor disco do Priest desde o Painkiller.

    Outra banda q nao da para aturar mais é o Iron Maiden. O Final Frontier é bom, mas sinceramente, é mais do mesmo. Desde os tempos de Seventh Son que o Iron se prendeu em uma base formada por Em C D, e dali, solos, o Dickinson cantando cada vez pior, e musicas longas e que sao legais deouvir uma ou duas vezes.

    E por ai vai, vou ouvir quicksilver messenger service e os tres primeiros poco q eu ganho mais.

    Sugestão de domingo: Chicago Transity Authority (os tres primeiros álbuns)

  6. Fernando, eu não consigo ouvir mais o Bruce cantando. Eu acho q ele nao canta bem faz horas. Hoje em dia, eu prefiro ouvir o Virtual XI do que o Brave New World, com certeza. Pelo menos o Blaze ainda consegue cantar alguma coisa.

  7. Parabéns Mica e Mairon! excelente post… a explanação sobre a carreira do grupo foi fantástica! só não concordo com os comentários do Slaves and Masters! Treta Treta Treta! rsrsrs e obrigado por mencionar a minha resenha sobre o álbum! mais uma vez, parabéns!

    abraços

  8. gostei muito da discografia…

    muito bem feita e muito bem escrita..

    tb acho q o DP era iuncrivelmente melhor de 70 a 76,,,,

    não gosto da mark I e acho q mark IV fraquissima ao vivo….

    mas o disco do mark IV é legal…

    ouvi esse disco ao vivo lançado, "phoenix rising" do mark IV e achei muito ruim, o bolin nem conmseguia tocar de tão chapado q o cara tava..

    tb gosto de alguns discos do DP depois da reunião, mas os de 70 e 75 são otimos..

  9. Muito bom o post, amo o Deep, banda foda, só discordo quando você diz que Wasted Sunsets foi a pior coisa feita por eles até então, pois eu acho a música muito foda, uma linda melodia e com solos perfeitos, mas é isso ai, vlw !

  10. Olá
    Vcs pretendem fazer o Test Drive do último e provável disco de despedida da banda, inFinite? (Acho que essa seria a matéria mais ideal pra perguntar)

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