Review Exclusivo: Judas Priest, Black Label Society e Thin Lizzy (Las Vegas, 23 de Outubro de 2011)

12 de novembro, 2011 | por Fernando Bueno
Diversos
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Por Fernando Bueno

Quando programei com a minha esposa uma viagem para Los Angeles para esse mês de outubro, a primeira coisa que fiz foi procurar saber se haveriam shows interessantes por lá. Afinal, Los Angeles é a terra de várias bandas, sendo as mais conhecidas as psicodélicas dos anos 60 e as de hard rock do anos 80. Vi que teriam shows do Opeth, Yngwie Malmsteen, e Judas Priest. Como tinha perdido os shows que o Judas fez aqui no Brasil em setembro, logo decidi que iria nesse. Para melhorar ainda mais a banda seria acompanhada por Black Label Society e Thin Lizzy. Por questões de logística da minha viagem acabei preferindo ir ao mesmo show em Las Vegas, uma vez que os dias em que eu iria ficar em Los Angeles já estavam comprometidos com outros passeios turísticos.

Queria dizer a todos que esta não é uma resenha normal de alguns shows que vi. É mais do que isso. Vou tentar passar as minhas impressões de um fã em um país estrangeiro e, principalmente, mostrar as diferenças de eventos como esse com os que acontecem aqui no Brasil. Já tinha assistido shows fora do Brasil (Porcupine Tree e Accept) e achei que aqueles eram diferentes devido aos locais, mas percebi um padrão que deve fazer parte da cultura americana.
Usei o Ticketmaster para comprar os ingressos e, como sempre, procurei ingressos mais próximos ao palco possíveis. Nesse momento já deu para notar uma grande diferença com o Brasil: os preços. Para ficar na pista, que aqui no Brasil se convencionou chamar de Vip, ou Vip Premium, o valor do ingresso era de setenta dólares e ainda daria direito a comprar uma camiseta do Judas por vinte dólares, ou seja, teria um desconto de quinze dólares. Assim, por pouco mais de cento e sessenta reais eu tinha o ingresso para o melhor lugar do show e uma camiseta da banda. A minha preocupação era de que eu teria que pegar esse ingresso na bilheteria no dia do show e a camiseta seria enviada para minha casa aqui em Rondônia. Claro que devido à greve dos Correios quando a camiseta chegou por aqui eu já estava nos Estados Unidos.
O show aconteceu em um lugar chamado The Joint, uma casa de show anexa ao Hard Rock Hotel and Casino. Temendo não conseguir pegar o ingresso na hora do show, fui buscá-lo à tarde. Foi legal porque acabei conhecendo o cassino do hotel e fui me familiarizando com o local. Tudo tranqüilo. Bastou eu mostrar o meu passaporte e o cartão que comprei o ingresso para recebê-lo.
Cheguei ao local uma hora antes do horário marcado para o show. Uma enorme fila já estava formada e pensei que teria que ficar muito longe do palco. Também não havia indicações dos setores. Imaginei que na entrada alguém iria me direcionar para o meu setor. Isso não aconteceu. Eles apenas conferiram o meu ingresso e me deixaram entrar. Todos os setores estavam divididos por pequenas grades, do formato de guarda corpo, de cerca de noventa centímetros de altura e os acessos de todos os setores estavam abertos. Ou seja, qualquer um escolhia ficar no setor que quisesse. Porém as pessoas se dirigiam apenas para o setor que haviam comprado. Para mim isso foi um choque, já que o jeitinho brasileiro logo corromperia esse costume.
Após comprar umas cervejas fui para a frente do palco que já estava preparado para o Thin Lizzy. Palco simples, apenas com o logo estilizado da banda ao fundo. O som mecânico rolando diversos clássicos do rock e do heavy metal e uma coisa é parecida em ambos os países; quando tocou Iron Maiden, todos cantaram juntos.

Todos sabem que atualmente o Thin Lizzy é uma banda que vive de seu passado e não tem mais o seu principal integrante da época de ouro: o baixista e vocalista Phil Lynnot. Mas ninguém pode dizer que o show de hoje não vale a pena. A banda tem apenas o guitarrista Scott Gorham e o baterista Brian Downey da formação com Phil Lynnot. Sem esquecer, claro, de Darren Wharton, o tecladista, mas que não era um membro oficial na época. Completam o line up Richard Fortus, guitarra, Marco Mendoza, baixo, e Ricky Warwick, guitarra e voz.

Deu para notar que o público americano não conhece ou não se interessa mais pelo Thin Lizzy. Apenas em “Waiting For An Alibi” e “The Boys Are Back in Town” que os fãs responderam bem. Nas outras eram tímidas as reações. Também receberam bem “Are You Ready”, que é perfeita para inicial qualquer show, mas acho que foi só por ser a primeira música mesmo. O pessoal não sabia sequer algumas partes famosas das músicas, o que gerava certo constrangimento quando Warwick dava a deixa para a platéia cantar e o silêncio tomava conta do local. Em certo momento ele praticamente implorou por uma reação do público, pedindo para todos cantarem em nome de Phil Lynnot e Gary Moore.
Como a missão de Phil Lynnot é dividida entre dois novos integrantes, fica difícil comparar e dizer se estão fazendo jus ao posto. A voz de Warwick se encaixa legal e ele ajuda um pouco com a guitarra, mas o destaque mesmo é o entusiasmo de Marco Mendoza. Ele toca com tanto prazer que chega a ser palpável sua empolgação. Faz de tudo para entreter e agradar com sorrisos e incentivos. No resumo foi um show legal e que valeu por eu ter ouvido alguns clássicos de uma banda que, em outras oportunidades, talvez eu não veria nunca.

Depois entrou o Black Label Society. Não sou profundo conhecedor da banda, mas sou fanzaço do Zakk Wylde desde que ouvi o Live & Loud (1993) do Ozzy Osbourne. Foi instalado um imenso pano cobrindo a frente do palco para os caras prepararem o palco. Não achei necessário, já que o mesmo não teve nada de diferente, porém o efeito visual com a banda entrando com tudo e o pano de frente caindo ficou bem legal. Esse mesmo efeito seria usado pelo Judas Priest logo mais tarde.

Zakk entrou no palco vestindo um enorme cocar indígena e parece que isso está se tornando um hábito. A ligação dele com a cultura da região oeste dos Estados Unidos é muito forte e vem de lá todas aquelas histórias que nos acostumamos a ver em filmes da luta dos brancos contras os índios. Muitos ali ficaram muito felizes com essa atitude e deu para ver que os fãs dos EUA adoram a banda. Agitaram o show inteiro e cantaram todas as músicas, com uma diferença enorme do que fizeram no show do Thin Lizzy e até mais que no do Judas Priest. Para contrariedade de muitos fãs mais velhos, até algumas rodinhas foram abertas.

Só fui reconhecer uma música quando começaram a tocar “Bleed For Me” e já estávamos na terceira. Mas o show me incentivou a ir atrás da carreira deles como um todo. Gostei demais da banda ao vivo com os riffs de uma tonelada e energia cativante. Falar que Zakk é o dono da banda é besteira, ele sequer deixa um dos solos para o outro guitarrista fazer. Nem mesmo os nomes dos outros integrantes eu iria colocar aqui nesse texto, porque sinceramente não sabia. Mas não vou fazer como Zakk e, após uma pequena pesquisa, aqui vão os nomes: John DeServio, baixo, Chad Szeliga, bateria, e Nick Catanese – que o acompanha desde o início – na outra guitarra. Em certo ponto do show ele ficou sozinho no palco, junto de sua famosa Gibson (ele não a tinha perdido?), para fazer seu solo. E o fez. E quando todo mundo achou que tinha terminado, ele foi para o lado direito do palco e começou de novo. Aí, quando todos perceberam que ele faria o mesmo do lado esquerdo ficou uma impressão de exagero no ar. Mas hoje percebo que não me importei no fim das contas, pois quando ele veio do lado esquerdo do palco eu consegui tirar boas fotos. Falando nisso, esse costume (chato) de tirar fotos de tudo e filmar o show inteiro não é privilégio brasileiro. Pelo jeito a proliferação de celulares com boas câmeras trouxe esse malefício aos shows de rock do mundo todo. Eu ainda sou mais alto que a maioria das pessoas que vão aos shows e acabo vendo por cima, mas muita gente vai e só vê celulares e flashs na sua frente.

O público se despediu ruidosamente do Black Label Society e imediatamente a bandeira do Judas Priest, com a palavra Epitaph, cobriu a frente do palco novamente. Antes do show, gostaria de comentar uma das maiores diferenças que presenciei em shows lá nos Estados Unidos: o respeito que eles têm pelo espaço do outro. Desde a hora que cheguei e fiquei em pé na frente do palco ninguém me empurrou, todos pediam licença quando queriam passar e mesmo quando os shows começaram ninguém sequer se esbarrou em mim com a intenção de ir para a frente do palco. Os caras têm noção de que as pessoas que chegaram mais cedo, e que estão na frente do palco, têm o direito de estarem ali e ninguém tenta pegar seu lugar à força. Durante o show, o máximo que acontecia era alguém esbarrar no braço em mim. Aquela negócio de ter 10 pessoas por metro quadrado, que acontece aqui no Brasil, não acontece por lá. Antes do show do Judas começar, eu estava bem pertinho do palco e fiquei receoso de ir comprar cerveja e perder esse meu lugar. Porém, estava conversando com um pessoal em volta e pensei em ir buscar a cerveja e tentar voltar para o lado deles. E foi isso o que aconteceu. Peguei as cervejas e voltei para o lugar que estava. Só precisei falar que estava com outras pessoas ali na frente e me deram caminho. Claro que tentei ao máximo fazer o mesmo caminho de quando sai e, como estava com uma camiseta amarela da seleção brasileira – diferente do quase predominante preto – as pessoas talvez me reconhecessem.

O show do Judas não foi diferente em nada do que aquele que tivemos aqui no Brasil recentemente. A resenha publicada na Consultoria do Rock poderia ter sido feita para o show que assisti. Até a sequência das músicas foi igual. Gostei da idéia da banda de apresentar uma turnê que “contasse” sua carreira. À medida que as músicas iam sendo tocadas e dependendo da época de lançamento de cada um dos discos que continham essas faixas, Rob Halford explicava brevemente como estava a cena metálica da época. Ele citou o Black Sabbath, o Led Zepellin e até mesmo o Thin Lizzy quando falou da década de 70. Sobre essa última, não sei se foi porque eles estavam ali. Claro que no meu entender eles foram importantes para o heavy metal da época, e nesse caso eu também acrescentaria o UFO. Mas acho que, pelas bandas que ele citou, o Thin Lizzy não fazia parte da lista comentada durante a turnê toda. Comentou sobre o Iron Maiden, o Saxon, o Def Leppard e o Motley Crue – outro que no meu entender entrou na lista por ser “da região” – quando falou dos anos 80. O Sepultura e o Pantera foram lembrados nos anos 90.

Eu nunca diria que K.K. Downing não fez falta em um show do Judas Priest, mas gostei muito da atuação de Richie Falkner. Parece que ele está na banda há uns 15 anos, tamanha a sua desenvoltura. Ele anda o palco todo e interage com os outros componentes como se todos fossem amigos há décadas, ou se todos, assim como ele, tivessem feito parte da banda da Lauren Harris.

Esse foi meu primeiro show do Judas Priest e nunca tinha reparado, por meio dos DVDs, na atuação do baixista Ian Hill. O cara fica parado no mesmo lugar durante o show todo como se tivessem colocado cola nas suas botas. Seu único movimento é o de baixar e levantar o braço do baixo de um jeito que me lembrou o Gene Simmons. Mas é interessante saber que ele e o K.K. Downing eram os integrantes mais antigos da banda. Agora é só ele.

Mas o mais marcante para mim foi a atuação de Rob Halford. Não preciso dizer que ele cantou demais, soltou agudos altíssimos e foi muito simpático com o público, porém o motivo de esta ser a última turnê da banda está claro: as questões físicas de seu vocalista. Ele se movimenta devagar, com uma respiração tão profunda que parecia que tentava guardar energias para qualquer momento em que isso fosse necessário. Em alguns momentos, principalmente após cantar trechos mais altos, dava a impressão que ele estava com falta de ar. Notei também que ele ia para os bastidores em todas as situações em que ele tinha algum tempo. Daí, para minha surpresa, consegui vê-lo, por entre as cortinas desses acessos à parte de trás do palco, com uma máscara de oxigênio. E as impressões que tinha tido durante todo o show foram confirmadas. Este fato nos faz pensar novamente no processo que estamos vivendo de perdas de ídolos. As bandas clássicas dos anos 70 ou já acabaram, ou estão encerrando as suas carreiras, com turnês de despedida ou, em muitos casos, já não possuíem integrantes vivos. É bem provável que em alguns anos estejamos órfãos de ídolos, portanto é bom que essas oportunidades de presenciar bandas clássicas ao vivo não sejam desperdiçadas. Mas deixo claro que o fato de ele estar sofrendo as limitações impostas pela idade, não atrapalhou sua performance em nenhum momento.

Após o show, muito satisfeito, corri para a loja de merchandising comprar umas camisetas. Claro que o tumulto que normalmente acontece aqui no Brasil não ocorreu. Depois disso pensei em comprar uma cerveja no cassino do Hard Rock Hotel e ir para o meu hotel, quando vi um grupo de pessoas com camisetas do show. Pensei em ficar algum tempo ali conversando e me dirigi à eles. Foi quando vi um rosto conhecido: era o Mikael Akerfeldt, do Opeth.
No começo fiquei um pouco em dúvida, mas como disse no começo do texto, sabia que a banda tinha feito um show em Los Angeles dois dias antes, então era certo que era ele. Pedi licença para tirar uma foto e perguntei se ele estava ali para o Judas Priest ou para os cassinos e ele disse que era para os dois. Agradeci pela foto e fui embora contente.

Set List Thin Lizzy
1.Are You Ready
2.Waiting For An Alibi
3.Jailbreak
4.Don’t Believe A Word
5.Emerald
6.Killer On The Loose
7.Cowboy Song
8.The Boys Are Back In Town
9.Rosalie (cover de Bob Seger)
10.Black Rose

Set List Black Label Society

1.Crazy Horse
2.Funeral Bell
3.Bleed for Me
4.Demise of Sanity
5.Overlord
6.Parade of the Dead
7.Suicide Messiah
8.Guitar Solo
9.Godspeed Hell Bound
10.Fire it Up
11.Concrete Jungle
12.Stillborn

Set List Judas Priest
1.Rapid Fire
2.Metal Gods
3.Heading Out to the Highway
4.Judas Rising
5.Starbreaker
6.Victim of Changes
7.Never Satisfied
8.Diamonds & Rust (cover de Joan Baez)
9.Prophecy
10.Night Crawler
11.Turbo Lover
12.Beyond the Realms of Death
13.The Sentinel
14.Blood Red Skies
15.The Green Manalishi (With the Two Pronged Crown) (cover de Fleetwood Mac)
16.Breaking the Law
17.Painkiller

Encore:
18.The Hellion / Electric Eye
19.Hell Bent for Leather
20.You’ve Got Another Thing Comin’

Encore 2:
21.Living After Midnight



1 Comentario

  1. micaelmachado disse:

    Muito boa a resenha, Bueno! Aemoção de se sentir um "Stranger in a Strange Land" deve ficar amenizada em eventos assim, onde todos acabam formando uma imensa "família" com os mesmos gostos e objetivos.

    Essa questão cultural realmente parece ser marcante, pois o Mairon também comentou isso quando assistiu ao Ozzy na França. E essa de todos os acessos estarem abertos e mesmo assim todos respeitarem o setor que compraram ao invés de ir para perto do palco… isso nunca ocorreria aqui no Brasil, o que mostra o quanto estamos atrasados mesmo…

    Parabéns pelo texto, mais uma vez!

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