Por Micael Machado
Fotos por Luciana Capaverde
O álbum Selvagem? (1986), dos Paralamas do Sucesso, foi um dos primeiros vinis que eu tive, se é que não foi o primeirão. Comprei lá por 1986, 1987, e ouvi tanto que literalmente “gastei” o disco, e acabei entregando-o numa troca, pois certas partes já estavam bastante difíceis de escutar. Por isso, quando soube que o grupo iria se apresentar em Porto Alegre em um show especial celebrando os vinte e cinco anos desse que é, para mim e para muitos fãs dos brasilienses, o melhor disco da carreira da banda, e ainda mais no Opinião, para mim o melhor local para espetáculos musicais da capital gaúcha, não hesitei em garantir o meu ingresso, apesar do salgado preço cobrado pela produtora.
Cheguei ao Opinião já meio “em cima” da hora, e encontrei o local lotado como há tempos não via. Aliás, para mim foi incompreensível colocarem os Paralamas para tocar em um local tão pequeno, apesar da excelente estrutura. Eu já havia visto a banda duas vezes, ambas no Gigantinho, onde a capacidade de público é umas sete vezes maior que no tradicional bar portoalegrense, e a quantidade de gente que havia para prestigiar Herbert Viana (guitarra e vocais), Bi Ribeiro (baixo) e João Barone (bateria) naquelas ocasiões era enorme. Tenho certeza de que, se o show fosse em um local maior, o público compareceria em número ainda maior, sendo que, para ajudar, a data era véspera de feriado, ou seja, um convite à festa!

Devido à lotação intensa do bar, acabei ficando em um local bastante afastado do palco, o que, no caso do Opinião, não chega a ser um problema maior, pois a estrutura do local permite uma boa visibilidade de praticamente qualquer parte do prédio. O que atrapalhava eram algumas pessoas à minha frente, que tiravam minha visão do palco. Mas, graças ao velho truque de colocar uma pessoa bem mais baixa que eu na minha frente (no caso, a querida Luciana, autora das fotos deste post), fazendo com que o pessoal da frente abrisse espaço para ela poder ver alguma coisa, pude finalmente ter uma visão mais adequda do palco, e curtir assim a trilha totalmente anos 80 que rolava no som mecânico, colocando a galera no clima de celebração que a noite tinha enquanto o grupo não começava o seu show.

Com pouco mais de meia hora de atraso (como é comum no Brasil), o trio subiu ao palco, acrescido como sempre de João Fera nos teclados, além de um percussionista convidado e da lenda viva Arnolpho Lima Filho (o Liminha, ex-Mutantes) na segunda guitarra. Para mim, mais um motivo de comemoração, pois era a primeira vez que eu conferia in loco um membro de uma das mais importantes bandas que o Brasil já viu.

Liminha e Herbert, dois grandes guitarristas, com João Barone ao fundo
Abrindo com “Selvagem”, que no disco é a primeira música do lado B, o grupo seguiu tocando o disco homenageado na sequência original, deixando a faixa de abertura, o megahit “Alagados”, para o final. Claro que o público foi ao delírio com sucessos tais como “A Novidade”, “Melô do Marinheiro”, “Você” (cover de Tim Maia que, como o Paralamas costuma fazer, foi emendada com “Gostava Tanto de Você”, outra música do Síndico, mas que não está presente no álbum) e as duas músicas citadas. Mas eu, como sempre, agitei mesmo foi com as desconhecidas “Teerã”, “There’s A Party” e a instrumental “Marujo Dub” (quem diria que um dia eu iria ouvir esta música sendo tocada ao vivo?), músicas que eu não ouvia mais ou menos há uns vinte anos, além de me surpreender ao constatar que ainda lembrava praticamente inteiras as letras de “O Homem” e “A Dama e o Vagabundo”, canções que pensava já nem lembrar como eram!
Visão geral do palco
O grupo não tocou “Terrã Dub”, que na época saiu como bônus da versão em cassete, e depois foi incorporada ao CD. Mas, nos quarenta e poucos minutos de execução do disco, voltei aos meus doze anos, ouvindo e berrando as letras daquelas antigas canções como se estivesse novamente no meu quarto de adolescente no interior do RS, e tentando segurar as lágrimas que teimavam a aparecer quando as boas recordações invadiam minha mente. Emocionante foi pouco, mas segurei a barra.

Após “Alagados”, Herbert agradeceu ao público, e disse que o set até ali tinha sido especial, mas que agora era hora de passear pelo resto da carreira do grupo. Com “Calibre”, começou a parte “greatest hits” do show, que passou por canções como “O Beco” (uma de minhas favoritas da longa discografia dos Paralamas), “Lanterna dos Afogados”, “Cuide Bem do seu Amor”, “Ela Disse Adeus”, “Loirinha Bombril”, “Caleidoscópio” e “Meu Erro”, dentre outras, encerrando com a clássica “Vital e sua Moto”. Posso não ter dançado tanto quanto na primeira vez que assisti ao grupo, mas foi um grande show, que deixou claro mais uma vez o quanto os três são bons instrumentistas (alguma outra banda do chamado BRock teria músicos de tão alto gabarito em suas fileiras? Penso que não!), apesar de jogarem seu talento nas canções e não no virtuosismo barato, de certa forma justificando o apelido de “Police Brasileiro” que carregam há tempos.

Herbert comandando os pedais com a mão
Como era esperado, retornaram para o bis, tocando “Uma Brasileira”, o cover “Sonífera Ilha”, dos amigos Titãs (com Herbert anunciando que a banda sempre adorou a banda paulista), e uma versão quase hardcore da excelente “Ska”. O grupo se retirou anunciando o final do espetáculo, mas, como o público não arredava pé do local, voltaram ao palco, e Herbert brincou dizendo que iria testar a memória do público. Vieram então a muito aguardada “Óculos”, e uma repetição de “Alagados”. Confesso que achei estranho tocarem novamente esta música, tendo tantos outros hits para escolherem em seu repertório. Mas o arranjo modificado da canção, acrescida dos metais (trombone e saxofone, que não participaram em nenhum momento durante a execução do disco Selvagem?, entrando em cena apenas durante a segunda parte do show), justificou plenamente sua inclusão, ficando bastante diferente da versão “original” executada antes. Além disso, ficou toda a impressão de que este segundo bis foi algo espontâneo devido à resposta do público, e não algo planejado e “roteirizado”. Fiquei esperando alguma menção aos quinze anos da morte de Renato Russo, que sempre foi muito amigo de Herbert, mas esta não veio, sendo substituída por uma homenagem à Raul Seixas, com citações da letra de “Sociedade Alternativa”, numa atitude da qual não consegui compreender o motivo, embora não seja necessário termos algum para homenagear Raulzito, certo?
Herbert soltando a voz

Enfim, foram quase duas horas de muita diversão, festa e boa música. Apesar da sensação de saudosismo que não podia ser evitada em um caso como este (a celebração de um momento único na vida de quase todos que ali estavam, um quarto de século depois), a alegria por reviver boas memórias foi superior a qualquer inconveniente que possa ter acontecido.

Como tive de declarar em determinado momento, éramos todos “bem vindos aos anos oitenta!”. Um tempo bom que não volta mais!

Set list:

1. Selvagem
2. Teerã
3. Melô do Marinheiro
4. Marinheiro Dub
5. A Novidade
6. There’s a Party
7. A Dama e o Vagabundo
8. O Homem
9. Você / Gostava Tanto de Você
10. Alagados

Parte 2

11. O Calibre
12. Ela Disse Adeus
13. Cuide Bem do Seu Amor
14. A Lhe Esperar
15. Meu Erro
16. O Beco
17. La Bella Luna
18. Caleidoscópio
19. Lanterna dos Afogados
20. Loirinha Bombril
21. Vital e Sua Moto

Primeiro Bis

22. Uma Brasileira
23. Sonífera Ilha
24. Ska

Segundo Bis:

25. Óculos
26. Alagados

1 comentário

  1. diogobizotto

    Legal, não sou fã nem nada da banda, mas não ignoro que ela é possuidora de muitas qualidades. Certamente trata-se de uma das melhores formações egressas do rock brasileiro dos anos 80, que ainda consegue levar sua carreira com dignidade. O recurso de apresentar "Selvagem?" na íntegra não me parece uma tentativa de emular saudosismo barato, mas sim uma celebração totalmente válida.

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