Por Mairon Machado
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Com mais de 40 anos de carreira, o Yes teve apenas três guitarristas empunhando as seis cordas: Peter Banks (1968 – 1970), Steve Howe (1970 – 1980 / 1991 / 1996 – 2011) e Trevor Rabin (1983 – 1995). Entre eles, apenas Banks não teve tempo para mostrar seu talento como merecia, gravando somente dois discos e depois partindo para uma carreira sem muito destaque no bom grupo Flash, onde gravou mais três discos.
Já Howe, o que permaneceu (e permanece) mais tempo liderando a guitarra do grupo, deixou para trás muitos discos, sendo alguns deles talvez o que melhor foi produzido no rock progressivo, como Close to the Edge (1972), Tales from Topographic Oceans (1974) e Going for the One (1977). O disco mais polêmico da carreira do Yes possui Howe nas guitarras, o excelente Drama (1980), que desagradou aos fãs na época de seu lançamento por não conter a voz de Jon Anderson, líder e mentor do Yes desde sua criação. Porém, hoje Drama é reconhecido como um grande álbum, estando inclusive na lista dentre os cinco melhores da carreira do grupo para este que vos escreve.
A formação clássica da era Rabin: Trevor Rabin, Alan White, Jon Anderson, Chris Squire e Tony Kaye
A entrada de Trevor Rabin em 1983, deu uma cara moderna ao grupo, puxando para o lado pop e fazendo sucesso com o álbum 90125 (1983), através principalmente da clássica “Owner of a Lonely Heart”, sucesso estrondoso nas paradas mundiais. Ao mesmo tempo que 90125 se destaca como um álbum repleto de canções grudentas, e que fizeram muito sucesso, os fãs dessa fase torcem o nariz quando falamos no segundo álbum gravado por Rabin ao lado do Yes, Big Generator (1987), que mesmo tendo um estilo similar ao seu antecessor, não agradou nem aos novos fãs e tampouco aos velhos fãs, que consideram esse álbum o pior da carreira do grupo.
Rabin e Howe gravaram juntos no Yes (apesar de não terem entrado juntos no estúdio) o álbum Union, que soou mais como uma falcatrua para elevar o nome do grupo do que como uma união musical entre amigos.
Depois Howe saiu, e Rabin comandou o Yes nas guitarras por mais um álbum. Que álbum é esse? Bom, quase ninguém fala do coitado. Seria ele tão ruim que não merece ser citado como pior do Yes por que o Big Generator pelo menos tem algo que escapa. Ou seria ele tão ruim que não deixou nada de relevante para a carreira do Yes.
Bom, o álbum de que estou falando é Talk, lançado em 1994, e está longe de ser um disco ruim. Pelo contrário, da fase Rabin, para mim é o melhor e muito à frente (mas bota muito nisso) de 90125, estando em um nível entre os discos medianos com Howe (Open Your Eyes, de 1998; The Ladder, de 1999 e Tormato, de 1979) e a estreia psicodélica do grupo com Banks, no grande álbum Yes, de 1969. Ao lado de Rabin, estão o citado Jon Anderson (vocais, percussão, violão), Tony Kaye (teclados, voz), Chris Squire (baixo, vocais) e Alan White (bateria, piano).
Jon Anderson
“The Calling” é a responsável por abrir os trabalhos, com o violão de Rabin fazendo os acordes iniciais, trazendo as vocalizações cantando o refrão, para surgir uma boa canção com uma levada meio boogie de White, tendo Anderson como vocalista principal, com um grudento refrão que marca logo na primeira audição. Essa foi a primeira canção desse álbum que eu ouvi, e ainda hoje, me arrepio com as vocalizações do refrão. Outro momento de destaque é o solo de Kaye, que raramente aparece para fazer algo desse nível. Só essa canção vale mais do que qualquer uma de 90125, Big Generator ou Union, mas o Yes apenas havia começado a preparar o jantar.
A bonita “I Am Waiting” vem na sequência, com o manhoso tema de Rabin e Kaye levando para o solo de abertura, que está na linha da famosa “Lift Me Up” (de Union), onde os vocais cristalinos de Anderson são o ponto de maior atração, em uma canção muito leve e sedutora. A entrada de Rabin torna a canção mais pesada, com vocais gritados que apenas azeitam o andamento leve de “I Am Waiting”, voltando ao ponto original na mesma linha encantadora.
Alan White e uma fã
Depois, é a vez de “Real Love” surgir. Segunda maior canção, com quase nove minutos, é um exemplo de que Talk não foi planejado para ser igual aos outros discos da era Rabin, já que cinco das sete canções possuem mais de seis minutos. Essa canção em específico é a que menos gosto. Mas longe de ser ruim. Sua introdução com teclados, baixo e violão é muito sinistra, diferente e por vezes assustadora. Os vocais de Anderson surgem, acompanhados por programações e pelo sinistro tema introdutório.
Aos poucos, a canção vai ganhando corpo, em um ritmo cadenciado que leva as vozes de Anderson e Rabin, sobrepostas, chegando no bom refrão, onde os dois cantam entre dedilhados de guitarra, longos acordes de sintetizadores e o cadenciado andamento de White e Squire. A introdução é repetida, e Rabin despeja distorção na guitarra, voltando ao refrão. Mesmo a sessão viajante do centro da canção não consegue levantar o ânimo, e o Yes talvez tenha exagerado na duração da canção, que encerra-se com mais uma repetição do refrão e o solo pouco inspirado de Rabin, rodeado por muitos teclados e sintetizadores.
“State of Play” coloca a casa em ordem, com uma introdução marcante da guitarra de Rabin e um andamento bem anos oitenta da bateria de White e do baixo de Squire. As vocalizações são acompanhadas por violão, cantando o início da letra, deixando Anderson sozinho apenas no refrão, em uma canção que sim, poderia facilmente estar presente em 90125
Roger Hodgson, do Supertramp, aparece em “Walls“, que também poderia estar presente em 90125. A introdução da guitarra traz a voz de Hodgson e Rabin cantando a canção, em um ritmo muito leve, que vai crescendo com o desenvolvimento da mesma, deixando para trás mais um grudento refrão, cantado por Anderson, Hodgson e Anderson. 
“Where Will You Be” é a mais progressiva até esse momento, lembrando muito as canções do álbum Anderson Bruford Wakeman Howe (1989), com um andamento percussivo onde Anderson solta suas palavras e sílabas que constroem a letra da canção. Kaye é quem mais se destaca com suas intervenções nos sintetizadores, bem como Rabin, fazendo o solo central da canção no violão com cordas de aço, com escalas velozes bem no seu estilo.
Trevor Rabin e Chris Squire

O CD encerra-se com a melhor canção da carreira de Rabin, a longa suíte “Endless Dream”. Dividida em três partes, a parte 1, chamada “Silent Spring” é uma pequena obra-prima. O piano elétrico de Kaye eas marcações de baixo, guitarra e bateria, com um peso arrebatador, faz Rabin arrancar gritos ensurdecedores da guitarra, chegando na complicada sessão marcada entre guitarra, bateria, baixo e teclados, em algo similar a introdução de “Changes” (90125), porém mais harmonioso e bonito, com Kaye e Rabin fazendo pequenos duelos nos teclados entre as sessões marcadas.
Trevor Rabin
Entramos então na segunda parte, batizada de “Talk“, onde o piano elétrico acompanha a voz repleta de distorções de Rabin. Ao que parece, quem está tocando piano nessa parte da canção é Rabin. A letra continua, tendo apenas o acompanhamento do piano elétrico e pequenas intervenções da guitarra.
Então, o piano muda a melodia, trazendo a cristalina voz de Anderson cantando na mesma melodia, com o acompanhamento de Squire, crescendo com a entrada do hammond, onde bateria, baixo e guitarra executam um tema marcado, parando a canção. Longos acordes de sintetizadores abrem espaço para o talk-box de Rabin soar, entre barulhos e programações diversas, com Rabin e Anderson dando sequência à letra.
Rabin repete o tema da entrada da voz de Anderson, trazendo o próprio Anderson para continuar a letra com o leve andamento de White, Kaye, Squire e do violão. Kaye brilha, com uma excelente sessão de acordes viajantes nos sintetizadores, voltando para a sombria introdução de “Silent Spring”, com Rabin arrancando notas ainda mais assustadoras.
“Silent Spring” é repetida, porém com um solo levemente diferente, voltando para a sequência da letra, cantada por Rabin e com intervenções de Anderson, chegando no apoteótico momento, com todos cantando juntos, para Anderson e Rabin dividirem as palavras finais da canção, concluindo “Talk” com um breve solo de Rabin.
A terceira parte então encerra a suíte, com uma pequena vinheta batizada de “Endless Dream“, a qual é apenas barulhos da guitarra talk-box e sintetizadores acompanhando as vocalizações que encerram a suíte de forma sutil e encantandora.
Billy Sherwood, Alan White, Trevor Rabin, Jon Anderson e Chris Squire
Logo após o lançamento de Talk, uma turnê mundial foi realizada, inclusive passando pelo Brasil. Kaye acabou senso substituído por Billy Sherwood,  que já estava participando dos shows da turnê. Essa formação não durou muitas semanas depois disso, criando um hiato de dois anos. Somente em 1996 o Yes voltaria a ação, agora com Steve Howe novamente nas guitarras, resgatando o lado progressivo dos anos 70 nos excelentes Keys to Ascension 1 e 2, permanecendo na ativa até os dias de hoje.
Talk acabou sendo menosprezado talvez por que o fã do Yes já havia saturado das performances virtuosas de Rabin, e depois da falcatruagem que foi Union, muitos já não acreditavam que o grupo conseguisse fazer algo real e de valor. Tolice banal e sem sal. Ouvir Talk é desfrutar da sensação privilegiada de se comer bergamota ao sol durante o inverno. Somente os que experimentam com dedicação sabem o que isso significa!

Track list:

1. The Calling
2. I Am Waiting
3. Real Love
4. State of Play
5. Walls
6. Where Will You Be
7. Endless Dream

3 comentários

  1. diogobizotto

    "Talk" é um dos discos do Yes mais desconhecidos para mim. A única que já ouvi é "The Calling", que é muito, mas muito legal! Refrão grudento sem perder o bom gosto. Pop? Muito! Mas e daí?

    Ah, e para quem não sabe: "bergamota" é como nós gaúchos chamamos a tangerina, também conhecida em outras bandas como "mexerica".

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  2. Mairon Machado

    Diogo, tu és uma pessoa que certamente irá gostar de Talk. A sonoridade é uma mescla de AOR com progressivo. Creio que alves somente Real Love não agrade teus ouvidos, mas o resto vai firme que não vais te arrepender

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  3. Dave

    Ainda não dei a devida atenção a este disco… É sempre bom ler alguma resenha sobre estes discos "esquecidos" do Yes. Ainda vou parar pra ouví-lo.

    Eu sinto a mesma coisa com o Tormato. Eu gosto DEMAIS deste disco, da primeira à última música. Mas parece que sou só eu, rs.

    Abraço.

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