Por Diogo Bizotto
O Celtic Frost foi uma das bandas mais importantes na minha formação como ouvinte de música. Em uma época na qual estava mais habituado às sonoridades mais confortáveis de baluartes do heavy metal e do hard rock, assim como variações mais “mansas” do estilo, travar conhecimento com os álbuns To Mega Therion (1985) e Into the Pandemonium (1987), adquiridos de uma só vez, foi tão importante quanto todo o tempo passado ouvindo um disco como Ride the Lightning (Metallica, 1984), proporcionando um mergulho cada vez mais profundo em sonoridades extremas e iniciando uma série de descobertas.

Apesar de nunca ter obtido um sucesso de nível mainstream nem ter superado o status de banda pequena para média, é inegável o fato do Celtic Frost ter sido um grupo legitimamente seminal, pioneiro em levar o heavy metal a fronteiras então inexploradas junto a outras bandas como Venom e Bathory, além do Hellhammer, espécie de primeira encarnação mais crua e menos ambiciosa do Celtic Frost. Mais que uma ideia musical, o projeto levado adiante por Thomas Gabriel Fischer, o Tom Warrior (guitarra, vocal), e Martin Eric Ain (baixo), carregava a bandeira do extremismo em outras frentes: imagem, letras, o clima tétrico e mórbido… Tudo isso foi ilustrado com propriedade em Morbid Tales (1984), primeiro álbum dos suíços, mesclando influências do recém nascido thrash metal e da NWOBHM (New Wave of British Heavy Metal) com elementos góticos, ajudando a criar e moldar aquilo que mais tarde viria a ser conhecido como death e black metal.

Contando com a adição de um baterista fixo, o norte-americano Reed St. Mark, To Mega Therion (1985) continuou a saga em um nível ainda mais elevado, apesar da breve saída de Martic Eric Ain, que retornaria em seguida (Dominic Steiner gravou o baixo), compondo o trio que se notabilizou como a clássica formação do Celtic Frost. O álbum, apesar de manter o extremismo, adicionou toques dramáticos, emulando uma violência épica através do uso de instrumentos de sopro, coros e vocais femininos, além de uma produção adequada. Além disso, a capacidade de Thomas como compositor estava no auge, tornando To Mega Therion um dos melhores e mais influentes álbuns de heavy metal registrados nos anos 80. Músicas como “Dawn of Meggido”, “The Usurper”, “Circle of the Tyrants”, e “Necromantical Screams” ilustram bem sua importância e influência, infinitamente maior que sua repercussão comercial.

Celtic Frost em 1985: Reed St. Mark, Thomas Gabriel Fischer e Martin Eric Ain

Em Into the Pandemonium (1987), o trio levou ainda mais além suas experimentações. Ao lado de uma música tipicamente thrash metal, como “Inner Sanctum”, encontra-se “Tristesses de La Lune”, faixa de inspiração erudita contando com vocais femininos, na verdade uma poesia do francês Charles Baudelaire transformada em canção. Além disso, o atípico cover para “Mexican Radio”, do grupo new wave norte-americano Wall of Voodoo, e a essencialmente eletrônica “One in Their Pride”, serviram para reforçar mais ainda o status experimental de Into the Pandemonium. Até mesmo o vocal de Thomas sofreu alterações, ora soando como nos álbuns anteriores, de maneira agressiva, próxima ao estilo gutural, ora soando como um lamento melancólico, em canções como “Babylon Fell”.

Apesar da constante evolução, nenhuma dessas novidades inseridas no álbum anterior poderia indicar quão brusca seria a mudança operada através de Cold Lake. Mesmo obtendo reconhecimento da crítica, que enxergou Into the Pandemonium como um disco à frente de seu tempo, tensões entre os membros, além de problemas financeiros e com a gravadora, levaram à total dissolução do Celtic Frost após a turnê batizada como “One in Their Pride Tour”, que contou com a adição de um segundo guitarrista, o norte-americano Ron Marks.

Após um tempo parado, Thomas Gabriel Fischer reativou o Celtic Frost com o apoio e o incentivo do produtor Tony Platt e do guitarrista Oliver Amberg (ex-Coroner), que se juntou ao line-up. Para completar a formação, foi adicionado o baixista Curt Victor Bryant, além de um velho conhecido, o baterista Stephen Priestly, que havia registrado o álbum Morbid Tales, apenas como integrante em estúdio. Em conjunto com Oliver, talvez o maior instigador da nova sonoridade, Tom Warrior, dessa vez assinando apenas como Thomas Gabriel, compôs canções que surpreendentemente aproximaram-se do glam metal tão em voga na época. Esse preponderante fator, somado ao visual totalmente alinhado à sonoridade, estimulado por Michelle Villanueva, então namorada de Thomas, resultou em uma completa rejeição por parte dos antigos fãs do Celtic Frost.

Celtic Frost em 1987, com Ron Marks (à direita)

Apesar de Cold Lake ter sido relativamente bem sucedido nos Estados Unidos, hoje em dia o próprio guitarrista e vocalista arrepende-se de seu resultado. Com a intenção de esquecer o então recente passado conturbado, e feliz por contar com músicos realmente a fim de colaborar, liberando-o de muitas responsabilidades, Thomas acabou relaxando a ponto de perder o controle sobre o direcionamento que o álbum estava tomando. Longe de querer se eximir de alguma culpa, Fischer costuma não se esquivar de perguntas a respeito do registro, mas quando do relançamento da discografia, ocorrida em 1999, ignorou a existência de Cold Lake, fato que elevou o preço das cópias usadas disponíveis no mercado, alcançando altas somas. Não à toa, conheço essa obra somente através dos arquivos em mp3.

Apesar de toda a rejeição, que persiste tanto com o músico quanto com seus fãs, Cold Lake merece ser ouvido com muita atenção antes de que se repitam os clichês espalhados por aí, muitas vezes proferidos por pessoas que se limitam apenas às facetas mais extremas do heavy metal. É difícil estabelecer uma comparação do Celtic Frost “colorido” com artistas que se notabilizaram por praticar o glam metal nos anos 80, pois ainda persiste uma personalidade distinta, algo indelével em se tratando de Thomas Gabriel Fischer, tanto nas composições quanto em sua voz, soando aqui de maneira mais estranhamente acessível, mas ainda assim diferente de qualquer vocalista hard rock da época.

A curta introdução “Human II” assusta logo de início, mesclando efeitos de guitarra, bateria eletrônica, conversas desconexas e até vocais no estilo rap, deixando o ouvinte desconfiado e/ou pessimista. A surpresa continua quando um riff hardeiro abre “Seduce Me Tonight”, revelando uma produção deficiente e uma sonoridade totalmente estranha ao passado recente, além de um sofrível e pretensamente malicioso “check this out”, primeira frase proferida por Thomas na música. Analisando sem direcionar nossos ouvidos para os registros anteriores, não se trata de uma faixa ruim, mas certamente de uma opção precipitada para abrir Cold Lake. Vez ou outra surgem resquícios do antigo Celtic Frost, mas insuficientes para tirá-la da posição de um dos pontos baixos do disco.

Formação que registrou Cold Lake: Oliver Amberg, Curt Victor Bryant,
Thomas Gabriel Fischer e Stephen Priestly

“Petty Obsession” e sua pegada mais heavy metal, incluindo um interessante riff de abertura e mais outros espalhados ao longo da canção, soa consideravelmente melhor, assim como a seguinte, “(Once) They Were Eagles”, certamente um dos destaques mais positivos, mesclando um andamento hard rock com alguns riffs beirando o thrash, união que, escutada em retrospecto, faz com que o álbum se diferencie em meio ao que se fazia na época.

Um ponto negativo precisa ser citado: Thomas nunca foi notável pelos seus solos de guitarra, quesito que jamais teve muita importância no contexto dos discos anteriores. Entretanto, em Cold Lake, Oliver Amberg ficou livre para alçar seus pequenos vôos solo, geralmente com pouco êxito, fazendo feio em relação a diversas bandas contemporâneas rotuladas como glam metal, que muitas vezes contavam com guitarristas competentíssimos, como George Lynch (Dokken), Warren DeMartini (Ratt) e Jake E. Lee (Ozzy Osbourne, Badlands).

A música que recebeu maior atenção e a tentativa de ser trabalhada com as rádios e a MTV foi “Cherry Orchards”, que conta com um riff de abertura que é pura NWOBHM. Escrita em tributo à atriz Marylin Monroe, trata-se de uma boa canção, mas que denota bem a interferência da namorada de Thomas, Michelle Villanueva, que executa alguns vocais na faixa. Dona de uma pegada mais thrash metal, “Juices Like Wine” peca pela execução, que poderia ser muito melhor trabalhada, além da magra produção de Tony Platt, que acabou por deixar o disco sem “corpo”, pouco denso. Outra que remete um pouco à NWOBHM é “Little Velvet”, mas que também acaba sucumbindo frente à má produção e à execução pouco esmerada.

“Blood on Kisses” soa surpreendentemente alegre face ao que estamos acostumados em se tratando de Celtic Frost, algo que parece menos estranho ao verificarmos que se trata de mais uma intervenção de Michelle, creditada como co-autora da faixa junto a Thomas. Rotulá-la como uma canção atípica é pouco! Muito melhor é “Downtown Hanoi”, outra a ilustrar uma boa mescla da nova faceta hard rock com o lado thrash do Celtic Frost. Elevando ainda mais a qualidade temos “Dance Sleazy”, que, caso tivesse recebido uma produção mais adequada, seria perfeita para se bater cabeça. Mesmo assim, seu riff principal é pegajoso, tornando a música uma das mais memoráveis de Cold Lake. Além disso, lembra o lado mais heavy metal do Ratt.

Onde está o velho Tom Warrior?

A conexão mais forte com os discos anteriores do Celtic Frost aparece em “Roses Without Thorns”. Apesar da sonoridade diferente, “mérito” da desastrosa produção, não é difícil imaginar sua presença em Into the Pandemonium, ao lado de clássicos consagrados. Uma surpreendente pegada hardcore aparece em “Tease Me”, além de referências ao passado, relembrando “Procreation of the Wicked” (de Morbid Tales) e seu marcante riff principal. Uma nova versão para “Mexican Radio” (ao vivo) fecha esse controverso álbum, sem acrescentar muito, apenas ajudando a construir o emaranhado de estranhezas no qual o Celtic Frost se configurava na época.

Da maneira que descrevi o track list de Cold Lake, é possível que tenha feito o álbum parecer ruim, apesar de contar com algumas canções dignas de nota. Em parte, essa é a realidade. Contudo, escutando-o de cabeça fria, sem buscar comparações, atesto tratar-se de um bom disco, muito melhor analisado em separado e em retrospecto, sem ater-se ao passado glorioso e influente do Celtic Frost. Se existe algo que faz com que Cold Lake seja avaliado com dureza, é o fato de que todos os outros discos do grupo liderado por Thomas Gabriel Fischer foram bastante superiores em sua proposta, composição, execução e produção, acabando por eclipsar as qualidades presentes em seu track list. Minha recomendação é a seguinte: não repita clichês sem conhecer o álbum, e o avalie sem se prender ao passado: nele existe muita música que merece ser ouvida.

Track list:

1. Human II
2. Seduce Me Tonight
3. Petty Obsession
4. (Once) They Were Eagles
5. Cherry Orchards
6. Juices Like Wine
7. Little Velvet
8. Blood on Kisses
9. Downtown Hanoi
10. Dance Sleazy
11. Roses Without Thorns
12. Tease Me [Faixa bônus em CD]
13. Mexican Radio (Live) [Faixa bônus em CD]

7 comentários

  1. diogobizotto

    Rodrigo, se você ainda não conhece o Celtic Frost, recomendo iniciar por "To Mega Therion", um discaço nota dez, ápice criativo de Thomas. Mas ouça "Cold Lake" sem medo, pois, de certa forma, sua sonoridade é única, não consigo pensar em nenhuma outra banda que tenha feito algo semelhante antes nem depois. Como descrevi, algumas músicas realmente valem a pena!

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  2. micaelmachado

    Confesso que, do Celtic Frost, este talvez seja o disco que menos conheça, embora tenha conhecido a banda através do clip de "Cherry Orchard" que passava seguido no Fúria Metal.

    Me parece o caso de um disco que, se tivesse o nome de outra banda na capa, teria se saído melhor. O problema é que o Celtic era referência em um certo estilo, e largou tudo para fazer um som bem diferente. Aí chocou o pessoal, que, conservador como todo bom headbanger fanático, não aceitou a mudança…

    Belo texto!

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  3. diogobizotto

    Eu não vejo como tão importante essa questão de mudar de nome para lançar álbuns diferentes, afinal, um artista não deve se prender a formatos, e sim, obedecer a seus instintos e fazer arte. Mas é inegável que, por exemplo, o recente álbum do Triptykon, "Eparistera Daimones", é muito mais Celtic Frost do que "Cold Lake".

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  4. Anônimo

    CELTIC FROST É INFLUÊNCIA ATÉ PARA O NAPALM DEATH.BANDA MAGNÍFICA!!

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  5. Anônimo

    Esse álbum,é injustiçado,pelo fato,de o Celtic Frost,vinha,de um estilo,mais visceral,sombrio.Se esse disco,tivesse,o nome de outra banda,certamente,teria sido,bem recebido.

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