Gov’t Mule – Live… With A Little Help From Our Friends (Collector’s Edition) [1999]

15 de agosto, 2011 | por Mairon
Resenha de Álbum
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Por Mairon Machado
O Gov’t Mule pode ser considerado como a versão moderna da grande The Allman Brothers Band. Essa definição não é à toa. Em 1989, o The Allman Brothers Band, uma das maiores bandas do southern rock norte-americano, que revelou ao mundo o gênio da guitarra Duane Allman, e gravou aquele que é considerado o melhor disco ao vivo da história, At Fillmore East, no ano de 1971, voltou à ativa depois de oito anos afastados.
Greg Allman, tecladista e cantor, irmão de Duane (que faleceu em um acidente de moto pouco depois do lançamento de At Fillmore East), reformulou o grupo, chamando os velhos companheiros Dickey Betts (guitarra, vocais), Butch Trucks (bateria) e Jaimoe Johanson (bateria), além dos novatos Johnny Neel (teclados, percussão), Warren Haynes (guitarras, vocais) e Allen Woody (baixo).
Warren Haynes, Matt Abts e Al Woody

A reunião do The Allman Brothers Band foi bem sucedida, com turnês e discos que fizeram relativo sucesso, até que houve uma pausa em 1994. Nessa pausa, Haynes, Woody e o baterista Matt Abts formaram o grupo Gov’t Mule, sendo que Abts também tinha uma relação com o The Allman Brothers Band, já que havia trabalhado com Dickey Betts na Dickey Betts Band.

A estreia do grupo ocorreu com o álbum homônimo, em 1995, e no ano seguinte lançaram o primeiro álbum ao vivo, Live from Roseland Ballroom, gravado ao vivo na virada do ano novo de 1995 para 1996.  Em 1998, o grupo lançou Dose, e, como uma sequência de Gov’t Mule, acabou registrando o show da virada do ano novo de 1998 para 1999 no álbum Live… With a Little Help from Our Friends.
Capa da versão dupla

Lançado em dois formatos, um duplo e um quádruplo, vou me concentrar na versão quádrupla, sendo que a dupla é um Best Of da versão aqui analisada, batizada de Live… With a Little Help from Our Friends (Collector’s Edition). Em uma noite inspirada, o trio acima, e mais os amigos do título do álbum Mark Ford (Black Crowes, guitarras), Chuck Leavell (Rolling Stones, no piano), Derek Trucks (The Allman Brothers Band, guitarra), Bernie Worrell (Parliament-Funkadelic, órgão), Yonrico Scott (Derek Trucks Band, bateria), Randall Bramblett (Stevie Winwood Band, saxofone) e Jimmy Hering (The Dead, Project Z, guitarras) soltaram petardos inspirados, registrando mais de quatro horas de pura adrenalina, técnica, improvisações e transpiração, registradas segundo por segundo na belíssima caixa quádrupla.

Warren Haynes
É difícil dizer qual o maior destaque. Começando pelas homenagens, o Gov’t Mule apresenta diversos covers para os seus fãs. Grupos de diferentes estilos tiveram o prazer de receber versões pesadas e temperadas com o sabor southern do The Allman Brothers Band que foi assimilado por Haynes e Woody. Assim, temos: “War Pigs” (Black Sabbath); “30 Days in the Hole” (Humble Pie); “Mr. Big” (Free); “The Hunter” (Albet King, famoso com Ike & Tina Turner); “Look on Yonder Wall” (James Clark); “32 – 20 Blues” (Robert Johnson); “Spanish Moon” (Little Feat); “Sad and Deep as You” (Traffic); “Third Stone from the Sun” (Jimi Hendrix); “Cortez the Killer” (Neil Young); “Afro-Blue” (Santamaria, famosa com John Coltrane) e “Pygmy Twylyte” (Frank Zappa), essa gravada em estúdio. 
Cada uma das versões possui uma propriedade característica, mas em todas estão presentes doses e doses de improvisações e talento musical que acabam levando o ouvinte facilmente ao delírio. A slide guitar de Haynes é o que brilha mais, obviamente, mostrando por que ele é um dos melhores guitarristas da atualidade, e por que foi chamado para ocupar a difícil posição de Duane Allman no The Allman Brothers Band. Woody e Abts também mandam muito bem, exercendo com dignidade e perfeição o papel de incendiários da locomotiva de solos que é Haynes.
Al Woody

As canções próprias do Gov’t Mule também são representantes de muita inspiração e transpiração. “Thorazine Shuffle”, por exemplo, apresenta um belíssimo duelo entre Abts e Yonrico. A balada “No Need to Suffer” arrepia com os solos de Haynes, utilizando harmônicos, sustains e muitos bends, seguida pela bela vinheta “Dolphineus”, tendo Haynes fazendo escalas orientais na guitarra acompanhado pelos pratos de Abts.

É após essa pequena vinheta que presenciamos o começo real do álbum. A contagem regressiva a partir do 10 nos leva para a virada do ano novo. Haynes anuncia: “happy new year”, e então o trio detona em uma estupenda versão para “War Pigs”. Dali por diante, trata-se de um passeio musical, com convidados entrando e saindo, e com a maioria das canções superando os oito minutos.
A versão de “Soul Shine”, gravada pelo Allman Brothers, mas composta por Haynes, ganhou uma bela revisão com os teclados de Leavell e Worrell, ficando bem sessentista e flower power, com Haynes estourando seu vozeirão rouco no emotivo refrão da canção, em dez minutos de belas passagens instrumentais e vocais.
Matt Abts
Ainda nesse segundo grupo de canções, destaques principalmente para “Third Stone from the Sun” e “Afro-Blue”. Na segunda, Bramblett ressucita Coltrane no tema principal e no fervoroso solo, além dos duelos entre Haynes e Trucks e do maravilhoso solo de Abts. 26 minutos de muita emoção e redenção para essa perfeita homenagem ao maior saxofonista dá história do jazz e da música, sendo essa a canção que encerrou a noite.
Já a canção de Hendrix é o momento de orgasmo da caixinha. A introdução com a bateria traz o baixão de Al fazendo as conhecidas notas da canção. Haynes, Ford e Trucks deliram com as guitarras, fazendo misérias com o instrumento. O tema da canção, conhecido pela maioria dos apreciadores de música, é feito com tanta reverência que podemos sentir Hendrix presente no local, e a participação de Bramblett ao lado das guitarras gerou ainda mais potência para a canção. A perfeita mistura do som do The Allman Brothers Band com a psicodelia de Hendrix é de fazer você parar o que estiver fazendo, e apenas curtir a sonzeira feita pelo Gov’t Mule e seus amigos, encerrando com a famosa “We Wish You a Merry Christmas” entoada por Leavell no órgão.
Aliás, sonzeira é o que não falta, e mesmo a versão dupla é um bom pedaço de picanha ao ponto para a suculenta costela 12 horas que está na caixa quádrupla.
Haynes, Abts e Woody, versão acústica

Para completar, o quarto CD ainda traz vídeos do grupo como bônus, sendo um up a mais nesse maravilhoso CD, que contém também outras surpresas para o fã que adquire a versão de colecionador. Live… With a Little Help from Our Friends (Collector’s Edition) também é o último registro ao vivo de Alen Woody, que faleceu no dia 25 de agosto de 2000. 
Com certeza, os que estiveram presentes na virada do ano durante este show em Roxy in Atlanta, na Georgia, começaram o ano de 1999 com um dos melhores dias de suas vidas.
Track list (da Collector’s Edition):
Disco 1:
1. Wandering Child
2. Thorazine Shuffle
3. No Need to Suffer
4. Dolphineus
5. War Pigs
6. 30 Days in the Hole
7. Mr. Big
8. The Hunter
Disco 2:
1. Gambler’s Roll
2. Look on Yonder Wall
3. 32 – 20 Blues
4. I Shall Return
5. Soushine
6. Mule
Disco 3:
1. Spanish Moon
2. Sad and Deep as You
3. Third Stone from the Sun
4. Devil Likes it Slow
5. Cortez the Killer
Disco 4:
1. Afro-Blue
2. Pygmy Twylyte



4 Comentarios

  1. Fábio RT disse:

    Cara…lembro que li que este disco tem vária partes refeitas em estúdio pois eles tiveram muitos problemas com os canais de gravação no dia de registrar a performance…por isso lançaram a versão simples de dois CDs que contém as performances que não tiveram overdubs… sendo lançada a versão quadrupa com o que deveria ter sido o lançamento original caso não tivessem tido tantos problemas…não sei se procede esta informação….

  2. Anônimo disse:

    Eu até gostaria mais do Gov't Mule, é uma banda competente com músicos excelentes, principalmente o Warren Haynes, que é uma guitarrista fantástico, um dos melhores da nossa geração. Agora tem alguns pontos negativos – primeiro (e mais fundamental), acho que não são bons compositores. Tem ótimas baladas, mas acho que as composições deles em geral não "fecham", não tem aquela inspiração. Se valem de algumas "frases de efeito" digamos assim, mas o resultado ao todo não me convence. Segundo ponto – a banda parece que tem o "freio de mão puxado". Tocam lento e arrastado demais pro meu gosto. Não tem aquela coisa do "zeppelin de chumbo", de ser pesado e flutuar ao mesmo tempo. Tá mais pra tanque de guerra msm. Terceiro, acho a voz do Warren Haynes exageradamente forçada. Se ele cantasse mais naturalmente, sem emular aquele vocal soul o tempo todo, ficaria melhor. Também me incomoda um pouco esse excesso de discos ao vivo e de covers, apesar de isso já ter se tornado uma marca da banda.
    Belo texto, Mairon, como sempre!
    Abraço!
    Ronaldo

  3. diogobizotto disse:

    Olha só, Ronaldo… apesar de gostar muito da banda e a considerar facinho como uma das mais interessantes a surgir nos anos 90, concordo com muita coisa que disseste. Há quem incense bastante o grupo por ele representar uma sonoridade fora de sua época, emulando com classe o trabalho que grandes baluartes fizeram, em especial nos anos 70, mas falta uma certa identidade própria e uma boa quantidade de composições de fazer o ouvinte pular do sofá e pensar "PUTA QUE PARIU!", como já fiz diversas vezes ao ouvir os clássicos (e outras músicas nem tão clássicas) dos tais baluartes.

    A competência instrumental do grupo é uma realidade muito bem estabelecida, e gosto de Warren, só acho que o pessoal acaba sendo um pouco condescendente com as bandas surgidas dos anos 90 em diante que emulam essas facetas do passado. Falta um tanto de representatividade para o Gov't Mule, e para dar um exemplo, cito uma banda dos anos 90 e seu principal álbum, "Dirt", do Alice in Chains, esse sim um legítimo representante de que os anos 90 renderam coisa boa, olhando pra frente e botando pra fora com originalidade as influências do passado.

  4. Southern Man disse:

    Desculpe a intromissão, mas não há como não comentar em cima dos comentários acima, sou uma das testemunhas da famigerada vinda do Gov't Mule no Nescafé Blues em 96, e digo que ainda ecoam nos meus timpanos o blues "Gambler's Roll", um puta blues que eu testemunhei a execução e fiquei atordoado com o timbre de guitarra e com a voz do cara, a versão de "Presence of the Lord" me deixou atordoado, sai comprando tudo o que vi pela frente, adquiri o auto entitulado Gov't Mule, bastou apenas 10 segundos de "Grinnin Your Face" à capela pra que eu sucumbisse ao talento dos envolvidos do Gov't Mule e descobri que aquele maluco era membro do Allman Brothers, e dona da pérola Gambler's Roll..
    desde então virei um sudito do cara, ele é um dos maiores músicos da história, um baita compositor e cantor de personalidade única!!!
    desculpe a intromissão, mas me vi na obrigação de defender um de meus ídolos, coisa de "bolha" rsrs
    parabéns pelo texto

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