Cinderella nos anos 80: Fred Coury, Tom Keifer, Eric Brittingham e Jeff LaBar

Por Diogo Bizotto
A década de 80 foi inundada por uma série de bandas que, musicalmente influenciadas pelos roqueiros seminais dos anos 60 e 70 e visualmente aderindo ao estilo espalhafatoso do glam rock, praticavam um hard rock ao mesmo tempo metalizado e com fortes tendências pop, que caiu no gosto do público ao redor do globo, acumulando discos de platina e realizando extensas turnês mundiais. É claro que, como em qualquer gênero que se preze, em meio a bons artistas existiam grupos ruins, derivativos, que em nada acrescentavam musicalmente. Outros, apesar de exibir talento, foram colocados no mesmo balaio desses, não recebendo a atenção merecida da crítica. Acredito que o Cinderella, originário da Filadélfia (EUA), constitua um exemplo desse caso. Ao longo de seus apenas quatro álbuns de estúdio, o trio formado pelo vocalista, guitarrista, tecladista e principal compositor Tom Keifer, pelo baixista Eric Brittingham e pelo guitarrista Jeff LaBar, normalmente acrescido do baterista Fred Coury, demonstrou que era muito mais que apenas uma banda pop metal genérica, inserindo influências diversas em sua música, em especial generosas doses de blues. A carreira da banda sofreu alguns golpes, principalmente devido a problemas com a aguda voz de Tom Keifer, fato que provocou alguns períodos de afastamento do Cinderella dos palcos e especialmente dos estúdios. De tempos em tempos o quarteto se reúne e realiza séries de shows, mas está devendo um disco de inéditas desde 1994. If you don’t like it… If you don’t like it I don’t care!
Night Songs [1986]
Disparado o álbum mais metálico do Cinderella, Night Songs assusta de cara pela capa, exibindo seus quatro integrantes totalmente produzidos como a cartilha do glam metal oitentista mandava. Apesar de posar ao lado dos outros integrantes e ter sido creditado, o baterista Fred Coury não chegou a tempo de tocar no disco, tarefa ocupada pelo músico de estúdio Jody Cortez. Da abertura com a lúgubre (e excelente) faixa-título até o encerramento com “Back Home Again”, Night Songs é um retrato de sua época, datado mas perfeito para provocar nostalgia. “Shake Me”, tentativa fracassada de emplacar um primeiro single, soa como uma mistura da malandragem do Aerosmith com a simplicidade efetiva do Kiss. Foi com o segundo single, a power ballad “Nobody’s Fool”, que o Cinderella conquistou os ouvidos do público, elevando Night Songs à terceira posição na Billboard e aos milhões de cópias comercializadas. Jon Bon Jovi, principal responsável pela indicação e consequente assinatura do quarteto com a gravadora Mercury Records, registrou vocais de apoio em “Nothin’ For Nothin'” e “In From the Outside”, além de ter convidado o Cinderella para abrir a turnê do álbum Slippery When Wet (1986), maior sucesso da carreira do Bon Jovi. “Push Push” traz um ótimo riff de abertura e já revela as tendências blues que Tom Keifer manifestaria com mais força em lançamentos posteriores. Outra que traz uma pegada simples é “Somebody Save Me”, um hit menor, mas certamente um dos destaques do álbum, com seu refrão investindo em backing vocals. A esperta “Once Around the Ride” e a rápida porém suingada “Hell on Wheels” completam o track list de um disco dinâmico, do tipo que, quando mal parece que começou, já está chegando ao fim.
Long Cold Winter [1988]
Desde a abertura com a introdução “Bad Seamstress Blues”, seguida de “Falling Apart at the Seams”, o Cinderella deu fortes sinais de que estava se afastando da pecha de banda glam metal, incorporando o blues como uma das principais fontes de sua sonoridade. Além de uma das mais marcantes canções da carreira do grupo, a vibrante “Gypsy Road” remete aos rocks pesados e cheios de balanço presentes em Night Songs. Apesar de sua boa performance ao vivo, chegando a substituir Steven Adler no Guns n’ Roses por alguns shows, enquanto ocorria a recuperação do músico, que havia ferido sua mão, Fred Coury não registrou Long Cold Winter, trabalho executado pelos mais que experientes Cozy Powell (Rainbow, Whitesnake, Black Sabbath…) e Denny Carmassi (Montrose, Heart, Whitesnake…), ao que parece, por imposição do produtor Andy Johns. Seguindo os passos de “Nobody’s Fool”, a power ballad “Don’t Know What You Got (Till It’s Gone)”, conduzida pelo piano e pontuada por um belo solo de Tom, se tornaria não apenas o maior hit do disco, mas da carreira do Cinderella. Outra balada, dessa vez com uma levada mais acústica, seria referência e se tornaria minha favorita da banda, a magnífica “Coming Home”. O solo curto e simples de Jeff LaBar é exemplo de como o Cinderella procurava se afastar dos excessos das bandas de hard rock da época, focando na construção de canções notáveis e melodias agradáveis. De uma maneira geral, as faixas presentes em Long Cold Winter estão mais bem formatadas que no álbum anterior, e praticamente todas elas são donas de características marcantes, como “The Last Mile” e seu refrão memorável, a boa costura das guitarras em “If You Don’t Like It”, remetendo ao trabalho de Joe Perry e Brad Whitford (Aerosmith), sem falar nos timbres totalmente vintage de Keifer e LaBar. Não posso deixar de citar outro destaque óbvio, a balada blues rock que dá nome ao disco, uma das melhores interpretações de Tom no vocal.
Heartbreak Station [1990]
A capa mais rústica ilustra bem o fato do quarteto ter mergulhado ainda mais fundo no blues e até ter apresentado uma faceta country, presente especialmente em canções como a semiacústica “Shelter Me”, que inclusive conta com saxofone e trompete, além de backing vocals femininos. Vale uma conferida no videoclipe feito para a faixa, que conta com a presença ilustre do pioneiro Little Richard. Ao mesmo tempo que ilustra o momento mais variado da carreira do Cinderella, remetendo aos álbuns abrangentes dos Rolling Stones, Heartbreak Station já apresenta algumas “gordurinhas”, como a explicitamente country “One For Rock and Roll” e “Electric Love”, que não conseguiu repetir as boas costuras guitarrísticas presentes em Long Cold Winter. Um ponto positivo é a inclusão da slide guitar em diversos momentos, como na boa faixa de abertura “The More Things Change”. Se momentos suingados já se faziam presentes no álbum anterior, em Heartbreak Station eles vêm com ainda mais força, vide “Love’s Got Me Doin’ Time” e “Sick For the Cure”. A faixa-título é uma das que mais se sobressaem, com seu andamento acústico comandado pelo piano e entrecortado por arranjos orquestrais. Outra que demonstra grande esmero é a climática “Dead Man’s Road”, que soa como uma trilha sonora perfeita para filmes de faroeste. Apesar de representar para muitos o ápice criativo do Cinderella, Heartbreak Station não obteve a mesma repercussão dos anteriores, estacionando na marca de 1 milhão de cópias, o que, convenhamos, não é pouca coisa. Vale citar que – finalmente! – esse álbum foi registrado pelo baterista Fred Coury.
Still Climbing [1994]
Após um longo hiato forçado, provocado por problemas com a voz de Tom Keifer, que teve que se submeter a cirurgias e extensa terapia, o Cinderella retornou em 1994 com um álbum que já não tinha mais a ver com a realidade em voga na época, quando o rock estava dominado pela sonoridade grunge proveniente de Seattle (EUA). O ás dos estúdios Kenny Aronoff cuidou das baquetas em decorrência da saída de Fred Coury, que toca apenas em “Hot & Bothered”, gravada em 1992 para a trilha do filme “Wayne’s World” (Quanto Mais Idiota Melhor). Embora muitos qualifiquem Still Climbing como um disco inferior em comparação com os outros três, discordo totalmente dessa opinião. Dono de uma produção de alta qualidade, com uma sonoridade de baixo e bateria especialmente sem precedentes, o álbum não soa datado hoje em dia, e hard rocks como a malemolente “Bad Attitude Shuffle”, a sólida “All Comes Down” e a rápida e pesada “Freewheelin'” são prova disso. No âmbito das power ballads, o Cinderella ainda conseguiu fazer bonito, com as injustamente ignoradas “Through the Rain” e “Hard to Find the Words”, que remete às baladas do Lynyrd Skynyrd. A faixa-título, aberta por um rufar marcial, constrói-se em um crescendo envolvente, até culminar em um refrão simples e irônico (“estarei escalando até o fim de minha vida”), tendo em vista a situação do Cinderella na época, abandonado pela gravadora e não recebendo atenção alguma dos meios de comunicação de massa, em especial da MTV. “The Road’s Still Long” poderia estar facilmente encaixada em Heartbreak Station, enquanto “Talk Is Cheap” apresenta dinâmicas interessantes entre as guitarras de Tom e Jeff. Still Climbing é um bom álbum, mas acabou criminosamente encalhando nas prateleiras das lojas de discos.

3 comentários

  1. leonardocastro

    Uma das bandas mais subestimadas dos anos 80, principalmente por causa do visual e do nome. Mas é só dar uma ouvida para conferir o poderio do grupo, que tem uma veia AC/DC / KISS / Aerosmith latente. Os dois primeiros discos, principalmente, sao extremamente recomendaveis!

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  2. Thiago

    essa é uma banda que nunca me aprofundei, talvez pelos motivos listados pelo leonardo, mas após conferir o texto fiquei um pouco curioso, admito…

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  3. Anônimo

    Amo essa banda, na minha opinião uma banda criativa, que não se prende a um só gênero musical, simplesmente uma grande banda! Além de ter o Tom Keifer como vocalista, toca muito bem, e a sua voz… nunca vi nada igual!

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