I Wanna Go Back: Toto – IV [1982]

8 de junho, 2011 | por Diogo Bizotto
Diversos
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Por Diogo Bizotto

Poucas bandas são capazes de suscitar reações tão extremadas como o Toto. Da admiração incondicional, especialmente por parte dos músicos e aspirantes a tal, até o total desprezo, o Toto construi uma carreira contrastante: ao mesmo tempo que contava com músicos de renome e qualidade indiscutíveis, além de ter seu talento reconhecido com prêmios Grammy, o grupo era constantemente espinafrado pela crítica.

Quando dou ênfase à qualidade e ao talento dos instrumentistas que formavam o Toto, não estou para brincadeira. Apesar da pouca idade da maioria dos integrantes, tratava-se de um combo onde a experiência falava muito alto. David Paich, com apenas 24 anos, já havia participado da gravação e da composição de álbuns de sucesso de artistas como Boz Scaggs e Steely Dan, muitas vezes com a companhia de Jeff Porcaro, um baterista extremamente talentoso desde a mais tenra idade. O baixista David Hungate também era um companheiro habitual da dupla, que, junto aos ainda mais jovens Steve Lukather (guitarra) e Steve Porcaro (irmão de Jeff, teclados), que tinham apenas 20 anos, além do vocalista Bobby Kimball, formaram em 1977 o Toto.

O primeiro álbum surgiu em 1978. Toto mostrou ao mundo a qualidade e o perfeccionismo desses músicos, que, em apenas um disco, conseguiram abranger um espectro musical que variava com facilidade do funk e do rhythm ‘n’ blues ao hard rock e ao rock progrssivo, mas que, ao mesmo tempo, tinha seus dois pés fincados no nascente AOR. O sucesso da banda, que tinha a sorte de contar com diversos bons vocalistas em seu line up, foi imediato, destacando a roqueira “Hold the Line” e a funkeada “Georgy Porgy”.

Toto em 1977: Bobby Kimball, Steve Porcaro, David Hungate,
David Paich, Steve Lukather e Jeff Porcaro

Os dois álbuns seguintes, o progressivo Hydra (1979) e o rocker Turn Back (1981), obtiveram relativo êxito, mas passaram a uma boa distância dos bons resultados do primeiro disco. Contudo, a carreira dos membros do Toto continuava a todo vapor, conciliando suas gravações e turnês com a participação em inúmeros registros dos mais diversos artistas. É quase improvável que o leitor não possua em casa ao menos um álbum que conte com a participação dos membros do Toto, ainda mais tendo em vista o fato de que o disco mais vendido de todos os tempos, o ótimo Thriller (1982), de Michael Jackson, conta com a presença decisiva dos músicos. Inclusive, Steve Porcaro é coescritor de “Human Nature”, um dos grandes sucessos extraídos do álbum.

Mas foi também em 1982, antes do lançamento de Thriller, que o Toto fincou de vez seu nome na música pop mundial, por seus próprios meios. Toto IV, lançado em abril de 1982, não apenas superou o sucesso obtido pelo primeiro álbum, chegando à platina tripla apenas nos Estados Unidos, como cravou três hits no Top 10 da Billboard: “Rosanna” (2ª posição), “Africa” (1ª) e “I Won’t Hold You Back” (10ª). A mistura de rock, rhythm ‘n’ blues, funk e música pop, com acentos jazzísticos e progressivos, atingiu seu auge nesse álbum que, não bastasse o êxito, ainda conquistou seis prêmios Grammy.

Seria tarefa estafante citar a quantidade de músicos que participaram da gravação de Toto IV, um número absurdo, provável fruto do bom relacionamento construído pelos integrantes da banda dentro da indústria musical. Mas devo mencionar o perfeccionismo buscado na concepção desse álbum que, apesar de toda a mistura de gêneros, soa como um produto completamente AOR e reflexo de sua época.

Um dos shuffles de bateria mais populares de todos os tempos abre “Rosanna“, que, apesar de composta por David Paich e contar com seus vocais majoritariamente divididos por Steve Lukather e Bobby Kimball, é uma homenagem à então namorada de Steve Porcaro, a atriz Rosanna Arquette. Apesar de toda a instrumentação caprichada dessa irresistível faixa, incluindo metais, percussão e um bom solo de Lukather, o destaque é Jeff Porcaro e sua levada característica, de influência jazzística, um desafio para muitos bateristas.

Toto em 1982, já com Mike Porcaro (terceiro da esq. para a dir.)

A união do saxofone com a guitarra eclética de Steve Lukather estabelece o tom de “Make Believe”, cantada por Bobby Kimball, assim como o mais que competente groove criado por Jeff Porcaro e pelo baixista David Hungate, emprestando um acento dançante a essa canção. A seguinte, “I Won’t Hold You Back“, trata-se provavelmente da melhor power ballad já criada pelo grupo. Composta e cantada por Steve Lukather, ela é conduzida por uma instrumentação delicada e cheia de esmero, destacando as linhas de teclado e piano e a mão elegante de Jeff, que usa seu kit com parcimônia, mas com muito conhecimento de causa. Além disso, arranjos de orquestra (conduzidos por Marty Paich, pai de David) e um belíssimo solo de Lukather elevam ainda mais a qualidade da canção, que ainda por cima conta com os magníficos backing vocals de Timothy B. Schmitt (Eagles, Poco) no refrão.

“Good For You” exibe linhas vocais mais lineares durante as estrofes e um refrão calcado em backing vocals e teclados, além de trazer Mike Porcaro, irmão de Jeff e Steve, tocando cello. Após as gravações, o músico entraria no grupo no lugar de David Hungate, tornando-se o baixista oficial nas décadas subsequentes. Obra de Steve Porcaro e por ele cantada, “It’s a Feeling”, traz a marca registrada de seu estilo pessoal, isto é, uma faixa mais intimista, tranquila, com toques de um jazz mais leve.

Outra música digna de nota em Toto IV é “Afraid of Love“, a mais hardeira do disco, trazendo a voz e a guitarra de Steve Lukather em primeiro plano, além de algumas linhas de piano bastante roqueiras. Ponto para essa pequena ousadia. Praticamente emendada na anterior, “Lovers in the Night” segue uma linha semelhante, mais veloz. Impossível não citar novamente a facilidade de Lukather em tocar tudo com muita competência, incluindo seus solos e sua boa timbragem. Bobby Kimball dá as caras novamente com a alegre “We Made It”, que soa como um rhythm ‘n’ blues “de branco”.

Recebendo os prêmios Grammy

A funkeada e polida “Waiting For Your Love” dá mostras da boa interpretação de Kimball, além de, mais uma vez, trazer um ótivo groove de Jeff Porcaro e David Hungate. Aliás, nunca é o suficiente falar bem a respeito de Jeff, um dos bateristas mais requisitados da história até sua morte, em 1992, peça fundamental no posicionamento da bateria na música pop. É ele, junto a David Paich, que compôs o maior hit do álbum, “Africa“. A união dos teclados com a percussão, cortesia de Jeff e do convidado Lenny Castro, fizeram de uma faixa aparentemente simples, número um na Billboard, marcando presença na memória musical de milhões de pessoas. David Paich é o cantor dessa música, na qual sua voz mais limitada é auxiliada por backing vocals durante o refrão.

Como escrevi no início deste artigo, o Toto gera reações extremadas. Que seus integrantes são exímios músicos, disso apenas um louco pode discordar. A crítica feita é que, por maior que seja sua competência, por mais esmerado que seja seu perfeccionismo, é normal que suas composições muitas vezes passem longe de ser memoráveis. Apesar de não concordar com essa afirmação, acredito que sim, diversas vezes o talento dos instrumentistas supera seu tino para escrever boas canções. Mas se existe um disco onde esses dois fatores estão equilibradíssimos, oferecendo uma audição agradável, esse é Toto IV.

Track list:

1. Rosanna
2. Make Believe
3. I Won’t Hold You Back
4. Good For You
5. It’s a Feeling
6. Afraid of Love
7. Lovers in the Night
8. We Made It
9. Waiting For Your Love
10. Africa



6 Comentarios

  1. fernandobueno disse:

    Diogo…só não corrijo pq depois de hj de manhã fiquei com medo…rs
    mas Hold the Line não está em amarelo…rs

  2. Arrumado, mas ainda não li o texto (estou atrasado em muitas coisas)

  3. O Diogo descreveu bem o que eu penso do Toto. Grandes musicos para albuns nao tao grandiosos. O IV é o melhor disco disparado do grupo, mas ele poderiam ter feito algo bem melhor se quisessem.

    O problema é que se tivessem feito isso, talvez não conseguissem o sucesso que acabaram obtendo com Afrika, Rosanna, Pamela e tantas outras

    Muito bom o texto!

  4. diogobizotto disse:

    Cara, eu não tenho dúvidas que em "IV" o Toto conseguiu equilibrar melhor suas boas performances a composições variadas, abrangendo um espectro bastante amplo, característica de sua sonoridade. Quanto a ser "O" melhor, aí já é mais complicado. EU, por exemplo, tenho uma queda pelo lado mais progressivo de "Hydra", assim como pelas faixas mais pesadas de "Kingdom of Desire", um disco bastante surpreendente.

  5. o Hydra é muito bom Diogo, mas eles podiam ter feito algo realmente grandioso, e acabaram falhando em alguns momentos. Quando fizeram o som Toto que conhecemos hoje, especificamente com o IV, dai sim eles acabaram soando mais redondo (se é q me entendes).

  6. Igor Maxwel disse:

    Um dos grandes discos de 1982, gravado por uma das bandas mais injustiçadas do mundo. Toto IV é um excelente álbum, com grandes canções como a abertura “Rosanna” a música mais melosa do mundo (segundo o programa Top Top MTV); a linda “I Won’t Hold You Back” (sua melhor balada junto com “I’ll be Over You” de 1986); o trio “Afraid of Love/Lovers in the Night/We Made It” pra quem gosta de um rock mais pesado; e em especial, o grand finale do disco com a música mais famosa da banda: “Africa”, o suficiente para o Toto sempre ser lembrado por todos.

    Toto IV foi uma das grandes ausências notáveis da lista dos Melhores de 1982 aqui da Consultoria, junto com Blackout (Scorpions), Love Over Gold (Dire Straits) e Eliminator (ZZ Top). Esta lista foi quase toda dominada pelo heavy metal, figuraram álbuns memoráveis como The Number of the Beast (Iron Maiden), Restless and Wild (Accept) e principalmente, Screaming for Vengeance (Judas Priest). Mas pra mim quem deveria ocupar a primeira colocação desta lista era o saudoso rei do pop, Michael Jackson e seu “Thriller”, não o já citado Iron Maiden com o primeiro disco a contar com o vocalista Bruce Dickinson.

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