Por Diogo Bizotto
Conhecem a velha história que diz que de onde menos se espera podem surgir agradáveis surpresas? Pois bem, é difícil fugir do clichê quando disserto a respeito do Blanc Faces. Esqueça músicos famosos, participações renomadas… a não ser que os nomes Robbie La Blanc e Brian La Blanc acendam uma fagulha em suas memórias, o único nome conhecido entre os envolvidos no processo de criação desse primeiro álbum, auto-intitulado, é o de Dennis Ward, responsável pela mixagem das gravações, que conquistou sucesso internacional por ser baixista da banda alemã de hard rock Pink Cream 69, mas que hoje em dia possui maior notoriedade através de seu exímio trabalho pilotando a produção e a mixagem de diversos discos de boa repercussão no cenário europeu.

Foi passando o olho na seção de resenhas da revista Roadie Crew, parte da publicação que geralmente não recebe muita atenção minha, que travei contato pela primeira vez com o Blanc Faces. Ao perceber que um álbum de uma banda completamente desconhecida havia recebido uma nota 10, fiquei curioso e li a resenha, que descrevia a sonoridade do grupo como um perfeito retorno à sonoridade AOR dos anos 80, sem modernidades, contando com composições de alta qualidade, algo que certamente não era refletido pela imagem da dupla que é o núcleo da banda, os irmãos Robbie e Brian La Blanc, tidos pelo resenhista como possuidores de um estilo “Bruno e Marrone”. Incentivado pela descrição e pelo proibitivo preço do disco (importado), que sequer encontrei nas lojas de Porto Alegre, fiz o download de suas músicas e comprovei que aquela nota 10, apesar de um pouco exagerada, passava muito longe de soar absurda.

Mas esperem lá, fica melhor ainda: e se eu disser que os irmãos Robbie e Brian, paralelamente ao Blanc Faces, são os líderes de uma banda especializada em tocar em festas de casamento no estado norte-americano de Connecticut e nas proximidades. Com um repertório que vai do hard rock à música pop atual, passando pelo AOR, parece que o trabalho dos irmãos nesse âmbito é bastante frutífero, inclusive recebendo elogios de Paul Shaffer, líder e diretor musical da banda de estúdio do programa do famoso entrevistador David Letterman, uma espécie de Jô Soares norte-americano. Confira aqui a performance da La Blanc Brothers Band, tocando trechos de “Don’t Stop Believin'” (Journey), “Jump” (Van Halen), “Summer of 69” (Bryan Adams) e “Just Dance” (Lady Gaga).

La Blanc Brothers Band

Voltando ao álbum auto-intitulado do Blanc Faces: é impossível não ouvi-lo e associá-lo à sonoridade praticada pelos grupos tipicamente AOR, em especial na primeira metade dos anos 80, remetendo bastante à fase oitentista do Foreigner, até por uma certa semelhança vocal entre Brian e o cantor do grupo, Lou Gramm. Enquanto isso, estabelecendo outra comparação, diria que a voz de Robbie aproxima-se bastante da de Brian Howe, vocalista do Bad Company durante parte dos anos 80 e 90. Outra referência que vem à mente é o Survivor, especialmente no lado mais rock ‘n’ roll do grupo. Isso quer dizer que o Blanc Faces não passa de um replicador de fórmulas, sem maiores méritos? Não! Brian (vocal, baixo, guitarra, teclados) e Robbie (vocal, guitarra), auziliados por Butch Taylor (guitarra solo), Kyle Woodring (bateria), Tony Archer (bateria) e Jeff Batter (teclados, piano, órgão), fazem de Blanc Faces um vencedor através da força de suas composições, mostrando serviço ao longo de todo o track list.

O disco inicia de cara com uma das melhores, “Here’s to You”, um rock aberto com uma boa união entre guitarra e teclado, mostrando logo qual é a tônica do álbum. A voz de Robbie é seu cartão de visitas, limpa, dotada de boa técnica, fluindo com naturalidade sobre uma base instrumental simples e voando um pouco mais alto durante o excelente refrão dessa música que, tivesse sido lançada em meados dos anos 80, seria uma forte candidata a galgar elevadas posições nas paradas. Em “Edge of the World” sua performance é ainda melhor, soando levemente mais agressivo, auxiliado por backing vocals belamente postados. Trata-se uma faixa um pouco menos linear que a anterior e tão destacada quanto, contando ainda com dois bons solos de guitarra, que ajudam a manter seu ápice por mais tempo. Excelente!

“We’ll Make the Best of It” estabelece o tom positivo que se permeia por todo o track list, refletindo as letras na sonoridade que brota da inspiração da dupla, sustentando o nível alto no desenrolar das faixas. Brian mostra seu talento na balada “Stranger to Love”, cantando as estrofes, enquanto seu irmão fica responsável pela ponte e pelo refrão. E que refrão, gurizada! Tenho certeza que compositores renomados do AOR, como Jonathan Cain (Journey), Mick Jones (Foreigner) e Jim Peterik (Survivor) adorariam ter sido autores dessa canção durante o auge de seus grupos, salivando para vê-las atingindo as rádios ao redor do mundo. Outra faixa mais rocker é “Turn This World Around”, bastante baseada em guitarra e conduzida pelo vocal de Robbie.

Brian e Robbie La Blanc

A segunda balada, “It’s a Little Too Late”, é mais pomposa e vai se construindo aos poucos com a entrada dos instrumentos, até desembocar em (mais) um refrão de fazer o ouvinte perder o pudor e bradar sem medo o título da faixa. “Staying Power” é mais próxima do hard rock e baseada em riffs de guitarra, relatando em sua letra a vida dessa e de tantas outras bandas que sonham em viver o rock como estilo de vida, mesmo com todas as dificuldades que surgem pelo caminho. “Where do I Go From Here” é a menos inspirada do disco, mas mesmo assim garante momentos de deleite auditivo e não faz feio frente às outras, cumprindo bem seu papel, enquanto “Beneath This Heart” é a cara do Survivor, lembrando o clássico álbum “Vital Signs” (1984).

Outra que conta com a divisão dos vocais entre Brian e Robbie é a breguíssima porém extasiante balada “Pray For Me”, escrita sob a perspectiva de um soldado lutando em terras estrangeiras, sentindo a falta de sua família e o afastamento de seus entes queridos, não apenas físico. Conduzida pelo piano, explode durante seu refrão em uma belíssima interpretação de Robbie. A empolgante “Sorry For the Heartache” traz backing vocals e a guitarra em primeiro plano, enquanto a faixa que encerra o álbum, “We Will Rise”, é a mais ambiciosa e criativa entre todas que compõem o track list, mesclando todas as características apresentadas até então, como as memoráveis melodias, as talentosas vocalizações e a instrumentação caprichada, em uma embalagem um pouco diferente.

Se você é fã de AOR, ou mesmo se tem um interesse nem tão grande assim no gênero, aviso: não perca tempo. Compre, baixe, roube, grave, pegue emprestado… mas não deixe de dar a seus ouvidos ao menos uma oportunidade de conhecer esse álbum. A surpresa é garantida, e ela não provém de nomes famosos ou estratégias de marketing, mas de boas composições, que, no fundo, são o cerne e o que diferencia a música de qualidade. Posso garantir que em Blanc Faces elas se encontram em profusão.

Track list:

1. Here’s to You
2. Edge of the World
3. We’ll Make the Best of It
4. Stranger to Love
5. Turn This World Around
6. It’s a Little Too Late
7. Staying Power
8. Where Do I Go From Here
9. Beneath This Heart
10. Pray For Me
11. Sorry For the Heartache
12. We Will Rise

3 comentários

  1. Mairon Machado

    Bah Diogo, bem legalzinha essa banda. Me lembrou bastante um disco que eu ouvi muito quando guri, o Dangerous Age. A voz do Blanc é mesmo muito parecida com a do Brian Howe. Tem algo parecido com "Love Attack" nesse disco, e tens como me mandar o link, pq nao consegui achar para baixar.Para ser uma banda de 2005, a sonoridade é realmente bem oitentista.

    O cd esta 6 dolares no ebay (mais frete) e na amazon 7 dolares (mais frete) o novo.Se tiveres afim posso encomendar

    Muito legal mesmo

    Responder
  2. Groucho KCarão

    Discordo de que boas composições sejam o que distingue a música de qualidade. Aliás, eu meio que discordo de que haja "música de qualidade", hehe. O que quero dizer é que, quando vejo uma banda como destacada das demais, não é pelas boas melodias que ela compôs, bons arranjos, coisas do tipo. Isso aí é onde o gosto mais determina. Acho que bandas se destacam quando ousam. E pode-se ousar até questionando a noção tradicional de melodia, por exemplo.. Se não entenderam, ouçam a faixa "Halber Mensch" do Einstürzende Neubauten! Caralho, acho que eu tô soando anarco-punk! xD

    Responder
  3. Mairon Machado

    Como deu um pau no BLOGGER e ele eliminou todos os comentarios postados desde quarta-feira, coloco os mesmos em dia:

    Mairon deixou um novo comentário sobre a sua postagem "I Wanna Go Back: Blanc Faces [2005]":

    Bah Diogo, bem legalzinha essa banda. Me lembrou bastante um disco que eu ouvi muito quando guri, o Dangerous Age. A voz do Blanc é mesmo muito parecida com a do Brian Howe. Tem algo parecido com "Love Attack" nesse disco, e tens como me mandar o link, pq nao consegui achar para baixar.Para ser uma banda de 2005, a sonoridade é realmente bem oitentista.

    O cd esta 6 dolares no ebay (mais frete) e na amazon 7 dolares (mais frete) o novo.Se tiveres afim posso encomendar

    Muito legal mesmo

    Adriano deixou um novo comentário sobre a sua postagem "I Wanna Go Back: Blanc Faces [2005]":

    Discordo de que boas composições sejam o que distingue a música de qualidade. Aliás, eu meio que discordo de que haja "música de qualidade", hehe. O que quero dizer é que, quando vejo uma banda como destacada das demais, não é pelas boas melodias que ela compôs, bons arranjos, coisas do tipo. Isso aí é onde o gosto mais determina. Acho que bandas se destacam quando ousam. E pode-se ousar até questionando a noção tradicional de melodia, por exemplo.. Se não entenderam, ouçam a faixa "Halber Mensch" do Einstürzende Neubauten! Caralho, acho que eu tô soando anarco-punk! xD

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