As desventuras em série do Granicus

12 de abril, 2011 | por Marco Gaspari
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Por Marco Gaspari

Quando Alexandre, o Grande, deu sua primeira surra no Império Persa, em 334 A.C., não estava fazendo apenas história. Estava fazendo também rock’n’roll, pois 2306 anos depois, o rio que batizou essa batalha, Granicus, emprestou seu nome para uma banda americana de hard rock que atacava os instrumentos com a fúria dos macedônios e que também morreu jovem como o grande general. A diferença é que o Granicus nunca foi uma banda vitoriosa, muito menos coberta de glórias.
Tudo começou em um quarto de hospital na cidade de Cleveland, no estado de Ohio, USA, em 1970, onde o jovem Joe Battaglia estava se recuperando de uma operação que sofreu nas costas. Ali ele intuiu que tudo o que queria na vida era dedicar-se ao rock’n’roll. Apesar de não saber tocar nenhum instrumento e estar ainda meio paralisado em consequência da operação, decidiu-se por uma bateria e comprou uma usada logo que recebeu alta. Na sequência um amigo em comum apresentou-o ao guitarrista Allen Pinell, que havia voltado a pouco do Vietnã, trazendo na bagagem vários problemas relacionados com o estresse provocado pelos traumas da guerra: não conseguia se concentrar e muito menos dormir regularmente.

Entre eles havia muita afinidade e não demorou alugaram uma casa em uma avenida em Lakewood, um subúrbio de Cleveland, e começaram a praticar. Tinham em mente (praticamente uma visão) formar uma banda, tocar suas próprias canções e gravar um álbum. Depois de um ano praticando juntos, começaram a recrutar outros músicos: o primeiro deles foi o guitarrista Wayne Anderson, um cara muito influenciado pelo patrício Joe Walsh e também pelo blues e funk que ouvia constantemente na vizinhança negra onde cresceu; a seguir veio o baixista Dale Bedford, no começo de 1972, descoberto por Pinell em um encontro casual no porão de uma loja de instrumentos musicais. Como nenhum deles tinha boa voz, precisavam desesperadamente de um cantor e a providência literalmente bateu à porta da banda quando a figura de Woody Leffel, outro residente da mesma avenida onde ensaiavam, foi atraída pelo som que tocavam. Leffel, aliás, era o único entre eles com alguma experiência, pois já havia cantado profissionalmente em bandas locais, uma delas o combo pop Renaissance Fair.

Foi por essa época que a banda finalmente foi batizada. O nome Granicus surgiu graças à admiração que Pinell tinha por Alexandre, o Grande. E como os sonhos de conquista dos rapazes também não eram pouca porcaria, decidiram abandonar Cleveland e, no começo de 1973, já tinham se demitido de seus empregos para fixar residência em Grafton, no interior do estado de Nova York. De lá, baseados em um restaurante local, começaram a convidar pessoas ligadas às companhias de discos para ouvi-los. Quem acabou se entusiasmando com os rapazes foi Terry Richards, que havia sido cantor da banda Chase e que tratou de conectá-los com um empresário chamado George Freije.
De posse de uma fita demo com as composições do grupo, Freije conseguiu agendar algumas audiências com várias companhias. Elas aconteceram no Winter Garden Theater, um teatro da Broadway localizado perto do Greenwich Village, em Manhattan. Embora tivessem feito apenas uma única apresentação pública sem importância, a banda não estava nem um pouco intimidada por se ver diante de alguns tubarões da indústria musical americana. Muito pelo contrário: tocaram o que sabiam e não devia ser pouco, porque atrairam imediatamente o interesse tanto da RCA quanto da Columbia, esta representada por ninguém menos que Sandy Pearlman e Murray Krugman, produtores do Blue Öyster Cult. E acreditem: mesmo cobiçados por duas autoridades do heavy metal, preferiram assinar com a RCA.
Contrato assinado, eles entraram imediatamente no Estúdio C da RCA, em Nova York, para a gravação do LP estreia. Toparam com o produtor Martin Last, que estava tão familiarizado com grupos de rock quanto os músicos entendiam de samba. O resultado final foi tachado pela banda de estéril, um verdadeiro desastre. Pinell, por exemplo, chegou a dizer que tinha pesadelos com a mixagem, mas isso não impediu nem um pouco que o disco adquirisse mais tarde a fama de “excelente” entre os colecionadores de hard setentista. Mas o pior ainda estava por acontecer, pois no momento em que o disco estava pronto para ir às lojas, a RCA resolveu mudar de uma hora para a outra seu direcionamento e começou por cortar toda a verba de promoção para novos artistas. Ou seja: poucas lojas receberam o disco, um par de rádios se dispôs a tocá-lo e apenas um punhado de consumidores decidiu arriscar seu dinheiro suado naquele disco de uma banda totalmente desconhecida. Mesmo as apresentações ao vivo do Granicus não passaram de uma ou outra data na Universidade de Nova York, no Rochester’s Oasis Club e, a melhor delas, no Michigan Palace, onde abriram para Bob Seger, Cactus e Bloodrock.
Quanto ao LP, as letras de Leffel tinham como pano de fundo crescer em uma América dominada pela guerra do Vietnã e sofrer as consequências (Pinell, o guitarrista, era o exemplo mais próximo). O som é um proto-metal feroz, melodicamente dinâmico e pesado, mas que muitos acusam de ser uma espécie de cópia do Led Zeppelin em função do timbre de voz do vocalista lembrar um jovem Robert Plant. Não vejo nada aí que desmereça a banda e existe muito de exagero e lugar comum nessas afirmações. O primeiro LP do Rush também sofreu essas comparações e com a evolução do grupo ninguém o sacrificou por isso. Tivesse o Granicus a mesma sorte, quem sabe onde iriam parar. Também não quero entrar no mérito de analisar música por música porque senão este texto não teria fim, mas é ouvir para crer:
Cleveland, a cidade natal do Granicus, em vez de guarida, também resolveu boicotar a banda. Essa história é curiosa: na gravação do LP, os músicos costumavam fazer uma jam com uma música que eles criaram em homenagem ao rio Cuyahoga, em cujas margens nasceu a cidade de Cleveland. Acontece que esse rio era o mais poluído dos EUA, transportando em suas águas grandes quantidades de petróleo, fato que que fazia com que o rio pegasse fogo de tempos em tempos, causando estragos consideráveis nas embarcações e construções ribeirinhas. Após um famoso incêndio ocorrido em 1969 é que o governo resolveu tomar providências e cuidar da despoluição do rio. Bom, a tal da música, chamada “Cleveland, Ohio”, foi incluída no LP. Ela tinha como refrão a frase “I’m getting out of Cleveland, Ohio” e isso desagradou os habitantes, por mais que a explicação da banda fosse a de que os motivos alegados na música para se mandar da cidade fossem provocados em conseqüência dos incêndios do rio. Para piorar, os músicos resolveram fazer uma brincadeira e lançaram um concurso onde quem bolasse o melhor motivo para abandonar Cleveland ganharia uma estadia de uma semana em Nova York com todas as despesas pagas. Ninguém achou a mínima graça.
As coisas começaram a ficar realmente feias para o Granicus. E pioraram muito quando a voz da banda, Leffel, casado e pai de um filho, sentiu que precisava achar outro lugar para ganhar dinheiro e sustentá-los. Foi o primeiro a abandonar o barco. O grupo ainda tentou recrutar um novo vocalista e colocou anúncios até na inglesa Melody Maker. O mais estranho é que surtiu um efeito surpreendente, pois logo receberam uma resposta de ninguém menos que Graham Bond, interessado na vaga (ele morreu não muito tempo depois, em maio de 1974). Outro que respondeu, e foi aceito pela banda, foi o vocalista escocês Jesse Ray, dono de um estilo vocal muito água com açúcar para a fúria hard do Granicus. Nesse meio tempo em que acertaram com Ray e este viajava rumo à Nova York, a falta de grana fez mais duas baixas, com a saída de Bedford e Anderson. Pinell, que nestas alturas já estava desiludido quanto ao futuro da banda e, para complicar, sofria cada vez mais com seus problemas relacionados ao Vietnã, jogou a toalha de vez.
Battaglia e o novo vocalista ainda tentaram alguma coisa: recrutaram novos músicos, entre eles o então desconhecido baixista inglês John Waite, e mudaram o nome da banda para The Boys, assumindo um estilo de som mais chegado ao R&B funkeado. Após um ano de existência e pouco mais de uma dúzia de apresentações, os garotos do Boys chegaram à conclusão de que precisavam de uma aposentadoria precoce. Foi o fim para Battaglia, Ray e cia., menos para John Waite, que ingressou na banda inglesa The Babys e partiu depois para carreira solo, conquistando um primeiro lugar na Billboard em 1984 com a música “Missing You” (mais tarde o músico formaria o Bad English).
O que restou do Granicus foi seu maravilhoso álbum, porcamente distribuído e, por isso mesmo, um objeto de cobiça entre os aficionados e colecionadores de hard setentista. O disco ganhou status de raridade e seu preço foi subindo ano após ano. Em 1997, a gravadora Free Records o lançou em CD e a banda finalmente conquistou a reputação que sempre mereceu, com direito inclusive a especulações de que haveria um álbum abortado na época e algumas gravações ao vivo. Uma edição digipack, remasterizada e com seis faixas bônus de material ao vivo, saiu em 2009 em comemoração à volta da banda depois de mais de 30 anos de ostracismo. Battaglia e todos os demais membros originais lançaram em 2010, pela CDBY, o álbum Thieves, Liars, and Traitors.
O Granicus pode ter sucumbido em suas primeiras batalhas, mas com certeza ainda não perdeu a guerra.
Fontes: tem um textinho sobre a banda que é reprisado blog após blog na internet, com pequenas variações, e que, salvo raras exceções, não informa nada além da origem, formação e vocação da banda. As melhores resenhas podem ser encontradas entre os clientes da Amazon e também no blog Head Heritage, do Julian Cope. O texto acima foi pesquisado em revistas da época e, em especial, na Goldmine dos anos 90.



19 Comentarios

  1. Gaspa novamente ressucitando um monstro do hard americano. Eu acho o som do Granicus muito similar a outros nomes como Bang, Moxy e o lado mais sobrio do Silberbart. A comparação com o Led honestamente não tem nada a ver, já que o estilo de tocar dos músicos é bem diferente, e o vocal eu não acho parecido com o Plant. Enfim, eu conheço apenas o vinil citado (obvio, em versao MP3), e nao tinha ideia dessa historia maluca sobre a banda. Parabéns por outra grande matéria!

  2. Mister disse:

    Mairon, essa comparação com o Led é a tônica das resenhas que a gente encontra nos blogs. Tá certo que a maioria deles apenas espalha as merdas por aí. Mas o vocal algumas vezes me lembra o Plant, sim. O som, como você disse, nada (ou muito pouco) tem a ver com o Led. Alguém escreveu isso uma vez e foram copiando.

  3. Sim Mister, não foi uma crítica ao teu texto, e sim para quem fez a primeira comparação. Alias, eu acho louvável tu teres citado o fato das resenhas da amazon terem colaborado na escrita do texto. Quando eu escrevi sobre a Bow Street Runners e o Happy the Man, tive o prazer de encontrar resenhas na amazon feitas pelos próprios músicos que contavam histórias das quais não tinha nem em pensamento que pudessem ter acontecido. Copiar é barbada, quero ver ouvir e furunfar como tu tens feito, isso sim é trabalho de propriedade.

  4. Mister disse:

    Hehe… eu entendi que não foi crítica, Mairon, e agradeço os elogios. Citar fontes é uma coisa muito séria, porque ninguém escreve partindo do nada, a não ser que seja uma impressão pessoal. Dados factuais dispensam a referência, mas se conto a história de uma banda, de algum lugar (ou lugares) eu me informei. Não custa nada citar de onde, isso não desmerece quem escreve, até porque quem se interessa pelo assunto pode aumentar seu conhecimento bebendo diretamente delas.

  5. É, não foi uma banda psicodélica da Macedônia, mas passou perto! Ótimo texto, como sempre, muito gostoso (ui!) de ler. Tô carregando os videos, mas tô ouvindo Blue Cheer, então a banda vai ficar desfavorecida.. Interessante a stória dos caras, nasceram da desgraça e na desgraça ficaram! xD

  6. Groucho, em tua homenagem estou preparando um material sobre um grupo obscuro da macedonia que eu curto muito, mas vais ter que esperar até maio para isso …

    Blue Cheer é uma bandaça

  7. fernandobueno disse:

    Eu não curti muito o Blue Cheer…
    E daí?!?!?
    Alguem vai querer brigar comigo por isso???

    hahahaha

  8. Bem, não ouvi todas as músicas, senão, com minha net, eu passava o dia todo nisso. Pelo que eu ouvi, deu pra ver que a banda tinha vontade e também boas ideias, boas composições, mas a produção parece que não foi realmente muito boa e, de qualquer modo, não é o tipo de música que eu queira correr atrás. Essa "You're in America" me lembrou o Humble Pie e mais à frente o próprio Rush! Enfim, o som não agradou tanto quanto o texto, mas eu já esperava por isso desde que li a palavra "hard" lá no comecinho. Tô numa fase mais prog, sei lá.. xD

  9. E daí?!?!?
    Alguem vai querer brigar comigo por isso???

    Tua sorte é que não há míssil inteligente que consiga encontrar um alvo em meio às selvas acrianas, senão eu já entrava em contato com meus camaradas das FARC!

    Agora tão falando de Blue Cheer e comentando nada do Granicus. A primeira que ouvi do Granicus, "Cleveland, Ohio", eu até gostei pq tinha algo de Blue Cheer (do segundo disco), guitarra melódica e tal. O grupo não é ruim, eu que tô sem saco pra hard rock!

  10. fernandobueno disse:

    Escutei apenas uma vez e identifiquei sim um pouco de Robert Plant e Rush do primeiro disco…

  11. fernandobueno disse:

    Vejam só como são as coisas. Eu falei que não gosto muito de Blue Cheer e gostei de Cleveland Ohio que o KCarão falou que parece com a banda…

  12. É que com certeza vc só ouviu o primeiro do Blue Cheer, que é distorção fodidamente no talo! O segundo é mais quietinho, quase um João Gilberto! xD Falando sério, o segundo é mais melódico, focado nas composições, nos riffs, mas tb é METÁU!

  13. diogobizotto disse:

    Hehe, eu compartilho da opinião do Bueno… tá certo que por enquanto ouvi apenas uma música, mas identifiquei sim uma semelhança com Robert Plant. Claro que, se o Marco não houvesse citado esse fato, talvez isso passasse despercebido.

  14. luiz mayro disse:

    Fantástica Banda com certeza….nao acompanhei seus trabalhos mas o pouco que escutei já parece de casa.
    E é claro que com a ajuda do texto, fico me perguntando porque não tenho no meu acervo.
    PS.: Tenho o 1° do Blue Cheer é é uma Obra Prima do Rock….Valeu….

    NAZA

  15. Curiosa história da banda, gostei muito de conhecê-la através do seu texto, Siri da Gaita!
    A banda eu já conhecia, gosto, mas de fato, a produção do disco joga muito contra, enfraquece o som. As composições são boas, mas o vocal eu acho exagerado e as vezes compromete um pouco pela berraria (tb sou um dos que acham que não se parece/lembra Robert Plant pelo estilo/timbre de voz). Agora, tem uma faixa que destoa do resto do álbum que é uma lindeza – a acústica Twilight. Uma coisa simplesmente transcedental de som!
    Abraço!!
    Ronaldo

  16. Mister disse:

    Nada como a opinião de um músico que, além de tudo, conhece os quintais da produção. Como emérito tocador de vitrola, eu ouço o disco e o som não me incomoda. Só que, além de ignorante, sou surdeta, o que faz com que tudo fique meio comprometido e mereça um desconto. Mas se o Ronaldo falou, tá falado e daqui pra frente vou concordar que o disco foi mal produzido, hehe…

  17. luiz mayro disse:

    O Original é o que vale…..tenho gravações da "Vertigo"(Som Opaco)…..Gravações com "Barulhos" de estúdio….Vocalistas desafinados….Instrumentos não equalizados….mas é isso que Vale….
    A 1ª Gravação e Original é uma conquista de um cara como eu….Ainda quero ter no meu acervo….KKKK

    NAZA

  18. Mister disse:

    Veja se consegue dois, NAZA. Troco ele por um motor de Gordini.

  19. luiz mayro disse:

    Putz…..um motor de Gordini já é um belo acervo……KKKKKKKKKKKKKK

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