Maravilhas do Mundo Prog: Curved Air – Vivaldi [1970]

7 de abril, 2011 | por Mairon
Maravilhas do Mundo Prog
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Por Mairon Machado
A influência da música clássica no rock progressivo é um dos principais fatores quando os especialistas resolvem definir o estilo. Tanto os arranjos quanto a complexidade e melodias advindas dos grandes clássicos dos séculos XV, XVI,  XVII e XVIII servem para ilustrar como os músicos de diversos grupos do rock progressivo (alguns até com formação erudita) traçavam e construíam suas canções, arranjos e as famosas suítes progressivas.
Um grupo que se utilizou bastante da influência clássica foi o britânico Curved Air. Fundado em 1970, após a dissolução do grupo Sisyphus, ele tem suas origens dois anos antes, quando o baterista Florian Pilkington-Miksa e o baixista Rob Martin foram apresentados ao virtuoso guitarrista Francis Monkman. Monkman estudava na Royal Academy of Music, e, além de ser um perito na guitarra, conhecia bastante de eletrônica, o que auxiliaria o Curved Air a se tornar um dos principais nomes no uso de efeitos em suas canções. Monkman também tocava com extrema perfeição piano, órgão, violão clássico, mellotron e acordeão, além de ser um dos poucos a saber domar o sintetizador VCS.
Florian Pilkington-Miksa, Ian Eyre, Sonja Kristina, Darryl Way e Francis Monkman (1971)
Monkman formou com a dupla o grupo Sisyphus, e o trio passou a fazer pequenos shows, tocando covers de grupos como Cream, Yardbirds e Rolling Stones. Em uma loja de discos de Londres, Monkman conheceu Darryl Way. Way era um promissor violinista, que estava se formando na Royal College of Music. A paixão pela música clássica e pela psicodelia levou os dois a passarem dias ouvindo canções e suítes longas, culminando com a entrada de Darryl para o Sisyphus.
Darryl ainda levou com ele o amigo  pianista Nick Simon, e assim, o Sisyphus passou a contar com Florian, Rob, Nick, Darryl e Monkman. Simon não durou muito tempo no grupo, com Monkman acabando por assumir também os teclados. Porém, a saída de Simon alterou o nome da banda. Como estavam insatisfeitos com o que estavam usando, uma pesquisa foi feita. Então, Monkman sugeriu Curved Air, inspirado pela composição “A Rainbow in Curved Air”, de Terry Riley.
Surgia assim, no início de 1970, um dos principais grupos do rock britânico, que apesar de não ter feito tanto sucesso quanto seus co-irmãos Yes, Pink Floyd, King Crimson e Genesis, batalhou palmo a palmo com o Van der Graaf Generator e o Gentle Giant por seu espaço entre as mais inovadoras bandas do estilo.

Sonja Kristina (1970)

Ainda em 1970, a linda vocalista Sonja Kristina estava apresentando a peça “Hair” em Londres. Nascida em 14 de abril de 1949 na cidade de Brentwood, Inglaterra, a primeira aparição de Sonja nos palcos foi no Swan Folk Club, em Romford, quando ela tinha apenas 13 anos. Sua beleza incomparável acabou chamando a atenção de diversos empresários quando ela atingiu 17 anos, após uma série de apresentações em festivais de música Folk, com destaque para sua primeira apresentação profissional no Folk Festival, em Southgate.

Sonja virou uma espécie de Xuxa, comandando o programa para crianças “Song and Story”, enquanto continuava tocando suas canções folk em clubes como o Troubador, ao mesmo tempo que ingressava na New College of Speech and Drama para aprender composição e também interpretação. 
Uma das primeiras apresentações do Curved Air
Em 68, Sonja recebeu o papel de Crissy para o musical “Hair”, onde ela aparecia interpretando a canção “Frank Mills”, que virou um single de relativo sucesso. Hair estava sendo produzido por Galt McDermott, o qual produzia uma segunda peça, “Who the Murderer Was”. As apresentações da cantora nessas peças chamaram a atenção de muitos empresários tanto pela beleza quanto pela voz singular de Sonja, entre eles, Mark Hanau, um empresário que já mostrava suas asas para o Curved Air.
Mark sugeriu uma audição com Sonja, que não precisou mais de cinco minutos para entrar no grupo. Formava-se assim a primeira formação, com Sonja Kristina (vocais), Darryl Way (violino, voz), Francis Monkman (guitarra, órgão, piano, mellotron, efeitos, VCS sintetizador), Robert Martin (baixo) e Florian Pilkington-Miksa (bateria).
Não demorou para o grupo ser contratado, e isso foi feito através da Warner Brothers, tornando-os um dos primeiros grupos do gênero a assinar com a gravadora. No mesmo ano, em julho, lançaram o primeiro álbum, Air Conditioning, trazendo uma sonoridade moderna para o rock progressivo (que já era moderno na época), com canções trabalhadas em cima de muitos efeitos e também do talento individual de Darryl, Monkman e Sonja, como podemos conferir em “It Happened Today”, “Situations”, “Propositions” e a nossa maravilha, “Vivaldi”.
Darryl Way

Construída pela cabeça de Darryl, “Vivaldi” é uma homenagem ao famoso compositor veneziano, apresentando riffs e melodias que relembram canções clássicas compostas por Vivaldi, com ênfase na suíte “Le Quattro Staglione” (As Quatro Estações), composta em 1723.
A canção abre com as notas do violino de Darryl nos remetendo a trechos das “Quatro Estações”. O baixo faz uma marcação para Francis executar um curto tema na guitarra. A entrada da bateria, rufando velozmente, apresenta o bonito tema central do violino, acompanhado pelos acordes de guitarra e do estardalhaço sonoro que Miksa está fazendo, destruindo pratos, caixa e bumbo com batidas velozes e furiosas, até Darryl ficar sozinho.
Aqui, uma imensa viagem instrumental começa, com Darryl esbanjando talento em uma complicada sessão onde, sozinho, ele começa a tocar lentamente uma linda melodia, e encantando aos ouvintes, essa melodia cresce em velocidade, chegando no momento de tensão, onde os acordes do violino estão quase que em uma nova dimensão com os sensacionais arpejos e vibratos que estão sendo executados com perfeição por Way.
Francis Monkman pilotando sua parafernália eletrônica

Batidas do arco nas costas do violino, nas cordas e também na mão do instrumento, geram um ritmo marcial, que aumenta a velocidade até um nível ensurdecedor, tamanho o barulho gerado pela fricção do arco nas cordas do instrumento, que está carregado de efeitos. Repentinamente, a canção para.

Voltamos então para o tema inicial da guitarra, levando ao final dessa maravilha com a repetição do tema central do violino, acompanhado agora por viradas de Miksa e com o mesmo ritmo feito por guitarra e baixo, encerrando com acordes marcados de violino e guitarra.
“Vivaldi” teve ainda duas sequências: uma no próprio Air Conditioning, intitulada “Vivaldi with Cannons”, onde o tema central do violino é acompanhado por tiros de canhões, eletrônicos e muitos efeitos, em uma rápida vinheta de pouco mais de um minuto que encerra o lado B. Já “Extra-Vivaldi”, lançada em Phantasmagoria (1972), apresenta o tema principal do violino feito apenas por um sintetizador, que vai aumentando o volume até o infinito, como vários outros grupos progressivos gostavam de fazer na época.
DVD com apresentações raras, incluindo “Vivaldi”

Apesar de não contar com os vocais de Sonja Kristina na versão de estúdio, ela participava da canção quando a mesma era interpretada, já que uma nova parte era acrescentada a fim de que Sonja fizesse vocalizações e mostrasse que mesmo uma mulher linda como ela pode cantar com uma voz assustadoramente gutural. Além disso, as versões ao vivo poderiam se estender tanto quanto fosse a capacidade de criação de Way e Francis, chegando fácil a mais de 20 minutos.

No álbum Curved Air Live (1975) temos uma pequena amostra do que o grupo fazia, com a canção atingindo quase dez minutos (na original são sete). Porém, é na apresentação no famoso programa Beat Club que podemos constatar toda a insanidade criada por Darryl e Francis, com o primeiro fazendo estripulias no violino enquanto Francis delira com eletrônicos, tendo na imagem da TV peixes e outros atributos psicodélicos, em uma longa improvisação de quase 15 minutos, que ainda conta com a beleza de Sonja fazendo os vocais, trajada em uma elegante e sensual roupa preta.
Curved Air em 1976: Tony Reeves, Mick Jaques, Sonja Cristina, Stewart Copeland e Darryl Way

A carreira do Curved Air seguiu por caminhos de muitas experimentações e de não tanto sucesso. Second Album (1971) e Phantasmagoria (1972) estão no mesmo nível que o álbum de estreia, sendo que Phantasmagoria inclui pelo menos outras duas maravilhas: “Marie Antoinette” e a épica suíte “Phantasmagoria”, que ocupa todo o lado B. O grupo fechou as portas em 1976 após diversas mudanças de formação, com cada integrante seguindo carreira solo, destacando a participação de Monkman no grupo Sky e de Darryl no grupo Wolf.

Depois de muitos anos, voltaram na década de 90 para alguns shows, e agora, nos anos 2000, uma nova união ocorreu, com a perspectiva de que possam realizar um novo trabalho, apresentando nos shows canções maravilhosas como “Vivaldi”.



11 Comentarios

  1. Essa banda e música mereciam a tempos um texto a altura! Excepcionais!
    Aliás, a Sonja Kristina por si só, já é uma "maravilha do mundo prog"!
    Abraço!!
    Ronaldo

  2. Concordo com o mestre Ronaldo, a Sonja e uma das mais gatas da historia do prog e do rock!! Mas o som do Curved Air esta no mesmo patamar da beleza dela: UNICO E EXTREMAMENTE LINDO! Gosto muito da banda, principalmente enquanto o Monkman ainda estava no grupo

    Um abraço e valeu

  3. Foi a primeira música que ouvi – e vi – do Curved Air, em um famoso DVD de prog. Mas, assim como não fiquei tão impressionado com o que (ou)vi, até hoje o som da banda não me cativou. Quem sabe nas próximas audições…

  4. Mister disse:

    Esse disco, o Air Conditioning, teve uma excelente jogada promocional quando saiu. Foi, salvo engano, o primeiro picture disc lançado comercialmente. Daria, sem arrependimento algum, uma bola do saco para ter esse picture original (afinal, para que servem as bolas do saco numa pessoa que fez vasectomia há mais de 20 anos. São, no máximo, munição de festim para pistola d’água). Mas voltando ao tema, Vivaldi foi a marca registrada do grupo, que teve ótimas músicas em discos muito mais fundamentais, como o Air Cut, o Phantasmagoria e o live. A figura de Sonja e sua voz de sexo amanhecido inspiravam as mais safadas imagens na rapaziada onanista da época. A banda era excelente, mas Sonja era deusa, hehe… Mais um belo presente do Mairon embalado em texto de seda.

  5. Grande Mister, tu não precisas dar uma bola do saco

    Ta 20 dolares no ebay

    http://cgi.ebay.com/CURVED-AIR-AIR-CONDITIONING-WARNER-BROS-PICTURE-DISC-/180647295950?pt=UK_Records&hash=item2a0f6afbce

    Cara, eu imagino essa gurizada na época vendo a Sonja. Se eu babo com ela hoje, mesmo depois de ter conhecido outras musas mais gatas (porém não no rock), imagina quando a internet e a censura era forte, e mulher pelada era só playboy ou algo do gênero.

    Novamente, o Gaspa deu uma excelente definição para algo: "voz de sexo amanhecido", hehehehe

  6. Mister disse:

    Pô Mairon, você fica me tentando com esses leilões do ebay e diz que o picture custa 20 doletas. Mas ainda faltam 3 dias pro término e isso vai subir que é uma beleza. Na cotação do dia, uma bola do saco improdutiva vale no máximo uma brochada. E já deve ter japonês com o pingolim duro juntando os yens para dar o lance mortal. Com tsunami e tudo.

  7. diogobizotto disse:

    Alguém vai me bater se eu disser que não curti a música, exceto os minutos finais?

  8. Hahaha, muito bom

    Diogo, já era esperado, mas vai ouvindo com calma. Eu te aconselho a começar com "Marie Antoinette", ali tu vais sentir o CALOR que a Sonja faz subir dentro das calças

    Abraços!!

  9. Os comentários aqui estão divertidíssimos! hahuahuahuahuauhahua…
    Calor subir dentro das calças! kkkkkkkk
    voz de sexo amanhecido! essa foi ótima! agora toda vez que eu for ouvi-la, vou pensar nisso!
    Abraços!!

  10. Anônimo disse:

    Considero o Curved Air uma das 10 melhores bandas de rock progressivo de todos os tempos. E a Sonja era (na época, é claro, hehe) uma das mais gatas do rock.

  11. progressive man disse:

    Pena que o rock progressivo não é valorizado (pelo menos aqui no Brasil) como deveria!

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