Discos que Parece que Só Eu Gosto: Rolling Stones – Love You Live [1977]

5 de Abril, 2011 | por Mairon
Discos que Parece que Só Eu Gosto
7
 

Por Mairon Machado
Um disco ao vivo geralmente é uma das melhores formas de conhecermos uma banda, afinal, é no palco que comprovamos se tudo o que aparece no álbum de estúdio é real ou não. Apesar de muitas falcatruas e overdubs, como os realizados em Alive! (Kiss) e Unleashed in the East (Judas Priest), na maioria dos casos os álbuns ao vivo são realmente ao vivo.
Uma das grandes bandas ao vivo sempre foi o Rolling Stones. Seus shows são um espetáculo à parte dentro do mundo da música, principalmente pela performance teatral de Mick Jagger (vocais) e da execução de clássicos do porte de “(I Can’t Get No) Satisfaction”, “Start Me Up” e “Brown Sugar”, para citar apenas alguns. O primeiro disco do grupo que eu tive o prazer de ouvir foi exatamente um ao vivo, o extremamente criticado Love You Live.
Lançado em 23 de setembro de 1977, esse vinil duplo concentra-se principalmente em uma apresentação do grupo em Paris, durante a turnê de divulgação do LP Black and Blue (1976). Essa turnê marcou a estreia do guitarrista Ron Wood nos palcos stonianos, e foi criticada principalmente por não ter conseguido superar em termos de produção, a turnê do álbum It’s Only Rock’n’Roll, onde o palco para Mick Jagger e cia. era uma flor de lótus móvel.
Stones na boate El Mocambo

Além disso, dentro de Love You Live, o lado C continha canções de uma apresentação na boate El Mocambo, na cidade de Toronto, Canadá, onde o grupo se apresentou para uma seleta plateia de 300 pessoas, dentre as quais a primeira dama do país, que na mesma noite foi flagrada apenas de roupão pelos corredores onde o senhor Lábios de Borracha dormia. Anos depois, seria revelado no livro Memórias de um Rolling Stone que ela havia “jogado cartas” com Wood. 

Quando de seu lançamento, Love You Live foi bem recebido, chegando na terceira posição nas paradas britânicas; mas com o passar dos anos, a imprensa e os fãs começaram a torcer o nariz para o vinil, alegando que o álbum não registra toda a potência sonora que eram os Stones em cima de um palco, que Keith Richards (guitarra, vocais) estava no auge do uso de heroína, não tocando nada, e que o resto do grupo – a saber, Charlie Watts (bateria), Bill Wyman (baixo), Billy Preston (teclados), Ian Stewart (teclados) e Ollie Brown (percussão), além do já citado Wood – eram coadjuvantes de um cenário decadente e sem sal.
Richards, Wyman, Jagger, Watts e Wood (1976)

Pura balela. Este é um discaço, talvez o melhor ao vivo da carreira dos Stones, sem a histeria de Got Live If You Want It! (1966), o gigantismo de Get-Yer-Ya-Ya’s Out! (1970) ou a prepotência de Still Life (1981). O lado A é uma prova definitiva disso. Desde o samba introdutório que leva ao tema de “Fanfare for the Common Man”, até o encerramento com “Star Star”, os Stones derramam suor e feeling em interpretações grudentas, sujas e puramente rock’n’roll para canções não tão clássicas do grupo.

Tirando o início arrastado, que curiosamente é com a clássica “Honky Tonk Women”, à medida que o show avança parece que os músicos vão se motivando; então temos Richards soltando os dedos em “If You Can’t Rock Me”, com destaque para o trabalho percussivo de Ollie e para as investidas rasgadas de Richards; Stewart comandando o ritmo da paulada “Get Off of My Cloud”, com uma belíssima sessão de duelo vocal entre Preston e Jagger, ambos entoando o nome da canção, e que assim como “If You Can’t Rock Me”, foi registrada no Earls Court, em Londres; a maravilhosa “Happy”, com show de slide de Wood, além de Richards nos vocais e na guitarra; a sensacional e perfeita “Hot Stuff”, com seu ritmo “embalos de sábado à noite” que coloca todos para dançar. O encerramento com “Star Star” é puro e simples rock ‘n’ roll, e não adianta, até o mais leigo no assunto sabe que o que o Stones faz de melhor é simplesmente tocar rock ‘n’ roll.
Outdoor de divulgação do LP

O lado B é bem mais leve, tão bom quanto o lado A, começando pela balada “Tumbling Dice”, e voltando aos embalos disco/funk, com uma arrepiante “Fingerprint File”, registrada no Maple Leafs de Toronto, sendo uma de minhas prediletas, onde Jagger abusa de efeitos nos vocais. Efeitos também estão presentes nas guitarras de Richards e Wood. Para quem ouve essa música sem balançar a perna, por favor, vá em um otorrinolaringologista, por que não tem como não dançar com essa faixa. 

“You Gotta Move” leva o grupo de volta ao blues, com as vocalizações cantando a canção como se fossem homens negros nos campos de algodão, acompanhados apenas pelas estridentes notas de Richards e Wood, além da marcação de Watts, transformando-se em um safado blues branco durante o solo de guitarra, em um andamento sensual com mais um dueto vocal de Jagger e Preston. O lado B encerra-se com a emocionante “You Can’t Always Get What You Want”, onde quem acha que Richards não está tocando nada deve ouvir o solo que ele faz nessa canção. Destaque também para Jagger comandando a plateia e arrancando lágrimas de quem está ouvindo a canção.
A boate El Mocambo

O lado C, como citado, é dedicado à apresentação no El Mocambo, nos mostrando quatro grandes covers, começando com “Mannish Boy”, onde o início já nos mostra a intenção do grupo, com Jagger soltando os vocais à la Muddy Waters nesse blues sensacional, com direito a harmônica, riffs sujos das guitarras de Richards e Wood, gritos de Preston ao fundo e, principalmente, com Jagger cantando muito, transpirando blues em cada palavra.

“Crackin’ Up”, a faixa seguinte, já possui uma levada mais reggae, onde o destaque vai para o baixo de Wyman e para as vocalizações que acompanham Jagger, além da apresentação de cada membro do grupo, enquanto “Little Red Rooster” retorna aos old blues com mais um show de Jagger. “Around and Around”, de Chuck Berry, encerra esta parte do LP com um rock dançante e com um ótimo solo de piano de Stewart.
Sessão de fotos para a capa de Love You Live
O lado D volta para a turnê de Black and Blue, onde estão os grandes clássicos: “It’s Only Rock ‘n’ Roll (But I Like It)”, gravada no Maple Leaf Gardens, seguida por “Brown Sugar”, além de “Jumpin’ Jack Flash” e “Sympathy for the Devil”, essa última registrada no Inglewood Forum, em Los Angeles. As quatro são interpretações fiéis ao que os fãs do grupo esperam, com garra, pique e as levadas de Watts para Richards e Wood brincarem com a guitarra enquanto Jagger solta sua voz entoando letras que os fãs conhecem do início ao fim.
Os vinis de Love You Live
Apesar de existirem overdubs nas guitarras e no baixo, a maior parte do que está nos sulcos de Love You Live reflete o que aconteceu nos palcos, ou seja, os Stones tocando aquilo que mais gostam. Se não é o melhor disco ao vivo da história, se não traz uma maravilha de mixagem, se não tem “Satisfaction”, não importa, é um ótimo disco e está na lista dos que mais ouvi (o disco 2 está praticamente furado na minha prateleira, tão fino quanto uma folha de papel), e que, entre todos as pessoas que eu conheço e gostam dos Stones, apenas eu curto. Isso é verdade?

Track list:

1. Intro: Excerpt from Fanfare for the Common Man
2. Honky Tonk Women
3. If You Can’t Rock Me
4. Get Off of My Cloud
5. Happy
6. Hot Stuff
7. Star Star
8. Tumbling Dice
9. Fingerprint File
10. You Gotta Move
12. You Can’t Always Get What You Want
13. Mannish Boy
14, Crackin’ Up
15. Little Red Rooster
16. Around and Around
17. It’s Only Rock ‘n’ Roll (But I Like It)
18. Brown Sugar
19. Jumpin’ Jack Flash
20. Sympathy for the Devil”



7 Comentarios

  1. Não sou um cara de ouvir discos ao vivo. Os poucos que conheço eu ouvi mais pq não tinha internet, então o CD que aparecia eu caía em cima. E valeu muito a pena, pois conheci discos como o Live at Leeds (versão Deluxe) do Who, o Red Rocks do Moody Blues, o Keys to Ascension do Yes e o In the Flesh do Waters (esses 2 últimos, duplos, comprei por R$ 20,00 cada, hehe)
    No caso dos Stones, ainda tô engatinhando nesse tipo de registro – até pq não conheço a banda há tanto tempo assim – então nem de longe posso definir um ao vivo favorito. Agora, com certeza, é mais interessante vc ouvir os Stones interpretando no palco músicas como "Get Off of My Cloud" (um dos primeiros sucessos da banda), "Star Star" e "Fingerprint File" do que ouvir a milésima versão ao vivo de "Satisfaction"… O que cê acha do Stripped, Mairon? Esse eu tenho em CD! =D

  2. Fábio RT disse:

    Não é tão ruim como falam…mas também não é obrigatório…. no mais é um bom disco…

  3. Groucho, eu gosto do Stripped. Alias, eu sou suspeito sobre stones, e tu sabes disso. O Stripped é melhor q o No Security e o Flashpoint (desse ultimo, o q vale é o Paint in Black), e tem duas canções dele que ficaram muito boas: "Not Fade Away" e "Love in Vain". Já "Wild Horses" e "Angie" não ficaram assim tão boas, mas, é stones, hehehe

    valeu os comentarios

  4. A princípio, eu achei que vc fosse escrever sobre o Undercover, Mairon. Foi bom ter escrito sobre o Love You Live que eu criei coragem pra ouvir..

  5. Anônimo disse:

    baixei depois de ler o post e minha opinião que é um album muito bom como vc disse os stones tocam simplesmente rock 'n' roll..

  6. Lula Carneiro disse:

    Nunca gostei desse disco, mesmo achando a ideia de grudar "If You Can't Rock Me" em "Get Off Of My Cloud" muito boa. Sempre preferi o Get Yer Ya-Ya's Out, mas tenho o Love You Live em vinil porque a capa do Andy Warhol é sensacional.
    Depois de ler a resenha, vou ouvir de novo. A sequência de músicas é do cacete, talvez eu mude de opinião.

  7. Anônimo disse:

    “You Can’t Always Get What You Want” sempre achei tão cafona e brega. É a “Hey Jude” dos Stones. Descartável!

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