Por Fernando Bueno

A psicodelia inglesa veio um pouquinho depois da americana, e foi certamente influenciada por ela, na segunda metade dos anos 60. Fato é que, por volta de 1967 ocorreu o ápice da psicodelia na Inglaterra, com o lançamento de discos como o clássico Pet Sounds (1966) do The Beach Boys, o eleito por muitos como o melhor disco de todos os tempos Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967) dos Beatles, o controverso Their Satanic Majesties Request (1967) dos Rolling Stones, o album de estréia do Pink Floyd, The Piper at the Gates of Dawn (1967), do blues psicodélico do Cream em Disraeli Gears (1967), só para citar alguns…

O Small Faces também já tinha feito um álbum que marcou a transição do rhythm ‘n’ blues para o psicodelismo em Small Faces de 1967, mas foi em Ogdens’ Nut Gone Flake que a coisa pegou (o termo “Ogdens'” também é grafado como “Ogden’s” em diferentes edições do álbum). Cabe aqui um comentário sobre o nome da banda. Em discos, singles e sites diversos encontramos o nome da banda como The Small Faces ou só Small Faces. Sinceramente até hoje não consegui definir o correto e vou usar o nome sem o “The”.
Contando com Ronnie Lane (baixo e voz), Steve Marriot (guitarra e voz principal), Kenney Jones (bateria) e Ian McLagan (teclados e voz) o Small Faces gravou um álbum que será lembrado eternamente. Na época eles tinham assinado havia pouco tempo com o selo do empresário dos Stones, Andrew Oldham, a Immediate, e foram incentivados por ele a aumentar a abrangência de seu som e desenvolver as ideias que tinham.
Capa de uma coletânea da banda à frente de um simbolo da cultura mod,
que também chegou a ser utilizado pelo The Who em Quadrophenia

A intenção de fazer um álbum conceitual veio durante um passeio de barco pelo Rio Tâmisa sob a influência de diversos tipos de psicotrópicos. Porém, na época, The Who, The Pretty Things e The Beatles, entre outros, haviam lançado ou estavam na iminência de lançar seus próprios discos conceituais. Como nenhum dos membros do Small Faces foi estudante de artes, como eram alguns componentes dos grupos citados, essa história de ter que imaginar um conceito e desenvolvê-lo não seria fácil, mesmo sendo estimulados por substâncias químicas. Então a solução foi fazer um disco meio conceitual, meio com músicas independentes entre si.
O álbum abre com a instrumental “Ogdens’ Nut Gone Flake”, que mostra bem o que será o álbum, principalmente na segunda parte do mesmo. É construída através de um teclado com efeitos de wah-wah tocado por Marriot, acompanhado de um piano tocado por McLagan. Na sequência vem a sensacional “Afterglow” (também chamada de “Afterglow (Of Your Love)”), que apesar de ser rotulada por Steve Marriot como “apenas uma canção boba de amor” é considerada por muitos o melhor trabalho dele nos vocais, ou “uma resposta insolente à Otis Redding”, como disse Mick Farren.
Com acordes simples acompanhados de palmas tem início a calma “Long Agos and Worlds Apart”, que se não é um dos destaques ao menos faz uma boa transição entre “Afterglow” e a excelente “Rene” cheia de bons backing vocals, a qual fala de uma “mulher da vida” que um dia ensinou algumas coisas para Marriot. É o tipo de música que pode se arrastar por muito tempo ao vivo, com um final propício para diversas improvisações. Na sequência vem “Song of a Baker” com guitarras distorcidas, bateria se destacando e novamente um ótimo trabalho de voz de Marriot.
Lazy Sunday”, primeiro single, fala sobre alguns vizinhos de Steve. Mas a maior curiosidade a respeito dela é que, segundo Marriot, nessa canção ele canta de maneira mais próxima à sua voz natural, exceto pelo sotaque cockney, um pouco exagerado propositalmente devido ao teor da letra. A intenção foi tentar ficar o mais diferente possível dos cantores pop americanos. A música se parece muito com as canções infantis exceto pelo solo de mellotron.
Ao longo do lado B do LP, a narração da história ficou a cargo de Stanley Unwin, que era um comediante e um editor de livros inglês. Unwin foi o responsável pelo lançamento de um dos maiores clássicos literários do século 20, O Senhor dos Anéis. Ele pagou o filho de dez anos para ler o texto que Tolkien tinha mandado para publicação, e, após um relatório positivo, publicou o livro. Confira abaixo um vídeo com apenas a narração completa que aparece no álbum, sem as músicas.

       

O conceito do (meio) álbum surgiu a partir de Ronnie Lane, que, olhando para a lua, provavelmente no período crescente ou minguante, ficou perguntando-se onde estava escondida a outra metade. Assim nasceu a história do personagem Happiness Stan, que procura pela outra metade da lua em uma alegoria à vontade que todos temos de completar nossas vidas cheias de frustrações, preocupações, etc. Happiness Stan apaixona-se pela lua e de repente alguém some com a metade dela, ou ela é comida pelo tempo. Porém de uma hora para outra a metade aparece de novo, como se ela tivesse vida. O nome Stan veio do nome do pai e do irmão mais velho de Ronnie.

Logo no início e após a introdução de Stanley Unwin já podemos perceber que teremos uma história a ser contada com a melodia parecida com as de desenhos animados antigos em “Happines Stan”. Mesmo sendo uma história, a parte musical é bem interessante. “Rollin’ Over” é um hard rock padrão se considerarmos a época em que foi lançado. Na fantástica “The Hungry Intruder” Marriot arrasa novamente. A seguinte é a psicodélica “The Journey”, na qual sabemos como é voar nas costas de um mosquito gigante. “Mad John” é um folk rock de primeira e “Happy Days Toy Town”, que, segundo alguns críticos, soa como se os Beatles estivessem tocando “Always Look on the Bright Side of Life” do grupo de comediantes inglês Monty Phyton.
Relançamento recente em LP

O álbum ficou seis semanas em primeiro lugar nas paradas, tempo considerado longo. Na época, era um feito que só os Beatles conseguiam. Os singles de “Lazy Sunday” e “Afterglow” ficaram no número 2 e 36, respectivamente. Foi lançado em um box de metal circular simulando uma lata de fumo. Dentro da lata havia algumas sugestivas folhas de seda. Por ser uma embalagem cara, foi relançada ainda no formato circular, mas dessa vez em papelão, em formato gatefold, como os discos normais. O próprio nome do álbum foi uma paródia para “Ogdens’ Nut-Brown Flake” uma marca de fumo produzida desde 1899. Em CD foi lançado algumas vezes em formato simples, mas em 2006 saiu uma latinha circular contendo três discos sendo que um traz a versão em estéreo, outro a versão em mono e o terceiro é um documentário sobre a gravação do disco da famosa série Classic Albuns.

Em 1969 Marriot surpreendeu todo mundo e se desligou da banda dizendo que não estava contente com o direcionamento musical do grupo e não poderia mais contribuir musicalmente. Steve Marriot já estava frustado desde o lançamento de Ogdens’ Nut Gone Flake por não conseguir executar ao vivo uma obra prima de estúdio. Na verdade apenas uma vez o disco foi completamente tocado ao vivo, em um programa da BBC chamado “Colour Me Pop”. Marriot seguiu a vida juntando-se a Peter Frampton no Humble Pie. O resto do grupo trouxe Rod Stewart e Ron Wood (futuro guitarrista dos Stones) e, aproveitando a mudança, resolveram também encurtar o nome da banda para Faces.

7 comentários

  1. micaelmachado

    Belo artigo sobre um grande disco de uma grande banda, que ficaria ainda melhor na fase "Faces"…

    Apesar de ser um trocadilho com a marca de cigarros, alguém tem alguma ideia de uma tradução possível para ogdens nut? Noz de Ogden? E o que é isso que vira cereal (flake)? Sempre achei esse nome estranhíssimo…

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  2. Groucho KCarão

    Quando ouvi esse disco, por indicação do Bueno, também achei a sonoridade meio infantil, mas, como é o único álbum dos Small Faces que conheço, achei que fosse essa a sonoridade da banda sempre. Bem diferente do Humble Pie! Legal que em "Lazy Sunday" o Marriott tenta se diferenciar dos vocais pop dos EUA, mas a letra começa com "Wouldn't it be nice…".

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  3. Mister

    Você não deixa de ter razão, Adriano. O Small Faces era uma banda voltada para os teenagers, e o Marriot era uma espécie de ídolo mod da garotada, daqueles de sair em página central de revistas juvenis. Foi inclusive ator juvenil aos 13 anos, no cast do espetáculo Oliver. O álbum muito bem apresentado pelo Bueno (que devia dar um puxão de orelha no revisor) pode-se dizer que foi um rito de passagem, pois conserva ainda algumas músicas para agradar seu público e ousa crescer para o que viriam a ser depois o Faces e o Humble Pie.

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  4. Mairon Machado

    Correções feitas, e parabéns pela releitura desse grande álbum dos anos 60. Apesar de tudo, eu prefiro o Marriot no Humble Pie, mas essa fase ingênua no Small Faces é muito boa!

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  5. marcio silva de almeida

    Já ouvi este disco em programas de rock, mas nunca me passou na cabeça de compra-lo, é um album pioneiro no quesito opera-rock, album conceitual e heavy (ou hard) rock ,como chamamos hoje!Vou procurar por este disco. Se bem que hoje me dia, quase ninguem da mais importância a ele!! – Marcio Silva de Almeida/Jlle-SC

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    • Fernando Bueno

      Eu adoro esse disco e só o fato de vc ter comentado a matéria me fez querer ouví-lo de novo! Se tiver em dúvida se compra ou não eu digo que sim….rs
      Obrigado pelo comentário.

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