I Wanna Go Back: Rainbow – Bent Out of Shape [1983]

9 de março, 2011 | por Diogo Bizotto
Diversos
10

Por Diogo Bizotto
Pensei por diversas vezes se deveria incluir esse álbum na coluna “I Wanna Go Back” ou na “Discos que Parece que Só Eu Gosto”. Qualquer pessoa com um conhecimento mediano acerca da banda do guitarrista Ritchie Blackmore sabe que Bent Out of Shape é um álbum que recebe especial rejeição por parte dos fãs do Rainbow e mais ainda dos admiradores da carreira de Blackmore em sua totalidade. Não é segredo para ninguém que desde a saída de Ronnie James Dio do posto de vocalista do grupo, o Rainbow enveredou por caminhos mais comerciais, estrada que começou a ser trilhada com Down to Earth (1979), que contou com os préstimos do vocalista Graham Bonnet, e que foi ainda mais explorada com a entrada do norte-americano Joe Lynn Turner no comando do microfone. Digo mais: acredito que os primeiros sinais de que Ritchie Blackmore se afastaria do trabalho feito nos álbuns Ritchie Blackmore’s Rainbow (1975) e Rising (1976), uma mescla de hard rock e heavy metal setentista com inspiração barroca, surgiram em Long Live Rock ‘n’ Roll (1978), um álbum que conta com canções mais simples e diretas, como “L.A. Connection”, “Sensitive to Light” e a faixa-título, apesar de ainda possuir um épico da magnitude de “Gates of Babylon” e um heavy metal como “Kill the King”.

Mesmo assim, tenho consciência de que a fase Joe Lynn Turner conta sim com um número relevante de admiradores, e que inclusive preferem o Rainbow soando mais próximo do AOR do que o Rainbow conduzido pela voz de Ronnie James Dio. Deixo claro que, apesar de gostar de todas as fases do grupo, seja com Joe Lynn Turner, Graham Bonnet, Doogie White ou Dio, minha predileção é pelo estágio inicial do Rainbow, com o baixinho de voz mais potente no rock. No entanto, essa escolha certamente não me faz ignorar o que a banda produziu posteriormente, até porque o cérebro do quinteto sempre foi Ritchie Blackmore, um dos guitarristas mais importantes e influentes do rock pesado desde os tempos de Deep Purple.

Joe Lynn Turner, Roger Glover, Chuck Burgi, David Rosenthal e Ritchie Blackmore

Bent Out of Shape traz um Rainbow carregando como nunca nos teclados, dando bastante evidência ao trabalho de David Rosenthal, mais destacado que no álbum anterior, Straight Between the Eyes (1982), inclusive coescrevendo duas faixas junto dos principais compositores, Blackmore e Turner. Roger Glover, também um ex-Deep Purple e baixista do Rainbow desde 1979, produziu o álbum, assim como fez nos três anteriores, mas dessa vez pouco contribuiu escrevendo músicas, assinando apenas “Fire Dance”, em parceria com Blackmore, Turner e Rosenthal. Talvez não seja à toa, essa canção é a que mais se distanciou do formato mais comercial abordado no disco, soando mais próxima ao Rainbow do final dos anos 70.

Bobby Rondinelli, baterista que havia gravado os dois discos anteriores do grupo, foi substituído por Chuck Burgi, que pode não demonstrar a exuberância de um Cozy Powell, mas cria uma espinha dorsal sólida e suficiente para as ambições do grupo, que empolgado com a boa repercussão de “Stone Cold”, single extraído de Straight Between the Eyes, que alcançou a 40ª posição no Top 100 da Billboard e atingiu o primeiro posto na parada dedicada exclusivamente ao rock. Contudo, apesar de apostar como nunca suas fichas no mercado norte-americano, o Rainbow não conseguiu o mesmo desempenho comercial do disco anterior, tendo o álbum ficado na 34ª posição (Straight Between the Eyes beliscou o 30º posto) e o principal single, “Street of Dreams”, na 60ª posição do Top 100 e no segundo lugar da parada dedicada ao rock.

Ritchie Blackmore ao vivo

Ao darmos o play no disco, fica claro que estamos ouvindo um produto de uma época bastante específica. A timbragem dos instrumentos, em especial dos teclados de Rosenthal, remetem de cara à primeira metade dos anos 80, o que definitivamente não qualifica um demérito. Carregada por um groove de baixo e bateria nas estrofes, “Stranded” cresce em seu refrão graças às preciosas intervenções da guitarra de Blackmore, soltando um riff simples, mas de bom gosto. Joe Lynn Turner, um dos vocalistas mais execrados do rock, mostra que grande parte das críticas direcionadas a ele são, se não infundadas, um completo exagero, especialmente se elas se referem  a seu desempenho ao microfone. Eu mesmo sou bastante crítico à atitude de Joe ao pautar em excesso seus shows na execução de material relacionado ao Deep Purple, onde gravou apenas o fraco Slaves and Masters (1990), e de material do Rainbow cantado originalmente por Dio, ao invés de focar em sua própria carreira, rica em participações em diversos projetos, além de seus discos solo, que guardam diversas boas composições.

Em se tratando de desempenho vocal, quem não gosta de Turner tem em “Can’t Let You Go” uma ótima amostra do que o norte-americano é capaz. Introduzida por David Rosenthal em um sintetizador imitando a sonoridade de um órgão de tubos, criando uma atmosfera quase sombria, ela traz o vocal de Joe Lynn Turner em primeiro plano, acompanhado por um instrumental bastante melódico, com espaço para total destaque, em especial no refrão, onde solta a voz sem medo, mas em nenhum momento soando exagerado ou desagradável. Certamente trata-se de um destaque do álbum e a favorita deste que vos escreve.

“Fool For the Night” é mais acelerada, dessa vez mais fortemente carregada pelas linhas executadas por Ritchie Blackmore, que, apesar da fama de egocêntrico, não traz sua guitarra à frente dos outros instrumentos, cedendo espaço para que os outros músicos possam brilhar também. Mas a vez de mostrar sua habilidade no álbum é definitivamente “Fire Dance”, onde, acompanhada pelo teclado, sua guitarra executa linhas que inconfundivelmente trazem sua marca registrada, remetendo em grande parte ao trabalho do Rainbow no final da década anterior, em músicas como “Kill the King” e “Lost in Hollywood”, mas com uma maior evidência dos teclados de David Rosenthal, que tem direito a um belo solo, seguido por outro de Blackmore. Roger Glover nunca foi um baixista famoso por executar linhas complicadas, mas aqui desce sua mão direita de maneira simples porém rápida, unindo-se a Chuck Burgi em um empolgante groove que dá liberdade para os vôos de Blackmore e Rosenthal.

A instrumental “Anybody There” lembra o clima mais sombrio da introdução de “Can’t Let You Go”, com Rosenthal criando uma cama de teclados propícia para que Blackmore sole lentamente e com muito feeling, remetendo em certos momentos ao blues, gênero com o qual o guitarrista não possui muita identificação, mas que aparece vez ou outra em suas linhas. Em “Desperate Heart” o maior destaque é a atípica ponte, que introduz para um refrão que fica devendo em relação à porção anterior. Nessa faixa também se apresenta de maneira tímida uma pequena quantidade de backing vocals, recurso pouco utilizado pelo Rainbow mesmo nessa época, diferenciando-se da maior parte dos grupos de AOR de seu tempo, que geralmente carregavam sem medo no uso desse recurso.

Joe Lynn Turner ao vivo

O hit do disco é “Street of Dreams”, introduzida por e baseada principalmente nos teclados de Rosenthal, definitivamente marcando seu trabalho como um dos tecladistas de mais destaque dentro do gênero. Burgi e Glover constroem um groove simples, e Blackmore toca de maneira a  apenas contribuir com a música, sem buscar destaque especial, jamais se sobrepondo às boas melodias, evidenciadas principalmente pelas linhas vocais de Turner, em especial no simples refrão. Mais veloz e com a guitarra em muito maior evidência é “Drinking With the Devil”, faixa onde a Fender Stratocaster de Blackmore ronca com mais força, executando um ótimo riff junto ao teclado e remetendo um pouco a “Can’t Happen Here”, música presente no álbum Difficult to Cure (1981).

“Snowman” é uma adaptação de “Walking in the Air”, música do compositor inglês Howard Blake, especialista em trilhas sonoras, caso dessa canção em questão. Similarmente à outra instrumental do disco, “Anybody There”, David Rosenthal cria uma paisagem musical de teclados, executando a melodia principal da música, enquanto Blackmore sola lenta e melodicamente. O álbum é finalizado com a veloz e direta “Make Your Move”, que poderia constituir um hard rock mais vigoroso caso a produção fosse mais propícia. Mas trata-se de uma boa faixa, mostrando a pegada de Chuck Burgi na condução e um solo mais barulhento de Blackmore.

Sei da rejeição que esse álbum causa em muitos apreciadores da banda e de rock pesado em geral, com alguns inclusive classificando-o como mais fraco que Slaves and Masters, do Deep Purple, fato que considero totalmente improcedente. A grande jogada, se o leitor se julga capaz disso, é ouvir Bent Out of Shape sem pensar no Rainbow contando com a voz de Dio, que cunhou incomparáveis maravilhas como “Stargazer”, “A Light in the Black” e “Catch the Rainbow”. Talvez dessa maneira a aceitação do álbum como possuidor de qualidades seja mais fácil, ou não. Eu digo que vale a pena tentar.

Track list:

1. Stranded
2. Can’t Let You Go
3. Fool For the Night
4. Fire Dance
5. Anybody There
6. Desperate Heart
7. Street of Dreams
8. Drinking With the Devil
9. Snowman
10. Make Your Move



10 Comentarios

  1. Gosto de todos os discos do Rainbow com o Lynn Turner. Talvez porque quando comecei a ouvir eu não conhecesse muito do Purple e do Dio, então eu não tinha opinião formada sobre o que era clássico e consagrado na carreira desses caras.

    Lembro que me emprestaram o Straight Between the Eyes e acabei não gostando muito, mas Bring on the Night ficou na minha cabeça. Meses depois fiquei com vontade de escutar só essa música e comprei o vinil.

    Acabei gostando mais e fui comprando os outros discos sem saber da importância da cada um. Acho que conhecer o Rainbow por conta própria sem a opinião dos outros me permitiu aproveitar melhor. Até gosto mais dessa fase AOR do que da era Dio.

  2. micaelmachado disse:

    A fase Dio é insuperável, mas os discos posteriores são muito bons, bem feitos e se deixam ouvir sem dificuldades. Gosto de várias coisas da fase Turner, mas prefiro o Down To Earh a qualquer um deles…

    Só que o Bent Out Of Shape é uma bola fora na história do grupo e de Blackmore. Mesmo comparado aos demais discos com Turner, ele sai perdendo. Para mim, o fato de Blackmore e Glover já estarem com "passagem marcada" para a volta do Deep Purple não os inspirou a criar músicas com a pegada e a garra presentes nos anteriores… ficou uma cara de "disco para cumprir contrato", onde algumas boas ideias não foram desenvolvidas como poderiam ter sido…

    E além de não gostar do Joe Lynn Turner, também acho o Chuck Borgi o baterista mais fraco a passar pelo Rainbow…

    E se realmente existem pessoas que "preferem o Rainbow soando mais próximo do AOR do que o Rainbow conduzido pela voz de Ronnie James Dio", então acredito que há mesmo gosto para tudo…

  3. Esse clipe de "Can't Let You Go" me lembrou o Dracula de Bram Stoker..
    Não conheço essa fase da banda. Tenho aqui o Difficult to Cure, que foi, se não me engano, vc quem me indicou, Diogo.
    Vou ouvi-lo!

  4. diogobizotto disse:

    Na verdade o vídeo para "Can't Let You Go" foi inspirado em "O Gabinete do Dr. Caligari".

  5. Ouvi esse disco há alguns anos, sem pensar que era Rainbow de fundamento (até por conhecer a historia do DIO) e na época achei interessante. Só que depois q ouvi o Straight Between the Eyes, já achei esse álbum mais fraco. Mesmo assim, é melhor que os discos com o Boneto.

  6. diogobizotto disse:

    Considero um tanto parelhos os três álbuns gravados com Joe Lynn Turner, é difícil escolher meu favorito, mas admito que a trinca inicial de "Straight Between the Nights" é muito boa (a saber: "Death Alley Driver", "Stone Cold" e "Bring on the Night").

    Gosto de "Down to Earth", gravado com Graham Bonnett, especialmente por contar com uma de minhas favoritaças da banda, a excepcional "Lost in Hollywood", que conta com uma ótima performance de Cozy Powell.

  7. Saec Torin disse:

    Na fase do Long Live Rock'n Roll, Dio já sentia que Blackmore estava cedendo para o lado pop. O álbum ainda teve aquela marca "Dio", mas foram bem poucas as músicas tocadas ao vivo, como um Never Say Die do Sabbath.

    Foi uma virada na vida do Rainbow em termos de banda, porque saiu o Medieval Rock para um "Latin" rock, com Bonnet de blazer e calças brancas, Glover de chapéu, etc. O Zeppelin também estava nesse barco e bandas mais desconhecidas como o Stretch.

    A virada dos anos 70 p/ 80 foi mesmo uma ruptura de estilos, mas eu gosto do Rainbow na fase Bonnet-Turner. Coisas como "Danger Zone", "Death Alley Driver" e "I Surrender", são obras que deveriam granhar suas versões em DVD, já que acredito o Rainbow não tem nenhum material pós-Dio ao vivo oficializado. Deveria.

  8. diogobizotto disse:

    Beleza, Lira? Então concordamos, pois também vejo "Long Live Rock 'n' Roll" como o primeiro passo em um direcionamento mais pop. Entre essas que citaste da fase Bonnet/Turner, eu adicionaria a magnífica "Lost in Hollywood", minha favorita pós-Dio. Sem dúvida essa época merece registro, é uma pena que naqueles tempos não se planejava com tanta frequência gravações de qualidade para transformar em home video…

  9. Vicente disse:

    Uma curiosidade: Na música Fool for the night (uma das melhores do disco na minha opinião), em todo o 1º verso (I know just what you’re thinking… até chegar ao refrão) o baixo está desafinado! Depois que chega o refrão tudo volta ao normal. Não sei como deixam passar algo assim, e olha que o baixista que é o produtor!
    Parabéns a todos os envolvidos pelo site.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *