Por Leonardo Castro
A discografia da banda finlandesa Sentenced costuma ser dividida em duas partes: o death metal do início de carreira e o metal gótico dos discos posteriores à entrada do vocalista Ville Laihiala. Entretanto, incrustado entre estas duas fases, ela lançou um disco que hoje em dia é praticamente ignorado quando se fala da banda. E é por isso, e não por falta de qualidade, que este Amok, lançado em 1995, é um disco que parece que só eu gosto.
Do death metal tradicional do primeiro disco, Shadows of the Past (1991), para o som mais técnico do segundo, North From Here (1993), o som do Sentenced teve uma evolução gritante. Contudo, se comparadas às mudanças que a banda sofreria no disco seguinte, Amok, as diferenças entre os dois primeiros discos pareciam insignificantes. Tirando o pé do acelerador e apostando mais nas melodias de guitarra, a banda produziu um som único, baseado no heavy e no thrash metal, e que apesar de ter sido rotulado como death metal melódico na época do seu lançamento, não tem nada a ver com o que bandas como At The Gates, In Flames e Dark Tranquillity faziam. Como eles próprios colocaram no encarte do cd, “Love it or hate it”, e certamente muitos fãs do início da carreira dos finlandeses o odiaram. Entretanto, certamente a banda ganhou muitos outros, pois o crescimento da mesma após este disco foi estrondoso, passando a ser uma das principais formações de metal da Finlandia.
O disco tem início com a genial “The War Ain’t Over”, que tem riffs de guitarra que lembram o Megadeth da fase Countdown to Extinction, além de excelentes melodias de guitarra. O vocal grave, gritado e levemente gutural de Taneli Jarva dá uma identidade única à banda, e talvez seja o único elo com o som que a banda praticava no passado. Também é impossível não citar o fenomenal trabalho das guitarras, principalmente do guitarrista solo Miika Tenkula, sempre original e criativo, e os excelentes refrões que passariam a ser uma marca registrada na carreira da banda.
O disco continua com outra ótima música, “Phoenix Rising”, que começa mais lentamente, mas aos poucos tem seu andamento acelerado e fica cada vez mais empolgante, ainda que mais distante do death metal. “New Age Messiah” tem um riff bem tradicional de heavy metal e uma levada mid-tempo, e mais uma vez lembra o Megadeth pós-Rust in Peace. A música tem outro refrão maravilhoso, onde tanto o trabalho das guitarras quanto o do excelente baterista Vesa Ranta ficam em evidência.
  
“Forever Lost” tem uma introdução lenta e explode com um riff que poderia ter sido composto pelo Metallica para o Black Album. A música ainda tem uma discreta participação de uma vocalista, que faz um contraponto com vocal grave de Jarva. Já o solo é totalmente inspirado no Iron Maiden, e é um dos pontos altos da música. “Funeral Spring” é a homenagem da banda ao Black Sabbath dos anos 70, lenta, soturna e cheia de groove.
Em “Nepenthe”, o Sentenced começou a mostrar o caminho que seguiria nos discos seguintes. Mais cadenciada, mas com um riff espetacular e andamento contagiante, a música é melódica e melancólica, e transmite um desespero sufocante. Tanto a performance vocal quanto o solo fantástico de guitarra são os principais destaques da faixa, uma das poucas músicas do disco que seguiu no repertório da banda após a mudança de vocalistas, e a única para a qual um videoclipe foi gravado.
Sentenced em 1995
A faixa seguinte, “Dance on the Graves (Lil’ Siztah)” é outro destaque do disco. A música começa com um riff digno dos primeiros discos do Mercyful Fate, e segue com um andamento mid-tempo bem melódico e contagiante. Após um pré-refrão mais lento, o ritmo acelera e explode em um refrão sensacional, seguido de outro solo de guitarra estonteante. Essa faixa sozinha já valeria a aquisição do disco.
“Moon Magick” é mais acelerada, ainda que bem melódica e tradicional, e mais uma vez o vocal incomum se destaca, principalmente no refrão. O disco se encerra com a instrumental “The Golden Stream Of Lapland”, onde a banda mostra toda a sua capacidade de criar melodias marcantes e climas.
Após este disco, o Sentenced lançou o EP Life and Death, que apesar de ter a mesma formação, mostrava a banda com mais influência de música gótica, como o cover de “White Wedding”, de Billy Idol, comprova. Pouco depois, o baixista e vocalista Taneli Jarva anunciou seu desligamento da banda, que recrutou Ville Laihiala para os vocais e Sami Kukkohovi para o baixo e lançou Down em 1996. O disco apresentava a banda investindo em um som ainda mais melancólico, mais influenciado pela música gótica e centrado em letras suicidas, ainda que extremamente acessível. Este estilo foi mantido até o fim da banda, em 2006.
No último show da banda, que foi gravado para o dvd Buried Alive, o ex-membro Taneli Jarva foi convidado a participar, e cantou algumas músicas do Amok e do EP Live and Death, mostrando mais uma vez o poderio e a qualidade destas canções, sendo um dos pontos altos da apresentação.
Ainda que os discos lançados com Laihiala sejam excelentes, sempre fico com a dúvida sobre o que banda poderia ter produzido se Taneli Jarva não tivesse saído e o estilo do Amok fosse mantido. Entretanto, com a morte de Miika Tenkula há um ano, essa pergunta vai ficar para sempre sem resposta.
Track list:
1. The War Ain’t Over!
2. Phenix
3. New Age Messiah
4. Forever Lost
5. Funeral Spring
6. Nepenthe
7. Dance on the Graves (Lil’ Siztah)
8. Moon Magick
9. The Golden Stream of Lapland

6 comentários

  1. leonardocastro

    Fernando, mas voce ja ouviu o disco? Curte a banda? Eu acho disco sensacional mesmo, uma pérola dos anos 90, e nao entendo como ele não teve mais repercussão!

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  2. micaelmachado

    Não conheço nem a banda nem o disco. Mas é interessante como mesmo bandas que não chegaram a atingir um público mais amplo têm discos discriminados dentre seus seguidores… talvez esse nível de exigência que temos com nossos ídolos é que faça com que o rock não atinja o "povão" (ainda bem!), pois os ouvintes de outros estilos não costumam ser tão críticos, basta tocar no rádio ou na TV para ser bom. Conosco, basta ser um pouco "diferente" ou "menos comum" para já receber uma pecha de "cuidado", não é?

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  3. Rafael "CP"

    Eu tb acho que vc é o unico que gosta , mais vou procurar ouvir e ver se seremos 2 , pois acredito que é essa a função dos discos que só eu gosto.

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  4. diogobizotto

    Conheço pouco do Sentenced, mas lembro que um amigo emprestou uma coletânea feita por ele mesmo contendo material do início da carreira da banda e gostei. As canções indicadas pelo Leonardo no post são boas, e explicitam bem essa fase de transição na qual o Sentenced se encontrava.

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  5. Marckus

    Não se sinta só, esse é pra mim um dos melhores álbuns da banda, nunca entendi as criticas que fazem ao álbum, ele é de fato diferente, mas a sua qualidade é inquestionável.

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