Tempestt – Bring ‘Em On [2007]

3 de janeiro, 2011 | por Diogo Bizotto
Resenha de Álbum
11

Banda:
BJ – vocais
Léo Mancini – guitarra
Paulo Soza – baixo
Edu Cominatto – bateria

Tracklist:
1. Faked By Time
2. Bring ‘Em On
3. A Life’s Alibi
4. Insanity Desire
5. Too High
6. Enemy in You
7. Fallen Moon
8. Lose Control
9. Redoma
10. Healing

Existe muita demagogia em torno do assunto “apoiar o heavy metal nacional”, tanto entre as fileiras das bandas quanto na imprensa musical brasileira. Esse assunto recebeu recentemente uma atenção redobrada graças às declarações de Thiago Bianchi, vocalista do Shaman, que proferiu palavras de indignação contra uma suposta falta de mobilização do público brasileiro em um press-release distribuído à imprensa metálica. As reações acaloradas que se seguiram à divulgação dessa carta aberta variaram entre o apoio e a total rejeição às exageradas palavras do músico, que acabou sendo execrado por muitos.

O que Thiago talvez não tenha percebido é que todas essas reações negativas não foram apenas direcionadas a ele, mas à sua banda, que não necessariamente endossou suas palavras. O que é uma pena, pois entre os músicos do Shaman está o talentoso guitarrista Léo Mancini, que também toca na banda paulistana de hard rock Tempestt, essa sim uma banda que faz jus a todo apoio possível e merece receber uma chance de qualquer pessoa que tenha não apenas o hard rock como um de seus gêneros favoritos, mas o heavy metal em geral, dado o afastamento do grupo de clichês que poderiam vir a rotulá-los.

Formado na época do lançamento do álbum Bring ‘Em On (2007) pelo vocalista BJ, o baixista Paulo Soza e o baterista Edu Cominatto (posteriormente substituído por Gabriel Triani), além do já citado Léo Mancini, o Tempestt ganhou notoriedade no cenário nacional por ter se tornado banda de acompanhamento de alguns artistas estrangeiros em shows pelo Brasil, em especial do vocalista norte-americano Jeff Scott Soto. Apesar dessa ser uma ótima divulgação, é no material próprio que reside a maior força do quarteto. Quando disse que o grupo foge dos clichês do hard rock, falei sério. Não espere refrões em coro, backing vocals carregados e letras abusando daquelas palavras-chave tão recorrentes; aqui temos uma banda com identidade própria como poucas no cenário atual.

Mesmo sem apelar para melodias fáceis, a primeira faixa, “Faked By Time”, conta com um refrão de fácil assimilação e já dá mostras que aquela banda acostumada a tocar covers de artistas como Journey, Bon Jovi e Europe investiu em uma dose extra de peso, apesar de pautar mais suas canções em melodias do que em riffs, e BJ conduz com facilidade sua voz dentro dos diversos andamentos da canção. Grande música, assim como a faixa-título, que com seu andamento mais acelerado, dosando com parcimônia o uso de bumbos duplos, traz um BJ mais agressivo que o habitual, em ótima performance. 

Em “Bring ‘Em On” também há a participação especial do guitarrista Hugo Mariutti (Henceforth, Andre Matos, ex-Shaman), amigo pessoal de membros do Tempestt, que faz um solo na música. “A Life’s Alibi” dá mostras da versatilidade do grupo, em especial do vocalista, cantando algumas partes de maneira mais melódica, sem tanto drive. A inclusão de orquestrações dá um toque especial à faixa, que é um dos destaques do álbum. Destaque também para o belo solo de guitarra de Léo. “Insanity Desire” traz a participação de Jeff Scott Soto, que encontrou nos brasileiros ótimos parceiros musicais, tanto que BJ e Edu Cominatto foram incorporados a sua banda solo. 

Cantando em um registro mais grave e agressivo que o habitual, Jeff obviamente se destaca, trocando estrofes com BJ e cantando o ótimo refrão em dueto. Um detalhe digno de menção e que salta aos ouvidos, especialmente em faixas mais pesadas como essa, é a atenção que o baixo de Paulo Soza recebeu na mixagem, bastante audível, imprimindo um peso extra ao conjunto da obra. “Too High” alterna linhas vocais mais atípicas nas estrofes e um refrão mais tradicional. O baixo de Paulo Soza é o principal condutor das estrofes, mas quando Léo Mancini ataca nos riffs, o faz com muita malícia. 

A sexta faixa, “Enemy in You”, além de conseguir ser um destaque em meio a um álbum equilibradíssimo, suscitou em alguns a opinião de que o Tempestt estaria incluindo elementos progressivos em sua música. Até entendo essa conclusão, mas discordo dela, pois acredito que o uso de instrumentos menos típicos, como o piano, as mudanças de andamento e as variações nas linhas vocais não necessariamente emprestam esse rótulo à música, mas que contam muitos pontos e destacam a criatividade do Tempestt, ah, isso fazem. Quando se pensa que após seis ótimas faixas o nível do disco vai cair, somos surpreendidos por “Fallen Moon”, que conta com excelentes linhas vocais, em especial o refrão, com uma quebra fantástica no final, chamando o título da faixa. Porra, não precisava de mais nada, já temos um discaço com “D” maiúsculo, mas eis que somos presenteados com “Lose Control”, que mantém o alto nível do álbum, trazendo uma presença mais forte de bumbos duplos e andamentos mais próximos do heavy metal tradicional. 

A penúltima música, “Redoma”, é uma instrumental onde Léo Mancini tem a oportunidade de brilhar com solos bem dosados, mas sem se tornar uma faixa no estilo de tantos guitarristas que constituem trabalho solo, pois baixo, bateria e teclados mantêm-se em evidência durante toda a canção, não sendo meros coadjuvantes. “Healing” encerra o álbum de forma acústica, apenas com BJ e Léo, mostrando que o Tempestt não é uma banda a ser subestimada nem jogada no mesmo balaio dos simples requentadores daquilo que se fez nos anos 70 e 80.

Ao término de Bring ‘Em On, o pensamento que permeia a mente é “porra, quero mais disso!”. O álbum representa um sopro de criatividade em um gênero que se apoia em muitos clichês para cativar seu público, mostrando uma banda usando seu conhecimento técnico e seu background variado na construção de uma identidade própria e apostando totalmente na música, deixando de lado os aspectos visuais que afastam muitas pessoas do hard rock. Vale mencionar também a boa produção e a equilibrada mixagem, realizadas pela banda em conjunto com Adriano Daga, experiente profissional no circuito nacional e ganhador de um prêmio Grammy Latino.
E aí, pessoal? Conhecem o disco? Se não, ficaram curiosos? Tenho muito forte em minha mente a ideia de que os melhores discos são aqueles que envelhecem bem e com o passar dos anos continuam merecendo a atenção do ouvinte. Bring ‘Em On não é fogo de palha, e o tenho como um dos melhores álbuns de rock produzidos no Brasil. Espero que tenham gostado dessa “retro-review”. Agora é aguardar um novo registro de estúdio em 2011!



11 Comentarios

  1. O disco é bom, realmente é, mas um disco de hard rock sem os backings, os cliches e aquela dose de "disco comercial" me deixa um pouco distante do resultado final.

    O AURAS me chamou mais a atenção. Se pudessemos fazer um mix dos dois talvez chegassemos na fórmula perfeita.

  2. Esse disco do Tempestt é realmente muito bom. Resenhei-o na época em que colaborava com a hoje infelizmente revista RockHard/Valhalla.

    Aqui tem um link com o texto:
    http://rateyourmusic.com/release/album/tempestt/bring_em_on/

    Ótima lembrança, Diogo.

    Ah, e eu continuo aguardando a tal 'revolução' que irá acontecer no metal brasileiro, segundo as palavras do Thiago Bianchi …

  3. diogobizotto disse:

    Da hoje infelizmente "extinta" Valhalla você quer dizer, não? Concorrência sempre é bom, acirra a competição e destaca quem merece. Repousar em berço esplêndido é perigoso.

    Se o Thiago quiser revolução, recomendo uma passagem apenas de ida para a a República Democrática do Congo ou para o Sudão. Revolução é o que não vai faltar lá.

    Quanto ao álbum, os caras do Tempestt já admitiram que essa dose extra e peso e a aproximação com o heavy metal foi um movimento proposital a fim de se distanciar da rotulação de "hard rock", o que poderia afastar muitos possíveis apreciadores. Eu acredito que a manobra deu certo, e espero que ela tenha se traduzido em muitos frutos.

  4. Sim, escrevi errado, faltou o "extinta" mesmo. Adorava a Valhalla porque ela saia das pautas comuns do heavy metal. Grande revista, grande trabalho do meu amigo Eliton Tomasi, e que faz falta hoje em dia.

    Abraço.

  5. Ouvi o disco quando saiu, e é bem legal mesmo.

    Já em relacao a Valhalla, eu gostava da revista, mas nao curtia as materias "espirituais" e "transcedentais" que ela tinha as vezes. Compro uma revista de musica para ser sobre musica, se quisesse ler sobre espiritualidade e religiao, compraria uma revista especializada nisso.

  6. fernandobueno disse:

    Só ouvi esse disco uma vez. Lembro-me que gostei, mas não sei porquê não ouvi mais…

  7. diogobizotto disse:

    Lembro de ter adquirido alguns exemplares da Valhalla, dos quais me desfiz tempos depois, mas não me recordo dessas matérias diferentes… poderiam refrescar minha memória? Do que elas tratavam?

  8. Lembro de uma muito legal, que era uma matéria especial chamada "Os Suicidas do Black Metal", em que o autor elaborava em seu texto uma teoria do porque de haver tantos suicidas dentro do estilo. Muito interessante.

    Gostava também de uma coluna mantida pelo Vinícius Mariano, hoje na Roadie Crew, chamada Route 666, só sobre black metal.

  9. As materias relacionadas a musica eram boas, e a coluna do Vinicius Mariano sempre foi boa. Nao gostava de materias Hare Krishna, com "Guru Espirituais" e coisas do genero, que infelizmente foram se tornando frequentes na revista. Mas a parte musical dela sempre foi muito boa.

  10. eduardoluppe disse:

    Achei esse album muito bom! Além do Léo tocar muito é extramente gente fina… sempre quando nos encontramos, trocamos varias idéias, principalmente sobre o Queensryche! rsrsrs

  11. diogobizotto disse:

    Já tive a oportunidade de trocar uma ou outra ideia com Léo e BJ nas duas vezes que estiveram aqui em Porto Alegre abrindo para ou acompanhando Jeff Scott Soto. Figuras amistosas… foi engraçado ver o BJ já mamado dizendo que não está nem aí pro heavy metal e que gosta mesmo é de música pop, hehehe…

    Espero poder ver um show deles mesmo em breve, mas também acho que seria sensacional assisti-los acompanhando o ex-vocalista do Journey Steve Augeri, que virá para o Brasil em fevereiro.

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